Assim, o cultivo do café, que teve como área geográfica todo o Vale do rio Paraíba do Sul, ao longo dos



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Fazenda Santo Antônio. 

Sapucaia, RJ. Detalhe. 

Pintura de Nicolau 

Facchinetti, 1880. 

Martins, Carlos; Piccoli, 

Valéria. RJ:CCBB, 2004.




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Assim, antes de prosseguir no tema e tendo em vista a contribuição que este aspecto 

cultural teve na derrocada do ciclo, é interessante pinçar alguns outros trechos de 

Stanley Stein, pois através deles, pode-se perceber com nitidez a “filosofia” que 

presidia o pensamento dos cafeicultores fluminenses, vis-à-vis do Vale.

Os relatos a seguir, transcritos do Congresso Agrícola de 1878, realizado na Corte sob 

os auspícios do Ministro da Agricultura, correspondem à época em que os estudiosos 

do tema identificam como o início do declínio da economia cafeeira no Vale, sendo 

possível observar em suas falas que os problemas com o plantio e o cultivo do café já 

se faziam sentir há muito.



“Alguns  culpavam  (pelos  tempos  difíceis  que  estavam  vivendo)  a  escassez 

de  mão-de  obra  escrava;  outros,  a  incapacidade  de  utilização  de  modernos 

equipamentos  de  processamento  de  café;  e  outros,  ainda,  a  falta  de  crédito 

agrícola a juros baixos. Em meio às lágrimas, que variavam da autocrítica ao 

desespero,  apenas  algumas  vozes  chamaram  a  atenção  dos  fazendeiros  de 

Vassouras, assim como dos municípios vizinhos, sobre o estado decadente das 

terras e dos cafezais”.

20

Uma dessas vozes, a de um fazendeiro das proximidades de Paraíba do Sul, advertia 

enfaticamente:

“É  um  erro  imensamente  grave  supor  que  nossa  baixa  produção  se  origine 

somente  da  falta  de  trabalho  escravo  e  de  crédito”,  e,  adiante,  “Apenas 

aqueles que não pensam nem estudam, apenas aqueles que não seguem nem 

examinam atenta e intimamente nosso sistema de explorar a terra sem arte 

ou  ciência,  o  curso  de  nossa  agricultura,  ciclos  meteorológicos  e  mudanças 

climáticas por que passou o Brasil nos últimos 25 anos, apenas esses podem 

grosseiramente adotar tal posição”. 

21

Pondo de lado os mil e um comentários proferidos para justificar o esgotamento do solo, 

cafeeiros envelhecidos e a produção em declínio ou estacionária, enquanto se consumiam 

mais e mais reservas de florestas virgens, Manoel Ribeiro do Val, a voz mencionada, 

terminou o seu discurso para alguns fazendeiros no Congresso Agrícola dizendo:

“Apenas aqueles que estudam, plantam, mas que apesar disso não conseguiram 

obter  um  bom  resultado  nesses  últimos  25  anos,  podem  imaginar  os  efeitos 

negativos do nosso sistema de plantio”.

19

  O  capítulo  A  economia  em  declínio  do  livro  de  Stanley  Stein  (nota  8),  aborda  o  tema  em  foco  e  Warren  Dean,  no  livro 



mencionado na nota 7, aprofunda o exame das inadequadas técnicas agrícolas que causaram danos irreversíveis à vida dos 

cafezais.

20

 Todos os trechos entre aspas foram copiados dos respectivos autores, mantida a redação original e atualizada a ortografia, 



sendo o “grifo” do autor deste trabalho.

21

 Idem.




37

Para prosseguir produzindo dentro desse contexto, era despendido tempo, esforço 

e dinheiro na compra de novas e caras terras, com matas virgens para prepará-las 

à lavoura — iniciando novo ciclo de impropriedades — cujo retorno só iria ocorrer, 

no  mínimo,  seis  anos  depois  do  início  do  plantio.  Tais  fatores,  negativos,  foram 

acrescidos de outros: o alto preço do escravo, após a proibição do tráfego em 1850; 

pragas que volta e meia atacavam os cafezais; gastos excessivos com luxos, títulos 

de nobreza e demonstrações de status que permearam a vida dos “barões do café”; 

concorrência dos cafezais do “Oeste” paulista, que, com maior produtividade e custos 

mais baixos, aos poucos conquistavam o mercado.

Estabelecia-se um ciclo vicioso que levava os fazendeiros, descapitalizados e sem 

alternativas, à busca de novos financiamentos. Aumentavam-se, assim, as dívidas 

com capitalistas e bancos, que cobravam juros altos e a quem as propriedades eram 

hipotecadas como garantia dos empréstimos, quase sempre de difícil liquidação.

A Abolição, reduzindo fortemente de um dia para o outro o patrimônio do fazendeiro 

— no geral, a escravaria representava cerca de 40 a 50% dele — tornou a derrocada 

inevitável. Além disso, a Abolição ocorreu exatamente no início da colheita, gerando 

perda de grande parte da produção, que apodreceu nos cafezais

22

.

É bom lembrar que, independente de algumas poucas e, na maioria delas, fracassadas 



tentativas de introdução de imigrantes nos cafezais do Vale, o fazendeiro da região, 

em geral, era refratário a isso e tinha cristalizado a convicção, também altamente 

conservadora,  de  que  café  se  plantava  com  escravos.  Ao  contrário,  no  “Oeste” 

paulista,  em  um  primeiro  momento  concomitantemente  a  utilização  de  escravos, 

foi  sendo  introduzida  na  lavoura  a  mão-de-obra  livre  de  imigrantes,  em  especial 

italianos.

Os  recursos  remanescentes  do  Vale  foram  migrando  para  o  “Oeste”  paulista. 

Muitos  cafeicultores  deixaram  suas  fazendas  em  busca  do  novo  Eldorado  como, 

por exemplo, o coronel José Pereira Barreto que, junto com seu irmão, Luiz Pereira 

Barreto, outros irmãos e sobrinhos, formaram a célebre “Caravana Pereira Barreto”, 

que, partindo de Resende em 1876, de trem até Cachoeira Paulista — ponto final da 

Estrada de Ferro D. Pedro II na época — e depois a cavalo, em carroças e a pé, com 

pertences, mais de 60 escravos, animais e ferramentas, foram plantar café em terras 

adquiridas em Ribeirão Preto

23

.

22



 Em Escravos, senhores e café, Humberto F. Machado faz um detalhado estudo sobre a crise da cafeicultura escravista do Vale do 

Paraíba Fluminense de 1860 a 1888, e demonstra os impactos causados pela Abolição, o que pode ser estendida ao Vale.

23

 O historiador resendense José Eduardo de Oliveira Bruno é um estudioso da emigração do café para o “Oeste” paulista e, em especial, 



da Caravana Pereira Barreto.


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Pesquisa iconográfica realizada por Adriano Novaes e Fernando Pozzobon nos arquivos da Fundação Museu Imagem do Som - MIS, Instituto Moreira 

Salles - IMS, Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, Fundação Biblioteca Nacional - BB e Arquivo Nacional 

- AN, Arquivo do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - INEPAC e coleções particulares.

24

 Djalma Forjaz, historiador paulista, se aprofunda no tema discutindo o fator “imigração”, que teria sido a causa do sucesso da lavoura do café em 



São Paulo, como pode ser visto em trabalho publicado no informativo Conheça Limeira – 2003, emitido pela Secretaria Municipal de Cultura daquela 

cidade paulista; além do clássico de Celso Furtado, em Formação Econômica do Brasil, que aborda a existência de outros fatores importantes ao 

entendimento do assunto

.



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