Astronomia no ensino fundamental


I.1.2  CONSIDERAÇÕES  EPISTEMOLÓGICAS:  REALISMO  INGÊNUO



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I.1.2  CONSIDERAÇÕES  EPISTEMOLÓGICAS:  REALISMO  INGÊNUO, 
OBJETIVIDADE E RACIONALISMO. 
 
 
Uma  característica  essencial  da  Astronomia,  que  vai  marcar 
indelevelmente  o  seu  conhecimento  e  ensino,  é  o  fato  de  que o seu objeto de 
estudo 

  o  universo 

  apresenta  uma  face  que  é  familiar  e  acessível  a  todos, 
com a qual toda a criança trava contato desde os seus primeiro anos: o céu e os 
astros visíveis a olho nu: o Sol, a Lua e as estrelas
6
. De fato, o céu é a nossa 
grande janela para o universo. 
 
Outro  objeto  astronômico  com  o  qual,  obviamente,  temos  um  contato 
extremamente  próximo  é  o  próprio  planeta  em  que  vivemos,  a  Terra.  Destas 
duas realidades 

 o céu e a Terra 

 toda a criança forma uma imagem baseada 
em  sua  própria  experiência  cotidiana,  no  contato  espontâneo  que  trava  com 
elas, praticamente desde a primeira infância. 
 
Estas  primeiras  representações  infantis  do  universo  serão  duplamente 
marcadas pelo egocentrismo: primeiro por ser esta a disposição mental natural 
das  crianças  mais  jovens,  como  já  foi  extensamente  demonstrado  pela 
psicologia  infantil;  segundo  porque  a  nossa  visão  (não  só  a  da  criança,  mas  a 
de nós todos) do universo, quando contemplamos o céu e observamos a Terra, 
acha-se  inescapavelmente  marcada  pelo  nosso  ponto  de  vista  local,  do  chão, 
do ponto particular em que estamos sobre a superfície desta esfera imensa, em 
relação ao nosso próprio tamanho, que é a Terra, que gira sobre si mesma e em 
torno  do  Sol.  Um  ponto  cujo  horizonte  é  limitado  e  sobre  o  qual  existe  uma 
atmosfera.  Este  último  “egocentrismo”,  em  verdade,  poderia  ser  melhor 
caracterizado  como  um  “topocentrismo”,  isto  é,  uma  apego  ao  ponto  de  vista 
local, ligado ao ponto particular da superfície da Terra em que estamos. 
 
O  egocentrismo  psicológico  infantil  tem  origem  numa  indiferenciação 
original entre o eu e o mundo externo, na falta de consciência do próprio eu por 
parte  da  criança  jovem,  consistindo  num  egocentrismo  radical  e  inconsciente, 
num “narcisismo sem Narciso”, como diz Piaget
7

                                                 
6
  Não  citamos  aqui  os  planetas  porque  os  mesmos  são  invariavelmente  confundidos  com 
estrelas pelas pessoas leigas. 
7
 PIAGET, 1991, p.22. 


 
13 
 
Uma  conseqüência  epistemológica  deste  egocentrismo  inato  é  que  a 
criança  jovem  ainda  não  consegue  construir  uma  representação  objetiva  da 
realidade,  isenta  das  particularidades  e  especificidades  de  seu  ponto  de  vista 
pessoal;  ao  contrário,  sua  tendência  é  formar  representações  realistas  do 
mundo,  de  um  realismo  ingênuo  e  infantil  que,  na  sua  relação  com  o  mundo 
físico,  assume  sempre  como  real,  verdadeiro,  absoluto  e  geral  o  seu  próprio 
ponto  de  vista,  a  sua  percepção  particular  da  realidade.  Piaget  faz  uma  boa 
distinção entre este realismo ingênuo e a objetividade no seguinte parágrafo: 
 
“Há, porém, duas maneiras de ser realista. Ou melhor, é preciso distinguir 
a objetividade e o realismo. A objetividade consiste em se conhecer muito bem 
as mil intrusões do eu no pensamento de todos os dias e as mil ilusões que daí 
derivam 

 ilusões dos sentidos, da linguagem, dos pontos de vista, dos valores 
etc. 

  que,  para  que  se  permita  julgar,  inicia-se  por  desembaraçar os entraves 



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