Astronomia no ensino fundamental



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Figura 21: Reprodução da figura 1 do artigo de Vosniadou e Brewer (1992): esquemas 
representando os seis tipos de noções de Terra levantados pelos autores. 
 


 
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Os  chamados  “modelos sintéticos”, por sua vez, são interpretados pelos 
autores  como  tentativas,  por  parte  das  crianças,  de  conciliar  suas 
pressuposições  extraídas  de  sua  experiência  cotidiana  com  a  informação  que 
recebem  da  cultura  adulta  de  que  a  Terra  é  uma  esfera.  Ao  formar  estes 
modelos sintéticos, as crianças estariam tentando assimilar a informação de que 
a  Terra  é  uma  esfera,  em  suas  estruturas  cognitivas  preexistentes,  de  uma 
maneira  tal  que  permitisse  a  elas  reter  o  máximo  possível  de  suas 
pressuposições. 
 
Os  autores  apontam  duas  pressuposições  fundamentais  que  imporiam 
restrições aos modelos mentais formados pelas crianças: as crenças de que “o 
chão  é  plano”  e  a  de  que  “coisas  soltas  caem”.  Segundo  a  interpretação  dos 
autores,  a  razão  pela  qual  as  crianças  achariam  difícil  acreditar  que  a  Terra  é 
esférica  seria  porque  seu  pensamento  operaria  sob  a  restrição  destas 
pressuposições, que são inconsistentes com a informação culturalmente aceita 
de que a Terra é uma esfera. Somente a medida em que conseguem revisar, ou 
reinterpretar  suas  pressuposições  é  que  as  crianças  iriam  sendo  capazes  de 
conceber modelos mais próximos do científico. Esta interpretação tem o mérito 
de  poder  dar  uma  certa  explicação  à  sucessão  de  modelos  sintéticos  por  eles 
identificados: o da Terra dual, o da esfera oca e o da esfera achatada, através 
de  uma  revisão  gradual  de  pressuposições,  onde  cada  uma  delas  pode  ser 
reinterpretada independentemente da outra. 
 
Segundo o modelo da Terra dual, existe uma Terra redonda que fica no 
alto, no céu e uma Terra plana na qual as pessoas vivem. Este modelo seria o 
mais  simples  dos  sintéticos,  pois  não  requer  a  revisão  de  nenhuma  das 
pressuposições  da  criança,  correspondendo  a  uma  simples  justaposição  dos 
modelos da Terra plana com o de uma Terra esférica. 
 
O  modelo  da  esfera  oca  é  caracterizado  pela  crença  de  que  a  Terra  é 
esférica mas que as pessoas vivem numa superfície plana dentro desta esfera, 
não  em  sua  superfície.  Este  modelo  já  implicaria  na  revisão,  por  parte  da 
criança, da pressuposição de que a Terra necessita ser sustentada por alguma 
coisa, como chão ou água. O pressuposto de que “coisas soltas caem” já não é 
mais aplicado à Terra como um todo, permitindo que  ela seja concebida como 
suspensa  no  espaço,  porém  ainda  o  é  para  as  pessoas  e  coisas  em  sua 


 
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superfície.  Já  a  pressuposição  de  que  o  chão  é  plano  é  inteiramente 
preservada. 
 
As crianças que apresentam o modelo da esfera achatada, por sua vez, 
acreditam  que  a  Terra  tem  a  forma  de  uma  panqueca  espessa,  redonda  nos 
lados,  mas  plana  no  topo  e  embaixo  e  que  as  pessoas  vivem  nestas  duas 
regiões  planas.  Este  modelo  já  implica  na  revisão  da  pressuposição  de  que 
“coisas  soltas  caem”  tanto  para  a  Terra  como  um  todo  como  para  as  coisas  e 
pessoas em sua superfície, as quais, mesmo estando na parte “debaixo”, já não 
caem mais. 
 
Embora não tenha sido inferido por Vosniadou e Brewer a partir de seus 
dados, continuando nesta linha de raciocínio, seria natural imaginar a ocorrência 
de um modelo em que a forma da Terra é a de uma esfera perfeita, porém no 
qual  as  pessoas  vivessem  só  no  seu  topo,  na  parte  “de  cima” da Terra. Neste 
modelo  já  estaria  levantada  a  pressuposição  de  que  “o  chão  é  plano”,  porém 
ainda não teria sido revista a pressuposição de que “coisas soltas caem” no que 
tange  às  pessoas  e  coisas.  Este  modelo,  contudo,  foi  apontado  por  Baxter 
(1989), correspondendo à sua noção 2. 
 
Vosniadou  e  Brewer  relatam  também  que  apenas  uma  minoria  das 
crianças de sua amostra utilizava o modelo científico, sendo mais comum o uso 
dos modelos sintéticos. O uso destes modelos alternativos, contudo, seria feito 
de maneira consistente e não contraditória, segundo os autores. 
 
Apesar  da  diferença  de  abordagem,  mais  uma  vez,  é  fácil  perceber  a 
grande  convergência  dos  resultados  obtidos  por  Vosniadou  e  Brewer  (1992) 
com os dos trabalhos anteriores: o mesmo “espectro” de “noções” ou “modelos 
mentais” repete-se, com ligeiras variações. 

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