Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)



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LEILA DINIZ
 
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LEILA DINIZ
Leila Diniz  
(1945-1972)
mirian goldenberg
Meio inconsciente, me tornei mito e ídolo, ou mulher símbolo 
da liberdade, pregadora-mor do amor livre. Muita gente não 
entende o que é isso. Só quero que o amor seja simples, honesto, 
sem os tabus e fantasias que as pessoas lhe dão.
leila diniz
Leila Diniz nasceu em Niterói em 25 de março de 1945. Filha de Ernestina 
e Newton Diniz, um carioca nascido no Méier, líder bancário do Banco do 
Brasil e membro do Partido Comunista. Antes do nascimento de Leila, Diniz 
e Ernestina tiveram outros dois filhos: Eli e Elio. Quando Leila estava com 
sete meses, seus pais biológicos se separaram. Ernestina, com tuberculose, 
foi internada em um sanatório, onde ficou dois anos. A experiência de total 
isolamento pode ter provocado duas características de sua personalidade 
que foram destacadas pelos irmãos mais velhos de Leila Diniz, em entrevis-
tas que realizei para a minha tese de doutorado: a religiosidade e a hipocon-
dria. Diniz, após a separação de Ernestina, foi morar com Isaura, uma pro-
fessora primária, em Copacabana. Com ela, teve duas filhas: Regina e Lígia.
Quando Diniz foi morar com Isaura, Leila tinha cerca de dois anos. Ela foi 
criada como sendo filha verdadeira de Isaura. Só na adolescência, desco-
briu que tinha outra mãe, Ernestina, que estava viva, morando sozinha 
no bairro de Santa Tereza. A descoberta da mãe “verdadeira” e de uma si-
tuação familiar repleta de mentiras parece ter sido decisiva na trajetória 
de Leila Diniz. Aos 13 anos, começou a escrever um diário, hábito que a 


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acompanhou até a sua morte. As 14 anos, saiu de casa. Tentou uma aproxi-
mação com Ernestina, vivendo alguns meses com ela. Morou com amigos, 
tios, voltou para a casa do pai. A crise parece ter sido tão grave que Leila 
começou a fazer análise de grupo, aos 16 anos, momento em que ainda era 
rara esta prática no Brasil. Também aos 16 anos, em uma festa de Natal, 
conheceu o diretor Domingos de Oliveira, dez anos mais velho do que ela e 
já desquitado. Morou com ele durante quase três anos. 
A trajetória profissional de Leila começou aos 15 anos como professora do 
maternal e jardim de infância. Deixou de ser professora por não se adaptar 
às exigências dos pais e diretores da escola. 
“Eu amo crianças. Mas eu gostei de ser atriz e seria muito difícil voltar a 
ser professora. Eu deixei de ser professora por covardia porque eu tinha 
que brigar muito com os pais, e com os diretores do colégio. Porque eu não 
estava em Summerhill, não, mas em minha sala cada um fazia o que que-
ria. Eu me lembro que, uma ocasião, teve um aluno meu – eu ensinava no 
maternal, jardim de infância e primeiro ano –, bem, esse aluno chegou para 
mim e… Bem, eu tenho uma relação com criança muito boa, consigo chegar 
e dialogar com elas. Na minha sala, eu aboli a mesa da professora, não exis-
tia, a minha mesa era igual à deles, minhas coisas eram guardadas como a 
deles, eu mexia nas coisas deles tanto quanto eles mexiam nas minhas, não 
tinha problema. A gente trocava lanche, eu trazia Coca-Cola e eles gostavam 
mais do que leite, e a gente trocava, eu fazia a maior zona. As mães, porém, 
não gostavam. Bem, aquele aluno meu estava cheio comigo, não sei por quê, 
virou pra mim e disse: sua (*)! Foi aquele silêncio, todo mundo ficou me 
olhando pra ver o que a professora ia responder. Eu fiquei com vontade 
de rir e ri. Aí eu disse: (*) é você, está ouvindo, seu cocô? Foi aquela zona: 
porque falando com criança, eu adapto meus palavrões pros deles. Palavrão 
de criança é (*), cocô, xixi, titica etc. Então foi uma semana na sala que só 
se falava de (*): sua (*) pra cá, seu (*) pra lá, (*) sem parar, cocô pra lá, xixi 
pra cá… A diretora entrava na sala e ficava horrorizada” (“O Pasquim”, no-
vembro de 1969).


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Desempregada, conseguiu pequenos papéis como atriz por frequentar a 
boemia artística e intelectual do Rio de Janeiro, no circuito de Copacabana 
e Ipanema. Leila teve uma carreira irregular, iniciada em meados da década 
de 60, dividida entre o cinema, o teatro e a televisão. Conquistou um espaço 
no campo artístico por meio de papéis que se aproximavam de seus compor-
tamentos na vida pessoal. Atuou em 14 filmes. O seu papel mais marcante 
foi em “Todas as mulheres do mundo”, filme de Domingos de Oliveira. 
Por que Leila Diniz se tornou um mito? Por que, hoje, é possível dizer, como 
Rita Lee, que “toda mulher é meio Leila Diniz”? Por que Leila Diniz é lem-
brada como o símbolo da mulher livre?
É a própria Leila Diniz quem responde à questão. Ela disse, na célebre en-
trevista a “O Pasquim”: “como todas as minhas entrevistas dizem ‘Leila a 
mulher livre’, ‘Leila, a mulher que faz amor’, ‘Leila que é independente’ etc., 
todo mundo fica achando que sou aquela (*) da zona, não é?”. Ela reconhe-
ce que contribuiu para a construção e consolidação desta imagem: “Sobre 
minha vida, meu modo de viver, não faço o menor segredo. Sou uma moça 
livre. A liberdade é uma opção de vida” (Diário de São Paulo, 15/03/1970).
“Aí vieram as mil entrevistas e, como nunca tive nada com esse negócio de 
ser atriz, de construir uma imagem para o público, eu falava exatamente o 
que eu estava pensando. E acho que foi aí que aconteci. O pessoal percebeu 
que eu tinha mil facetas para serem badaladas. A diferença entre mim e as 
outras pessoas do meio é que, enquanto elas estavam apenas falando, eu 
gritava tudo o que tinha para gritar. Passei a ser uma moça sexy na opinião 
de todos, defendendo uma porção de ideias. E todos se perguntavam: mas 
moça sexy pensa? As pessoas passaram a me dar muita atenção. A imprensa 
capitalizou e tudo quanto eu falava virava imediatamente uma zorra. Não sei 
se foi loucura ou coragem minha, mas sempre me expus muito. De certa for-
ma, acho que é isso que ainda sustenta essa coisa engraçada chamada mito”.
Com a ideia de revolução simbólica pode-se compreender melhor a re-
presentação social de Leila Diniz como uma mulher revolucionária. Leila 
contribuiu para o reconhecimento de comportamentos femininos que 


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contestavam a ética e a estética então existentes. Ela fazia e dizia o que 
muitas mulheres tinham o desejo de fazer e dizer mas não tinham cora-
gem. Os depoimentos que colhi para a minha tese de doutorado sobre a 
sua trajetória destacam que muitas mulheres faziam ou diziam as mesmas 
coisas que Leila, mas Leila dizia e fazia, acumulando assim reconhecimento 
dos que desejavam contestar o modelo tradicional de ser mulher. O reco-
nhecimento que Leila conquistou está ligado à correspondência entre seus 
comportamentos efetivos e seu discurso.
Aqueles que perseguiram Leila como subversiva não estavam inteiramente 
enganados. O poder de nomear, sobretudo o de nomear o que ainda não foi 
percebido ou está recalcado, é um poder considerável, é um poder de cria-
ção. Esta foi a revolução de Leila Diniz: trazer à luz do dia comportamentos 
femininos já existentes mas que eram vividos como estigmas, proibidos, 
ocultos. A partir da análise da trajetória de Leila Diniz é possível se refletir 
sobre as transformações dos papéis femininos na sociedade brasileira, par-
ticularmente sobre a revolução comportamental ocorrida na década de 60.
Até hoje, Leila Diniz é lembrada como uma jovem que subverteu o com-
portamento feminino de sua geração. A elaboração desta imagem, após a 
sua morte, produziu um discurso praticamente unânime a respeito de sua 
importância como mulher “revolucionária”. 
No final da década de 60, muitos jovens substituíram os temas políticos 
pelo tema da liberdade individual. A repressão a ser combatida deixou de 
ser a repressão do regime militar e passou a ser a repressão sexual, a repres-
são familiar, a repressão internalizada em cada indivíduo. Este anseio por 
liberdade sexual parece ter sido um elemento importante para a transfor-
mação de Leila Diniz em um símbolo de mulher revolucionária.
A conduta de Leila Diniz não estava remetida a princípios gerais ou bandei-
ras políticas, mas à forma particular que encontrou para enfrentar seus pró-
prios problemas. Ao expor publicamente sua maneira de viver, Leila abriu 
possibilidades para outras mulheres enfrentarem problemas semelhantes. 
Os reforços positivos que recebeu e o destaque que lhe foi reservado na 


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imprensa fizeram com que ela se sentisse autorizada para afirmar cada vez 
mais radicalmente a sua postura de transgressão ao modelo tradicional fe-
minino, especialmente em matéria sexual. Leila foi apontada como uma 
precursora do feminismo no Brasil: uma feminista intuitiva que influen-
ciou, decisivamente, as novas gerações.
“Leila não podia deixar de virar mito, modelo para tantas mocinhas que 
não se consideravam direitinhas nem galinhas, só queriam viver com mais 
sinceridade suas emoções e desejos, ser pessoas mais inteiras e não obriga-
toriamente a metade de um casamento onde o lugar principal seria ocupa-
do pelo homem, depois viriam os filhos, e só depois, no espacinho que so-
brasse, a mulher se manifestaria. O movimento feminista ainda não tinha 
chegado até nós e Leila, sem empunhar bandeiras, sem querer ser símbolo 
de nada, ia fazendo o que gostava de fazer, esbanjando alegria de viver, 
sinceridade, driblando com graça o machismo brasileiro, sendo mãe de uma 
maneira nova, curtindo a maternidade e o corpo grávido, o barrigão bonito 
se mostrando ao sol, na foto que ficou famosa… No meio de toda aquela 
militância, a imagem de Leila surgia sempre, não para embasar teorias, que 
para isso tínhamos O segundo sexo, da Simone, mas como a própria perso-
nificação da mulher feliz” (Zuleica Porto, Correio Braziliense, 14/6/1987).
Leila Diniz, ao afirmar publicamente seus comportamentos e ideias, parece 
ter sido uma aceleradora de padrões de comportamentos femininos já exis-
tentes, a maior parte das vezes de modo implícito, que foram sendo, cada 
vez mais, adotados por muitas mulheres.
O que fez de “Leila para sempre Diniz”, como escreveu o poeta Carlos 
Drummond de Andrade? Por que Leila Diniz é lembrada, até hoje, como 
uma mulher revolucionária e símbolo da década de 60?
A articulação de alguns elementos de sua trajetória pode responder a esta 
questão. Em todas as entrevistas que realizei para a minha tese de doutora-
do, nas matérias de jornais e revistas, depoimentos em livros ou vídeos, os 
seguintes marcos estavam, inevitavelmente, presentes.

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