As Aventuras de Sherlock Holmes



Baixar 0.6 Mb.
Pdf preview
Página5/5
Encontro13.07.2022
Tamanho0.6 Mb.
#24241
1   2   3   4   5
asaventurasdesherlockholmes
AS TIRAS ROXAS
— PARA O HOMEM que am a a arte por am or à arte, - observou Sherlock
Holm es, j ogando de lado o caderno de anúncios do Daily é m uitas vezes em sua
m anifestações m enos im portantes e m ais hum ildes que encontra o m aior prazer.
Fico contente de notar, Watson, que você
com preendeu isso tão bem que nessas narrativas de nossos casos que você teve a
bondade de redigir e, devo acrescentar, algum as vezes em belezar, tem dado
destaques não tanto às m uitas causes e j ulgam entos sensacionais em que tom ei
parte e sim àqueles incidentes que podem ter sido triviais em si m esm os, m as que
davam ensej o às faculdades de dedução e síntese lógica que Mo m inha
especialidade.
— No entanto — respondi, sorrindo — não consigo ser com pletam ente absolvido
da acusação de sensacionalism o im putada a m eus relatos.
— Errou, talvez, — com entou, pegando um a brasa com a tenaz e acendendo o
longo cachim bo de cerej eira que substituía o de barro quando estava em estado
de espírito discursivo e não m editativo — errou, talvez, em tentar dar vida e cor a
cada um a de suas declarações, em vez de se lim itar à tarefa de registrar o
raciocínio rígido de causa e efeito, que é realm ente o único aspecto notável de
tudo isso.
— Parece-m e que lhe tenho sem pre feito j ustiça nisso —
disse com algum a ftieza, pois m e sentia repelido pelo egoísm o que m ais de um a
vez observara com o sendo um fator im portante no caráter de m eu am igo.
— Não, não é egoísm o, nem vaidade — disse, respondendo, com o era seu
costum e, m eus pensam entos e não m inhas palavras. — Se exij o j ustiça para com
m inha arte, é porque é um a coisa im pessoal, um a coisa fora de m im m esm o. O
crim e é com um . A lógica é rara. Portanto, deve enfatizar a lógica e não o crim e.
Você rebaixou o que deveria ser um a série de conferências para um a série de
contos. Era um a m anhã fria no início da prim avera e estávam os sentados, após o
café da m anhã, em frente de um fogo crepitante na lareira da velha sala na Rua
Baker. Um a neblina espessa se enrolava entre as casas pardas e as j anelas em
frente em ergiam com o m anchas escuras e inform es das grinaldas am arelas e
pesadas. A lâm pada. estava acesa e refletia na toalha branca, reluzindo na


porcelana e nos m etais, pois a m esa ainda estava posta. Sherlock Holm es estivera
m uito quieto a m anhã toda, lendo os anúncios de todos os j ornais, até que afinal,
desistindo aparentem ente da busca, em ergira com o m uito bom hum or para m e
fazer um a preleção sobre m inhas falhas literárias.
— Ao m esm o tem po, — com entou, após um a pausa na qual ficou puxando por
seu longo cachim bo e olhando o fogo
— você não pode ser acusado de sensacionalism o, pois um a grande percentagem
desses casos em que você teve a bondade de se interessar não lida com crim es,
no sentido estritam ente legal. Aquele assunto em que tentei auxiliar o Rei da
Boêm ia, a experiência singular da Srta. Mary Sutherland, o problem a do hom em
com o lábio torcido e o incidente do nobre solteiro, foram todos assuntos que.
estão fora do alcance da lei. Mas ao evitar o sensacional, tem o que você tenha
caído no trivial.
— No final, talvez tenha sido, — respondi — m as acredito que os m étodos são
originais e interessantes.
— Bobagem , m eu caro am igo, o público, o grande público que nada observa, não
sabe distinguir um tecelão pelos seus dentes nem um com positor pelo seu polegar
esquerdo e não liga para as nuanças delicadas de análise e dedução! Mas, na
verdade, se você é trivial, não posso culpá-lo, pois os dias dos grandes casos j á
passaram . O hom em , pelo m enos o hom em crim inoso, perdeu toda a iniciativa e
a originalidade. Quanto ao m eu negócio particular, parece que está degenerando
em um a agência para reaver lápis perdidos e dar conselhos a m oças de
pensionato. Acho que cheguei ao fundo do barril, entretanto. Esse bilhete que
recebi hoj e de m anhã m arca o ponto zero. Leia! — Atirou um a folha de papel
am assado para m im .
Vinha. de Montague Place, datada da noite anterior, e dizia:
"Caro Sr. Holm es: Estou ansiosa para consultá-lo sobre se devo ou não aceitar
um a posição de governanta que m e foi oferecida. Irei vê-lo às dez e m eia
am anhã de m anhã, se não for inconveniente. Atenciosam ente, VIOLET
HUNTER".
— Conhece essa m oça? perguntei.
— Não.
— São dez e m eia.


— Sim , e não tenho dúvida que é ela que está tocando a cam painha.
— Talvez sej a m ais interessante do que você pensa. Lem bre-se que o caso da
pedra azul, que parecia ser apenas um capricho à prim eira vista, tom ou-se um a
investigação séria. Esse caso tam bém pode ser assim .
— Espero que sim ! Mas as dúvidas m uito em breve se dissiparão, pois, se não m e
engano, aqui está a pessoa em questão.
Enquanto falava, a porta se abrira e entrara um a m oça. Estava vestida
m odestam ente m as bem arrum ada e tinha um rosto alegre, alerta, cheio de
sardas e a m aneira enérgica de um a m ulher que tem de ganhar a vida.
— Perdoe-m e por incom odá-lo, — disse, dirigindo-se a m eu com panheiro, que
se erguera para cum prim entá-la —
m as passei por um a experiência m uito estranha e com o não tenho pais ou
parentes a quem posta recorrer, achei que talvez o senhor pudesse ter a bondade
de m e dizer o que fazer.
— Tenha a bondade de se sentar, Srta. Hunter. Terei m uito prazer em fazer o que
estiver a m eu alcance para aj udá-la.
Vi que Holm es ficara bem im pressionado com a m aneira e as palavras de sua
nova cliente. Exam inou-a detalhadam ente com o era seu costum e e se preparou,
de olhos fechados, j untando as pontas dos dedos, para ouvir sua história.
— Sou governanta há cinco anos — disse — da fam ília do Coronel Spence
Munro, m as há dois m eses o Coronel foi transferido Para Halifax na Nova
Escóda e levou seus filhos para a Am érica com ele, de m odo que fiquei sem
em prego. Anunciei nos j ornais e respondi a anúncios, m as sem sucesso.
Finalm ente o pouco dinheiro que econom izara tinha quase ido em bora e estava
desesperada sem saber o que fazer.
— Há um a agência m uito conhecida para governantas no West End cham ada
Westaway e lá ia m ais ou m enos um a vez por sem ana para ver se tinha
aparecido qualquer coisa que m e pudesse servir. Westaway era o nom e do dono
da agência, m as a gerente era a Srta. Stoper. Ela fica sentada em sua pequena
sala e as senhoras que estão procurando em prego esperam em um a ante-sala e
entram um a por um a quando ela consulta o livro de registro e vê se tem ~a coisa
que possa servir.
— Quando estive lá a sem ana passada, fui levada à


pequena sala, com o de costum e, m as vi que a Srta. Stoper não estava sozinha.
Um hom em im ensam ente gordo com rosto sorridente e papadas enorm es que
faziam dobras e dobras sobre o pescoço estava sentado a seu lado, com óculos
pendurados no nariz, olhando intensam ente cada m oça que entrava. Quando
entrei saltou na cadeira e virou rapidam ente para a Srta. Stoper:
— 'Essa serve", disse, "não poderia pedir coisa m elhor. Excelente! Excelente! "
Parecia m uito entusiasm ado e esfregava as m ãos com alegria. Parecia tão
satisfeito que era um prazer olhar para ele.
— 'Tstá procurando um lugar, senhorita?" perguntou.
— "Sim , senhor".
— "Com o governanta?"
— "Sim , senhor".
— "E quanto quer ganhar?"
— "Ganhava quatro libras por m ês com o Coronel Spence Munro".
— 'Que absurdo! Exploração... exploração!" exclam ou, j ogando as
niffos para o ar. "Com o se pode oferecer essa m iséria para um a m oça com
todos os seus atrativos e dons?"
— "Meus dons, senhor, são m enos que o senhor pensa", respondi. "Um
pouco de francês, um pouco de alem ão, m úsica, desenho.
. ."
— "Ora, ora!" exclam ou. Isso não interessa. A questão é, a senhora tem
ou não tem as m aneiras e com portam ento de um a dam a?
É isso, em resum o. Se não tem , não serve para criar um a criança que algum dia
pode desem penhar papel im portante na história do país. Mas se tem , então com o
pode um cavalheiro pedir que tenha a condescendência de aceitar um a som a tão
insignificante? Seu salário com igo, m inha senhora, com eçaria com cem libras
por ano .
— o senhor pode im aginar, Sr. Holm es, que para m im , necessitada com o estava,


essa oferta parecia boa dem ais para ser verdade. o cavalheiro, entretanto, vendo
talvez a expressão de dúvida em m eu rosto, abriu a carteira e tirou urna nota.
— "É tam bém m eu hábito", disse sorrindo de m aneira agradável até que os olhos
se tom aram m eras frestas entre as dobras de gordura do rosto, "fazer um
adiantam ento a m inhas m oças de m etade de seu salário, afim de que possam
enfrentar as despesas de viagem e de guarda-roupa".
— Pareceu-m e que nunca havia conhecido um hom em tão fascinante e com
tanta consideração. Com o j á estava devendo a m eus fornecedores, o
adiantam ento era m uito conveniente, no entanto havia qualquer coisa de esquisito
nessa transação, que m e fez querer saber um pouco m ais antes de m e
com prom eter totalm ente.
— "Posso perguntar onde o senhor m ora?"
— "Em Ham pshire. Um lugar rural encantador. As Falas Roxas, sete quilôm etros
além de Winchester. É lindo no cam po, cara senhora, e a casa é um a velha casa
de cam po".
— "E m inhas obrigações, senhor? Gostaria de saber quais são".
— "Um a criança. . . um garotinho de seis anos. Se pudesse vê-lo m atar baratas
com o chinelo! Bate! Bate! Bate!
Três m ortas em um piscar de olhos! Reclinou-se na cadeira e deu gargalhadas.
Fiquei um pouco espantada com esse tipo de diversão para um a criança, m as as
gargalhadas do pai m e fizeram achar que talvez estivesse brincando.
— "Então m eus deveres consistem exclusivam ente em tom ar conta de um
m enino?-— 'Não exclusivam ente, não exclusivam ente, m inha cara senhorita",
exclam ou. "Seus deveres serão, com o estou certo que seu bom senso lhe diria,
obedecer qualquer ordem que m inha esposa lhe der, desde que sej am sem pre
ordens que um a dana pode cum prir. Não vê nenhum problem a nisso, pois não?"
— "Terei prazer em ser útil".
— "Muito bem . Quanto a roupas, por exem plo. Tem os nossas m anias, sabe.
Som os excêntricos, m as de bom coração. Se lhe pedíssem os para usar qualquer
roupa que lhe déssem os, não faria obj eção a nosso pequeno capricho, pois não?"
— "Não", respondi, m uito espantada com suas palavras.


— 'Ou, para sentar aqui, ou sentar ali, isso não lhe seria ofensivo.
— 'Para cortar o cabelo bem curto antes de vir trabalhar pua
— Não acreditei no que ouvia. Com o deve ter observado, Sr. Holm es, m eus
cabelos são bastos e de um tom pouco com um de castanho. É m uito elogiado.
Nunca aceitaria a idéia de sacrificá-los, dessa m aneira.
— "Receio que isso sej a im possível respondi. Estava m e observando
ansiosam ente com seus olhinhos pequenos e vi que seu rosto escureceu com
m inhas palavras.
— "Sinto m uito, m as isso é essencial disse. "É um a m ania de m inha esposa o os
caprichos das senhoras, com o sabe, devem ser satisfeitos. Então não quer cortar
os cabelos?"
— 'Não, senhor, realm ente não posso", respondi com fiza.
— "Ali, m uito bem . É pena, porque em todos os aspectos a senhora nos servia
bem . Nesse caso, Srta. Stoper, é m elhor inspecionar m ais — algum as de m as
m oças".
— A gerente estivera tem po todo ocupada com papéis, sem dizer nenhum a
palavra, m as agora m e olhou com um a expressão tão aborrecida que perdera
um a bela com issão com m inha recusa.
— 'Quer que seu nom e continue em nosso livro?" perguntou.
— 'Por favor, Srta. Stoper".
— "Bem , realm ente, não adianta m uito, j á que recusa as m elhores ofertas desta
m aneira", disse asperam ente. 'Não pode esperar que façam os força para
conseguir outro cargo desses para a senhorita. Um m uito bom dia, Srta. Hunter".
Bateu na cam painha, sobre a m esa e o criado m e levou para fora da sala.
— Bem , Sr. Holm es, quando cheguei em casa e encontrei m uito pouco que
com er o duas ou três contas sobre a m eu, com ecei a m e perguntar se não tinha
feito urna tolice. Afinal de contas, se essa pessoas tinham m anias esquisitas o
esperavam ser obedecidas em questões tão extraordinárias, pelo m enos estavam
prontas a pagar por sua excentricidade. Muito poucas governantas na Inglaterra
ganham cem libras por ano. Além do m ais, de que m e valia m eu cabelo? Muitas
pessoas ficam m elhor de cabelos curtos e talvez eu fosse um a dela. No dia
seguinte estava inclinada a achar que com etera um erro, e no outro dia, fiquei


convencida disso. Já tinha quase vencido m eu orgulho e m e preparado para
voltar à
agência e perguntar se o lugar j á fora ocupado, quando recebida carta do próprio
cavalheiro. Está aqui com igo, e vou ler para o senhor:
"As Faias Roxas, perto de Winchester. PREZADA SRTA. HUNTER: A Srta.
Stoper teve a bondade de m e dar seu endereço e estou lhe escrevendo para
perguntar se por acaso a senhora reconsiderou sua decisão. Minha esposa está
ansiosa para que venha trabalhar para nós, pela descrição que lhe fiz. Estam os
dispostos a lhe pagar trinta libras por trim estre. Isto é, cento e vinte libras por ano,
para recom pensá-la por qualquer inconveniência que nossas excentricidades
possam lhe causar. Na realidade, não são difíceis de atender. Minha esposa gosta
m uito de um tom especial de azul-elétrico e gostaria que a senhora usasse um
vestido dessa cor dentro de casa, pela m anhã. Não é preciso gastar dinheiro
adquirindo um vestido, entretanto, pois j á
tem os um que pertenceu à m inha querida filha Alice (que agora reside em
Filadélfia), que acho que lhe serviria m uito bem . E quanto a sentar aqui ou ali, ou
se divertir da m aneira que lhe for indicada, isso não deve lhe causar nenhum
inconveniente. No que diz respeito a seus cabelos, é sem dúvida nenhum a um a
pena, especialm ente porque não pude deixar de reparar com o são lindos, em
nosso breve encontro, m as receio ter de ficar firm e nesse ponto e só espero que o
aum ento de salário a recom pense pela perda. Suas obrigações com a criança são
realm ente m uito leves. Tente m udar de idéia e irei esperá-la com o carro em
Winchester. Atenciosam ente,
JEPHRO RUCASTLE".
— Essa é a carta que acabei de receber, Sr. Holm es, e resolvi aceitar. Pensei,
entretanto, que antes de dar o últim o passo gostaria de subm eter a questão ao
senhor.
— Bem , Srta. Hunter, se j á resolveu, isso encerra o assunto — disse Holm es,
sorrindo.
— Mas não m e aconselha a recusar?
— Confesso que não é um lugar que gostaria de arranj ar para m inha irm ã, se a
tivesse.
— O que quer dizer isso tudo, Sr. Holm es?


— Ali, não tenho fatos suficientes. Não sei dizer. Talvez a senhora tenha algum a
opinião?
— Bem , achei que só poderia haver um a explicação. O
Sr. Rucastle parece ser m uito bondoso e ter bom gênio. É
possível que sua esposa sej a doente m ental e que ele queira esconder o fato para
que não sej a levada para algum asilo, e faça todas as suas vontades para evitar
que tenha um a crise.
— É realm ente um a solução possível. Na verdade, com o estão as coisas, é a
m ais provável. Mas de qualquer m aneira, não parece um a fam ília boa para um a
m oça.
— Mas o dinheiro, Sr. Holm es, o dinheiro!
— Sim , claro, o salário é m uito bom , bom dem ais. É isso que m e preocupa. por
que lhe pagariam cento e vinte libras por ano quando podem escolher quem
quiser e pagar som ente quarenta? Deve haver um a razão m uito forte atrás de
tudo isso.
— Achei que se lhe contasse as circunstãncias o senhor com preenderia m ais
tarde, se precisar de seu auxílio. Vou m e sentir m uito m elhor se souber que o
senhor está m e apoiando.
— Olhe, pode se sentir assim , e ir em paz. Asseguro-lhe que seu pequeno
problem a prom ete ser o m ais interessante que m e surgiu há m uitos m eses. Há
algum a coisa de m uito original em alguns aspectos. Se sentir dúvidas ou achar
que está em perigo...
— Perigo! Que perigo está antevendo?
Holm es sacudiu gravem ente a cabeça. — Deixaria de ser um perigo se
pudéssem os defini-lo — disse. — Mas a qualquer hora do dia ou da noite, um
telegram a m e levaria a seu lado para aj udá-la.
— Isso é o bastante. — Levantou-se prontam ente da cadeira sem um vestígio de
ansiedade no rosto. — Irei para Ham pshire sem nenhum a preocupação agora.
Vou escrever para o Sr. Rucastle im ediatam ente, sacrificar m eu pobre cabelo e
irei para Winchester am anhã — Despediu-se de nós com um as palavras de
agradecim ento para Holm es e saiu.
— Pelo m enos — eu disse, quando ouvim os seus passos firm es e rápidos na


escada — parece ser um a m oça que sabe se defender m uito bem .
— E precisa ser — disse Holm es, gravem ente. — Se não estou errado, terem os
notícias dela dentro de alguns dias. Não dem orou m uito para se realizar a
profecia de m eu am igo. Passaram -se quinze dias e m ultas vezes pensei nela,
im aginando em que estranho desvio da experiência hum ana essa m oça solitária
se encontraria. O salário fora do com um , as condições curiosas, as obrigações
tão leves... tudo levava a crer que se tratava de algum a coisa anorm al, em bora
fosse im possível para m im determ inar se era um a excentricidade ou um a tram a,
se o hom em era um filântropo ou um vilão. Quanto a Holm es, notei que m uitas
vezes ficava sentado por m eia hora, com um ar abstrato e testa franzida, m as
quando eu m encionava o assunto, tirava-o do pensam ento com um gesto da m ão.
— Fatos! Fatos! Fatos! — exclam ava, im paciente. — Não posso fazer tij olos sem
barro. — Mas sem pre acabava resm ungando que nenhum a irm ã dele j am ais
aceitaria um lugar desses.
O telegram a que recebem os eventualm ente chegou tarde da noite, j ustam ente
quando estava pensando em m e recolher e Holm es se preparava para um a
dessas pesquisas que duram toda a noite a que ele freqüentem ente se entregava,
quando o deixava inclinado sobre um a retorta e tubo de ensaio à noite e o
encontrava na m esm a posição quando descia para o café
da m anhã. Abriu o envelope am arelo e depois de olhar a m ensagem , estendeu-a
para m im .
— Vej a qual é o horário dos trens no guia Bradshaw —
disse, e voltou a suas experiências quím icas.
A m ensagem era breve e urgente:
"Por favor estej a no Hotel Black Swan em Winchester ao m eio-dia am anhã,"
dizia. "Venha! Estou desesperada. HUNTER"
— Você vai com igo? — perguntou Holm es, erguendo os olhos.
— Gostaria de ir.
— Vej a os trens, então.
— Há um trem às nove e m eia — disse, olhando o Bradshaw. — Chega em
Winchester às onze e trinta.
— Esse serve m uito bem . Talvez sej a m elhor adiar m inha análise das acetonas


para estar em boa form a de m anhã. Às onze horas da m anhã seguinte,
estávam os quase chegando à antiga capital inglesa. Holm es se afundara nos
j ornais a viagem inteira, m as depois de passarm os a fronteira de Ham pshire
j ogou-os de lado e com eçou a adm irar a paisagem . Era um dia de prim avera
ideal, um céu azul-claro, salpicado de pequenas nuvens brancas felpudas que
navegavam do Leste para o Oeste. O sol brilhava, m as havia um friozinho no ar
que despertava a energia de um hom em . por toda a parte nos cam pos, até as
colinas de Aldershot, os telhadinhos verm elhos e cinzentos das fazendas
espreitavam por entre o verde-claro da folhagem nova.
— Não está tudo fresquinho e lindo? — exclam ei com o entusiasm o de um
hom em acabado de sair da neblina da Rua Baker.
Mas Holm es sacudiu a cabeça, m uito sério.
— Você sabe, Watson, que é um a das m aldições de um cérebro com o o m eu
que vej o tudo com referência ao m eu assunto especial. Você olha para essas
casas espalhadas e fica im pressionado com sua beleza. Eu olho para elas e a
única idéia que m e ocorre é a sensação de seu isolam ento e da im punidade com
que os crim es podem ser com etidos dentro delas.
— Deus m eu! — exclam ei. — Quem iria associar a idéia de crim e com essas
velhas casas?
— Elas m e enchem de horror. Acredito firm em ente, Watson, baseado em m inha
experiência, que os m ais baixos e vis becos de Londres não apresentam um a
história de pecados m ais horríveis que os belos e sorridentes cam pos.
— Você m e apavora!
— Mas a razão é óbvia. A pressão da opinião pública pode conseguir na cidade o
que a lei não consegue. Não existe um beco tão vil que o grito de um a criança
torturada, ou a pancada dada por um bêbedo não provoquem a sim patia e
indignação dos vizinhos e o m ecanism o da j ustiça está
porto que um a palavra de queixa pode pôr em m ovim ento e só há um passo entre
o crim e e o banco dos réus. Mas olhe para essas casas isoladas, cada um a
cercada por seus cam pos, cheias na m aior parte dos pobres e ignorantes que m al
conhecem a lei. Pense nos atos de, crueldade dem oníaca, a m aldade escondida,
que continuam ano após ano nesses lugares, e ninguém fica ~ do. Se essa m oça
que nos pediu auxílio tivesse ido m orar em Winchester, não teria receio que nada
lhe acontecesse. São os sete quilôm etros de cam po que tom am a situação
perigosa. Se bem que parece que não foi am eaçada, ~ j unte.


Não. Se pode vir a Winchester para nos encontrar quer dizer que tem liberdade
de sair.
— Exatam ente. Tem sua liberdade.
— O que pode estar acontecendo, então? Pode sugerir algum a explicação?
— Im aginei sete explicações diferentes e todas se encaixam nos fatos, até onde
sabem os. Mas qual delas é
correta só pode ser determ inado com a inform ação nova que certam ente vam os
encontrar à nossa espera. Bem , lá está a torre da catedral e breve ouvirem os tudo
que a Srta. Hunter tem para nos contar.
O Hotel Black Swan é um a estalagem de grande fam a na Rua High, pertinho da
estação e lá encontram os a m oça esperando por nós. Alugara um a sala e o
alm oço nos aguardava sobre a m esa.
— Estou tão contente de terem vindo — disse com fervor.
— É tanta bondade sua. Mas não sei m esm o o que fazer. Seus conselhos são de
im enso valor para m im .
— Por favor conte-nos o que aconteceu.
— Vou contar e tenho de ser rápida, pois prom eti ao Sr. Rucastle que voltaria
antes das três horas. Consegui sua perm issão para vir à cidade hoj e de m anhã,
em bora ele não saiba o que vim fazer.
— Dê-nos tudo em sua devida ordem . — Holm es estendeu as longas pernas
m agras para o fogo e se preparou para ouvir.
— Em prim eiro lugar, devo dizer que, de m odo geral, não tenho sido m altratada
pelo Sr. e Sra. Rucastle. Faço apenas j ustiça em dizer isso. Mas não os
com preendo e estou preocupada com eles.
— O que não com preende?
— A razão de sua conduta. Mas vou contar exatam ente com o sucedeu. Quando
cheguei, o Sr. Rucastle foi m e encontrar e m e levou de carro a Faias Roxas. É,
com o ele dissera, lindam ente situada, m as não é bonita, é apenas urna casa
grande, quadiuda, pintada de branco, m as toda m anchada de m ofo e lim o. Tem
bastante terreno em volta, bosques de três lados e no quarto um cam po que desce
até a estrada de Southam pton, que faz um a curva a uns cem m etros; da porta da


frente. O terreno em frente pertence à
casa, m as os bosques em volta fazem parte da propriedade de Lorde Southerton.
Um grupo de faias roxas logo em frente da porta deu nom e à casa.
— Meu patrão m esm o m e levou até lá, am ável com o sem pre, e àquela noite m e
apresentou à sua esposa e à
criança. Não há verdade nenhum a, Sr. Holm es, na hipótese que nos pareceu
provável em seus aposentos na Rua Baker. A Sra. Rucastle não é louca. É urna
m ulher calada, pálida, m uito m ais j ovem que o m arido, acho que não tem m ais
que trinta anos, enquanto ele deve ter uns quarenta e cinco. Deduzi, pela
conversa, que estão casados cerca de sete anos, que ele era viúvo, e que sua
única filha do prim eiro m atrim ônio é a Ma que foi para a Filadélfia. O Sr.
Rucastle m e disse particularm ente que a razão por que ela os deixou é
que sentia um a aversão irracional pela m adrasta. Com o a filha não podia ter
m enos de vinte anos, im agino que sua posição j unto à j ovem esposa de seu pai
não pode ter sido m uito confortável.
— A Sra. Rucastle parecia desbotada m entalm ente quanto fisicam ente. Não m e
causou im pressão favorável nem desfavorável. Era com pletam ente apagada.
Era fácil de ver que se dedicava apaixonadam ente ao m arido e ao pequeno filho.
Seus olhos cinzento-claros iam de um a outro constantem ente, notando e
antecipando todos os seus desej os. Ele era m uito bondoso com ela, de sua
m aneira rude e expansiva, e em geral pareciam m uito felizes. No entanto, essa
m ulher tinha — algum desgosto secreto. Multas vezes ficava perdida em seus
pensam entos, com um a expressão profundam ente triste. Mais de um a vez a
surpreendi chorando. Pensei algum as vezes que fosse a disposição do filho que a
preocupava, pois nunca vi um a criança tão m im ada e de tão m au gênio. E
pequeno para a idade, com urna cabeça desproporcionalm ente grande. Parece
passar a vida inteira alternando entre acessos de fúria e intervalos de m au hum or.
Sua única idéia de divertim ento é torturar qualquer criatura m enor e m ais fraca e
dem onstra considerável talento em planej ar a captura de cam undongos,
passarinhos o insetos. Mas prefiro não falar dessa criança, Sr. Holm es, e na
verdade, não tem nada a ver com a m inha história.
— Gosto de todos os detalhes, — disse m eu am igo —
m esm o que pareçam irrelevantes.
— Procurarei não om itir nada im portante. A única coisa desagradável na casa,
que m e im pressionou logo, é a aparência e conduta dos em pregados. Há só dois,


um hom em e sua m ulher. Que é o nom e do hom em , é um hom em rude,
grosseiro, de cabelos e barba grisalhos, que cheira sem pre à
bebida. Duas vezes, desde que estou com elos, ficou com pletam ente bêbedo, o
Sr. Rucastle pareceu nem notar. Sua m ulher é m uito alta e forte, de cara
am arrada, tão calada quanto a Sra. Rucastle e m uito m enos am igável. Foi um
casal m uito desagradável, m as felizm ente passo a m aior parte do tem po no
quarto de crianças e em m eu próprio quarto, que ficam um ao lado do outro em
um canto do prédio.
— Nos prim eiros dois dias após chegar em Falo Roxas m inha vida correu
m ansam ente. No terceiro, a Sra. Rucastle desceu logo após o café da m anh11 e
m urm urou algum coisa no ouvido do m arido.
— "Ali, sim ", — disse ele, virando para m im , "a senhora, Srta. Hunter, por ter
atendido nonos caprichos e cortado seus cabelos. Garanto-lhe que não alterou em
nada sua, bela aparência. Vam os ver agora com o lhe assenta o vestido
azulelétrico. A senhora vai encontrá-lo estendido em sua cam a e se quiser ter a
bondade de vesti-lo, ficarem os am bos m uito gratos .
— O vestido que encontrei à m inha espera era de um tom peculiar de azul. A
fazenda era excelente, m as m ostrava sinais evidentes de j á ter sido usado antes.
Não podia servir m elhor se tivesse sido feito para m im .
O Sr. e a Sra. Rucastle expressaram um a adm iração, quando m e viram , que m e
pareceu m uito exagerada, de tão veem ente. Estavam m e esperando no salão,
que é m uito grande, estendendo-se por toda a frente da casa, com três grandes
j anelas que vão até o chão. Um a cadeira estava colocada perto da j anela do
m eio, com as costas viradas para ela. Pediram que sentasse nela e então o Sr.
Rucastle, passeando de um lado para o outro, com eçou a contar as histórias m ais
engraçadas que j am ais ouvira. Não podem im aginar com o era côm ico e ri até
ficar cansada. A Sra. Rucastle, entretanto, que não possui senso hum orístico,
evidentem ente, nem sequer sorriu e ficou sentada com as m ãos no colo e um a
expressão triste e ansiosa. Após cerca de um a hora, o Sr. Rucastle subitam ente
com entou que estava na hora de com eçar os deveres do dia e que eu podia trocar
de roupa e ir ter com o pequeno Edward no quarto de crianças.
— Dois dias depois a m esm a coisa aconteceu em circunstâncias exatam ente
idênticas. Novam ente troquei de vestido, novam ente sentei em frente da j anela,
m as de costas, e novam ente ri às gargalhadas das histórias engraçadas que m eu
patrão contava. Depois deu-m e um rom ance de capa am arela e, `virando m inha
cadeira um pouco de lado para que m inha própria som bra não caísse sobre a


página, pedium e que lesse em voz alta. lá por uns dez m inutos, com eçando no
m eio de um capítulo e de repente, no m eio de um a frase, m andou que eu parasse
e fosse m udar de roupa.
— O senhor bem pode im aginar, Sr. Holm es, com o fiquei curiosa quanto ao
significado dessa encenação. Tinham sem pre o cuidado, observei, de que eu não
ficasse de frente para a j anela e fiquei obcecada pelo desej o de ver o que estava
acontecendo nas m inhas costas. A princípio parecia im possível, m as logo
descobri um a m aneira. Meu espelho de m ão havia quebrado, então tive a idéia
feliz de esconder um pedacinho no lenço. Na próxim a ocasião, no m eio de um a
gargalhada, levei o lenço aos olhos e consegui, com j eito, ver o que estava atrás
de m im . Confesso que fiquei desapontada. Não vi nada.
— Pelo m enos, essa foi m inha prim eira im pressão. Ao olhar de novo, entretanto,
percebi que havia um hom em parado na estrada de Southam pton, um hom em
pequeno, barbado, vestido de cinzento, que parecia olhar em m inha direção. A
estrada é m uito usada e geralm ente há alguém passando por ela. Mas esse
hom em estava encostado na grade que cercava nosso cam po e olhando com toda
a atenção. Abaixei o lenço e lancei um olhar para a Sra. Rucastle, vendo seus
olhos fixos em m im atentam ente. Não falou nada, m as tenho certeza que
adivinhou que tinha um espelho na m ão e vira o que estava atrás de m im .
Levantouse im ediatam ente.
— "Há um hom em im pertinente na estrada que está
olhando para a Srta. Hunter".
— "Algum am igo seu, Srta. Hunter' ele perguntou.
— Não. Não conheço ninguém nessa região".
— "Ora! Que im pertinência! Por favor, vire o faça sinal para ele ir em bora .
— "Não seria m elhor ignorá-lo?"
— "Não, não, ele ficaria por aí para sem pre. Por favor, vire e faça um sinal com
a m ão".
— Fiz o que m andava e ao m esm o tem po a Sra. Rucastle fechou a cortina. Isso
foi há um a sem ana e desde então não sentei m ais à j anela nem usei o vestido
azul, nem vi o hom em na estrada.
— Tenha a bondade de continuar — disse Holm es. — Sua narrativa prom ete ser


m uito interessante.
— Receio que sej a um pouco desorganizada e talvez não haj a m uita relação
entre os diferentes incidentes de que vou falar. No prim eiro dia que passei em
Faias Roxas o Sr. Rucastle m e levou a um pequeno anexo que fica perto da porta
da cozinha. Ao nos aproxim arm os, ouvi o retinir agudo de um a corrente e o som
de algum grande anim al se m exendo.
— 'Olhe aqui!" disse o Sr. Rucastle, m ostrando-m e um a fresta entre de duas
tábuas. "Não é um a beleza?"
— Olhei e vi dois olhos brilhantes e um vulto vago encolhido na escuridão.
— "Não tenha m edo", disse m eu patrão, rindo de m eu sobressalto.
Há apenas Carlo, m eu cão m astim . Digo que é m eu, m as na verdade o velho
Toller é a única pessoa que pode fazer qualquer coisa com ele. Só com e um a vez
por dia, e m uito pouco assim m esm o, de m odo que está sem pre fam into. Toller o
solta todas as noites e Deus aj ude o invasor que ele pegue com seus dentes. Por
favor, nunca, por razão nenhum a, ponha o pé fora da porta à noite, pois sua vida
não valerá nada".
— O aviso não foi à toa, pois duas noites depois estava olhando pela j anela de
m eu quarto aproxim adam ente às duas horas da m anhã. Era um a noite linda de
luar e o gram ado em frente da casa estava prateado e quase tão vivo quanto de
dia. Estava enlevada pela beleza pacífica da cena quando percebi que algum a
coisa se m ovia sob a som bra das faias roxas. Quando em ergiu no luar vi o que
era. Era um cão gigantesco, do tam anho de um bezerro, castanho-am arelado, de
m andíbulas pendentes, focinho preto e ossos im ensos quase perfurando a carne.
Atravessou lentam ente o gram ado e desapareceu nas som bras do outro lado.
Essa sentinela horrivelm ente silenciosa gelou m eu sangue nas veias, o que acho
que nenhum ladrão poderia fazer.
— E agora tenho urna experiência m uito estranha a lhes contar. Com o sabem ,
cortei o cabelo em Londres e coloqueio, em um grande cacho, no fundo da m ala.
Um a noite, depois da criança ir para a cam a, com ecei a m e distrair exam inando
a m obília de m eu quarto.
Havia um a velha côm oda no quarto, com as duas gavetas de cim a vazias o
abertas e a de baixo trancada. Já enchera as duas prim eiras com m inha roupa e
ainda tinha um as coisas para guardar. Fiquei, naturalm ente, irritada por não
poder usar a terceira gaveta. Ocorreu-m e a idéia de que poderia ter sido
trancada por m ero acaso, então peguei m inhas chaves e tentei abrir a gaveta.


Logo a prim eira serviu perfeitam ente e abri-a. Só havia um a coisa dentro, m as
tenho certeza que nunca poderão adivinhar o que era. O m eu cacho de cabelo.
— Peguei-o e exam inei-o. Era da m esm a cor peculiar e da m esm a espessura.
Mas então vi com o era im possível. Com o poderia m eu cabelo estar trancado
naquela gaveta? Com m ãos trêm ulas, abri m inha inala, tirei o que estava dentro e

no fundo estava o m eu cacho. Coloquei os dois j untos e garanto-lhes que eram
idênticos. Não é extraordinário? Por m ais que pensasse, não consegui entender o
que significava. Coloquei o cacho estranho de volta na gaveta e não disse nada
aos Rucastles, pois achei que fora errado de m inha parte abrir um a gaveta que
eles haviam fechado.
— Sou por natureza m uito observadora, com o deve ter notado, Sr. Holm es, e logo
tinha m entalm ente um a idéia clara da disposição de todos os aposentos da casa.
Havia um a ala, entretanto, que parecia não ser habitada. Havia um a porta em
frente da porta dos aposentos dos Tollers que dava para essa ala, m as estava
sem pre trancada. Um dia, entretanto, quando eu subia as escadas, encontrei o Sr.
Rucastle saindo dessa porta com as chaves na m ão e um a expressão no rosto que
o tom ava m uito diferente do hom em gordo e j ovial a quem estava acostum ada.
As faces estavam verm elhas, a testa franzida de raiva e as veias salientes.
Trancou a porta e passou por m im apressadam ente sem dizer um a palavra, nem
olhar para m im .
— Isso despertou m inha curiosidade, e quando passeava com a criança, fui até o
lado de onde podia ver as j anelas dessa parte da casa. Havia quatro em fileira,
três das quais estavam som ente suj as, m as a quarta estava tapada com tábuas de
m adeira. Todas estavam evidentem ente desertas. Enquanto passeava de um lado
para o outro, o Sr. Rucastle chegou até m im , alegre e j ovial com o sem pre.
— "Ali!" disse, "não m e j ulgues rude se passei pela senhora sem dizer nenhum a
palavra. Estava preocupado com assuntos de negócios".
— Garanti que não ficara ofendida. "Por falar nisso", disse, "parece que tem
m uitos quartos vazios lá em cim a e um deles tem um aj anela coberta de
m adeira".
— "Meu hobby é fotografia", respondeu. "Lá é m inha càrnara escura. Mas, m eu
Deus! Que m oça observadora!
Quem podia im aginar isso? Quem podia im aginar isso?" Falou em tom
brincalhão, m as não havia nada de brincalhão em seus olhos ao olhar para m im .


Só vi suspeita e irritação em seu olhar.
— Bem , Sr. Holm es, do m om ento em que com preendi que havia algum a coisa
naqueles quartos que eu não devia ver, fiquei ansiosa para revistá-los. Não era só
curiosidade, em bora sej a m uito curiosa. Era m ás com o que um de obrigação,
um sentim ento de que algum a coisa boa poderia acontecer se conseguisse entrar
naqueles quartos. Fala-se m uito do instinto fem inino. Talvez fosse o instinto
fem inino que m e fazia sentir isso. Sej a com o for ele era o que sentia. E
fiquei atenta a qualquer possibilidade de atravessar a porta proibida.
— Foi ontem que tive essa chance. Devo dizer-lhes que além do Sr. Rucastle,
tanto Toller quanto sua m ulher têm algum a coisa a fazer nesses quartos desertos
e urna vez o vi sair com um a sacola preta grande. Ultim am ente ele tem bebido
m uito e ontem à tarde estava com pletam ente bêbedo. Quando subi, lá estava a
chave na porta. Não tenho dúvida nenhum a que foi ele que a deixou lá. O Sr. e a
Sra. Rucastle estavam lá em baixo e a criança com eles, portanto a oportunidade
era ótim a. Virei a chave devagar, abri a porta o entrei.
— Havia um pequeno corredor à m inha frente, sem papel nas paredes e sem
tapete, que virava à direita na outra extrem idade. Nesse trecho havia três portas;
a prim eira e a terceira estavam abertas. Davam para quartos vazios,
em poeirados, um com duas j anelas e o outro com um a, tão suj as que a luz da
tarde m al penetrava. A porta do m eio estava fechada e atravessada por um a
barra de ferro larga, corri um cadeado preso a um anel de ferro fixo na parede
em um a ponta e am arrada com um a grossa corda na outra. A porta tam bém
estava trancada. e não havia sinal de chave. Essa porta fortificada correspondia
claram ente à j anela coberta de tábuas, m as pude ver pelo pouco de luz que
escapava por baixo que o quarto não estava totalm ente às escuras. Enquanto
estava parada olhando essa porta sinistra e pensando em que segredo esconderia,
ouvi de repente o som de passos dentro do quarto e vi um a som bra passar de um
lado para o outro, delineada pela luz debaixo da porta. Um m edo louco e
irracional se apossou de m im , Sr. Holm es. Meus nervos tensos não agüentaram
m ais, virei e corri com o se um a m ão horrenda estivesse atrás de m im , agarrando
a saia de m eu vestido. Corri pelo corredor, atravessei a porta e caí nos braços do
Sr. Rucastle, que estava do lado de fora.
— 'Então", disse com um sorriso, "era a senhora. Achei que devia ser quando vi a
porta aberta".
— 'Estou com tanto m edo!" disse ofegante.
— Minha cara senhora! Minha cara senhora! " Não im agina com o sua voz era


suave e acariciante. "O que lhe deu tanto m edo, m inha cara?"
— Mas a voz era m acia dem ais. Ele exagerou. Fiquei prevenida contra
— "Fiz a tolice de entrar nessa ala deserta", respondi.
"Estava tudo tão escuro, tão calado que fiquei com m odo e saí correndo. Olhe,
com o é solitário aí dentro! "
— "Foi só isso?" disse, olhando-m e atentam ente.
— 'Por que pergunta?"
— "Por que acha que tranco esta porta?"
— "Claro que não sei".
— 'Para evitar a entrada de pessoas que não têm nada a fazer lá dentro.
Entende?" Sorria ainda da m aneira m ais am ável.
— "Estou certa de que se soubesse. . ."
— "Bem , agora sabe. E se ousar atravessar essa porta de novo. . ." em um
segundo o sorriso se transform ou em um a careta de raiva e m e olhou com a cara
de dem ônio, "eu a j ogo ao m astim ".
— Fiquei tão aterrorizada que não sei o que fiz. Suponho que passei por ele
correndo e fui para m eu quarto. Não m e lem bro de nada até m e encontrar na
cam a, trem endo dos pés à cabeça. Então pensei no senhor, Sr. Holm es. Niro
podia continuar a m orar lá sem algum a aj uda. Estava com m edo da casa, do
hom em , da m ulher, dos em pregados, até da criança. Todos m e pareciam
horríveis. Se conseguisse trazer o senhor aqui, tudo estaria bem . Naturalm ente,
podia ter fugido da casa, m as m inha curiosidade era tão forte quanto m eu m edo.
Tom ei logo um a decisão. Ia lhe m andar um telegram a. Coloquei o chapéu e o
casaco, fui até o telégrafo, que fica quase a um quilôm etro da casa e voltei m e
sentindo m uito m elhor. Senti um a dúvida terrível quando m e aproxim ei da porta
de que o cão podia estar solto, m as m e lem brei que Toller havia bebido tanto que
estava inconsciente e sabia que ele era o único que tinha algum a influência sobre
a criatura selvagem , ou que se aventuraria a soltá-la. Entrei sem que nada m e
acontecesse e fiquei acordada m etade da noite de alegria, sabendo que ia vê-lo.
Não tive problem a em obter perm issão para vir a Winchester hoj e de m anhã,
m as tenho de voltar antes das três, pois o Sr. e a Sra. Rucastle vão sair para fazer
um a visita e só voltarão à noite e tenho de tom ar conta da criança. Essas são as


m inhas aventuras, Sr. Holm es, e ficaria m uito grata se m e dissesse o que tudo
isso significa e, acim a de tudo, o que devo fazer.
Holm es e eu ouvíram os essa extraordinária história estupefatos. Meu am igo se
levantou e andou de um lado para o outro com as m ãos nos bolsos e um a
expressão profundam ente grave.
— Toller ainda está bêbedo? — perguntou.
— Sim . Ouvi a m ulher dele dizer à Sra. Rucastle que não podia fazer nada com
ele.
— Isso é bom . E os Rucastles vão sair hoj e à tarde?
— Sim .
— Existe um porão com um a boa fechadura?
— Sim , a adega.
— A senhora agiu, aparentem ente, em tudo isso com o um a m oça m uito coraj osa
e sensata, Srta. Hunter. Acha que pode realizar m ais um a proeza? Não lhe pediria
isso se não achasse que é um a m ulher excepcional.
— Posso tentar. O que é?
— Irem os a Faias Roxas às sete horas, m eu am igo e eu. Os Rucastles j á teria
saído a essa hora e Toller estará, espero, incapacitado. Só resta a Sra. Toller, que
poderá dar o alarm a. Se pudesse m andá-la à adega, sob algum pretexto, e
trancá-la à chave facilitaria im ensam ente tudo.
— Isto posso fazer.
— Excelente! Exam inarem os cuidadosam ente o assunto. Naturalm ente, só há
um a explicação adm issível. A senhora foi levada lá para se fazer passar por
outra pessoa, e essa pessoa está presa no quarto trancado. Isso é óbvio. E quanto à
identidade da prisioneira, não tenho dúvidas de que se trata da filha, Srta. Alice
Rucastle, que, se estou bem lem brado, diziam tinha ido para a Am érica. A
senhora foi escolhida, evidentem ente, porque se parecia com ela em altura,
corpo e cor de cabelo. O dela fora cortado, provavelm ente por algum a doença e
portanto o seu tinha de ser cortado tam bém . Por um acaso a senhora encontrou o
cacho de cabelo dela. O
hom em na estrada era, sem dúvida, um am igo dela, talvez seu noivo e


certam ente com o a senhora usava o vestido da m oça e se parecia tanto com ela,
ficou convencido pelas suas gargalhadas, quando a via, e depois pelo seu gesto,
que a Srta. Rucastle estava perfeitam ente feliz e que não m ais desej ava suas
atenções. O cão é solto à noite para evitar que ele tente se com unicar com ela.
Até aí está tudo claro. O que há de m ais sério nesse caso é o gênio da criança.
— Que diabos tem isso a ver com o resto? — exclam ei.
— Meu caro Watson, você com o m édico está sem pre procurando entender as
tendências de um a criança pelo estudo dos pais. Não vê que o inverso é
igualm ente válido?
Freqüentem ente com eço a com preender a personalidade dos pais pelo estudo de
seus filhos. O gênio dessa criança é
incrivelm ente m au e cruel, um a crueldade sem razão e quer herde isso de seu
sorridente pai, com o suspeito, ou de sua m ãe, isso é um m au agouro para a pobre
m oça que está em suas m ãos.
—'Estou certa que o senhor tem razão, Sr. Holm es —
exclam ou nossa cliente. — Estou m e lem brando de m il coisas que confirm am
que o senhor encontrou a solução. Oh, não devem os perder um segundo em levar
algum auxílio a essa pobre criatura.
— Devem os ser circunspectos, pois estam os lidando com um hom em m uito
astuto. Não podem os fazer nada até às sete horas. Aí estarem os lá com a senhora
e não levará m uito tem po para resolverm os o m istério.
Cum prim os nossa palavra, pois às sete em ponto chegam os a Faias Roxas,
deixando o carro em um a hospedaria na estrada. O grupo de árvores, com suas
folhas escuras brilhando com o m etal polido à luz do sol poente, era suficiente
para distinguir a casa, m esm o que a Srta. Hunter não estivesse na porta, sorrindo.
— Conseguiu? — perguntou Holm es.
Pancadas altas vieram de algum lugar em baixo da casa.
— É a Sra. Toller presa na adega — disse, — O m arido está roncando no chão da
cozinha. Aqui estão as chaves dele, que são duplicatas das do Sr. Rucastle.
— A senhora trabalhou m uito bem m esm o! — disse Holm es, com entusiasm o.
— Agora nos m ostre o cam inho e logo verem os o final desse negócio negro.


Subim os as escadas, abrim os a porta, seguim os um corredor e nos encontram os
em frente da porta que a Srta. Hunter descrevera. Holm es cortou a corda grossa
e retirou a barra. Experim entou, então, várias chaves, sem sucesso. Nenhum som
vinha de dentro do quarto e o silêncio fez Holm es franzir a testa.
— Espero que não sej a tarde dem ais — disse. — Acho, Srta. Hunter, que é
m elhor entrarm os sem a senhora. Vam os, Watson, ponha o om bro contra a porta
e verem os se não conseguim os entrar.
Era um a porta velha e frágil e cedeu aos nossos esforços unidos. Juntos entram os
no quarto. Estava vazio. Não havia nenhum a m obília, exceto um colchão de
palha, um a pequena m esa e um a cesta cheia de roupas. Um a clarabóia no teto
estava aberta e a prisioneira fugira.
— Houve algum a coisa crim inosa aqui — disse Holm es.
— O vilão adivinhou as intenções da Srta. Hunter e carregou sua vítim a.
— Mas com o?
— Pela clarabóia. Logo saberem os com o conseguiu. —
Segurou-se nas bordas da abertura e olhou o telhado. — Ali, sim — exclam ou. —
Aqui está um a escada, encostada na beira do telhado. Foi assim que a levou.
— Mas é im possível — disse a Srta. Hunter. — Essa escada não estava aí quando
os Rucastles saíram .
— Ele deve ter voltado então. Estou lhe dizendo que é um hom em esperto e
perigoso. Não ficaria surpreso se esses passos que estou ouvindo na escada
fossem dele. Acho, Watson, que seria aconselhável você ficar de pistola em
punho.
Mal acabara de falar, quando surgiu um hom em à porta do quarto, um hom em
m uito gordo com um cacete na m ão. A Srta. Hunter gritou e se encolheu j unto à
parede quando o viu, m as Sherlock Holm es avançou e enfretou-O.
— Vilão! — disse. — Onde está sua filha?
O hom em gordo olhou em volta e depois para a clarabóia aberta.
— Eu é que tenho de perguntar isso! — berrou. —
Ladrões! Espiões e ladrões! Peguei vocês, não é? Estão em m eu poder. Tornarei


conta de vocós! — Virou de costas e desceu as escadas o m ais rápido possível.
— Foi buscar o cão! — exclam ou a Srta. Hunter.
— Tenho m eu revólver — eu disse.
— É m elhor fechar a porta da frente — disse Holm es e descem os as escadas
correndo. Mal chegam os quando ouvim os os latidos do cio e em da um grito de
agonia, com o ruído horrível de dentes triturando, que arrepiava de ouvir. Um
hom em idoso de cara verm elha e m em bros trêm ulos saiu cam baleando de um a
porta lateral.
— Meu Deus! — gritou. — Alguém . soltou o cão. Ele não com e há dois dias.
Depressa, depressa, ou será tarde dem ais!
Holm es e eu saím os correndo para casa, com Toller correndo atrás. Lá estava o
im enso e fam into anim al com o focinho preto afundado na garganta de Rucastle,
enquanto este se retorcia no chão e gritava. Chegando perto, estourei seus m iolos
e caiu de lado com os dentes brancos ainda agarrados nas dobras do pescoço do
vilão. Com m uito esforço, separam os os dois e carregam os o hom em
horrivelm ente estraçalhado m as ainda vivo para dentro de casa, colocando-o no
sofá da sala. Despacham os o Toller repentinam ente sóbrio para dar a notícia à
sua m ulher e fiz o que podia para aliviar sua dor. Estávam os todos em seu redor
quando a porta se abriu e um a m ulher alta e m agra entrou na sala.
— Sra. Toller! — exclam ou a Srta. Hunter.
— Sim , senhora. O Sr. Rucastle m e soltou quando voltou, antes de subir. Ali,
senhora, é urna pena que não tivesse m e dito o que estava indo, pois eu lhe diria
que todo seu esforço seria em vão.
— Ah! — disse Holm es, olhando atentam ente para ela. É
claro que a Sra. Toller sabe m ais sobre isso que qualquer outra pessoa.
— Sim , senhor, sei, e estou pronta a contar tudo que sei.
— Então, por favor, sente-se e fale, pois há vários pontos em que devo confessar
que ainda estou no escuro.
— Vou deixar tudo claro para o senhor — respondeu — e j á teria feito isso se
tivesse conseguido sair do porão. Se houver um inquérito policial sobre isso,
lem bre-se que fiquei de seu lado e que era am iga da Srta. Alice.


— Ela nunca se sentiu feliz em casa, a Srta. Alice, desde que o pai se casou
novam ente. Ela ficou m eio abandonada e não podia dar opinião em coisa
algum a. Mas só ficou m uito ruim para ela depois que conheceu o Sr. Fowler em
casa de um a am iga. Pelo que pude saber, a Srta. Alice tinha herdado algum a
coisa diretam ente, m as era tão quieta e paciente que nunca falava nisso e
deixava tudo nas m ãos do Sr. Rucastle. Ele sabia que estava seguro, m as quando
surgiu a chance de um m arido, que pediria tudo a que tinha direito por lei, então o
pai achou que estava na hora de acabar com tudo isso. Queria que ela assinasse
um papel de form a que, casasse ou rifo, ele poderia usar o dinheiro dela. Quando
ela recusou, ficou atrás dela até que ela teve um a febre cerebral e durante seis
sem anas ficou entre a vida e a m orte. Finalm ente m elhorou, m agra com o um
esqueleto, e com o lindo cabelo cortado rente. Mas isso não alterou o rapaz que
gostava dela e continuou fiel com o poucos hom ens são.
— Ah, — disse Holm es — acho que o que teve a bondade de nos contar
esclarece bem as coisas e posso deduzir o resto. O Sr. Rucastle, presum o,
recorreu então a essa form a de prisão?
— Sim , senhor.
— E trouxe a Srta. Hunter de Londres para se livrar da persistência do Sr. Fowler.
— Foi isso m esm o, senhor.
— Mas o Sr. Fowler, sendo perseverante, com o todos os hom ens do m ar devem
ser, cercou a casa e, travando conhecim ento com a senhora, conseguiu com
certos argum entos, m etálicos ou não, convencê-la que seus interesses eram
iguais aos dele.
— O Sr. Fowler era um cavalheiro de palavras bondosas e m ão aberta — disse a
Srta. Toller serenam ente.
— E dessa form a conseguiu que seu m arido tivesse bastante bebidas à niffo e que
um a longa escada estivesse pronta assim que seu patrão saiu.
— O senhor está certo, senhor, foi assim m esm o que aconteceu.
— Estou certo que lhe devem os um pedido de desculpas, Sra. Toller -disse
Holm es. — A senhora certam ente esclareceu tudo que nos perturbava. E aí vem
o m édico do Condado e a Sra. Rucastle e acho, Watson, que é m elhor levarm os a
Srta. Hunter para Winchester, pois parece que nosso ZOCUS Standí no m om ento
é altam ente duvidoso. E assim foi solucionado o m istério da casa sinistra com as
faias roxas em frente. O Sr. Rucastle sobreviveu, m as ficou para sem pre um


hom em al. quebrado, m antido vivo som ente pelos cuidados de sua devotada
esposa. Vivem ainda com seus velhos em pregados, que provavelm ente sabem
tanto sobre o passado de Rucastle que ele acha difícil se separar deles. O Sr.
Fowler e a Srta. Rucastle casaram , por licença especial, em Southam pton no dia
seguinte ao de sua fuga e ele agora foi designado pelo governo para um posto na
Ilha de Mauritius. Quanto à Srta. Violet Hunter, m eu am igo Holm es, para m eu
grande desapontam ento, não m anifestou m ais nenhum interesse nela desde que
cessou de ser o centro de um de seus problem as, e é agora diretora de um a
escola particular em Walsall, onde creio que faz grande sucesso.
FIM
Copy right © 1999, virtualbooks.com.br
Todos os direitos reservados à Editora Virtual Books Online M& M Editores Ltda.
É proibida a reprodução do conteúdo deste livro em qualquer m eio de
com unicação, eletrônico ou im presso, sem autorização escrita da Editora.
www.virtualbooks.com.br
versão para
RocketEditionTM
eBooksBrasil
www.ebooksbrasil.com
Dezembro - 1999
pdf: eBooksBrasil.org — Abril 2008

Baixar 0.6 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal