Astronomia no ensino fundamental



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INTRODUÇÃO 
 
 
 
Há vários anos, desde 1986, o autor deste trabalho tem estado envolvido 
com  projetos  de  extensão  universitária  voltados  ao  ensino  de  conteúdos  de 
Astronomia  para  estudantes  e  professores  do  ensino  fundamental
1
.  Desde  o 
início  desta  atuação,  vimo-nos  envolvidos  com  uma  série  de  preocupações  e 
questionamentos  acerca  dos  objetivos,  resultados,  limites,  qualidades 
pedagógicas,  efeito  produzido  nas  pessoas  que  participavam  de  nossos 
projetos  etc.;  o  que  apontava,  inevitavelmente,  para  a  necessidade  de  um 
aprofundamento no estudo e investigação da realidade do ensino fundamental e 
num  trabalho  de  elaboração  de  uma  proposta  pedagógica  adaptada  a  esta 
realidade,  numa  integração  efetiva  entre  a  extensão  e  a  pesquisa.  A 
possibilidade  de  concretamente  levar  a  cabo  este  projeto,  do  qual  o  presente 
trabalho é uma conseqüência, surgiu em 1993, quando tivemos a oportunidade 
de ingressar no curso de pós-graduação da FEUSP. 
 
Em  nossa  ação  extensionista  tivemos  contato  com  os  três  níveis  de 
ensino, contudo optamos por colocar o foco de nossa atenção especificamente 
no  ensino  fundamental,  pelo  fato  de  ser  o  nível  onde  a  demanda  por  uma 
melhoria  no  ensino  de  temas  de  Astronomia  parece  ser  maior.  Ao  menos 
quantitativamente  não  resta  a  menor  dúvida  de  que  a  demanda  do  ensino 
fundamental é maior: o número de alunos e professores envolvidos neste nível 
supera em muito o dos níveis médio e superior. Conteúdos diretamente ligados 
à Astronomia fazem parte dos currículos oficiais e  são efetivamente ensinados 
no ensino fundamental, com graves problemas, “do jeito que dá”, pelo professor, 
que, em geral, não possui formação e domínio suficientes sobre esses temas e 
acaba  usando  o  livro  didático  deste  nível  de  ensino  como  a  principal  fonte  de 
seu próprio conhecimento. 
 
Por  outro  lado,  é  notório  o  enorme  interesse  e  curiosidade  das  crianças 
com relação ao céu e o  universo,  o  que  se,  por  um  lado,  deixa  o  professor  
                                            
1
  Apresentamos  um  relato  a  esse  respeito,  pouco  antes  de  nosso  ingresso  no  doutorado,  em 
painel apresentado no X Simpósio Nacional de Ensino de Física (BISCH, 1993). 


 

ainda  mais  embaraçado,  pela  sua  falta  de  capacidade  de  responder  às 
perguntas e de corresponder às expectativas das crianças, por outro ressalta a 
oportunidade  excelente,  geralmente  desperdiçada,  de  se  promover  uma 
iniciação à Ciência que seja altamente motivadora, que mostre como a natureza 
é  bela,  interessante  e  desconhecida,  usando  o  fio  condutor  da  Astronomia, 
tarefa para a qual ela se mostra especialmente talhada. 
 
O presente trabalho visa, portanto, investigar as características de que se 
reveste  o  ensino  de  Astronomia  no  ensino  fundamental;  mais  especificamente 
buscaremos  levantar  a  natureza  e  conteúdo  do  conhecimento  astronômico 
apresentado  por  professores  e  estudantes  deste  nível,  como  eles  concebem  o 
seu  entorno  cósmico,  quais as características desse seu conhecimento, qual o 
cenário  cognitivo  que  se  esboça  no  ensino  fundamental  com  relação  ao 
universo.  Deste  modo,  como  decorrência  desta  investigação,  além  de  atingir 
uma  compreensão  aprofundada  acerca  das  representações  dos  estudantes  e 
professores sobre o universo, esperamos também obter subsídios que auxiliem 
na  definição  de  rumos  a  serem  seguidos  em  ações  que  visem  uma 
transformação e melhoria deste ensino. 
 
Perseguindo esse objetivo, nossa investigação percorre as trilhas de dois 
universos  distintos:  o  das  crianças  e  o  dos  professores,  que,  conjuntamente, 
auxiliam  a  compor  o  quadro  do  universo  maior  do  ensino  fundamental. 
Reconhecemos ausências importantes neste trabalho, trilhas que, por limitações 
espaço-temporais,  não  foi  possível  percorrer  e  que,  sem  dúvida,  contribuiriam 
em  muito  para  uma  composição  mais  completa  do  quadro  do  universo  do 
ensino  fundamental.  Citamos  duas:  a  do  universo  do  livro  didático  e  a  do 
universo  da  sala  de  aula,  no  qual  todos  os  demais  interagem  e  se  encontram, 
onde  as  trilhas  se  cruzam.  Obviamente,  estamos  usando  aqui  a  palavra 
“universo” tanto no sentido metafórico como direto, ou seja, tanto referindo-nos 
ao contexto geral em que algo existe como especificamente à representação do 
universo físico, pois nosso recorte sempre se refere ao ensino de Astronomia.  
 
Apesar  das  importantes  ausências,  acima  referidas,  do  universo do livro 
didático e do universo da sala de aula, cuja investigação seria um  complemento  


 

natural  do  presente  trabalho,  o  quadro  que  obtivemos  através  da  composição 
dos  resultados  obtidos  no  percurso  dos  universos  dos  dois  principais 
personagens  envolvidos  no  ensino  fundamental 

  os  estudantes  e  os 
professores 

, permitiu chegar a algumas conclusões importantes, evidenciando 
algumas  grandes  convergências  quanto  à  natureza  do  conhecimento 
apresentado  por  professores  e  estudantes,  que  aparenta  ser  marcado  por 
noções baseadas na interpretação ingênua do que informam os sentidos acerca 
da  natureza  que  nos  cerca,  por  noções  conceituais  feitas  de  chavões  que  são 
interpretados  de  acordo  com  o  senso  comum  e  por  uma  representação  do 
espaço  que  é  mais  qualitativa  que  quantitativa.  Estes  resultados  apontam, 
assim,  para  a  possibilidade  de  um  fechamento  provisório  de  nosso  percurso 
pelos  dois  universos,  representado  pela  apresentação  desta  nossa  tese  de 
doutorado. 
 
A  forma  como  travamos  contato  com  esse  universos,  ou  seja,  como 
obtivemos os dados acerca de cada um deles, foi a seguinte: 
 
-  O  universo  das  crianças  foi  investigado  através  de  uma  série  de  18 
entrevistas  semi-estruturadas  com  crianças  de  6  a  14  anos,  durante  as  quais 
elas deveriam construir modelos da Terra, do Sol, da Lua e de uma estrela com 
massa de modelar, realizar desenhos livres destes mesmos objetos e do céu e, 
principalmente,  construir  livremente  um  modelo  tridimensional  de  universo.  A 
construção do modelo tridimensional era feita usando como material o isopor e 
tendo  como  pretexto  uma  viagem  imaginária  com  um  foguete  de  brinquedo  a 
astros que ela própria escolhia, representava e posicionava no espaço, através 
de  fios suspensos do teto da sala de entrevistas. Além das entrevistas, para o 
mapeamento  do  universo  das  crianças,  valemo-nos  também  de  resultados 
acerca das concepções infantis sobre aspectos do universo, como a concepção 
de Terra e do ciclo dia/noite, apresentados em artigos de revistas internacionais 
e  também  na  obra  de  Jean  Piaget,  que  aborda  os temas da representação do 
mundo e do espaço na criança. 
 
-  O  universo  das  professoras,  por  sua  vez,  foi  investigando  por  meio  de 
dados colhidos ao longo de um projeto de extensão de formação em serviço de 
professores do  ensino  fundamental,  promovidos  pelo  IFUSP  e  coordenados  


 

pela  Profa.  Dra.  Yassuko  Hosoume,  nos  quais  o  autor  esteve  diretamente 
envolvido,  que  foi  denominado  “Astronomia  no  1
o
  Grau”  e  realizado  durante  o 
segundo  semestre  de  1995  e  o  primeiro  de  1996.  Durante  o  curso,  que  foi 
dividido em oito módulos, os dados foram coletados de diversas formas: através 
de  questionários  (um  questionário  inicial  e  um  questionário  em  cada  módulo, 
que, inclusive, servia de roteiro para o desenvolvimento das próprias atividades 
do  módulo)  que  visavam  captar  as  concepções  iniciais  das  professoras;  de 
desenhos  espontâneos  do  céu  e  do  universo,  feitos  no  início  do  curso;  dos 
diários das professoras, onde eram anotados os resultados de suas atividades 
de  observação  do  céu  e  do  registro  de  depoimentos  e  ações  dos  professores 
durante as próprias atividades realizadas no decorrer do curso. 
 
Esclarecemos  que  nossa  investigação  é  centrada  nas  concepções 
prévias apresentadas por estudantes e professores. Portanto, tendo em vista o 
presente  trabalho,  utilizamos  apenas  os  dados  que  colhemos  durante  o  curso 
relativos às concepções iniciais dos professores. 
 
Alguns  resultados  finais  referentes  a  transformações  observadas  nos 
professores  em  virtude  do  curso  serão  citados  apenas  como  subsídio  à 
discussão acerca de indicação de possíveis rumos para o ensino de Astronomia 
no ensino fundamental, à luz das conclusões que extraímos em nossa pesquisa, 
o que é feito no último capítulo, na seção III.2.  
 
No primeiro capítulo discutimos e apresentamos os resultados obtidos em 
nossa  investigação  com  as  crianças.  No  segundo  fazemos  o  mesmo  com 
relação  aos  professores  e,  no  terceiro  e  último,  buscamos  compor  ambos  os 
resultados  e  esboçar  um  quadro  mais  amplo  acerca  da  natureza  do  ambiente 
conceitual  onde  se  desenrola  o  ensino  de  Astronomia  no  ensino  fundamental, 
abarcando  as  representações  dos  estudantes  e  os  professores.  Na  segunda 
seção  desse  último  capítulo  apresentamos  também  as  linhas  gerais  de  uma 
proposta  para  o  ensino  de  Astronomia  no  ensino  fundamental  embasada  nos 
resultados que obtivemos. 
 

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