Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)



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ROMPER LIMITES, TRAZER O NOVO
O protagonismo e a originalidade de duas criadoras excepcionais se reve-
laram em um movimento importante de renovação da arte brasileira dos 
anos 1950 e 1960. Lygia Pape é um nome indispensável dos processos de 
reflexão e recriação dos parâmetros da arte no Brasil, quando a absorção 
em nosso país das novas tendências da arte contemporânea gestaram as 
expressões do Concretismo e Neoconcretismo. Renovação dos caminhos 
para se pensar a expressão artística, em um país que se mobilizava por al-
cançar novos padrões de desenvolvimento, cada vez mais urbano, nos anos 
do pós-guerra, foi peça chave de uma influência que se estendeu em toda a 


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produção cultural posterior. A experiência transgressora de sua arte mar-
cou o universo das artes plásticas no Brasil.
Antes disto, a contribuição de Georgina de Albuquerque, precursora da pin-
tura impressionista no Brasil, primeira mulher a pintar a temática histórica 
no país. Em 1922, ano de celebração do centenário da Independência do 
Brasil, apresentou a pintura denominada ”Sessão do Conselho de Estado”, 
tema próprio, à época, apenas para os homens. Foi a primeira diretora da 
Escola Nacional de Belas Artes e fundou o Museu Lucílio de Albuquerque 
onde instituiu cursos de pintura e desenhos para crianças. Mais uma mu-
dança nos costumes da época, demonstrando como mulheres brasileiras 
romperam barreiras e interdições estabelecidas historicamente.
Pensar a produção artística das mulheres nos remete sempre aos movimentos 
de ruptura necessários em cada época, indispensáveis em cada vida, inúmeras 
vezes angustiantes em cada destino particular, para que pudessem romper os 
limites impostos às mulheres. Daí ser desafiador pensar o quanto cada uma 
destas aqui representadas teceram rupturas diárias para entrar em um mundo 
público que não lhes atribuía um lugar tranquilo e muito menos cativo. 
Abrir as portas dos espaços públicos movia estas pioneiras. Ninguém melhor 
que Pagu, Patrícia Rehder Galvão, parece traçar um nó vermelho que une 
pontas entre cultura e política, trazendo à tona em seus textos e em sua vida 
um confronto explícito com os limites impostos às mulheres. E foi além, ao 
mesmo tempo em que, militante de esquerda, ousou discordar das posições 
hegemônicas na época. Talvez por isso tenha ficado esquecida por muito tem-
po. Imersa em uma rebeldia pessoal e política, buscando caminhos de expres-
são na escrita, em jornais, poemas, em seu romance Parque Industrial, Pagu 
traz à tona de forma aguda a crítica e a insubmissão à desigualdade.
Em tonalidade totalmente diferente, no primeiro terço do século XX, Bertha 
Lutz arregimentava argumentos, mobilizava apoios, questionava a persis-
tência das barreiras à participação das mulheres nas instituições políticas. 
Em vários países as mulheres já tinham garantido o direito de voto, que por 
aqui continuávamos sem.


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Como grandes chaves da participação das mulheres no mundo público 
a educação, o trabalho e o voto marcaram esta época. A cultura, a es-
crita e a arte se apresentavam como brechas possíveis. O feminismo, 
abrindo este caminho no final do século XIX e primeiras décadas do 
século XX, anunciava que as mulheres almejavam educação e trabalho. 
Reivindicações que ecoavam no Brasil, trazendo influências e debates 
que se espalhavam em distintos países. A produção literária e jornalísti-
ca se alimentava e repercutia as polêmicas sobre o direito das mulheres 
ao estudo. Francisca Senhorinha da Motta Diniz faz desse campo seu 
espaço de atuação. Entrar no mundo para além das paredes domésticas 
exigia, com certeza, ousadia. O que grande parte das vezes significava 
destoar dos padrões adequados às mulheres. Daí a irreverência de algu-
mas, como Nair de Teffé que, ainda que cercada por relações familiares 
tradicionais, frequentemente se via socialmente censurada e tolhida. 
Aventurando-se por uma área ainda hoje tipicamente ocupada por ho-
mens, foi a primeira caricaturista brasileira. 
Para além do universo das artes, desponta a figura tão singular de Nise da 
Silveira. Estudante de medicina nos anos 1920, Nise foi a única mulher em 
sua turma. Destacou-se por uma reflexão original e criativa dos estudos 
psicológicos, vinculando a arte às necessidades de expressão dos seres hu-
manos aprisionados na esquizofrenia. Suas pesquisas e seu trabalho a tor-
naram uma referência em todo o campo da psiquiatria e da saúde mental 
no Brasil, tema tão atual e demandante de uma nova visão de humanidade 
e, por que não, de novos paradigmas para as políticas públicas. 
A expressão pela linguagem escrita nos aproxima de autoras com trajetórias 
tão distintas, como Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector. Carolina 
Maria de Jesus, filha de pais analfabetos, negra, foi trabalhadora domésti-
ca, viveu nas ruas e em favela, coletando materiais. Seu livro Quarto de des-
pejo ganhou mundo e trouxe inusitada celebridade e conhecimento de um 
cotidiano muitas vezes retratado por quem não o vivia. Não era o caso de 
Carolina. Aliás, pelas mãos de Clarice, também somos levados a refletir so-
bre o cotidiano. Mas são outros meios, outra linguagem, outra experiência 


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de vida. São vários mundos refletidos em narrativas intimistas que a tor-
nam uma das mais aclamadas escritoras brasileiras. 
A inclusão de Leila Diniz neste livro é exemplar. Iniciando sua vida profis-
sional como professora do maternal e jardim de infância, abandona esta 
carreira para tornar-se atriz, dividida entre o cinema, o teatro e a televisão. 
Leila torna-se símbolo da rebeldia e anseio de liberdade da mulher brasilei-
ra, quebrando padrões de comportamento pré-estabelecidos, revoluciona-
do o modelo tradicional de ser mulher no Brasil, especialmente quando o 
assunto é sexo.
O que une estas mulheres é um desejo incontido de vencer barreiras e 
construir seus canais de expressão. Sobretudo temos mulheres que lutam, 
ontem e hoje. As que buscam juntar, traçar rumos, definir seus destinos, 
deixar marcas e caminhos para um mundo com mais igualdade.
Trazer aqui a experiência e a história de comunidades de matriz africana, dos 
distintos grupos e nações que vieram para o Brasil no período da escravidão, 
motivou a presença da figura marcante de Severina Paraíso da Silva, a “Mãe 
Biu”, que contribuiu para preservar a tradição e herança cultural de um povo 
que se reflete nas distintas expressões da cultura brasileira. É o que destaca 
também o registro da figura de Maria Júlia do Nascimento, conhecida como 
Dona Santa, que contribuiu para manter a tradição do maracatu no Recife, ali-
mentando a simbiose de culturas que formou o Carnaval brasileiro. Da mesma 
forma, “Lia de Itamaracá” ou Maria Madalena Correia do Nascimento, repre-
senta a luta da mulher brasileira na criação e preservação das nossas expres-
sões culturais. Nascida e criada naquela ilha do litoral Pernambucano, mulher 
negra com postura que lembra imagens mitológicas, encantada com o balanço 
do mar e da ciranda, frequentou, quando criança, as rodas das cirandeiras da 
ilha. A partir deste encantamento, perseverou na proteção e afirmação desta 
expressão cultural, patrimônio imaterial de Pernambuco, criando e recriando 
cirandas e encantando a todos que conhecem a sua luta e o seu trabalho.
Aumentar o conhecimento sobre nossa história, buscar instrumentos e 
caminhos de preservar nossas expressões culturais nos aventura a refletir 


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sobre as imagens, os mitos e símbolos sobre a mulher, sobre o feminino. A 
construção de tais imagens, pela arte ou pela ciência, conforma nosso lugar 
de mulher. Por isso recuperar a presença das mulheres na história é repen-
sar o lugar atribuído e muitas vezes redimensionar os símbolos e os mitos 
plasmados por uma cultura de desigualdade. 
É neste sentido, que assumir o achado arqueológico “Miss Sambaqui” en-
contrado em 1954 em uma escavação no Sambaqui Maratuá, na Ilha de 
Santo Amaro litoral de São Paulo, como um dos marcos da história das mu-
lheres no Brasil, a partir da compreensão da ocupação do território brasi-
leiro, reforça o seu grau de significância histórica, política e cultural. Ela se 
transformou no símbolo do Instituto de Pré-História da Universidade de 
São Paulo, por dois aspectos físicos que compõem de forma marcante o seu 
crânio: a dentição praticamente completa e sua superfície concrecionada e 
forrada por conchas. Como afirma o pesquisador Maurício
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, por meio desse 
artefato “é possível vislumbrar uma mulher que fundiu a solidez de toda 
uma população, transpondo a barreira temporal para se tornar porta voz de 
toda uma comunidade”.



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