Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)


partiu um dia para longe, para o Pacífico, para o Japão e



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partiu um dia para longe, para o Pacífico, para o Japão e 
para a China, pois o Partido se cansara de fazer de mim gato 
e sapato. Não podia mais me empregar em nada: estava 
“pintada” demais. (GALVÃO, 1950)
E defende um socialismo pacífico, libertário e utópico:
O fim é a libertação do homem desde as suas bases de pão e 
de abrigo, de amor e de sonho, de aspiração e criação, até que 
se transformem as relações de semelhante a semelhante, e se 
estabeleça em toda a plenitude a dignidade de uma paz e de 
uma solidariedade contritamente vividas. (GALVÃO,1950)
Muda-se para Santos, trabalha no jornal A Tribuna, incentiva a formação 
de grupos amadores e de teatro de vanguarda, participa da fundação da 
Associação dos Jornalistas Profissionais e da União do Teatro Amador.
Em 1962, muito doente, viaja, sozinha, a Paris, com a alegação de que estuda-
ria teatro, ao mesmo tempo que consultaria médicos. Mas, a cidade que tanto 
amava, onde estudou, sonhou, militou, enfrentou tropas de choque, foi palco 
de mais uma agonia. Uma tragédia própria do Aqueronte que, na mitologia 
grega, citado por Virgílio, Homero e também por Dante, é o primeiro rio do 
inferno, onde se matam os suicidas e os pobres que nada possuem.
Em um quarto de hotel, dá um tiro no peito, mas a bala não vai para o 
coração, como pretendia. Resvala por uma costela e sai na perna. Na radio-
grafia do tórax, constatam um tumor no pulmão. Os médicos não chegam 
a concretizar a retirada, dado o estado avançado. Retornou a Santos, terra 


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PATRICIA REHDER GALVÃO
onde amava viver e onde morreu, aos 52 anos, em 12 de dezembro de 1962. 
Enfim, o namoro com a morte se concretizou.
Temos agora a paisagem da treva d’acier – começa o túnel. 
As paredes alvas dissolvem-se no oposto. Tateante, a sonda 
da hipótese insistente não consegue eliminar nem o preto 
nem o branco. Treva. Não obstante é para a frente que se vai. 
Enfrentando a treva. (GALVÃO e FERRAZ, 1959, p. 274)
Quatro dias após o falecimento de Pagu, Geraldo publicou em A Tribuna, 
onde era editor, o emocionado artigo Patrícia Galvão, Militante do Ideal. 
Assinou apenas como Redator de Plantão, assim iniciando-o: “Deu-se essa 
semana uma baixa nas fileiras de um agrupamento de raros combatentes” 
(FERRAZ, 1962).
Talvez, para muitos, a vida de Patrícia e suas buscas pareçam fora de moda, 
já que a nossa cultura acredita ser possível viver sem qualquer dor, com a 
ditadura do imperativo do gozo, individualista e hedonista. Porém, embora 
os imperativos do consumo se dirijam a todos, só são acessíveis a muito 
poucos. Nunca foram tão necessários seus sonhos de mundos imaginados 
que nos abrem caminhos, nos movem, dando razões para desejar e buscar 
realidades melhores que as atuais.
Ela ainda tem muito a nos dizer. Uma fala que busca raízes no terreno in-
certo e perigoso dos atos, das práticas, da existência, sempre como síntese 
imperfeita. E, assim, nos faz companhia na luta, crença, valores, paixão, de-
sejo e emoção.
A história continua, portanto, aberta a novas propostas e ao fazer junto, 
em seu não acabamento essencial. Nossa antropófaga, um ser-em-mutação, 
mutação-em-ser, venceu a morte, ou melhor, deglutiu-a. Conquistou a sobre-
vida por meio de seus sonhos, ideias, afetividade e desejos, que são, afinal, o 
que nos dá condições de existência. “É a vida que flui, a arte que permanece
e entre o que passa e o que fica, os homens traçam a sua grandeza e a sua 
dignidade.” (GALVÃO, 1954; apud FURLANI e FERRAZ, 2010). 

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