Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)


partir da vivência e do olhar das mulheres, e uma pauta de reivindicações



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partir da vivência e do olhar das mulheres, e uma pauta de reivindicações 
que é apresentada ao governo federal. 


MARGARIDA ALVES
 
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Em cada uma das cinco marchas, a plataforma política e a pauta de rei-
vindicações enfocaram questões estruturais e conjunturais, além daque-
las específicas das trabalhadoras do campo, da floresta e das águas. De 
caráter feminista, as proposições apresentadas puderam ser traduzidas 
para novos significados ao serem conectadas a questões mais gerais dos 
movimentos e organizações que participam da Marcha das Margaridas, 
seja sob o lema adotado nas três primeiras marchas: 2000, 2003, 2007, 
“razões para marchar contra a fome, a pobreza e a violência sexista”; seja 
sob o lema “2011 razões para marchar por desenvolvimento sustentável 
com justiça, autonomia, igualdade e liberdade”; seja sob o lema da marcha 
2015 “Margaridas seguem em marcha por desenvolvimento sustentável 
com democracia, justiça, autonomia, igualdade e liberdade”, reforçando, 
frente à atual conjuntura brasileira, a defesa incondicional da democracia 
como condição fundamental para seguir avançando na construção de um 
país mais justo e igualitário. 
Assim, a pauta de reivindicações procura articular desde questões como a 
reforma agrária, democratização do acesso aos bens comuns, preservação 
do meio ambiente, defesa da biodiversidade e da agroecologia, fortaleci-
mento da agricultura familiar, apoio à produção e comercialização, garantia 
de direitos trabalhistas (salário e condições de trabalho) e previdenciários à 
proposição de programas e políticas sociais voltadas para geração de renda, 
saúde, educação e enfrentamento contra a violência sexista.
A pauta da Marcha 2015, além de apresentar reivindicações das Margaridas 
do campo, das florestas e das águas, seguindo oito eixos: 1 – Soberania 
Alimentar; 2 – Terra, Água e Agroecologia; 3 – Sociobiodiversidade e 
acesso aos Bens Comuns; 4 – Autonomia Econômica, Trabalho e Renda; 
5 – Educação Não Sexista, Educação Sexual e Sexualidade; 6 – Violência 
Sexista; 7 – Direito à Saúde e Direitos Reprodutivos; 8 – Democracia, 
Poder e Participação, apresentou proposições específicas de cada região, 
destacando-se a voz das Margaridas da Amazônia; das Margaridas do 
Cerrado e do Pantanal; a voz das Margaridas do Nordeste; do Sudeste e 
do Sul. Também foi considerada recortes geracionais na pauta da Marcha 


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2015, trazendo as vozes das margaridas de todas idades, buscando inserir 
e dar visibilidade às reivindicações das mulheres jovens e das mulheres 
da terceira idade. Além de questões das margaridas assalariadas rurais, 
das margaridas das florestas, dando destaque à pauta das extrativistas e 
quebradeiras de coco babaçu, bem como das margaridas das águas, mar-
garidas quilombolas e indígenas. 
Propondo, através das suas reivindicações, mudanças que podem ser en-
tendidas tanto como econômico-estruturais quanto simbólico-culturais, a 
Marcha das Margaridas tem contribuído na formação de novos sistemas 
de valores e constituindo-se como força de pressão contra o sistema ins-
titucional e os padrões dominantes, contrários aos princípios éticos que 
compartilham. Por isso, sua ação apresenta um forte caráter de denúncia e 
protesto contra a fome, a pobreza e todas as formas de violência, explora-
ção, discriminação e dominação. Uma denúncia que desvela tanto a injusti-
ça socioeconômica enraizada na estrutura político-econômica da sociedade 
quanto a injustiça cultural ou simbólica arraigada em  padrões sociais de 
representação, que se materializam e corporificam no cotidiano dessas mu-
lheres, rompendo com a lógica do modelo de desenvolvimento capitalista 
e patriarcal. No seu clamor por democracia, justiça, autonomia e liberdade 
estão implicadas demandas que incluem tanto o reconhecimento da dife-
rença quanto a redistribuição econômica – procurando, assim, avançar na 
construção da igualdade para as mulheres. E com esse propósito seguem em 
marcha as margaridas…
A caminhada, a performance, a estética da Marcha expressam a experiência 
vivida durante todo o seu processo de construção e evocam com força as di-
mensões coletivas do vivido. A estética apresentada é uma estética da vida. 
Salta aos olhos a cor lilás nas bandeiras e faixas, nos chapéus, nas camise-
tas, nas tiaras, destacando-se, assim, a forte simbologia da luta feminista. 
Portando faixas, cartazes e bandeiras, as mulheres organizam a caminhada 
em alas temáticas, demonstrando uma imensa capacidade criativa para ex-
pressar palavras, imagens e gestos que dão visibilidade às suas principais 
denúncias e reivindicações.


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A cada ano, a Marcha das Margaridas vem expressando toda sua força so-
cial e política, revelando-se como uma ação consolidada na trajetória de 
mobilização e luta, das mulheres do campo, da floresta e das águas, por vi-
sibilidade, reconhecimento, direitos sociais e políticas públicas. Após a rea-
lização dessas cinco grandes marchas registrou-se um conjunto de ganhos 
políticos, dentre os quais a visibilidade e fortalecimento da luta e unida-
de das mulheres; e a contabilização de conquistas, sobretudo nas marchas 
realizadas no período do governo Lula e no governo Dilma, muito embora 
ainda haja muito a ser conquistado em termos de políticas estruturantes e 
políticas públicas.
Em 2015, mais uma vez as mulheres do campo, da floresta e das águas 
pisaram no asfalto quente de Brasília. Em meio a uma conjuntura com-
plexa, não apenas em nível nacional, mas também mundial, em meio a 
uma crise política no país e em um momento de muitos desafios para os 
movimentos sociais, essas mulheres, mais do que nunca, mostraram a sua 
garra, persistência, energia e vontade de mudar o mundo, uma vontade 
que se expressa nos diferentes rostos, cores, etnias, idades, e se revela nas 
diferentes experiências de vida, de luta, nas diferentes trajetórias. Todas 
lutando por um mundo melhor, em meio a gestos de afetos, cuidado e 
alegria. Sonho, utopia e muita luta, é assim que as margaridas marcham 
e seguem marchando…

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