As Capelas Imperfeitas do Mosteiro da Batalha. Arqueologia e história da sua construção



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 é defendido tanto pela configuração dos pilares que se

vêem entre as mesmas como por anterior obra do projectista sobre idêntica

21

 O autor propõe a implantação da abóbada a pouca altura do ápice das capelas radiantes. Porém,




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base geométrica, tendo dado lugar, com Mateus Fernandes, a uma torre lanter-

na de amplos janelões separados por poderosos contrafortes, perfurados por

caminho de ronda, que avançam sobre as abóbadas dos espaços entre cape-

las, numa retórica que remete para a arquitectura militar como acontece com

outros exemplos do período, de que basta mencionar a igreja do convento de

Tomar. Dela fazem parte os torreões junto às capelas n.ºs 1 e 7 que são caixas

de escada, ainda que tivessem vindo a ser tratados por Castilho. A abóbada

que Mateus Fernandes escolheu para esta sua reformulação do panteão, agora

de D. Manuel, era congénere das que construiu de raiz nas capelas radiantes,

conforme demonstram os respectivos arranques de duas nervuras apenas.

Do ponto de vista das funções funerárias a dar ao espaço, a análise

realizada permite, por um lado, verificar, nomeadamente pelos testemunhos

heráldicos, que D. Manuel destinou a D. Duarte a capela com mais imediata

visibilidade (n.º 4), devendo o próprio ser tumulado no octógono central, e, por

outro lado, deixa supor que D. Afonso V tomou medidas concretas, além do que

estipulou no testamento, para ficar sepultado numa das capelas radiantes.

A origem da arte do primeiro mestre das Capelas Imperfeitas é conheci-

da, podendo-se, mesmo assim, apreciar com algum espanto a solução que

escolheu de agregar várias capelas, como que desenvolvendo o tema da

cabeceira da igreja, não fora a preocupação de harmonização que lhe conhe-

cemos das obras de conclusão da igreja e do Claustro Real. Donde procede,

porém, o génio de Mateus Fernandes? Na vizinha Castela, a primeira abóba-

da estrelada de dois arranques, com dezasseis chaves secundárias, que co-

nhecemos é a da Capela do Condestável, em Burgos, projectada e construída

por Simão de Colónia, entre 1484 e 1494



22

. Para uma cobertura tão extensa,

talvez esta fosse a opção mais adequada. Tanto a solução de Caldas da

Rainha, datada entre 1495 e 1505



23

, como a de Burgos procedem de fontes

centro-europeias. Neste ponto, embatemos, uma vez mais, como aconteceu

com tantos outros investigadores, no problema da formação de Mateus

Fernandes, que desconhecemos por completo. O que aconteceu ao arquitecto

quando foi afastado do cargo de mestre de obras da Batalha e substituído por

João Rodrigues, em 1480?

24

 Terá Mateus Fernandes viajado para outro ou

parece-nos mais provável que Huguet tivesse preconizado um corpo central elevado, à maneira de

torre lanterna, solução pela qual optara já na Capela do Fundador.



22

 Núria Dalmases, “La España gótica”, in Historia del Arte de España (dir. Xavier Barral i Altet), s. l.,

Lunwerg Editores, 1996, p. 162.

23

 Ricardo Silva, Op. cit., p. 109-110, 124.

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outros estaleiros da Península ou fora dela como já sugeriu Rafael Moreira?



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As abóbadas de chaves pronunciadamente pendentes das capelas que

referenciamos com número par, únicas em Portugal e sem termo de compa-

ração na restante Península, torna esta questão mais premente.

Por se encontrar bem delimitado, o período de construção correspon-

dente ao reinado de D. João III não é objecto deste artigo. No entanto, não

podemos deixar de noticiar a descoberta da inscrição “1548 anos”

26

 (fig. 8)

que, sob a forma de grafito de cor negra, se lê no topo da caixa de escada

adjacente à tribuna, do lado sul. Faz parte das últimas fiadas de silhares des-

te período, abaixo das pedras dos restauros do séc. XIX. Admitindo que seja

da autoria de um obreiro, a data é tardia, se se tiver em conta que a decora-

ção exterior de contas e fechos é a mesma do projecto que, já antes, atribuí-

mos a João de Castilho



27

. Esta circunstância vem defender a ideia, por um

lado, de que um projecto podia ser continuado, sem quaisquer alterações

formais, muito tempo após a cessão de funções do respectivo projectista, e,

por outro lado, de que os grafitos de cor escura são datáveis do século XVI.

24

 Torre do Tombo, Chancelaria de D. Afonso V, lv. 32, fl. 111 (1480, Agosto, 15, Vila Viçosa); publi-

cado por GOMES, Saúl António, Fontes Históricas e Artísticas do Mosteiro e da Vila da Batalha

(Séculos XIV a XVII), vol. II, Lisboa, Instituto Português do Património Arquitectónico, 2002, p. 326.

25

 Rafael de Faria Domingues Moreira, “A arquitectura do Renascimento no sul de Portugal. A enco-

menda régia entre o moderno e o romano”, dissertação de doutoramento em história da arte apre-

sentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1991, p. 44-

45.

26

 A crítica paleográfica desta inscrição e a comprovação da respectiva autenticidade deve-se ao

Doutor Saul António Gomes, a quem aqui deixamos o nosso sincero agradecimento.

27

 Op. cit., p. 310-312.



Fig. 8 - Grafito de cor negra com a inscrição “1548 anos”.



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