Astronomia no ensino fundamental


II.3. O ENSINO COMO TRANSMISSÃO: O USO DE CHAVÕES



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         II.3. O ENSINO COMO TRANSMISSÃO: O USO DE CHAVÕES
 
 
 
Ao longo de nossa exposição de resultados acerca das concepções iniciais 
das professoras, feita nas seções anteriores, tivemos a oportunidade de ressaltar, 
inúmeras vezes, o freqüente uso pelas professoras de enunciados e imagens que 
se caracterizam pela padronização, seja para responder diretamente, com eles, às 
questões  propostas  nos  questionários,  seja  utilizando-os  como  um  elemento  em 
que  fundamenta-se  uma  dada  concepção
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.  Com  efeito,  a  utilização  constante 
desses  enunciados  e  imagens  padronizados  parece  ser  um  dos  traços  mais 
marcantes  do  conhecimento  das  professoras  relativo  ao  universo,  sendo  sintoma 
de  uma  certa  concepção  do  que  é  o  conhecimento  e  o  ensino.  Sendo  assim 
julgamos  apropriado  uma  discussão  mais  extensa  de  seu  significado 
epistemológico e pedagógico, o que faremos nesta seção. 
 
Primeiramente, gostaríamos de caracterizá-los através de uma terminologia 
que  nos  parece  apropriada:  a  principal  característica  desses  enunciados  e 
imagens  é,  como  temos  insistido,  a  sua  padronização,  sua  repetição  uniforme 
segundo  o  mesmo  molde,  por  várias  pessoas  e/ou  livros,  por  isso  os 
denominaremos  “chavões”:  “chavões  verbais”,  no  caso  dos  enunciados,  e 
“chavões  gráficos”,  no  caso  das  imagens.  O  termo  “chavão”  é  definido,  no 
dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, como sendo um modelo, lugar-
comum,  sentença  ou  provérbio  batido  pelo  uso;  o  que  calha  perfeitamente  ao 
significado  que  estamos  querendo  lhe  dar.  O  “chavão”,  assim,  caracteriza-se  por 
ser  um  enunciado  (ou  imagem)  pronto,  acabado  que  deve  ser  memorizado  e 
repetido por quem o “aprendeu” (isto é, memorizou) sempre da mesma forma. 
 
Ao  longo  de  nosso  trabalho  deparamo-nos  com  inúmeros  exemplos,  como 
os enunciados: 
 
“A Terra é achatada nos pólos.”; 
 
“O eixo da Terra é inclinado.”; 
 
“Os movimentos da Terra são rotação e translação”; 
 
“O Sol é uma estrela de quinta grandeza.”; 
                                                 
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  Veja,  p.  ex.,  os  enunciados  e  imagens  indicados  no  quadro  apresentado  no  item  “Síntese  das 
concepções acerca da Terra”. 


 
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“A Lua é 49 vezes menor que a Terra.”; 
 
“Os astros dividem-se em luminosos e iluminados.”; 
 
“O Sol nasce a leste e se põe a oeste.” 
 
etc…; 
e as imagens: 
 
- da Terra “em pé”, em que ela é representada através de um círculo com os 
oceanos e continentes (geralmente América, Europa e África) esboçados; os pólos 
alinhados  na  vertical,  o  norte  em  cima,  o  sul  embaixo;  o  equador  na  horizontal  e 
alguns meridianos e paralelos indicados, que vimos  denominando “representação 
padrão da Terra”; 
 
-  do  planisfério  terrestre,  numa  projeção  em  que  os  pólos,  em  vez  de 
pontos, são representados por segmentos de reta; 
 
- da Terra em sua órbita em torno do Sol, com indicação da sua posição nas 
quatro estações do ano. 
 
Uma  característica  marcante  destes  chavões  é  que  eles  representam  um 
tipo  de  “conhecimento”  absolutamente  fragmentado,  estanque,  fechado  em  si 
mesmo.  Vimos  um  exemplo  claro  disso,  no  caso  das  respostas  dadas  pelas 
professoras  às  questões  do  módulo  6  que  perguntavam  quais  eram  os 
movimentos  da  Terra  e  qual  a  diferença  entre  rotação  e  translação:  elas 
respondiam que os movimentos da Terra eram “rotação e translação” e, por outro 
lado, definiam a rotação e a translação como sendo “os movimentos da Terra” (em 
torno  de  si  mesma  e  em  torno  do  Sol),  numa  “circularidade”  que  mostra  bem  o 
fechamento  deste  tipo  de  conhecimento,  que  não  vai  além  do  que  é  dito  no 
enunciado.  A  fundamentação  desses  chavões  nunca  é  explicitada,  seu  conteúdo 
não é questionado, submetido à crítica mediante o cruzamento e comparação com 
outros conhecimentos ou dados da realidade. 
 
Os  enunciados  e  imagens  que  constituem  os  chavões  têm  sua  origem  no 
conhecimento  científico.  Só  que,  em  ciência,  no  contexto  epistemológico 
racionalista em que se trabalha na ciência, todo o conceito, e, obviamente, todo o 
enunciado  envolvendo  conceitos  e  as  representações  gráficas  utilizadas  como 
meio  de  expressá-los,  acham-se  sempre  inseridos  e  vinculados  a  um  “corpo  de 

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