Assim, o cultivo do café, que teve como área geográfica todo o Vale do rio Paraíba do Sul, ao longo dos



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Fazenda do Pocinho - Vassouras, RJ. MIS. 

Foto: A. Malta, 1917.

2

 O “Ciclo Cafeeiro Vale-paraibano” foi tão importante para o Brasil Império que, segundo Afonso de E. Taunay, nas páginas 233 e 234 da 



sua Pequena história do café no Brasil , ao se dizer simplesmente “o Vale”, todo o país sabia tratar-se do Vale-paraibano, ou do Vale do 

Paraíba ou, ainda, do Vale do rio Paraíba do Sul, o que também acontece nesse trabalho.

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 Região de Silveiras, Areias, São José do Barreiro e Bananal e, posteriormente, em sentido contrário às águas do Paraíba, chegando a 



Jacareí.

4

 São João Marcos, Barra Mansa, Piraí, Valença, Vassouras e Paraíba do Sul.



5

 Sobre as diretrizes de penetração do café na Província Fluminense e daí aos estados fronteiros, ver, entre outras, as matérias de Oliveira 

Vianna: “Distribuição geográfica do café no Estado do Rio” e de Sylvio Ferreira Rangel: “O café no Estado do Rio de Janeiro”, no “O Jornal” 

(idem nota 1).




16

No Vale do Paraíba, onde inúmeros e importantes afluentes formam imensa bacia hidrográfica, 

com 57.000 km² de área — sendo 39,6 % em terras fluminenses, 36,7% em terras mineiras 

e  23,7%  em  terras  paulistas

6

  —  o  café,  encontrando  condições  favoráveis  de  solo,  clima 



e topografia e abundância de terras disponíveis para plantação em larga escala, criou um 

extraordinário sistema social e financeiro, conhecido historicamente como o “Ciclo Econômico 

do Café” e que, em sentido amplo, ocorreu ao longo de todo o século XIX.

A ocupação do Vale-paraibano: correntes migratórias

Embora a ocupação no Vale paulista do Paraíba tenha ocorrido já nos séculos XVII e XVIII 

e, no Vale fluminense, a abertura de alguns antigos caminhos e a busca de metais preciosos 

tenham levado, no século XVIII, à instalação de pequenos núcleos urbanos como, por exemplo, 

os de Paraíba do Sul, São João Marcos e Resende, a ocupação das vertentes fluminense e 

mineira do Vale ocorreu com muito mais intensidade e rapidez, por conta do café, ao final do 

século XVIII e ao longo do XIX.

Nesse sentido, duas correntes migratórias se destacaram.  A primeira e mais numerosa ficou 

conhecida como a “1ª Invasão Mineira”, quando famílias inteiras vieram das “Gerais” plantar 

café no Vale do Paraíba, onde empregaram todo o arrojo, coragem e determinação, ao lado 

dos capitais amealhados com a mineração do ouro e contando com a mão-de-obra dos seus 

escravos que, com elas, participaram ativamente do ciclo que havia se exaurido. A segunda 

ocorreu  em  sentido  inverso,  isto  é,  do  litoral  para  a  serra.  Eram  portugueses,  comerciantes 

da corte, aristocratas, burocratas do Reino e do Império, entre outros, que, estimulados pelo 

governo através do fornecimento de sementes da rubiácea e de terras, vieram para a região 

plantar café.

O comércio do café

A  ocupação  do  solo  com  as  plantações  de  café  se  deu  de  forma  rápida  e  intensa,  daí  a 

expressão  “avalanche  cafeeira”.  Isto  se  tornou  particularmente  possível  com  o  crescente 

volume de café consumido no mundo, quando a característica de produto elegante, refinado 

e  de  luxo  cedeu  espaço  ao  hábito  de  tomar  café  como  estimulante.  O  hábito  difundiu-se 

e  a  expansão  do  consumo  foi  viabilizada  pelo  persistente  desenvolvimento  dos  mercados 

da Europa e, sobretudo, dos Estados Unidos, baseados em uma crescente classe operária 

— fruto da geração e da movimentação da riqueza proveniente da Revolução Industrial — que 

criou milhares de novos consumidores urbanos de café.

Nesse contexto, o governo vislumbrava no novo produto a obtenção das divisas imprescindíveis à 

importação dos produtos manufaturados e também o acesso aos “luxos” e “modernidades”, dos quais 

o país, em especial a corte, tanto necessitava. Isto, em substituição ao algodão e, principalmente, 

ao açúcar, que davam sinais de enfraquecimento comercial, entre outros motivos pela concorrência 

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 O homem e a serra, de Alberto Ribeiro Lamego, página 316.




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mais organizada e eficiente dos produtores americanos e das colônias européias do Caribe, em 

especial, Cuba.

O  Brasil  soube  aproveitar,  também,  a  desorganização  da  produção  ocorrida  em  São 

Domingos, até então o maior produtor mundial de café, em função de revoltas de escravos 

contra  os  fazendeiros,  havidas  a  partir  da  última  década  dos  setecentos.  Ocupando  o 

espaço comercial aberto, expandiu suas exportações, assumindo a liderança que ostentou 

por praticamente todo o século XIX, para ficar restrito ao horizonte temporal do “Ciclo” no 

Vale

7

.



Pretendia  também  o  Império  criar  uma  elite  agrária  no  Vale-paraibano  para  apoiá-lo  e 

se contrapor ao peso e à influência da elite nordestina dos senhores de engenho e dos 

estancieiros do Rio Grande do Sul, que não simpatizavam, em um primeiro momento, com 

o  poder  central  e  se  insurgiam  contra  os  impostos  cobrados,  cujo  retorno  não  se  fazia 

sentir nos locais de origem e muito mais privilegiava as despesas da Corte.

Principais períodos do ciclo cafeeiro e a introdução da pecuária leiteira

Ao longo dos cem anos de café no Vale, embora não haja unanimidade entre os historiadores, 

seria razoável dividir o ciclo em três períodos distintos. O primeiro — nascimento / crescimento 

— que iria de 1800 a 1840. O segundo, o apogeu, de 1840 a 1875 e, o terceiro, a partir 

daí  até  1900,  o  de  declínio  /  derrocada.  Naturalmente,  essas  datas  e  períodos  não  são 

estanques e, mesmo nos anos do declínio, por conta de um grande esforço de expansão 

da área plantada, o Vale ainda continuou produzindo crescente quantidade de café, o que, 

paradoxalmente, pela falta de capital, apressou a derrocada final, como será visto adiante.

Os períodos citados correspondem aos que alguns pesquisadores conceituam como: a geração 

dos “pais ricos”, os pioneiros, cuja preocupação era acumular riqueza, que empregavam em mais 

escravos, terras e cafezais; a dos “filhos nobres”, que usufruíram dessa riqueza consolidada e 

foram nobilitados e/ou condecorados, estudaram na Europa ou em escolas conceituadas como 

a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, talvez a mais expressiva 

geradora de homens públicos do país à época; e, finalmente, a dos “netos pobres”, que viram a 

riqueza escoar por entre os dedos e conviveram com a derrocada do ciclo.

Depois do café, as fazendas decadentes e/ou abandonadas do Vale e a paisagem característica 

dos “mares de morros”, agora desnudados de sua exuberante cobertura original de Mata Atlântica, 

viveram a “2

a

 Invasão Mineira”, na qual eles desceram com suas boiadas e ocuparam as terras 



baratas, quase doadas, para produzir leite, derivados e alguma carne

8

. Este “subciclo”, que 



ainda persiste em vários municípios do Vale do Paraíba, perdurou até meados do século 

XX, sendo depois substituído pela industrialização ou por outras atividades. 

7

 A discussão dos fatores que viabilizaram a penetração do café brasileiro no mercado externo e outras implicações vinculadas a este 



tema foi examinada em detalhes, entre outros, no capítulo 8 de A ferro e a fogo, de Warren Dean, e no capítulo 6 de Feitores do corpo, 

missionários da mente, de Rafael de Bivar Marquese.


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