Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)


parte deste ambiente. O Museu de Imagens do Inconsciente não admite



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parte deste ambiente. O Museu de Imagens do Inconsciente não admite 
observadores passivos. Não aceita olhares vazios, propondo-se a instigar, 
provocar, excitar, acirrar, retirar, revolver conteúdos insuspeitados de nos-
sas almas e mentes. E como um sistema vivo, ele produz sons. E o som que 
mais se ouve neste museu é o som da liberdade.


NISE DA SILVEIRA
 
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“Liberdade. Gosto do som dessa palavra” disse certa vez a Dra. Nise da 
Silveira, médica psiquiatra que criou o Museu de Imagens do Inconsciente 
em 1952. Seis anos antes ela havia se recusado a ser cúmplice nos “trata-
mentos” psiquiátricos da época: eletrochoque, coma insulínico, e, no lugar 
dessas práticas típicas daquela era fascista, escolheu lápis e pincéis, música, 
teatro e poesia, ao fundar a Seção de Terapêutica Ocupacional no Centro 
Psiquiátrico Nacional. O asilo, igual a qualquer outro no mundo, reunia en-
tão mais de 1 mil e 500 internos, reclusos, inativos, a maioria de pessoas 
das classes mais pobres, cujo diagnóstico não os permitiam mais, segundo 
a ordem psiquiátrica, conviver com a família e a sociedade.
O médico psiquiatra que estava ensinando Nise a aplicar eletrochoques, 
após a primeira demonstração (que ela descreve com horror e espanto) 
manda chamar o próximo paciente, coloca os eletrodos na cabeça da víti-
ma, vira-se para ela e diz: “Agora, aperte o botão”. E ela respondeu: “Não 
aperto”. Segundo ela própria, “aí começou a rebelde”. Era assim que se inti-
tulava: uma psiquiatra rebelde. A partir desse gesto de recusa, um grito de 
liberdade instaurou uma polifonia naquele lugar de degredo e morte, um 
avesso do monocórdio som dos diagnósticos com nomes espalhafatosos, 
dos rótulos estigmatizantes, da ditadura do discurso solilóquio da psiquia-
tria tradicional, onde o indivíduo considerado louco torna-se cada vez mais 
embotado afetivamente, rumando sempre para uma inexorável degradação 
e ruína. Mas, “apesar desta trágica concepção, deste abismo criado pela 
ciência, surgem do mais profundo da alma, imagens, as mais inusitadas e 
belas” (MELLO: 2014).
Foram estas belas e inusitadas imagens que feriram a atenção da mulher 
sensível e revolucionária, que anos antes já havia surpreendido ao formar-se 
numa Faculdade de Medicina numa turma de 147 homens.
1
Nise da Silveira teve uma educação refinada. Nascida em Alagoas, peque-
no estado do nordeste brasileiro, filha única de um jornalista e uma mu-
sicista, após a formatura na Faculdade de Medicina veio morar no Rio de 
Janeiro, onde começa a trabalhar como médica psiquiatra, após prestar 

Sua tese de conclusão 
de curso Ensaio 
sobre a criminalidade das 
mulheres na Bahia já de-
monstrava sua inclinação 
por grupos em situação 
de risco social.


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NISE DA SILVEIRA
concurso público. A amizade com intelectuais e artistas e sua atuação em 
uma organização que atendia mulheres de baixa renda foram os moti-
vos que levaram-na a passar dois anos nas prisões da ditadura do Estado 
Novo. Após cumprir, incógnita, um autoexílio de oito anos pelo Brasil, 
veio a anistia e o retorno à sua função de psiquiatra. Ao deparar-se com as 
novas técnicas de tratamento, que incluíam o eletrochoque, não poderia 
deixar de compará-las aos métodos de tortura da prisão.
Entre as oficinas que Nise criou no hospício, os ateliês de pintura e modela-
gem logo destacaram-se por dois motivos: primeiro, os benefícios flagran-
tes que estas atividades exerciam nos indivíduos que as praticavam; segun-
do, a produção numerosa, a alta qualidade estética e riqueza de conteúdos 
de muitas dessas obras.
Com a intenção de estudar e preservar este material foi que nasceu o Museu 
de Imagens do Inconsciente, que mantém até hoje os seus ateliês de ativi-
dades expressivas em funcionamento. Ao longo de sua trajetória, muitos 
talentos foram revelados e, quem diria, muitos artistas brasileiros foram 
influenciados pelas criações de Engenho de Dentro. Desde o início Nise 
imprimiu um forte caráter cultural às atividades da Seção de Terapêutica 
Ocupacional. Além dos artistas plásticos e críticos de artes, poetas, músi-
cos, atores escritores, cineastas, hippies e marginais culturais de toda es-
pécie eram atraídos por ela e seu trabalho. Em 1968 ela cria o Grupo de 
Estudos do Museu que passa a ser um núcleo de efervescência cultural, 
frequentado pela intelectualidade da época. Artistas e personalidades de 
todos os matizes acorrem ao museu não mais apenas para admirar as obras, 
mas também para participar de um diálogo multifacetado, uma troca. As 
exposições apresentadas dão o tom, o leitmotiv para abordagens transdisci-
plinares, com as quais jovens estudantes ou artistas consagrados apresen-
tam trabalhos numa ebulição cultural inédita na história do Rio de Janeiro. 
É nesse clima que acontece a primeira leitura dramática da tragédia As 
Bacantes, de Eurípedes, realizada no Brasil. Atores, técnicos, funcionários e 
clientes
2
, misturaram-se para apresentar o grande clássico.

Nise não usava o 
rótulo de pacientes ou 
doentes, preferia chamar 
os frequentadores das 
oficinas de ‘clientes’.


NISE DA SILVEIRA
 
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Era a época da ditadura militar no Brasil, onde as reuniões de pessoas eram 
consideradas conspirações subversivas em potencial. É incrível que nesse 
regime onde o país estava sob forte censura, fosse justamente num lugar 
de reclusão, atrás das grades do hospital psiquiátrico, que florescia a mais 
bela pérola – inevitável a comparação. O recrudescimento da ditadura mi-
litar também se refletiu no hospital, e as perseguições ao trabalho de Nise 
e do Museu não foram poucas. Arrancavam-se as flores plantadas, e en-
venenavam-se os animais. Nise foi pioneira na utilização de animais com 
finalidade terapêutica. Cães e gatos faziam parte do arsenal terapêutico, 
promovendo relacionamentos e trazendo, segundo ela “calor e afeto ao frio 
ambiente hospitalar”. Transferiam-se os frequentadores dos ateliês de for-
ma abrupta e arbitrária. Negavam-se materiais para as oficinas. Nise era 
ridicularizada por seus colegas, que debochavam acintosamente de seus 
métodos de trabalho.
Impedida, no espaço oficial da prisão hospitalar, de amplificar o som da li-
berdade, ela funda a Casa das Palmeiras – a primeira clínica brasileira em re-
gime de externato (1956). Ali portas e janelas estão sempre abertas
3
. Ao ser 
indagada se não temia um acidente, um tragédia, por tratar de pessoas lou-
cas num ambiente totalmente aberto ela retrucou: “Que fazer? Acidentes 
acontecem… a liberdade tem seu preço”. 
Preço alto, diríamos nós. Mas que valeu a pena. Nise e seu trabalho foram 
perseguidos – paredes foram erguidas para isolar o ateliê, animais eram 
envenenados, jardins feitos pelos pacientes destruídos, os colegas ridi-
cularizavam seus métodos e desdenhavam dos resultados positivos que 
o tratamento pelas atividades demonstava. Hoje, o acervo do Museu de 
Imagens do Inconsciente conta com mais de 350 mil obras grande parte 
delas consideradas oficialmente integrantes do Patrimônio Histórico e 
Artístico Nacional. As pesquisas feitas por Nise e seus colaboradores lan-
çaram luzes sobre o tema obscuro da loucura, retirando-a do modelo mé-
dico e inscrevendo-a no rol das experiências da espécie humana. O grande 
salto dado por Nise foi a constatação de que as imagens produzidas por in-
divíduos rotulados como loucos, por serem encontradas em praticamente 

A Casa das Palmeiras 
funciona até hoje no bair-
ro carioca de Botafogo.


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NISE DA SILVEIRA
todas as eras e civilizações da história humana, apontam para uma atem-
poralidade da psique e para a confirmação do conteúdo saudável dessas 
imagens. Elas não refletem uma doença, uma entidade nosológica, mas 
sim os “inumeráveis e cada vez mais perigosos estados do ser”, no dizer de 
Antonin Artaud. Nise apropriou-se da definição de Artaud, abandonando 
por completo a psiquiatria tradicional. “Em vez de um massudo tratado de 
psiquiatria, dizia ela, leio mais uma vez Dostoiewski e Machado de Assis”. 
Temos enfim a revelação de que o louco é na verdade o privilegiado mer-
gulhador das ricas dimensões do inconsciente que não nos são acessíveis, 
ou o são limitadamente, de onde trazem ora imagens que admiramos, ora 
as “verdades insuportáveis”, ainda citando Artaud
4
. Isso muitas vezes à 
custa de enormes sofrimentos, para os quais, mais uma vez, o afeto pare-
ce ser o melhor remédio.
A transdiciplinaridade que imprimiu aos estudos no Museu resultou em 
livros, filmes, peças de teatro, influenciando toda uma gama de pensa-
dores e criadores. Reunindo história da arte, mitologia, história das 
religiões, antropologia, literatura, psicologia, Nise faz uma leitura con-
tundente das séries de imagens produzidas nos ateliês, magistralmente 
consolidadas em seus livros Imagens do Inconsciente (1981) e O Mundo das 
Imagens (1992). Longe de apresentar uma patologia da mente, aí revelam-
se as entranhas de processos psíquicos até então insuspeitados, embora 
comuns a todos nós.
Seu trabalho inspirou a criação de serviços terapêuticos e culturais. Nise 
da Silveira recebeu honrarias, prêmios e medalhas nas áreas da saúde, 
educação, literatura, direitos humanos. Influenciou o Movimento da Luta 
Antimanicomial, movimento social que varreu o país de norte a sul, e resul-
tou na Reforma Psiquiátrica, que legou ao Brasil uma das legislações mais 
avançadas na área da saúde mental do mundo atual. Hoje, o tratamento 
territorializado e que estimula a permanência do paciente psiquiátrico no 
meio social se dá através de Centros de Atenção inspirados na experiência 
da Casa das Palmeiras.

Segundo Artaud, a 
psiquiatria é a invenção 
de uma sociedade tarada 
“para se defender das 
investigações de certos 
indivíduos de lucidez 
superior, cujas faculdades 
de percuciência a incomo-
davam”.


NISE DA SILVEIRA
 
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O encontro de Nise da Silveira com a psicologia de C. G. Jung, ajudou-a 
a configurar um método de leitura de imagens inédito, demonstrando, na 
prática, as teorias do mestre suíço. As séries de imagens pertencentes ao 
acervo do Museu de Imagens do Inconsciente são hoje fonte de inúmeras 
pesquisas que sobre os processos psíquicos que se desenvolvem no interior 
de todos os seres humanos. 
Nise também foi pioneira na utilização terapêutica de animais. Elevou-os à 
condição de co-terapeutas em seu trabalho, e ampliou o círculo da impor-
tância fundamental do afeto no tratamento. O afeto estimula a criatividade 
que por sua vez dá expressão aos processos autocurativos da psique huma-
na. Por sua intervenção, a cidade do Rio de Janeiro erradicou a apreensão 
de animais de rua, criando uma secretaria especial para o cuidado deles.
O MII é mais que um espaço: é um ambiente de convívio, empoderamento 
para a cidadania, redução de estigma e mudanças paradigmáticas. Espaço 
de cura, saúde e fruição. Que têm feito as autoridades responsáveis por essa 
joia engastada no subúrbio carioca, de onde tantos brilhos já iluminaram 
a cultura brasileira? A falta de investimentos e funcionários têm gradati-
vamente diminuído o número de atividades, e hoje poucos funcionários 
desdobram-se para mantê-lo aberto ao público. Mas os sons da liberdade 
são imortais, podem ser calados por algum tempo, mas, como um renovo, 
brotarão “ao cheiro das primeiras águas”
5
.
No momento em que o processo mundial de globalização enfraquece os 
laços identitários das comunidades e grupos sociais mais vulneráveis, a 
atuação do Museu de Imagens do Inconsciente mantém-se no sentido de 
preservar o espaço onde o discurso da loucura e de seus portadores não é 
silenciado, onde não se tem medo do inconsciente.
O Museu de Imagens do Inconsciente é um museu especial, no dizer da 
museóloga Tereza Scheiner (1998), “um museu da paixão, que toca o ho-
mem profundamente, elevando-o às alturas ou fazendo-o enfrentar o abis-
mo. Que apresenta as entranhas do homem, e não apenas a superfície, que 
fala da luta e do medo, da dor e da coragem, do sangue e das lágrimas, da 



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