Astronomia no ensino fundamental



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Fig. 29: Eixo de rotação inclinado em relação aos pólos. Desenhos feitos por: 
(a) Der; (b) Ied;(c) Crid; (d) Gin; (e) Den. 


 
153 
 
Ao responder ao item que perguntava “Por onde passa o eixo de rotação da 
Terra?” (veja questionário do módulo 2, apêndice B), cuja resposta mais freqüente 
foi  “pelo  centro”  ou  “pelo  meio”  da  Terra,  algumas  professoras  espontaneamente 
escreveram  que  o  eixo  é  “inclinado”,  ou  “ligeiramente  inclinado”;  embora,  a 
maioria, sem se referir em relação a quê ele seria inclinado. Na discussão que se 
seguiu  em  sala  de  aula,  após  essas  respostas  iniciais,  ficou  bem  claro  que  a 
maioria das professoras sabia muito bem que “o eixo da Terra é inclinado”, embora 
esse enunciado fosse invariavelmente repetido, também de viva voz, sem que se 
especificasse em relação a que referência ele seria inclinado. 
 
Dada a importância dessa questão da inclinação do eixo para a explicação 
das  estações  do  ano,  ela  foi  retomada  no  módulo  7,  onde  esse  tema  foi 
especificamente  trabalhado.  No  questionário  correspondente,  como  já  sabíamos 
que  geralmente  era  omitida  a  referência  em  relação  à  qual  o  eixo  era  inclinado, 
incluímos  explicitamente  a  pergunta:  “Em  relação  a  quê  o  eixo  de  rotação  é 
inclinado?” (veja apêndice B). 
 
Das seis professoras que responderam a este item, três responderam que o 
eixo  era  inclinado  “em  relação ao Sol”, duas que era  “em relação à Terra” e uma 
que a inclinação era “em relação ao movimento”
 
Essas respostas, por um lado, mais uma vez indicam uma ausência de uso 
de  noções  geométricas,  pois  não  faz  nenhum  sentido,  do  ponto  de  vista 
geométrico,  afirmar  que  um  eixo  é  inclinado  em  relação  a  uma  esfera,  como  é  o 
caso  da  Terra  ou  do  Sol.  No  entanto,  elas  certamente  fazem  sentido  para  as 
professoras.  Acreditamos  que  deve  haver  algum  tipo  de  pressuposto  implícito 
nessas  suas  respostas  que  fazem  com  que  elas  soem  naturais  e  aceitáveis  aos 
seus ouvidos, e que exista uma coerência delas com a representação de Terra (ou 
Sol) que possuem. 
 
Em nossa interpretação, a explicação para essa aparente falta de sentido só 
pode  ser  uma:  quando  pensam  na  Terra  (ou  no  Sol),  as  professoras  devem 
imaginar  que  a  mesma  possui  uma  determinada  posição  padrão,  uma  certa 
orientação  privilegiada,  evidente,  que  tacitamente  define  uma  certa  direção  no 
espaço, em relação a qual, aí sim, faz sentido imaginar uma inclinação do eixo da 
Terra. 
 
Qual seria esta posição? 


 
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No caso da Terra, nos parece bastante simples responder. Basta examinar 
os  desenhos  feitos  pelas  professoras  ao  longo  do  curso  para  verificarmos  que 
quase  a  totalidade  segue  exatamente  o  mesmo  padrão:  a  Terra  é  sempre 
representada  com  o  equador  na  horizontal  e  os  pólos  alinhados  na  vertical  da 
folha, com o norte sempre em cima e o sul embaixo como nas figuras 26, 28, 29 e 
31. 
 
Obviamente  não  é  a  toa  que isso acontece: com isso as professoras nada 
mais  fazem  do  que  repetir  a  padronização  das  representações  da  Terra 
encontrada  nos  livros  didáticos  e  na  mídia  em  geral.  Só  que  essa  representação 
convencional, como já nos referimos no item sobre os pólos, parece ser assimilada 
pelas  professoras  não  como  uma  convenção,  mas  como  a  representação  real, 
correta e absoluta da Terra. 
 
Nossa interpretação, portanto, é a de que é justamente com relação a essa 
posição padronizada da Terra “em pé”, com o pólo norte em cima e o sul embaixo, 
que as professoras imaginam a inclinação do eixo terrestre. 
 
Seguindo  essa  mesma  linha  de  raciocínio,  outra  conclusão  que  podemos 
extrair é que essa mesma propriedade da Terra, de se encontrar orientada numa 
posição vertical natural, intrínseca, segundo a concepção de algumas professoras, 
parece  ser  aplicável  também  ao  Sol,  pois  só  assim  também  fariam  sentido  as 
respostas de que a inclinação do eixo é relativa a ele
20

 
No  caso  da  Terra,  essa  nossa  interpretação  parece  ser  plenamente 
confirmada  pelos  desenhos  do  eixo  inclinado  feito  por  algumas  professoras  e 
exemplificados na figura 29 e figura 26, (d) e (e). Em todos eles percebe-se que a 
Terra é desenhada exatamente na posição padrão, com o pólo norte  no  topo  e  o  
                                                 
20
 É interessante notar que as professoras que deram a resposta de que o eixo da Terra é inclinado 
em relação ao Sol talvez estejam imaginando a inclinação da Terra da maneira correta, em relação 
à  perpendicular  ao  plano  da  órbita  da  Terra,  só  que  nos  parecem  chegar  a  isso  de  uma  maneira 
indireta  e  equivocada,  pensando  numa  posição  “vertical”  do  Sol  (que,  elas  sabem,  fica  quase  no 
centro  da  órbita  da  Terra) que seria definida pelo plano da órbita: a parte “de cima” do Sol seria a 
que ficaria voltada para cima desse plano e, a “de baixo”, a que ficaria voltada para baixo dele, ou 
seja, o plano da órbita talvez esteja sendo pensado como definindo uma nova vertical absoluta… A 
“absolutização”  da  vertical  que  antes  era  baseada  na  posição  padrão  da  Terra,  agora  passa  a  ser 
baseada no plano de sua órbita… O esquema de pensamento por trás dessa “absolutização” seria 
exatamente  o  mesmo:  uma  síntese  entre  a  crença  de  origem  realista  ingênua  de  que  todos  os 
corpos caem na mesma direção, com a crença de que a posição padrão em que são representadas 
a Terra, ou sua órbita, são reais e absolutas. Antes a imagem padrão era a da Terra com o norte em 
cima,  o  sul  embaixo;  agora  é  a  da  Terra  em  sua  órbita  em  torno  do  Sol,  que,  como  veremos  nos 
itens  sobre  os  movimentos  da  Terra  e  as  estações  do  ano,  também  possui  uma  representação 
padrão fortemente gravada pelas professoras. 


 
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sul embaixo. E todos claramente indicam um eixo de rotação inclinado em relação 
à  direção  definida  pela  posição  “da  Terra  ‘em  pé’”.  Observando  cuidadosamente, 
inclusive, percebemos, na figura 29(c), uma indicação do ângulo de inclinação do 
eixo de rotação em relação ao eixo que passa pelos pólos, através de um pequeno 
arco traçado entre ambos. 
 
Outra  resposta  que  explicitamente  confirma  essa  nossa  interpretação  foi 
dada  ainda  no  questionário  do  módulo  2,  pela  única  professora que respondeu à 
pergunta:  “Por  onde  passa  o  eixo  de  rotação  da  Terra?”,  citando  a  inclinação  do 
eixo  e  especificando  em  relação  a  quê  ele  é  inclinado.  Ela  disse  que  o  mesmo: 



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