Assis, Maria Elisabete Arruda de; Santos, Taís Valente dos (Org.)


  LIA DE ITAMARACÁ O mar ainda não



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LIA DE ITAMARACÁ
O mar ainda não 
serenou e a ciranda 
continua a girar: 
brilho, encanto 
e grandeza de Lia 
de Itamaracá
clênio sierra de alcântara
Não se sabe exatamente a partir de que momento a ciranda como diverti-
mento popular passou a contar também com a participação de adultos em 
Pernambuco – até então as cirandas eram brincadeiras apenas de crianças 
e difundidas em todo o país – o maestro Heitor Villa-Lobos chegou mesmo 
a reunir várias dessas cirandinhas infantis tocando-as no seu piano erudi-
to. Quando o padre e músico Jaime Diniz publicou o primeiro estudo fun-
damentado sobre o folguedo, em 1960, tomou-se conhecimento de que a 
ciranda, como roda de adultos, ocorria na Região Metropolitana do Recife 
e em outras cidades do interior do estado desde pelo menos o início da 
década de 50. Padre Jaime Diniz relatou existirem grupos de cirandas em 
centros como Abreu e Lima, Igaraçu, Nazaré da Mata, Limoeiro e Goiana – 
possivelmente foi neste último que o brinquedo começou a ser formado e 
difundido. Foi em Abreu e Lima que o padre tratou com Antônio Baracho, 
um ex-cortador de cana de açúcar da cidade de Nazaré da Mata que era 
mestre de maracatu havia quase vinte anos e passara a ser brincante tam-
bém de ciranda, vindo a se tornar um dos mais conhecidos e talentosos 
cirandeiros do país.


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A palavra ciranda parece ter origem espanhola; vem de zaranda que é um 
instrumento de peneirar farinha ou cereais de um modo geral. Leite de 
Vasconcelos associou a palavra ao fato de as mulheres trabalharem jun-
tas em “serões”, grafando, por essa razão, seranda e não ciranda.Observou 
Jaime Diniz que tanto no Brasil como em Portugal – e dá-se como certa ser 
portuguesa a origem da dança – quem dizia ciranda, dizia roda infantil. O 
folguedo ciranda – que é constituído de canto e dança com o mesmo nome 
–, como roda de adultos – que não exclui a participação de crianças –, con-
siste numa brincadeira folclórica onde os participantes dão as mãos uns 
aos outros formando um círculo que avança para o centro e recua, como o 
fluxo das ondas do mar, enquanto se vai girando da direita para a esquer-
da, marcando o passo no pé esquerdo na batida do bombo, ao ritmo do 
mestre cirandeiro que entoa as cantigas acompanhado basicamente pelos 
sons do tarol, do bombo e do ganzá. Deve-se notar nos pátios e terrei-
ros onde as cirandas acontecem que, no mais das vezes, é muito comum 
que se formem rodas dentro da grande roda, de modo que os brincantes 
e apreciadores do folguedo aproveitem quase que inteiramente o espaço 
com essa verdadeira celebração da alegria. O brincante pode observar tam-
bém que algumas cirandas apresentam mestres e contramestres; e que as 
músicas podem ser executadas com outros instrumentos além daqueles 
citados anteriormente.
Num pequeno e substancioso livro que escreveu sobre o folclore, Carlos 
Rodrigues Brandão esmiuçou são só a distinção comumente aceita entre as 
chamadas “cultura erudita” e “cultura popular”, como também deixou claro 
que elas podem se interpenetrarem – o caso de Villa-Lobos é emblemático 
disso –; além desse ponto, ele destacou que as criações populares não são 
intocadas, elas têm uma dinâmica coletiva que garante sua sobrevivência 
através do tempo ainda que aqui e ali se percebam modificações em sua 
forma, modificações essas que não alteram a sua essência. As tradições são 
– e continuam sendo – em algum momento inventadas; e percorrem traje-
tórias que, embora não sejam imutáveis, fixam nelas elementos essenciais 
que propiciam o entendimento de suas origens.


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LIA DE ITAMARACÁ
Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu em 12 de janeiro de 1944, 
na Ilha de Itamaracá, que era então território subordinado a Igaraçu. 
Criança levada que adorava brincar nos sítios do lugar com os irmãos, des-
de cedo se viu interessada na musicalidade que chegava à ilha, sobretudo 
porque sua mãe, Matilde Maria, não era de perder a animação dos cocos de 
roda – folguedo popular bem mais antigo que a ciranda de adultos – que 
vez por outra ocorriam por lá. Ainda meninota Maria Madalena desco-
briu o balanço da ciranda e se encantou inteiramente por ela, passando 
a frequentar com assiduidade as rodas dos cirandeiros sentindo bastante 
afinidade com aquele ritmo.
Quando chegou à idade adulta Maria Madalena assumiu a persona de Lia de 
Itamaracá, a partir da ciranda “Quem me deu foi Lia”, que, embora tenha 
sido registrada pelo Mestre Antônio Baracho, diz ela que a melodia é de sua 
autoria. Com o nome artístico de Lia de Itamaracá, a cirandeira, uma mu-
lher negra e alta, que já chamava muita atenção por seu porte vistoso e im-
ponente, passou aos poucos a ser uma referência na condução e divulgação 
do folguedo ciranda participando dos festivais que a Prefeitura do Recife e o 
governo do estado de Pernambuco começaram a promover na década de 70 
como um veículo de atração turística; eventos esses que se prolongaram até 
meados da década de 80. Fora de sua terra natal, porém, Lia era tida apenas 
como um personagem folclórico que só existia naquela canção: “Essa ciran-
da quem me deu foi Lia/Que mora na Ilha de Itamaracá”.
Criança de infância humilde, a hoje consagrada Lia de Itamaracá sabe 
muito bem os maus bocados por que passou até conseguir lograr algum 
reconhecimento. Mulher, negra, pobre e semianalfabeta, ela desde mui-
to nova começou a trabalhar como empregada doméstica para ajudar 
sua mãe a sustentar a família. Ainda mocinha e já pensando na dificul-
dade que seria viver como artista, ela passou a labutar num restauran-
te onde cumpria duplo expediente: de dia ela era a cozinheira de mão 
cheia que preparava os pratos saborosos que chegavam às mesas dos 
frequentadores do Sargaço, de propriedade de Creuza Albuquerque; à 
noite, essa verdadeira e enorme sereia negra assumia a condição de diva, 


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e, portando um microfone, soltava a voz marcante convidando a todos 
para dançar ciranda. Era a sua hora de estrela.
Conforme ganhava visibilidade, Lia foi sendo procurada por uns e outros 
que queriam tirar proveito de sua fama. Foi assim que no ano de 1977 
ela gravou o LP intitulado Lia de Itamaracá – A rainha da ciranda (Tapecar 
Produções), pelo qual ela recebeu como pagamento apenas umas poucas 
cópias do disco. O episódio somou-se ao desencanto dela com a carreira que 
então se iniciava, porque compreendia que, como artista da chamada cultu-
ra popular, não encontrava muitos espaços onde pudesse se apresentar e só 
com a ciranda não teria como sobreviver, até porque, às vezes, nem recebia 
cachê quando fazia suas apresentações.
Com a experiência adquirida na cozinha do restaurante – e depois de 
tentar a sorte como guia turístico –, Lia não pensou duas vezes quando 
decidiu abordar um político de projeção e pedir a ele que lhe conseguis-
se um emprego. Feito o pedido, dentro de pouco tempo ela passou a ser 
merendeira de uma escola no bairro de Jaguaribe; e lá permaneceu até 
se aposentar, destinando às crianças para as quais preparava a merenda, 
todo o carinho e afeto que ela certamente destinaria também aos filhos 
que infelizmente não vingaram.
O emprego como merendeira não tirou de Lia o desejo de crescer mais como 
artista, de se apresentar para o povo, de levar a ciranda para os mais diver-
sos lugares. Mas as coisas não eram nada fáceis. Amargurada e se sentindo 
abandonada e desprestigiada, por um certo tempo Lia mergulhou suas má-
goas em copos de bebidas. A ocorrência do incêndio em sua casa, no final 
da década de 80, foi uma espécie de descida ao fundo do poço. Novamente 
ela precisou gastar mais uma parcela de sua dignidade recorrendo aos do-
nos do poder em busca de auxílio para tentar refazer sua vida. A casa que, 
na verdade, era um mocambo de taipa coberto com palha de coqueiro, foi 
reconstruída com tijolos noutro terreno, mas Lia continuou amargando 
suas desilusões artísticas. Ela não se conformava com o fato de não estar 
atuando como cantora e de não ter mais canais abertos para que pudesse 

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