Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)



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Manguebeat, um movimento musical capitaneado por Chico Science e Fred 
Zero Quatro nos anos 90, que promoveu uma fusão de rock com ritmos da 
cultura popular como maracatu, coco, ciranda e embolada, eis que Lia de 
Itamaracá teve uma oportunidade de sair do limbo em que se encontrava. 
Foi por essa época que ela conheceu Beto Hees e o tomou como seu produ-
tor. E a partir desse encontro nada mais seria como antes na vida artística 
de Lia. Com o know-how conquistado em uma década de morada na Europa, 
Beto Hees conduziu a carreira da cirandeira de modo a restaurar a sua im-
portância no cenário cultural pernambucano: a admirada artista negra li-
vrou-se de uma vez por todas da fuligem da frustração e foi paulatinamente 
sendo reconduzida ao seu posto de rainha da ciranda.
Em 1998 Lia se apresentou no festival Abril Pro Rock, celebrada pelo 
Manguebeat. E antes que o século XX chegasse ao fim, a cirandeira lançou 
no ano 2000 o CD Eu sou Lia (Ciranda Records), reunindo entre as faixas, 
alguns registros ao vivo gravados no Projeto Vozes do Mundo, havido no 
Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro; nesse mesmo ano o 
disco foi também lançado na França pela Arion.
Por essa época, Lia de Itamaracá, com a sua muito conhecida generosidade, 
trouxe para junto de si, a fim de acompanhá-la em suas apresentações, as 
cirandeiras Dulce e Severina, filhas do precursor Antônio Baracho, que, em 
que pese a rica trajetória que tiveram ao lado do pai, andavam esquecidas e 
fora do circuito; a parceria maravilhosa dura até hoje.
Contando com a ajuda de amigos e admiradores, Lia de Itamaracá ergueu 
e pôs em funcionamento em 2005, na orla de Jaguaribe, bairro onde 
nasceu, aquele que é considerado por ela mesma uma de suas obras mais 
importantes, a realização de um sonho que ela cultivou durante anos: o 


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Centro Cultural Estrela de Lia (CCEL), um espaço de estrutura simples, 
basicamente constituído por madeira, tronco e palha de coqueiro, que, 
além de servir como ponto de preservação e difusão da ciranda, que é 
Patrimônio Imaterial de Pernambuco, tinha um cunho social muito rele-
vante para a população carente da ilha, porque oferecia de modo gratuito 
cursos profissionalizantes e palestras de preservação ambiental e de edu-
cação sexual. Afora isso o CCEL recebia em seu palco convidados das mais 
diversas manifestações culturais: cirandeiros, forrozeiros, coquistas, etc. 
Desativado por falta de apoio desde 2013, a estrutura do CCEL desabou 
no ano seguinte; e atualmente há em andamento um novo esforço da ci-
randeira para que ele seja reconstruído e volte a funcionar com a eferves-
cência dos bons tempos.
A figura majestosa de Lia, o seu porte de deusa africana – recentemente 
foi certificado que ela compartilha ancestralidade genética maternal com 
o povo Djola da Guiné-Bissau – sempre foi um chamariz para diretores de 
cinema e de televisão. Seja atuando como ela mesma ou encarnando algum 
personagem, a cirandeira já tomou parte em diversas produções como as 
minisséries Riacho Doce (1990) e Memorial de Maria Moura (1994); nos fil-
mes Parahyba mulher macho (1994), Recife frio (2009) e Sangue azul (2015); 
e em documentários a exemplo de Eu sou Lia (2003) e O mar de Lia (2010).
Senhora de brilho próprio e artista de grande importância no cenário cul-
tural brasileiro, Lia de Itamaracá levou – e continua levando – seu canto e 
sua dança para os mais distantes recantos do seu país e também já excursio-
nou pela Europa, sempre carregando consigo seu sorriso farto e sua alegria 
contagiante.
Em 2004, numa cerimônia realizada em Brasília, Lia recebeu a medalha de 
Comendadora do Mérito Cultural instituída pelo Ministério da Cultura. 
No ano seguinte, ela foi reconhecida por lei estadual Patrimônio Vivo de 
Pernambuco, uma iniciativa de todo louvável que busca de alguma maneira 
– os agraciados recebem uma pequena pensão vitalícia – amparar, valorizar 
e divulgar mestres e grupos da cultura popular.


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Dando prosseguimento aos registros fonográficos, em 2008 a cantora lan-
çou o cd Ciranda de ritmos (patrocinado pela Petrobras), renovando seu 
mais do que reconhecido talento e não deixando a ciranda de sua vida e de 
sua arte parar de girar.
Com sua arte e sua potência criativa/criadora, Lia se sobrepôs às rela-
ções de poder que historicamente na sociedade brasileira enxergaram os 
negros – e isso em grande medida ainda persiste – como coisas e/ou cida-
dãos de segunda classe. Tanto é assim que ainda hoje Lia e o seu produtor 
precisam altear a voz para aqueles que querem tratar como algo de valor 
cultural menor o folguedo que ela defende, oferecendo cachês mínimos e 
que muitas vezes demoram meses para serem pagos e disponibilizando 
palcos e camarins sem grande estrutura – e vale destacar que as apresen-
tações são feitas em sua maioria por contratos firmados com governos es-
taduais e municipais e/ou com instituições públicas. É por essas e outras 
que a trajetória dessa artista deve ser vista – e daí por que a necessidade 
de que busquemos fazer saber a um público cada vez maior a existên-
cia de negros que venceram obstáculos aparentemente intransponíveis 
resistindo não somente às adversidades da vida cotidiana, bem como às 
injustiças sociais, às imposições do mercado cultural e ao desinteresse e/
ou indiferença de parte do grande público para se firmarem socialmente 
– como um exemplo não apenas de superação, mas também de conquista 
e demarcação de espaço.
Lia, talvez inconscientemente, ame tanto o mar – na ciranda “Eu sou Lia”, 
de autoria de Paulinho Viola, ela canta assim: “Cirandando a vida na beira 
do mar/Vejo o firmamento, vejo mar sem fim/ E a natureza ao redor de 
mim” – como um chamado dos seus antepassados que ficaram no outro 
lado do Atlântico. É profundamente simbólico que seja na beira do mar que 
ela prefira formar sua ciranda. Seu canto não deixa de ser uma celebração à 
sobrevivência dos descendentes de todos os negros que foram arrancados 
da África e trazidos em imensos navios para as terras brasileiras na condi-
ção de escravos.


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Não existe na personalidade de Lia a negação do seu passado; muito pelo 
contrário; além disso, ela tem plena consciência do seu papel como mulher, 
negra e artista numa sociedade, como a brasileira, ainda marcada pelo ran-
ço de um patriarcalismo por vezes bastante violento e opressor. O canto vi-
goroso e a presença de palco dessa senhora não são apenas uma celebração 
à arte, são, também, uma ode à negritude e à liberdade feminina. No sincre-
tismo de sua fé religiosa, digo melhor, na dupla pertença de suas crenças, 
Lia deu as mãos a Nossa Senhora das Dores – as suas dores foram tantas! – e 
à Iemanjá, o orixá das águas do mar, para se manter firme na condução de 
sua ciranda, que, além de dar nome a um canto, é, também, um bailado ao 
qual bem caberia o epíteto de “dança da paz e da fraternidade”, porque para 
se dançar ciranda nós damos as mãos uns aos outros sem que reparemos 
se elas são de homem ou de mulher, de negro ou de branco, de rico ou de 
pobre, de judeu ou de muçulmano… 
Na areia da Praia de Jaguaribe, em sua adorada Ilha de Itamaracá, Lia, 
que é um deslumbrante acontecimento da natureza, conduz a sua ciranda 
mirando o horizonte com olhos de quem viu muito da vida e, por isso 
mesmo, compreende que o mar do universo que está ao seu redor ainda 
não serenou. Não duvidem disso: Lia e a sua ciranda são uma força de 
comunhão universal.

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