Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)



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Mulheres 
brasileiras: 
reinventando a vida, 
a história, a cultura
tatau godinho
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A luta pela igualdade de direitos, desde as nossas primeiras feministas que 
despontaram na imprensa nos finais do século XIX, como Francisca Senhorina 
da Motta Diniz, já nos dá uma ideia de que temos uma herança a zelar e um 
impulso para descortinar muitas referências ainda pouco conhecidas.
Nossa história coletiva ganha com acercar-se desse conjunto de mulheres que 
foram sujeito da história de nosso país: sim, temos pintoras, escultoras, escrito-
ras, atrizes, cientistas que foram rebeldes e afirmaram-se como protagonistas.
A história das artes plásticas no Brasil tem forte marca da criação das mu-
lheres. Impressiona sua presença e sua originalidade na produção que ganha 
fôlego a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, se estendendo, em ver-
tentes inovadoras até o presente. Tarsila do Amaral é figura essencial do grito 
de rebeldia da cultura e da arte brasileira do início do século XX. Um movi-
mento que para além do debate cultural buscou identificar nossos traços de 
comunidade, a riqueza e multiplicidade das culturas perdidas em um Brasil 
que ainda se conhecia pouco, mas que buscava dialogar com identidade pró-
pria com a cultura, a sociedade, a política que agitava o mundo neste período. 
Com uma história muito distinta, com opções estéticas bastante diferentes, 
e longe dos salões da cultura e da sociedade paulistana e carioca, nos mea-
dos do século, Djanira também pode ser rastreada nesta construção de uma 
identidade de país, multicultural, em que a cor e o traço vão compondo o 
cotidiano de um povo múltiplo em suas atividades diárias, no trabalho, nas 
praças, nos bairros, em ritos religiosos. Sua infância na lavoura e a juven-
tude em trabalhos como vendedora ambulante provavelmente marcaram 
seu interesse em viver o cotidiano do povo que a inspirava. Talvez não seja 
um exagero pensar no quanto de Djanira existe em cada praça onde en-
contramos exposta a produção do artesanato e da pintura tão presentes na 
expressão de nossa cultura popular. 
Ainda nas artes, exemplarmente na escultura, ligada ao movimento surrea-
lista, mas não exclusivamente, a escolha por Maria Martins, cuja expressão 
ultrapassou as artes e a inseriu em atividades como escritora, diplomata
cidadã do mundo, e expressiva figura de mulher que exprime de modo 


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exemplar sua singular “alma complexa”. Suas simbólicas esculturas com 
seres híbridos, homem e mulher com aspecto de animais ancestrais, colo-
cados frente a frente, sugerem desejos profundos, agressividade e morte. A 
força do seu trabalho aponta para a necessidade de romper com as dicoto-
mias entre mulheres e homens, tornando-a uma expressiva representante 
da luta das mulheres pela igualdade de gênero, na atualidade.
Uma cultura também construída em confrontos para romper com um pas-
sado de dominação, em que as mulheres são força permanente. É o que nos 
remete à imagem do rosto forte, sulcado por linhas retas, que se tornou mar-
ca da organização e da resistência das mulheres do mundo rural: Margarida 
Maria Alves. Uma história e uma imagem imbricadas em um longo processo 
de organização das trabalhadoras rurais, mulheres que carregam uma história 
de resistência, de um protagonismo em suas comunidades frequentemente 
contido por relações fortemente patriarcais e patrimonialistas. Expressando 
a dureza da luta pelo direito à terra e condições de trabalho e produção, pas-
sou a simbolizar também a persistência das mulheres no campo, que buscam 
construir sua identidade como mulheres, como trabalhadoras. Assassinada 
nas disputas pela terra inspira a Marcha das Margaridas, realizada desde 
2006, ocupando a Esplanada dos Ministérios em Brasília, para atualizar a 
pauta de lutas e dar visibilidade ao cotidiano das mulheres do campo, que 
integra um processo amplo de organização das mulheres no Brasil.



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