Astronomia no ensino fundamental



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do eu. O realismo, ao contrário, consiste em ignorar a existência do eu e a partir 
daí  assumir  a  própria  perspectiva  como  imediatamente  objetiva  e  como 
absoluta. O realismo é então a ilusão antropocêntrica, é o finalismo, são todas 
as  ilusões  que  abundam  na  história  das  ciências.  Na  medida  em  que  o 
pensamento  não  tomou  consciência  do  eu,  ele  se  expõe,  efetivamente,  às 
eternas  confusões  entre  o  objetivo  e  o  subjetivo,  entre  o  verdadeiro  e  o 
imediato;  ele  enquadra  todo  o  conteúdo  da  consciência  sobre  um  único  plano, 
sobre  o  qual  as  relações  reais  e  as  emanações  inconscientes  do  eu  estão 
irremediavelmente confundidas” 
8

 
Encontramos  também  uma  boa  conceituação  do  que  é  o  realismo 
ingênuo,  no  sentido  expresso  acima  por  Piaget  e  no  qual  utilizaremos  este 
termo neste trabalho, na própria Filosofia, na teoria do conhecimento: 
 
“A 
primeira 
[modalidade 
de 
realismo], 
tanto 
histórica 
como 
psicologicamente,  é  o  realismo  ingênuo.  Este  realismo  não  se  acha  ainda 
influenciado por nenhuma reflexão crítica acerca do conhecimento. O  problema  
                                                 
8
 PIAGET, 1926, p.29-30. 


 
14 
do  sujeito  e  do  objeto  ainda  não  existe  para  ele.  Não  distingue  em  absoluto 
entre  a  percepção,  que  é  um  conteúdo  da  consciência,  e  o  objeto  apercebido. 
Não vê que as coisas não nos são dadas em si mesmas, imediatamente, na sua 
corporeidade,  mas  somente  como  conteúdos  da  percepção.  E  como  identifica 
os  conteúdos  da  percepção  com  os  objetos,  atribui  a  estes  todas  as 
propriedades  incluídas  naqueles.  As  coisas  são,  segundo  ele,  exatamente  tais 
como as percebemos.” 
9

 
No caso da Astronomia, o que irá ocorrer é que a criança jovem, realista 
ingênua, tenderá a representar para si o universo exatamente como o percebe: 
a Terra é plana, o céu é uma camada ou abóbada azul que está sempre no alto, 
acima de nossas cabeças, a direção vertical é absoluta, única, válida para todo 
o  universo,  o  Sol  e  a  Lua  são  discos  luminosos,  as  estrelas  são  pequenas  e 
com pontas, a Lua nos segue quando saímos a passear a noite etc. 
 
A  esta  representação  realista  ingênua  do  cosmos  se  contrapõe  uma 
representação  conceitual  e  racional  do  universo,  fornecida  pela  ciência  e 
culturalmente  hegemônica  em  nossa  sociedade. Mesmo  a um nível elementar, 
como  deve  ser  trabalhada  no  ensino  fundamental,  esta  representação 
conceitual  implica  conceber  a  Terra  como  um  planeta  de  forma  esférica, 
circundado  pelo  espaço,  em  cuja  superfície  vivemos,  onde  a  vertical  é  uma 
direção relativa que varia conforme a posição em que nos encontramos em sua 
superfície,  que  descreve  movimentos  regidos  por  leis racionais etc. O conceito 
de planeta por sua vez, também deve ser compreendido dentro do contexto de 
uma estrutura maior que é o sistema solar, passando a Terra a ser considerada 
como apenas um planeta entre outros deste sistema. O Sol, por sua vez, passa 
a  ser  encarado  como  uma  estrela 

  um  absurdo  do  ponto  de  vista  realista 
ingênuo! 

,  mas  que  faz  pleno  sentido  no  âmbito  científico.  No  contexto  do 
racionalismo  adotado  na  ciência,  o  conhecimento  é  sempre  sistematizado,  os 
conceitos  nunca  vêm  isolados,  mas  acham-se  sempre  inter-relacionados:  “os 
conceitos passam a fazer parte de uma rede de relações racionais” 
10
“a própria 
noção  de  conceito  científico  implica  uma  certa  posição  em  relação  a  outros 
conceitos, isto é, um lugar dentro de um sistema de conceitos.” 
11

                                                 
9
 HESSEN, 1987, p.93. 
10
 MORTIMER, 1997, p.9. 
11
 VYGOSTSKY, 1996, p.80. 


 
15 
 
Os “novos” conceitos de Terra e de universo forjados assim dentro de um 
contexto  racional,  científico,  são  veiculados  à  população  em  geral  e 
incorporados  à  cultura  escolar;  porém,  freqüentemente,  de  uma  maneira 
desvinculada  da  rede  original  de  relações  racionais  em  que  ele  achava-se 
inserido,  resultando  assim  num  conhecimento  fragmentado,  como  será 
extensamente discutido no próximo capítulo
12

 
As  crianças  acham-se,  portanto,  submetidas  a  uma  dupla  influência  na 
formação  de  sua  representação  do  universo:  num  pólo  temos  o  realismo 
ingênuo,  vindo  de  sua  percepção  sensorial  do  mundo,  e  noutro  as 
representações  conceituais/racionais  veiculadas  pela  cultura  escolar  e  através 
da  mídia.  Essa  dupla  influência,  e  a  interação  que  ocorrerá  entre  elas,  terá, 
como  veremos,  um  papel  determinante  na  formação  e  evolução  das 
concepções infantis. 
 
                                                 
12
 Especialmente na seção II.3. 

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