Astronomia no ensino fundamental


desenho  testemunha  uma  mistura  de  pontos  de  vista  inconciliáveis



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desenho  testemunha  uma  mistura  de  pontos  de  vista  inconciliáveis
77
:  numa 
das  figuras  reproduzidas  por  Luquet  vê-se  simultaneamente  um  cavalo  de  perfil, 
um  automóvel  visto  de  frente,  mas  deitado  num  plano  horizontal  e  suas  rodas 
achatadas  nos  lados;  além  do  mais,  as  diversas  faces  do  conjunto  são 
simplesmente alongadas para serem vistas ao mesmo tempo.” 
78
  
 
Só  no  estágio  posterior,  do  “realismo  visual”,  as  relações  euclidianas  e 
projetivas (de perspectiva) passam a ser dominantes com relação às topológicas, 
passando  a  estruturar  o  espaço  gráfico.  Aparece  então  “uma  forma  de  desenho 
preocupado  simultaneamente  com  perspectivas,  proporções  e  medidas  ou 
distâncias” 
79
,  na  qual  o  objeto  é  representado  como  ele  é  visto.  Essas  novas 
relações  dominantes  caracterizam-se  por  serem  relações  de  conjunto,  em 
oposição às relações topológicas, que permanecem ligadas ao objeto, considerado 
como um todo, sem relação com os demais. 
 
Vemos assim que um desenho onde aparecem, por exemplo, perspectivas 
diversas misturadas pode ser ter sido feito desta maneira não por uma questão de 
inabilidade  técnica  ou  falta  de  atenção,  mas  sim  por  fazer  parte  de  um  esquema 
representativo,  “em  parte  intencional  e  seguramente  sistemático  e  durável” 
80

associado ao estágio do “realismo intelectual”. 
 
Parece-nos  ser  este  o  caso  de  várias  professoras  de  nossa  amostra. 
Sobretudo  quando  consideramos  o  conjunto  das  respostas  dadas  por  elas  às 
questões propostas durante o curso, onde, como já citamos, em vários momentos 
nota-se  a  falta  de  uso  de  noções  geométricas,  de  respeito  a  distâncias  e 
proporções,  uma  dificuldade  de  coordenação  de  pontos  de  vista,  a  ausência  de 
uma visão de conjunto etc. 
 
Segundo  os  resultados  obtidos  por  Piaget  e  Inhelder,  a  passagem  do 
“realismo  intelectual”  ao  “realismo  visual”  ocorreria,  em  média,  por  volta  dos  8-9 
                                                 
77
 Grifo meu. 
78
 Op. cit., p.66-67. 
79
 Op. cit., p.68. 
80
 Op. cit., p.66. 


 
240 
anos
81
,  porém  os  autores  não  deixam  de  referir-se  à  “duração  às  vezes 
surpreendente do realismo intelectual” 
82
, que, como nossos dados indicam, pode 
prolongar-se até a idade adulta. 
 
Um ponto importantíssimo cuja compreensão fica mais nítida a partir dessa 
discussão,  que  nos  leva  a  concluir  que  o  espaço  gráfico  concebido  pelas 
professoras  ainda  é  marcado  pelo  realismo  intelectual,  pela  dominância  das 
relações topológicas sobre as geométricas, é a questão da falta de profundidade, 
por  nós  observada,  em  seus  desenhos  relativos  à  órbita  da  Terra.  Ela  também 
pode  ser  interpretada  como  resultante  do  trabalho  num  espaço  gráfico  onde  a 
visão  em  perspectiva  e  de  conjunto  ainda  desempenham  um  papel  secundário, 
sendo os objetos, como a órbita ou o eixo terrestre (ou o navio e as casas, na fig. 
44),  desenhados  na  perspectiva  (“de  cima”,  “de  frente”  ou  “de  perfil”)  que  pareça 
ser  a  mais  fácil  e  simples  de  representá-los,  fazendo-se  isso  de  maneira 
fragmentada,  independente  dos  demais  objetos,  sem  uma  coordenação  de 
conjunto. 
 
É  interessante  notar  que,  de  fato,  a  representação  em  perspectiva  não  é 
algo trivial. Em seu livro sobre o espaço e o tempo, Szamosi (1988) observa que a 
pintura  realista,  em  perspectiva  foi  um  evento  cultural  que  desenvolveu-se 
unicamente  na  civilização  ocidental
83
,  os  primeiros  exemplos  tendo  surgido  na 
antiguidade,  na  época  helenística  romana,  tendo  depois  desaparecido 
completamente  no  período  medieval  e  ressurgido  apenas  nos  primórdios  do 
renascimento, no século XIV, entre pintores italianos e flamengos, desenvolvendo-
se  plenamente,  a  partir  daí,  na  arte  renascentista
84
.  O  mesmo  autor  também 
comenta  que  há  “observações  que  parecem  mostrar  que  as  pessoas  não 
familiarizadas  com  a  pintura  e  a  fotografia  ocidentais  não  podem  compreender  a 
informação perspectiva” 
85
. Vemos assim a forte marca cultural da representação  
                                                 
81
 Op. cit., p.68. 
82
 Op. cit., p.68. 
83
  Mesmo  nas  civilizações  orientais  mais  desenvolvidas,  esse  tipo  de  representação  jamais 
apareceu. 
84
  SZAMOSI,  1988,  p.117-118.  O  autor  também  faz  a  interessante  observação,  neste  mesmo 
capítulo,  que  a  pintura  em  perspectiva,  inevitavelmente  acompanhada  de  uma  geometrização  do 
espaço  simbólico  gráfico,  nas  artes,  precedeu  e  pavimentou  desenvolvimentos  semelhantes  na 
ciência, como o surgimento da geometria projetiva, que ocorreu apenas no século XVII (SZAMOSI, 
1988, 128). 
85
 SZAMOSI, 1988, p.125. 


 
241 
em  perspectiva  e  do  realismo  visual.  O  resultado  obtido  por  Piaget  e  Inhelder, 
anteriormente  citado,  da  passagem  de  um  realismo  intelectual  para  um  realismo 
visual,  com  a  concomitante  geometrização  do  espaço  representativo  gráfico, 
evidentemente  só  é  válido  no  contexto  da  cultura  ocidental  contemporânea.  Em 
outras  culturas  o  realismo  visual  sequer  existe  nas  representações  gráficas  e 
pictóricas. Essa consideração põe em evidência o fato de que a construção de um 
espaço  representativo  geométrico,  por  parte  dos  estudantes  e  professores,  é 
essencialmente uma questão cultural e educacional, que, no caso das professoras 
de  nossa  amostra,  parece  não  ter  sido  bem  encaminhada,  elas  ainda  precisam 
aprender a ver o espaço gráfico de uma maneira geométrica. 
 
Por fim, é importante ressaltar que a falta de uma interpretação em termos 
de perspectiva dos esquemas gráficos que aparecem nos livros didáticos, relativos 
à  órbita  da  Terra,  às  estações  do  ano  e  outros,  torna  completamente  inviável  a 
compreensão  dos  mesmos;  conduzindo  a  uma  interpretação  completamente 
equivocada, como a de que a órbita terrestre é uma elipse com um “achatamento” 
bem  visível,  pois  não se percebe que o que está (ou devia estar) representado é 
uma circunferência, que, numa projeção oblíqua, parece uma elipse. 

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