As Aventuras de Sherlock Holmes


O POLEG AR DO ENG ENHEIRO



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O POLEG AR DO ENG ENHEIRO
DE TODOS OS PROBLEMAS que foram subm etidos a m eu am igo Sherlock
Holm es durante os anos de nossa associação, som ente dois foram trazidos por
m im : o do polegar do Sr. Hatherley e o da loucura do Coronel Warburton. Dos
dois, o últim o talvez tenha proporcionado um cam po m aior para um observador
perspicaz e original, m as o prim eiro foi tão estranho de início e tio dram ático nos
detalhes, que talvez m ereça m ais ser relatado, ainda que tenha dado m enos
oportunidades a m eu am igo para os m étodos dedutivos de raciocínio com os
quais; conseguia resultados tão notáveis. A história foi narrada m ais de um a vez
nos j ornais, creio, m as, com o todas essas narrativas, seu efeito é m uito m enor
quando com pactado em m eia coluna im pressa do que quando os fatos evoluem
lentam ente diante de seus olhos e o m istério é gradativam ente esclarecido à
m edida que cada nova descoberta fornece um passo que leva eventualm ente à
verdade. Na ocasião, as circunstâncias deixaram profunda im pressão em m im e
o lapso de dois anos pouco enfraqueceu a im agem .
Foi no verão de 1889, pouco depois de m eu casam ento, que sucederam os
acontecim entos que vou resum ir. Eu voltara a exercer m inha profissão e
abandonara finalm ente Holm es em seus aposentos na Rua Baker, em bora o
visitasse constantem ente e ocasionalm ente até o convencesse a abandonar seus
hábitos boêm ios e vir nos ver. Meus clientes se haviam tom ado bem num erosos e
com o eu m orava não m uito longe da Estação de Paddington, tinha alguns
funcionários de lá com o pacientes. Um deles, que eu havia curado de um a
doença dolorosa e de longa duração, não se cansava de apregoar m inhas virtudes
e de m e m andar todos os sofredores sobre os quais tinha algum a influência. Um a
m anhã, pouco antes das sete horas, fui acordado pela em pregada batendo à porta


para anunciar que dois hom ens haviam vindo de Paddington e estavam
esperando no consultório. Vesti-m e às pressas, pois sabia por experiência. que
casos de estrada de ferro raram ente eram banais, e apressei-m e a descer.
Enquanto descia, m eu velho aliado, o guarda, saiu da sala e fechou bem a porta.
Ele está aqui dentro — m urm urou, apontando com o polegar por cim a do om bro.
— Ele está bem .
— O que é, então? — perguntei, pois seus gestos sugeriam que era algum a
estranha criatura que tinha encarcerado em m inha sala.
— É um novo doente — m urm urou. — Achei que devia vir com ele aqui, eu
m esm o, assim ele não podia escapar. Ele está aí dentro, são e salvo. Tenho de ir
agora, Doutor, tenho m eus deveres, assim com o o senhor. — E assim se foi, sem
m e dar tem po sequer de lhe agradecer.
Entrei em m eu consultório e encontrei um cavalheiro sentado j unto à m esa.
Estava vestido sobriam ente, com um tem o de tweed m esclado, e um boné de
fazenda m acia que tirara e colocara em cim a de m eus livros. Um a das m ãos
estava enrolada em um lenço, que estava todo m anchado de sangue. Era j ovem ,
não tinha m ais que vinte e cinco anos e o rosto era acentuadam ente m ásculo,
m as estava extrem am ente pálido e deu-m e a im pressão de um hom em que
estava profundam ente agitado e usando toda sua força de vontade para se
controlar.
— Sinto m uito acordá-lo tão cedo, Doutor — disse. —
Mas sofri um acidente m uito sério durante a noite. Vim de trem hoj e de m anhã e
quando perguntei em Paddington onde poderia encontrar um m édico, um
cam arada m uito am ável m e trouxe aqui. Dei um cartão à em pregada, m as vej o
que ela o deixou em cim a daquela m esinha.
Peguei o cartão e li: "Sr. Victor Hatherley , Engenheiro hidráulico, 16-A Rua
Victoria (39 andar)". Era esse o nom e, profissão e endereço de m eu visitante
m atutino. — Desculpe por tê-lo feito esperar — disse, sentando em m inha
poltrona.
— Acaba de chegar de um a viagem noturna, pelo que diz, o que em si só é um a
ocupação m onótona.
— Oh, a noite que passei nunca poderia ser cham ada de m onótona — respondeu,
rindo. Continuou rindo em tom alto e agudo, recostando-se na cadeira e
sacudindo-se todo. Todos os m eus instintos de m édico se revoltaram com essas


gargalhadas.
— Pare! — gritei. — Controle-se! — E enchi um copo com água de um a
garrafa.
Não adiantou nada. Era um a dessas explosões histéricas que acontecem com
um a personalidade forte quando um a grande crise finalm ente passa.
Eventualm ente voltou ao norm al, m uito cansado e com o rosto verm elho.
— Fiz um papel de idiota — disse em voz rouca.
— Não foi nada. Beba isso! — Derram ei um pouco de conhaque no copo com
água e a cor com eçou a voltar a suas faces.
— Agora estou m elhor! — disse. — Então, Doutor, tenha a bondade de tratar do
m eu polegar, ou m elhor, do lugar onde era o m eu polegar.
Desenrolou o lenço e estendeu a m ão. Até m eus nervos endurecidos
estrem eceram -se. Quatro dedos se proj etavam , e um a horrenda superfície
verm elha e esponj osa onde o polegar deveria estar. Havia sido brutalm ente
cortado ou arrancado das raízes.
— Céus! — exclam ei. — Que ferida horrível. Deve ter sangrado m uito.
— Sim , sangrou. Desm aiei quando aconteceu e acho que fiquei desacordado
m uito tem po. Quando voltei a m im vi que ainda estava sangrando enrolei o lenço
bem apertado no pulso, segurando com um pedaço de pau.
— Excelente! O senhor devia ter sido um cirurgião.
— É um a questão de hidráulica, sabe, e aí tenho conhecim entos.
— Isso foi feito – disse, exam inando a ferida – com um instrum ento pesado e
afiado.
— Com um a m achadinha de açougueiro.
— Presum o que foi um acidente.
— De m aneira nenhum a.
— O quê, um ataque.
— Decididam ente.


— O senhor está m e deixando horrorizado.
Lim pei a ferida, lavei-a e fiz um curativo. Ele agüentou tudo sem estrem ecer,
em bora m ordesse o lábio de vez em quando.
— Que tal? — perguntei, quando term inei.
— Excelente! Com seu conhaque e seu curativo j á m e sinto outro hom em .
Estava m uito fraco, pois passei por m uitas coisas.
— Talvez sej a m elhor não falar no assunto. Evidentem ente o deixa m uito
nervoso.
— Oh, não, agora não. Tenho de contar m inha história à
polícia, m as, entre nós, se não fosse pela prova evidente dessa m inha ferida,
ficaria m uito surpreso se acreditassem em m im , pois m inha história é realm ente
extraordinária e não tenho provas para confirm á-la. E m esm o que acreditassem
em m im , as pistas que posso lhes dar são tão — vagas que é
m uito duvidoso se j am ais se poderá fazer j ustiça.
— Ah! — exclam ei. — Se trata de um problem a que o senhor gostaria que fosse
resolvido, recom endaria altam ente que fosse consultar — m eu am igo, Sherlock
Holm es, antes de ir à polícia.
— Oh, ouvi falar desse hom em — respondeu m eu visitante — e ficaria m uito
contente se ele se encarregasse do assunto, em bora tenha de usar a polícia oficial
tam bém . Pode m e dar um a apresentação para ele?
— Farei m elhor que isso. Vou levá-lo lá eu m esm o.
— Ficaria im ensam ente grato ao senhor.
— Vam os cham ar um carro e irem os j untos. Chegarem os bem a tem po de
tom ar café com ele. Sente-se bastante bem para isso?
— Sim . Não m e sentirei aliviado enquanto não contar m inha história.
— Então m inha em pregada cham ará um carro e estarei de volta em um instante.
– Subi as escadas correndo, expliquei o sucedido à m inha esposa rapidam ente e
em cinco m inutos estava dentro de um carro, levando m eu novo paciente para a
Rua Baker.


Sherlock Holm es estava, com o eu esperava, descansando em sua sala de estar,
vestindo um roupão e lendo os anúncios pessoais do enquanto fum ava seu
cachim bo de antes do café, com posto de todas as sobras de fum o do dia anterior,
cuidadosam ente secas e am ontoadas em um canto da prateleira sobre a lareira.
Recebeu-nos com sua am abilidade calm a, m andou vir m ais ovos e bacon e nos
acom panhou em um a lauta refeição. Quando term inam os, sentou nosso novo
conhecido no sofá, colocou um a alm ofada atrás de sua cabeça e um copo de
conhaque com água a seu alcance.
— É fácil de ver que sua experiência não foi m uito com um , Sr. Hatherley —
disse. — Por favor, fique deitado e sinta-se com pletam ente à vontade. Conte-nos
o que puder, m as pare quando se sentir cansado, e se fortifique com um pouco
desse estim ulante.
— Obrigado, — disse m eu paciente — m as m e sinto outro hom em desde que o
Doutor fez o curativo, e acho que seu café da m anhã com pletou a cura. Vou
tom ar o m enos possível de seu valioso tem po, por isso com eçarei im ediatam ente
a relatar m inhas extraordinárias experiências. Holm es estava sentado em sua
am pla poltrona, com a expressão de cansaço, com pálpebras pesadas, que
encobria sua natureza aguda e perspicaz e eu à sua frente, enquanto ouvíam os
em silêncio a estranha história que nosso visitante nos contou.
— É preciso dizer que sou órfão e solteiro, m oro sozinho em quartos alugados em
Londres. Minha profissão é de engenheiro hidráulico e tive considerável
experiência de trabalho durante os sete anos que passei com o estagiário na
grande firm a Venriar & Matheson, em Greenwich. Há dois anos, tendo
com pletado m eu estágio e tam bém tendo herdado um a quantia adequada pela
m orte de m eu pobre pai, decidi estabelecer-m e por conta própria e aluguei salas
na Rua Victoria.
— Suponho que todo m undo passa pelo m esm o quando está com eçando a vida e
abre um escritório. Em dois anos, só
o que m e apareceu foram três consultas e um pequeno serviço, nada m ais.
Minha renda bruta não passa de vinte e sete libras e dez xelins. Todos os dias, das
nove da m anhã até
as quatro da tarde ficava em m inha pequena sala, até que com ecei a acreditar
que nunca teria um a clientela.
— Ontem , entretanto, quando estava pensando em fechar o escritório, m eu
em pregado entrou para dizer que um cavalheiro queria falar com igo sobre um
trabalho. Trouxe um cartão com o nom e de "Coronel Ly sander Stark" im presso.


Logo em seguida veio o próprio Coronel, um hom em bastante alto e
extrem am ente m agro. Acho que nunca vi um hom em tão m agro assim . O rosto
se resum ia em nariz e queixo e a pele das faces estava esticada sobre os ossos
protuberantes. No entanto, essa m agreza parecia coisa natural e não fruto de
algum a doença, pois seus olhos eram brilhantes, seus m ovim entos cheios de
energia e sua postura confiante. Estava vestido sobriam ente e j ulguei que deveria
ter uns quarenta anos.
— 'Sr. Hatherley ?", indagou, com ligeiro sotaque alem ão.
"O senhor foi recom endado, Sr. Hatherley , com o sendo um a pessoa eficiente em
sua profissão e tam bém ornam ente discreto e capaz de guardar um segredo"
Cum prim entei-o, sentindo-m e lisonj eado com essas palavras, com o qualquer
rapaz da m inha idade. 'Posso indagar quem m e recom endou?-, perguntei.
— 'Talvez sej a m elhor não dizer por enquanto. A m esm a pessoa m e inform ou
que o senhor é órfão e solteiro e reside sozinho em Londres."
— 'Terrivelm ente correto", respondi, "m as perm ita-m e observar que nada disso
tem a ver com m inha capacidade profissional. Não é sobre um assunto
profissional que o senhor quer falar com igo?"
— "Sem dúvida— algum a. Mas o senhor viu que tudo que digo tem um a o de ser.
Tenho um trabalho para o senhor, m as é essencial que haj a segredo absoluto,
entende, segredo absoluto, e naturalm ente é m ais fácil obter isso de um hom em
que m ora sozinho do que um que reside no seio da fam ília."
— 'Se prom eter guardar segredo," retorqui, "pode ter certeza absoluta que
cum prirei o prom etido". Ele m e olhou fixam ente enquanto eu falava e m e
pareceu que nunca vira um olhar tão desconfiado e inquisitivo.
— Então, prom ete?" perguntou finalm ente.
— "Sim , prom eto. "
— "Silêncio com pleto e absoluto, antes, durante e depois?
Nenhum a referência ao assunto, nem oral, nem por escrito?"
— "Já lhe dei m inha palavra."
— "Muito bem ." Levantou-se de repente e, atravessando a sala com o um
relâm pago, abriu a porta. O corredor estava deserto.


— Muito bem ", disse, voltando. "Sei que os em pregados às vezes ficam curiosos
sobre os negócios de seus patrões. Agora podem os falar em segurança". Puxou a
cadeira para j unto da m inha e com eçou a m e fixar novam ente com aquele olhar
inquisitivo e pensativo.
— Um a sensação de repulsa e algum a coisa sem elhante ao m edo com eçaram a
se apossar de m im , vendo as excentricidades desse hom em esquelético. Nem
m esm o m eu m edo de perder um cliente podia m e im pedir de m ostrar m inha
im paciência.
— 'Peço-lhe que declare a que veio, senhor" disse-lhe.
"Meu tem po é m uito valioso". Deus m e perdoe por esta últim a frase, m as falei
sem pensar:
— 'O que acha de cinqüenta guinéus por um a noite de trabalho?" perguntou.
— Maravilhoso."
— "Estou dizendo um a noite de trabalho, m as um a hora seria m ais apropriado.
Apenas quero sua opinião sobre um a m áquina hidráulica de estam par que não
está funcionando bem . Se nos m ostrar o que está errado, nós m esm os a
consertarem os. O que acha de um a incum bência dessas?"
— O trabalho parece ser pouco e a rem uneração excelente."
— Precisam ente. Querem os que venha hoj e à noite pelo últim o trem ."
— "Aonde?"
— "A Ey ford, em Berkshire. É um lugarej o perto da fronteira de Oxfordshire, a
dez quilôm etros de Reading. Há
um trem de Paddington que o deixará lá aproxim adam ente às onze e quinze."
— "Muito bem ."
— "Irei buscá-lo com um carro."
— "Fica longe da estação?"
— "Sim , nossa pequena propriedade fica no m eio do m ato. São uns dez
quilôm etros da estação de Ey ford."


— "Então não chegarem os antes da m eia-noite. Im agino que não há chance
nenhum a de um trem de volta. Serei obrigado a passar a noite lá".
Podem os arranj ar acom odações para o senhor."
"É um pouco incôm odo. Não seria possível ir a um a hora m ais conveniente?"
— "Acham os m elhor o senhor ir à noite. É para recom pensá-lo por qualquer
inconveniência que estam os pagando ao senhor, um rapaz j ovem e
desconhecido, um honorário que com praria a opinião dos m aiores de sua
profissão. Mas é claro que se o senhor quiser desistir do negócio, tem toda a
liberdade."
— Pensei nos cinqüenta guinéus e com o m e seriam úteis.
"De m aneira nenhum a", respondi. O m aior prazer em fazer o que desej a.
Gostaria, entretanto, de entender um pouco m elhor o que é exatam ente que o
senhor quer que eu faça".
— 'Pois não. É m uito natural que a prom essa de segredo que extraím os' do
senhor o faça ficar curioso. Não quero que se com prom eta a coisa algum a sem
saber do que se trata. Suponho que não haj a risco nenhum de alguém nos
escutar?"
— "Absolutam ente."
— "Então é o seguinte. O senhor deve saber que greda é
um produto valioso e que só é encontrada em um ou dois lugares na Inglaterra,
pois não?"
— "Já ouvi dizer."
— "Há algum tem po com prei um a pequena propriedade, m uito pequena, a uns
doze quilôm etros de Reading. Tive a sorte de descobrir que havia um depósito de
greda em um dos m eus cam pos. Ao exam iná-lo, entretanto, vi que esse depósito
era relativam ente pequeno e fazia ligação com dois m uito m aiores, um à direita
e outro à esquerda, am bos nas propriedades de m eus vizinhos. Esses bons hom ens
não sabiam absolutam ente que suas terras continham o que era equivalente a
um a m ina de ouro. Naturalm ente, m eu interesse seria com prar suas terras antes
que descobrissem seu verdadeiro valor, m as, infelizm ente, não tinha capital para
isso. Com partilhei o segredo com alguns am igos m eus e eles sugeriram que
com eçássem os a trabalhar secretam ente em nosso pequeno depósito e assim


ganharíam os o suficiente para com prar as terras dos vizinhos. É isso que vim os
fazendo por algum tem po e, para auxiliar as operações, fizem os um a prensa
hidráulica. Essa prensa, com o j á
expliquei, não está funcionando bem e querem os sua opinião. Contudo,
guardam os nosso segredo zelosam ente e se fosse sabido que tem os engenheiros
hidráulicos vindo à nossa casa isso despertaria suspeitas e se os fatos viessem à
tona, seria adeus à possibilidade de adquirir essas terras e realizar nossos planos.
É por isso que fiz o senhor prom eter que não dirá a ninguém que vai hoj e à noite.
Espero que tenha explicado tudo claram ente".
— "Com preendo" respondi. "A única coisa que não entendi bem é qual é a
utilidade de um a prensa hidráulica na extração de greda de prisioneiro, que, pelo
que sei, é
escavada da terra com o pedra de um a pedreira".
— "Ali!" ele disse displicentem ente. "Tem os nosso processo especial.
Com prim im os a terra em tij olos para poder rem ovê-los sem revelar o que
contêm . Mas isso é m ero detalhe. Contei-lhe toda nossa história, Mr. Hatherley , e
dem onstrei que confio no senhor". Ergueu-se enquanto falava. "Vou esperá-lo,
então, em Ey ford. às 1 1h15m ."
— "Estarei lá com certeza."
— "Nem um a palavra a ninguém . "Lançou-m e um longo olhar inquisitivo e, com
um aperto de m ãos, saiu apressado da sala.
— Bem , quando pensei em tudo isso com calm a fiquei, com o devem im aginar,
m uito espantado com essa súbita incum bência que havia recebido. Por um lado,
é claro, estava contente, pois os honorários eram pelo m enos dez vezes m ais do
que teria pedido se fosse eu que tivesse feito o preço e era possível que esse
serviço levasse a outros. Por outro lado, a expressão e a m aneira de m eu cliente
causaram um a im pressão m uito desagradável em m im e não achei que a
explicação sobre a greda de prisioneiro fosse razão suficiente para essa visita à
m eia-noite e para j ustificar sua ansiedade de que eu não dissesse nada a
ninguém . Mas apesar disso, pus de lado m eus receios, fiz um a lauta refeição, fui
para Paddington e com ecei m inha viagem , obedecendo fielm ente à
recom endação de não dizer nada a ninguém .
— Em Reading m udei não só de vagão, m as tam bém de estação. Consegui
pegar, entretanto, o últim o trem para Ey ford e cheguei à pequena e escura
estação depois de onze horas. Fui o único passageiro a saltar lá e não havia


ninguém na plataform a, exceto um porteiro sonolento, com um a lanterna.
Quando pelo portão, entretanto, encontrei m eu conhecido da m anhã esperando
no escuro, do outro lado. Sem dizer um a palavra, pegou m eu braço e levou-m e
rapidam ente para um carro, cuj a porta estava aberta. Fechou as j anelas dos dois
lados, deu urnas pancadinhas na m adeira e o carro se arrem essou à frente a toda
velocidade.
— Um cavalo só? — perguntou Holm es.
— Só um .
— Notou de que cor era?
— Sim , vi à luz das lanternas laterais quando entrava no carro. Era um cavalo
baio.
— Com aparência cansada?
— Não, descansado e vigoroso.
— Obrigado. Desculpe a interrupção. Por favor continue sua história. É m uito
interessante.
— Lá nós fom os, pelo m enos por um a hora. O Coronel Ly sander Stark havia dito
que eram som ente uns dez quilôm etros, m as achei, pela velocidade em que
andávam os e o tem po que levam os, que deviam ser pelo m enos uns quinze.
Sentou-se a m eu lado em silêncio todo o tem po e vi, m ais de um a vez, quando
olhei para ele, que estava m e olhando com grande intensidade. As estradas
pareciam não ser m uito boas naquela região, pois sacudim os e balançam os de
um lado para o outro todo o tem po. Tentei olhar pelas j anelas para ver onde
estávam os, m as o vidro era fosco e não pude ver nada, só a m ancha de um a luz
ocasional. De vez em quando dizia algum a coisa para quebrar a m onotonia da
viagem , m as o Coronel respondia em m onossílabos; e a conversa m orria.
Finalm ente os solavancos da estrada cederam lugar a um cam inho de cascalho e
o carro parou. O
Coronel Ly sander Stark saltou e, quando o segui, puxou-m e rapidam ente para
um a varanda que se abria à nossa frente. Saím os, por assim dizer, diretam ente do
carro para o hall de entrada, de form a que não pude nem ver a frente da casa.
No m inuto em que transpus a soleira da porta, esta se fechou atrás de nós e ouvi o
ruído das rodas do carro que se afastava.
— Estava totalm ente escuro dentro de casa e o Coronel tateou em volta


procurando fósforos e resm ungando baixinho. Subitam ente um a porta se abriu na
outra extrem idade da passagem e um a longa faixa dourada de luz se estendeu
em nossa direção. Alargou-se e um a m ulher surgiu com um a lâm pada que
segurava acim a da cabeça, em purrando o rosto para a frente e olhando para nós.
Pude ver que era bonita e pelo brilho da luz no vestido escuro que usava, vi que
era de um a fazenda de boa qualidade. Disse algum as palavras em um a língua
estrangeira e o tom era com o se estivesse fazendo um a pergunta e quando m eu
com panheiro respondeu com um m onossílabo rude ela estrem eceu tanto que a
lâm pada quase caiu de sua m ão. O
Coronel Stark foi até ela, m urm urou qualquer coisa em seu ouvido e aí,
em purrando-a em direção ao quarto de onde viera, veio para m im novam ente
com a lâm pada na m ão.
— 'Teço-lhe que tenha a bondade de esperar neste quarto uns m inutos" disse,
abrindo outra porta. Era um quarto pequeno, m obiliado sim plesm ente com um a
m esa redonda no centro, na qual estavam espalhados vários livros em alem ão. O
Coronel Stark colocou a lâm pada sobre um harm ônio perto da porta. "Não o farei
esperar m uito," disse, e desapareceu na escuridão.
— Lancei um olhar nos livros sobre a m esa e apesar de não saber alem ão, vi que
dois eram tratados sobre ciências e os outros, livros de poesia. Fui até a j anela,
esperando ver algum a coisa da paisagem , m as estava coberta por pesadas tábuas
de carvalho. Era um a em extraordinariam ente silenciosa. Ouvi o tique-taque de
um velho relógio em algum a parte do corredor, m as fora isso, tudo era silêncio.
Um a vaga sensação de m al-estar com eçou a se apoderar de m im . Quem eram
esses alem ães e o que estavam fazendo, m orando nesse lugar estranho, tão longe
de tudo? E que lugar era esse? Estava a doze ou quinze quilôm etros de Ey ford,
era tudo que sabia, m as se ao Norte, Sul, Leste ou Oeste, não tinha a m enor idéia.
Reading e possivelm ente outras cidades grandes talvez estivessem nesse raio e
portanto o lugar poderia não ser tão isolado assim . No entanto, tinha certeza, pela
profundidade do silêncio, que estávam os no cam po. Andei de um lado para o
outro cantarolando baixinho para espantar o m edo e sentindo que estava fazendo
j us a m eus honorários de cinqüenta guinéus.
— De repente, sem o m enor som prelim inar que servisse de aviso no silêncio
total, a porta da sala abriu-se lentam ente. A m ulher surgiu na abertura, a
escuridão do corredor às suas costas, a luz am arela de m inha lâm pada caindo
sobre seu lindo e aflito rosto. Vi logo que estava aterrorizada e o sangue gelou em
m inhas veias. Ela ergueu um dedo trêm ulo para fazer sinal de silêncio e
m urm urou um as palavras em inglês hesitante, lançando os olhos, com o os de um
anim al am edrontado, para o corredor escuro.


— "Eu iria," disse, procurando, ou assim m e pareceu, ficar calm a. "Eu iria. Não
ficaria aqui. Não há nenhum bem para o senhor fazer aqui".
— "Mas, m inha senhora," respondi, "não fiz ainda o que vim fazer aqui. Não
posso ir em bora sem ver a m áquina".
— "Não vale a sua pena esperar," ela continuou. "Pode passar pela porta.
Ninguém im pede". E então, vendo que sorri e sacudi a cabeça, abandonou
qualquer reserva, avançou, torcendo as m ãos e im plorou: "Por am or de Deus!
Ir em bora daqui antes que sej a tarde dem ais!"
— Mas sou um pouco teim oso por natureza e sem pre pronto a m e envolver em
algum a coisa quando há algum obstáculo no cam inho. Pensei em m inha
rem uneração de cinqüenta guinéus, em m inha viagem cansativa e na
desagradável noite que parecia m e aguardar. Seria isso tudo à-toa? Por que iria
em bora sem ter executado m inha incum bência e sem ser pago o que m e era
devido? Essa m ulher poderia até ser um a louca. Ficando firm e, por conseguinte,
em bora ela tivesse m e abalado m ais do que queria confessar, abanei novam ente
a cabeça e declarei m inha intenção de ficar onde estava. Ela estava prestes a
continuar a m e im plorar quando um a porta bateu acim a de nós e ouvim os passos
na escada. Ficou escutando um segundo, fez um gesto de desespero e sum iu tão
repentina e silenciosam ente quanto tinha vindo.
— Os recém -chegados eram o Coronel Ly sander Stark e um hom em baixo e
atarracado com um a barbicha saindo das dobras do queixo e papada, que m e foi
apresentado com o o Sr. Ferguson.
— Triste é m eu secretário e gerente" — disse o Coronel. Acidentalm ente, tinha a
im pressão que deixara esta porta fechada. Reocio que tenha sentido a corrente de
ar".
— Pelo contrário," respondi rápido, "abri a porta eu m esm o, pois achei a sala um
pouco abafada".
— Lançou-m e um de seus olhares desconfiados. "Talvez sej a m elhor irm os ao
trabalho, então," disse: "O Sr. Ferguson e eu vam os levá-lo para ver a m áquina".
— "Talvez sej a bom botar o chapéu."
— 'Não, não é preciso. É dentro da casa."
— "O quê, estão escavando greda de dentro de casa?"


— 'Não, não. Apenas a com prim im os aqui. Mas não im porta isso! Só querem os
que exam ine a m áquina e nos diga o que está errado com ela."
— Subim os j untos, o Coronel prim eiro com a lâm pada, o gerente gordo e eu
seguindo. A velha casa era um labirinto, com corredores, passagens, escadas
estreitas em espiral e portas pequenas e baixas com soleiras gastas por geração e
geração que as haviam atravessado. Não havia tapetes e nenhum sinal de m obília
acim a do andar térreo, o esbouço caía das paredes e a um idade em ergia em
m anchas esverdeadas; de aspecto doentio. Tentei m anter um a aparência
desligada, m as não havia esquecido os avisos da linda senhora, em bora os tivesse
ignorado, e fiquei de olho em m eus dois com panheiros. Ferguson parecia ser um
hom em m oroso e calado, m as vi pelo pouco que disse que, pelo m enos, era m eu
com patriota.
— O Coronel Ly sander Stark parou finalm ente diante de um a porta baixa, que
destrancou. Dentro havia um pequeno quarto quadrado, no qual nós três m al
cabíam os ao m esm o tem po. Ferguson ficou do lado de fora e o Coronel m e fez
entrar.
— "Estam os agora", disse, "dentro da própria prensa hidráulica e seria
profundam ente desagradável para nós se alguém resolvesse ligá-la. O teto deste
pequeno quarto é, na realidade, a extrem idade do Pistorn que desce com um a
força de m uitas toneladas para esse chão de m etal. Há pequenas colunas laterais
de água do lado externo que recebem a força e a transm item e m ultiplicam da
m aneira que o senhor conhece. A m áquina está funcionando, m as está um pouco
dura e perdeu um pouco de sua força. Tenha a bondade de exam iná-la e nos
m ostrar o que devem os fazer para reparála".
— Tom ei a lâm pada dele e exam inei m inuciosam ente a m áquina. Era realm ente
gigantesca e capaz de exercer enorm e pressão. Quando fui para o lado de fora e
apertei as alavancas que a controlavam , vi logo pelo som sibilante que havia um
vazam ento que perm itia a regurgitação de água através de um dos cilindros
laterais. Um exam e sucessivo revelou que um a vedação de borracha na cabeça
de um a haste encolhera e não m ais vedava adequadam ente o encaixe em que
operava. Era claram ente isso que estava causando a perda de força e m ostrei a
m eus com panheiros, que ouviram m eus com entários atentam ente e fizeram
algum as perguntas práticas sobre a m aneira de proceder para corrigir o defeito.
Quando tinha explicado tudo a eles, voltei ao quartinho e olhei bem em volta,
para satisfazer m inha curiosidade. Era óbvio que a história da greda de
prisioneiro era um a invenção, pois era absurdo im aginar que um a m áquina tão
poderosa era usada para um a finalidade inadequada. As paredes eram de
m adeira, m as o chão de ferro era cavado, com o um a calha, e quando fui


exam iná-lo vi um a crosta de depósito m ineral em todo ele. Agachei-m e e estava
procurando raspar um pouco para ver o que era, quando ouvi um a exclam ação
em alem ão e vi o rosto cadavérico do Coronel m e olhando.
— 'O que está fazendo aí?", perguntou.
— Fiquei zangado de ter sido enganado por um a história tão com plicada com o a
que tinha m e contado. "Estava adm irando sua greda de prisioneiro," respondi.
"Acho que poderia aconselhá-lo m elhor sobre sua m áquina se soubesse
exatam ente qual é sua finalidade".
— No m om ento exato em que pronunciei essas palavras arrependi-m e de m inha
ousadia. O rosto dele endureceu e os olhos cinzentos faiscaram .
— "Muito bem ," disse, "vai saber tudo sobre a m áquina". Deu um passo atrás,
bateu a pequena porta e virou a chave na fechadura. Corri para a porta e puxei a
m açaneta, m as estava trancada e a porta não cedeu a m eus pontapés e pancadas.
"Olá!", gritei. "Ou, Coronel! Abra a porta!"
— E de repente, no silêncio, ouvi um som que gelou o sangue em m inhas veias.
Era o ruído m etálico das alavancas e o som sibiliante do cilindro que vazava. Ele
ligara a m áquina. A lâm pada ainda estava no chão, onde a deixara quando
exam inara a calha. Pela sua luz, vi que o teto negro estava descendo sobre m im ,
lentam ente, aos arrancos, m as, com o ninguém sabia m elhor que eu, com um a
força que dentro de um m inuto m e esm agaria. Atirei-m e, gritando, contra a
porta e tentei arrancar a fechadura com as unhas. Im plorei o Coronel para m e
deixar sair, m as o cruel rum or de alavancas abafou m eus gritos. O teto estava
apenas três ou quatro palm os acim a de m inha cabeça e com a m ão erguida
podia sentir a superfície dura e áspera. Então m e ocorreu que a dor da m orte
dependeria m uito da posição em que m e encontrasse. Se deitasse de rosto para
baixo o peso cairia sobre m inha espinha e estrem eci ao pensar nos ossos se
quebrando. Talvez fosse m ais fácil deitar de costas, m as será
que teria a coragem de ficar olhando aquela som bra negra fatal descendo sobre
m im ? Já não podia m ais ficar de pé, quando vislum brei algo que trouxe um a
torrente de esperança para m eu pobre coração.
— Já havia dito que em bora o chão e o teto fossem de ferro, as paredes eram de
m adeira. Quando olhei em volta apressadam ente pela últim a vez, vi um a linha
fina de luz am arela entre duas tábuas, que se alargou cada vez m ais à
m edida que um pequeno painel era aberto. Por um instante não pude acreditar


que fosse realm ente um a porta que m e salvava da m orte, m as logo a seguir
atirei-m e para a abertura e caí m eio desm aiado do outro lado. O painel fechou-
se atrás de m im , m as o som da lâm pada. se espatifando e logo após o ruído
m etálico das duas chapas de m etal provaram com o tinha escapado por pouco.
— Voltei a m im com alguém puxando m inha m ão e m e encontrei deitado no
chão de pedra de um corredor estreito, com um a m ulher inclinada sobre m im
m e puxando com a m ão esquerda segurando um a vela com a direita. Era a
m esm a boa am iga cuj os avisos tão tolam ente eu havia ignorado.
"Eles aqui estarão j á, j á. Verão que não está. Oh, não perca o tão precioso
tem po, venha! "
Dessa vez, pelo m enos, não desprezei seus conselhos. Fiquei de pé, cam baleando,
e corri com ela pelo corredor e por um a escada circular. Esta nos levou a outra
passagem m ais larga e j ustam ente quando a alcançam os ouvim os o som de
passos apressados e duas vozes gritando, um a em resposta à outra, do andar em
que estávam os e do andar de baixo. Minha protetora parou e olhou em volta,
com o quem não vê
saída. Então abriu um a porta que levava. a um quarto, onde, pela j anela aberta,
entrava o luar, banhando o chão.
"É sua única chance", disse, "é alto, m as talvez possa pular".
Enquanto falava, surgiu urna luz no fim da passagem e vi o vulto m agro do
Coronel Ly sander Stark avançando rapidam ente com um a lanterna em um a das
m ãos e um a arm a parecida com um a m achadinha de açougueiro na outra.
Atravessei o quarto correndo e olhei pela j anela. O j ardim à
luz da lua parecia tão calm o e doce e seguro, e estava a m enos de dez m etros.
Subi no peitoril, m as hesitei em pular até ouvir o que ia se passar entre m inha
salvadora e o bandido que m e perseguia. Se ela fosse m altratada, apesar de todo
o perigo voltaria para socorrê-la. Mal pensara isso, quando ele chegou à porta,
em purrando-a de lado, m as ela o abraçou e tentou detê-lo.
— "Fritz! Fritz! ", exclam ou em inglês. "Lem bre sua prom essa depois da últim a
vez. Você disse que não la ser assim nunca m ais. Ele guardará segredo! Oh, ele
guardará
segredo!"
— "Você está louca, Elise!", ele berrou, lutando para se livrar. "Você vai estragar


tudo. Ele viu dem ais. Solte-m e, vam os!" Jogou-a de lado e, correndo para a
j anela, golpeoum e com a pesada arm a. Eu deixara o corpo cair e estava m e
segurando ao peitoril com as m ãos quando ele m e atacou. Senti um a dor vaga,
afrouxei os dedos e caí no j ardim a m eus pés.
— Fiquei aturdido, m as não m e m achuquei com a queda. Levantei e saí correndo
por entre os arbustos o m ais velozm ente possível, pois sabia que ainda não estava
fora de perigo. De repente, enquanto corria, com ecei a m e sentir tonto e fraco.
Olhei m inha m ão, que latej ava e então, pela prim eira vez, vi que m eu polegar
havia sido decepado e o sangue corria da ferida. Consegui enrolar m eu lenço na
m io, m as os ouvidos com eçaram a zum bir e caí desm aiado entre as roseiras.
— Não sei quanto tem po fiquei desacordado. Deve ter sido por m uitas horas, pois
a lua j á se fora do céu e com eçava a am anhecer quando abri os olhos. Minhas
roupas estavam ensopadas de orvalho e a m anga do casaco estava coberta de
sangue do polegar ferido. A dor na m ão m e fez recordar todos os detalhes da
aventura noturna e fiquei de pé, sentindo que talvez ainda não estivesse a salvo de
m eus perseguidores. Mas, para m inha surpresa, quando olhei em volta, não vi
nem a casa nem o j ardim . O lugar onde caíra do era um ângulo de um a sebe
próxim a à estrada e logo adiante havia um prédio longo e baixo que, ao m e
aproxim ar, provou ser a m esm a estação onde chegara à noite anterior. Se não
fosse pela ferida na m ão, tudo que se passara durante aquelas horas horríveis
poderia ter sido um pesadelo.
— Meio tonto, entrei na estação e perguntei pelo trem da m anhã. Havia um para
Reading dentro de um a hora. O
m esm o porteiro estava de serviço. Perguntei-lhe se ouvira falar de um Coronel
Ly sander Stark. Não sabia quem era. Vira um carro à noite anterior esperando
por m im ? Não, não vira. Havia um a delegacia perto dali? Sim , a uns quatro
quilôm etros.
— Era longe dem ais para ir andando, fraco e doente com o m e sentia. Resolvi
esperar até chegar à cidade para contar m inha história à polícia. Passava um
pouco das seis quando cheguei e fui prim eiro tratar de m inha m ão e foi entro que
o Doutor teve a bondade de m e trazer aqui. Estou colocando m eu caso em suas
m ãos e farei exatam ente o que o senhor m andar.
Ficam os am bos em silêncio após ouvir essa extraordinária narrativa. Depois
Sherlock Holm es tirou da prateleira um dos grandes volum es onde guardava seus
recortes.
— Aqui está um anúncio que lhe vai interessar - disse. —


Saiu em todos os j ornais cerca de um ano atrás. Ouçam :
"Perdido no dia 9 do corrente, o Sr. Jerem iah Hay ling, de 26
anos, engenheiro hidráulico. Saiu de casa às dez horas da noite e não foi m ais
visto. Vestia. . ." etc. etc. Ali! Isso foi a últim a vez que o Coronel precisou
consertar sua m áquina, sem dúvida algum a.
disse. — Céus! — exclam ou m eu paciente. — Então isso explica o que a m oça
— Certam ente. É bem claro que o Coronel era um hom em calculista e
desesperado, firm em ente decidido que nada ia atrapalhar sua j ogada, com o os
piratas de antigam ente, que não deixavam nenhum sobrevivente nos barcos que
capturavam . Bem , os m inutos são preciosos e se o senhor se sente bastante bem ,
vam os im ediatam ente à Scotland Yard e em seguida a Ey ford.
Um as três horas depois estávam os a cam inho de Reading e de lá à pequena
aldeia em Berkshire. O grupo era com posto de Sherlock Holm es, o engenheiro
hidráulico, Inspetor Bradstreet da Scotland Yard, um detetive e eu. Bradstreet
abrira um m apa da região sobre o assento e se ocupava em desenhar um círculo
tendo com o centro Ey ford.
— Aqui está — disse. — Esse círculo tem um raio de doze quilôm etros partindo
da aldeia. O lugar que procuram os deve estar dentro dessa linha. O senhor disse
doze quilôm etros, não foi?
— Aproxim adam ente. Foi m ais ou m enos um a hora de viagem .
— E acha que o trouxeram de volta toda essa distância quando estava
inconsciente?
— Devem ter feito isso. Tenho um a recordação confusa de ter sido carregado e
posto em algum lugar.
— O que não posso entender — disse eu — é por que não o m ataram quando o
encontraram desm aiado no j ardim . Talvez o vilão tenha se enternecido com as
súplicas da m oça.
— Não acho isso provável. Nunca vi um a cara m ais im placável em toda m inha
vida.
— Breve saberem os tudo disse Bradstreet. — Bem , desenhei o círculo e só
gostaria de saber em que ponto dentro dele vam os encontrar as pessoas que
procuram os.


— Acho que posso determ inar isso — disse Holm es calm am ente.
— Ali! — exclam ou o inspetor. — Então j á form ou sua opinião? Bem , vam os lá.
Vej am os quem concorda com o senhor. Eu digo que é no Sul, pois lá é m ais
deserto.
— E eu digo Leste — aventurou m eu paciente.
— Eu acho que é Oeste — disse o detetive. — Lá há
várias pequenas aldeias.
— Minha opinião é o Norte — eu disse — porque lá não há colinas e nosso am igo
não disse que o carro tivesse subido nenhum a inclinação.
— Ora — disse o inspetor, rindo — não poderíam os divergir m ais. Cobrim os
todos os pontos do com passo. Sr. Holm es, qual é seu voto decisivo?
— Estão todos errados.
— Mas não podem os estar todos errados.
— Ali, sim , podem . Esse é o ponto que escolho — e colocou o dedo bem no
centro do círculo. — É aqui que os encontrarem os.
— Mas e a viagem de doze quilôm etros? — exclam ou Hatherley .
— Seis de ida e seis de volta. Nada m ais sim ples. O
senhor m esm o disse que o cavalo não estava cansado quando entrou no carro.
Com o poderia ser assim se tivesse andado doze quilôm etros em estradas
péssim as?
— Realm ente, seria um ótim o estratagem a — observou Bradstreet, pensativo. —
É claro que não pode haver dúvidas quanto à natureza desse bando.
— Nenhum a — disse Holm es. — São cunhadores de m oedas falsas, em grande
escala, e usavam a m áquina para form ar a am álgam a que substitui a prata.
— Há m uito tem po que sabíam os que havia um bando m uito astuto trabalhando
nisso — disse o inspetor. —
Estavam cunhando m ilhares de m eias coroas. Conseguim os seguir sua pista até
Reading, m as lá os perdem os, pois conseguiram nos despistar de tal m aneira que


provavam que eram velhos profissionais. Mas agora, graças a essa oportunidade
fortuita, acho que vam os pegá-los finalm ente. Mas o inspetor estava enganado,
pois esses crim inosos estavam destinados a escapar à j ustiça. Quando chegam os
à
estação de Ey ford vim os um a coluna gigantesca de fum aça saindo de um grupo
de árvores na vizinhança, pairando com o um a im ensa plum a de avestruz sobre a
paisagem .
— A casa pegando fogo? — perguntou Bradstreet, quando o Um seguia sua
viagem .
Sim , senhor — respondeu o chefe da estação.
— Quando com eçou?
— Ouvi dizer que foi durante a noite, m as piorou m uito e está queim ando toda.
— De quem é a casa?
— Do Dr. Becher.
— Diga-m e — interrom peu o engenheiro — se Dr. Becher é um alem ão m uito
m agro, com um nariz fino e com prido?
O chefe da estação deu um a boa gargalhada. — Não senhor, o Dr. Becher é
inglês e não há ninguém na paróquia que tenha um a barriga m aior. Mas ele tem
um hóspede, ouvi dizer que é um paciente dele, que é estrangeiro e que bem
precisa de um pouco da boa carne de Berkshire para cobrir seus ossos.
Mal ele acabara de falar, estávam os todos nos apressando em direção ao
incêndio. A estrada subiu um a pequena colina e à nossa frente surgiu um grande
prédio baixo j orrando fogo por todas as j anelas e frestas, enquanto no j ardim três
carros de bom beiros lutavam em vão para conter as cham as.
— É este m esm o! — exclam ou Hatherley , profundam ente excitado. — Ali está
a estrada de saibro e as roseiras onde caí. A segunda j anela foi de onde pulei.
— Bem , pelo m enos — disse Holm es — o senhor teve sua vingança. Não há
dúvida de que foi sua lâm pada de querosene que, quando com prim ida pela
prensa, tocou fogo nas paredes de m adeira e certam ente eles estavam ocupados
dem ais em persegui-lo para notar. Agora fique de olhos abertos para ver se seus
am igos de ontem à noite estão no m eio da m ultidão, em bora receie que a essas
horas j á estej am a m uitos quilôm etros de distância.


E os receios de Holm es se realizaram , pois desde esse dia não m ais se ouviu falar
da linda m oça, o sinistro alem ão ou o m oroso inglês. Aquela m anhã, m uito cedo,
um cam ponês vira um a carroça com várias pessoas e um as caixas volum osas
indo rapidam ente em direção a Reading, m as aí se perdia a pista dos fugitivos e
nem m esm o a engenhosidade de Holm es conseguiu descobrir o m enor indício de
seu paradeiro.
Os bom beiros ficaram m uito perturbados com as coisas estranhas que
encontraram dentro da casa, especialm ente quando descobriram um polegar
hum ano recentem ente decepado no peitoril de um a j anela. Ao entardecer,
finalm ente, seus esforços foram recom pensados e conseguiram dom inar as
cham as, m as aí o telhado j á havia desm oronado e o prédio todo estava reduzido a
ruínas, só se salvando uns cilindros retorcidos e canos de ferro, não restando nada
m ais da m aquinaria que custara tanto ao nosso desafortunado engenheiro
hidráulico. Descobriram grandes m assas de níquel e estanho em um barracão,
m as nenhum a m oeda, o que pode explicar a presença das caixas volum osas na
carroça.
Com o nosso engenheiro hidráulico foi levado do j ardim ao lugar onde recobrou
os sentidos poderia ter sido um m istério para sem pre se não fosse a terra m acia,
que contou sua história. Fora evidentem ente carregado por duas pessoas, um a das
quais; tinha pés excepcionalm ente pequenos e a outra, excepcionalm ente
grandes. O que era m ais provável é
que o inglês silencioso, sendo m enos audaz e tam bém m enos sanguinário que seu
com panheiro, tivesse aj udado a m ulher a levar o hom em inconsciente para fora
de perigo.
— Bem , — disse nosso engenheiro, m uito triste, ao tom arm os nossos lugares para
voltar a Londres — que m al negócio eu fiz! Perdi m eu polegar e perdi honorários
de cinqüenta guinéus e, afinal de contas, o que ganhei?
— Experiência — disse Holm es, rindo. - Indiretam ente, pode ser de m uito valor.
É só contar sua história e ganhará a reputação de excelente com panhia para o
resto de seus dias. O NOBRE SOLTEIRO
O CASAMENTO DO LORDE ST. Sim on, e a m aneira curiosa por que term inou,
há m uito deixou de ser assunto de interesse nos círculos exaltados em que o
infeliz noivo se m ovim enta. Escândalos novos o obscureceram e os detalhes
picantes atraíram os bisbilhoteiros e os fizeram esquecer esse dram a de quatro
anos atrás. Com o tenho razões para acreditar, entretanto, que os fatos verdadeiros
nunca foram revelados ao público em geral, e com o m eu am igo, Sherlock


Holm es, teve im portante papel em esclarecer o m istério, acho que as m em órias
dele não ficariam com pletas sem um esboço desse episódio notável.
Faltavam poucas sem anas para m eu casam ento, nos dias em que ainda
com partilhava os aloj am entos de Holm es na Rua Baker, quando ele chegou em
casa um a tarde após ter saído para passear a pé e encontrou um a carta na m esa
da entrada esperando por ele. Eu ficara em casa o dia todo, pois o tem po virara,
de repente, e chovia com ventos fortes de outono e a bala que trazia na perna
com o relíquia da cam panha do Afeganistão estava latej ando persistentem ente.
Sentado em um a poltrona e com as pernas esticadas em um a cadeira, havia m e
rodeado de j ornais até que, saturado com as notícias do dia, os j ogara de lado e
ficara parado olhando o enorm e m onogram a em relevo, encim ado de um a
coroa, que estava sobre a m esa, pensando em quem poderia ser o nobre que
escrevia a m eu am igo.
— Aqui está um a epístola nobre — com entei, quando ele entrou. — A
correspondência da m anhã, se estou bem lem brado, consistia em contas da
peixaria.
— É, m inha correspondência pelo m enos tem o encanto de ser variada —
respondeu, sorrindo. — E as cartas dos m ais hum ildes geralm ente são as m ais
interessantes. Isso parece um desses convites sociais m uito pouco desej áveis, que
exigem que um hom em m inta ou que se caceteie. Abriu o envelope e lançou um
olhar no conteúdo.
— Ora, talvez isso sej a interessante.
— Não é social, então?
— Não, estritam ente profissional.
— E é de um cliente nobre?
— Um dos m ais nobres da Inglaterra.
— Meu caro am igo, dou-lhe os parabéns.
— Asseguro-lhe, Watson, sem pretensões, que a posição social de m eu cliente
vale m enos para m im do que o interesse de seu caso. É possível, entretanto, que
as duas coisas existam nessa nova investigação. Você tem lido os j ornais
assiduam ente nos últim os dias, não tem ?
— É o que parece — disse com pesar, apontando a pilha de j ornais no canto da


sala. — Não tinha nada m ais a fazer.
— Ainda bem , pois você poder-m e-á talvez pôr em dia. Não leio nada a não ser
os anúncios pessoais e as notícias crim inais. Os prim eiros são sem pre m uito
instrutivos. Mas se você tem acom panhado as notícias recentes deve ter lido
sobre Lorde St. Sim on e seu casam ento.
— Ah, sim , com m uito interesse.
— Ótim o. A carta que tenho aqui é do Lorde St. Sim on. Vou ler para você e
então vai pegar esses j ornais e m e contar tudo que sabe sobre o assunto. Eis aqui
o quê ele diz:
"Prezado Sr. Sherlock Holm es:
Lorde Backwater m e assegura que posso confiar
inteiram ente em seu discernim ento e discrição.
Decidi, portanto, fazer-lhe um a visita para consultálo sobre um acontecim ento
doloroso que ocorreu com referência a m eu casam ento. O Sr. Lestrade, da
Scotland Yard, j á está agindo nesse assunto, m as m e assegurou que não tem
nenhum a obj eção à sua
cooperação e acha m esm o que pode ser útil. Irei às quatro horas da tarde e se
por acaso o senhor tiver outra coisa m arcada a essa hora, espero que a
desm arque, pois esse assunto é da m áxim a
im portância.
Atenciosam ente,
ROBERT ST. SIMON"
— É datada de Grosvenor Mansions, escrita com pena de ave e o nobre lorde
m anchou o dedo m indinho direito com tinta — observou Holm es, dobrando a
carta.
— Falou em quatro horas. Já são três. Estará aqui dentro de um a hora.
— Tenho o tem po j usto, com seu auxílio, para m e inteirar do assunto. Olhe os
j ornais e arrum e os artigos por ordem de data, enquanto vej o exatam ente quem
é nosso cliente. —


Pegou um volum e verm elho em um a prateleira de livros perto da lareira. —
Aqui está — disse, sentando e abrindo o volum e no colo. — "Pobert Walsingliam
de Vere St. Sim on, segundo filho do Duque de Balm oral. . ." — Hum ! —
"Arm as: Azul-celeste, três estrepes na parte superior do escudo sobre um a faixa.
Nasceu em 1846". Está com quarenta e um anos, m aduro para se casar. Foi
Subsecretário das Colônias em um a das últim as adm inistrações. O Duque, seu
pai, foi Secretário do Exterior. Herdaram sangue dos Platagenet diretam ente e
dos Tudor pelo lado m aterno. Ha!
Não há nada m uito instrutivo em tudo isso. Acho que tenho de apelar para você,
Watson, para algo m ais sólido. Não há problem a em encontrar o que quero
porque os fatos são bem recentes e o assunto m e im pressionou. Não m encionei a
você porque sabia que estava investigando um assunto e não gosta que outras
questões interfiram .
— Ali, está se referindo àquele pequeno problem a do cam inhão de m udança de
Grosvenor Square — Isso j á foi resolvido, em bora fosse evidente desde o início.
Por favor, dê-m e o resultado de sua pesquisa nos j ornais.
— Aqui está a prim eira notícia que encontrei, na coluna pessoal do Mom ing Post
e datada, com o vê, de um as sem anas atrás. "Foi contratado o casam ento que, se
os boatos estiverem certos, realizar-se-á m uito breve, entre Lorde Robert St.
Sim on, segundo filho do Duque de Balm oral, e a Srta. Hatty Doran, filha única de
Aloy sius Doran, de São Francisco, Califórnia". É só.
— Breve e sucinto — com entou Holm es, estendendo as pernas longas e finas
para o fogo.
— Saiu um parágrafo am pliando isso em um dos j ornais sociais na m esm a
sem ana. Ali, está aqui. "Breve haverá um pedido de proteção no m ercado de
casam entos, pois o princípio atual de com ércio livre está prej udicando nosso
produto nacional. Urna por um a a direção das casas nobres da Grã-Bretanha está
passando às m ãos de nossa lindas prim as do outro lado do Atlântico. A sem ana
passada adicionou m ais um à lista de prêm ios que foram arrebatados por essas
encantadoras invasoras. Lorde St. Sim on, que dem onstrou por m ais de vinte anos
estar à prova das setas do pequeno deus, anunciou definitivam ente seu próxim o
casam ento com a Srta. Hatty Doran, a fascinante filha de um m ilionário da
Califórnia. A Srta. Doran, cuj a figura graciosa e rosto im pressionante atraíram
m uita atenção nas festividades de Westbury House, é filha única e dizem que seu
dote será em excesso de um m ilhão, com m ais expectativas no futuro. Com o é
sabido que o Duque de Balm oral foi forçado a vender seus quadros nos últim os


anos e com o Lorde St. Sím on não tem nenhum a propriedade, exceto a pequena
quinta de Birchm oor, é óbvio que a herdeira californiana não é a única a ganhar
com um a aliança que perm itirá que ela faça a transição fácil e com um , nesses
dias, de um a dam a republicana para um título de nobresa inglesa".
— Mais algum a coisa? — perguntou Holm es, bocej ando.
— Sim , m ulta. Há outra notícia no Morning Post dizendo que o casam ento seria
m uito quieto, na igrej a de St. George, Hanover Square, que só m eia dúzia de
am igos íntim os eram convidados e que o grupo iria para a casa m obiliada em
Lancaster Gate, alugada pelo Sr. Aloy sius Doran. Dois dias depois, isto é, quarta-
feira passada, há um as poucas linhas dizendo que o casam ento 9e realizara e a
lua-de-m el seria na propriedade de Lorde Backwater, perto de Petersfield. Essas
foram as notícias antes do desaparecim ento.
— Antes do quê? — perguntou Holm es, espantado.
— Da m oça desaparecer.
— Quando foi que desapareceu?
— No alm oço após o casam ento.
— Realm ente? Isso está ficando m uito m ais interessante do que parecia. Bastante
dram ático, até.
É. Achei que era um pouco fora do com um .
É freqüente desaparecerem antes da cerim ônia e ocasionalm ente durante a lua-
de-m el, m as não m e lem bro de nenhum caso com o esse. Por favor, dé-m e todos
os detalhes.
— Devo avisá-lo que são m uito incom pletos.
— Talvez possam os com pletá-los.
— Foi tudo relatado em um a única notícia do j ornal da m anhã de ontem , que vou
ler para você. A m anchete é:
"Ocorrência Singular em Casam ento Elegante".
— "A fam ília de Lorde Robert St. Sim on está
profundam ente consternada com os episódios estranhos e dolorosos que


ocorreram com relação a seu casam ento. A cerim ônia, conform e anúncio breve
nos j ornais de ontem , teve lugar na m anhã anterior, m as som ente agora foi
possível confirm ar os estranhos rum ores que correm tão persistentem ente.
Apesar dos esforços de am igos para abafar a questão, a atenção do público foi
tão despertada que de nada adianta fingir ignorar o que é agora assunto discutido
em toda parte".
— "A cerim ônia na igrej a de St. George em Hanover Square foi m uito sim ples,
com a presença som ente do pai da noiva, Sr. Aloy sius Doran, a Duquesa de
Balm oral, Lorde Backwater, Lorde Eustace e Lady Clara St. Sim on (o irm ão
m ais m oço e a irm ã do noivo) e Lady Alicia Whittington. O
casal e convidados, após a cerim ônia, dírigiram -se à casa do Sr. Aloy sius Doran
em Lancaster Gate, onde seria servido o alm oço. Parece que houve um a
confusão causada por um a m ulher, cuj o nom e não é sabido, que tentou forçar a
entrada na casa, alegando que tinha um a ligação qualquer com Lorde St. Sim on.
O m ordom o e o lacaio só conseguiram expulsá-la depois de urna cena
prolongada e desagradável. A noiva, que felizm ente entrara em casa antes dessa
inoportuna interrupção, sentara à m esa com os convidados e de repente se
queixara de m al-estar, deixando a m esa e se retirando para o quarto. Quando sua
ausência se prolongou e com eçaram os com entários, seu pai foi ver o que
acontecia e soube pela em pregada que ela fora rapidam ente ao quarto, pegara
um casaco e um chapéu e saíra às pressas. Um dos lacaios declarou que vira
um a senhora sair de casa de casaco e chapéu, m as não acreditou que fosse sua
patroa, pois pensava que ela estava com os convidados. Quando verificou que a
filha desaparecera, o Sr. Aloy sius Doran, j untam ente com o noivo, com unicou-
se im ediatam ente com a polícia e extensas investigações estão sendo efetuadas
que provavelm ente resultarão em um esclarecim ento rápido desse m istério. Até
um a hora avançada à noite passada, entretanto, nada se sabia sobre o paradeiro
da m oça desaparecida. Fala-se em possibilidade de um crim e e há boatos de que
a polícia prendeu a m ulher que causara o distúrbio, acreditando que, por ciúm e
ou qualquer outra razão, pode estar ligada ao estranho desaparecim ento da
noiva".
— Só isso?
— Só m ais um pequeno item em outro j ornal da m anhã, que é bem sugestivo.
— E qual é?
— Que a Srta. Flora Millar, a m ulher que causou o distúrbio, foi realm ente presa.
Consta que foi dançarina no Allegro e que conhecia o noivo há vários anos. Não


há m ais nenhum detalhe e o caso está agora em suas m ãos.
— E parece ser extrem am ente interessante. Não o teria perdido por coisa
algum a desse m undo. Mas a cam painha está tocando, Watson, e o relógio m arca
uns m inutos depois das quatro, portanto deve ser o nosso nobre cliente. Nem
pense em ir em bora, Watson, pois prefiro m il vezes ter um a testem unha, nem
que sej a só para checar m inha própria m em ória.
— Lorde Robert St. Sim on — anunciou o criado, abrindo a porta. Entrou um
cavalheiro de rosto agradável e educado, pálido e com um nariz im ponente, algo
de petulante na curva da boca e o olhar firm e de um hom em acostum ado a
com andar e ser obedecido. Tinha um a m aneira viva e anim ada, m as a aparência
em geral era de m ais idade, pois os om bros eram um pouco curvos e os j oelhos
dobravam ligeiram ente ao andar. O cabelo, tam bém , quando tirou o chapéu de
abas viradas, estava grisalho ao redor do rosto e ralo no topo da cabeça. As
vestim entas apuradas chegavam quase ao exagero: colarinho alto, sobrecasaca
preta, colete branco, luvas am arelas, sapatos de verniz e polainas claras.
Avançou lentam ente na sala, virando a cabeça de um lado para o outro e
balançando na m ão direita o cordão que prendia o pinceriê de ouro.
— Boa tarde, Lorde St. Sim on — disse Holm es, levantando e fazendo um
cum prim ento. — Por favor, sente-se naquela poltrona. Este é m eu am igo e
colega, Dr. Watson. Chegue-se m ais perto da lareira e vam os conversar.
— É um assunto m uito doloroso para m im , com o pode facilm ente im aginar, Sr.
Holm es. Estou profundam ente m agoado. Soube que o senhor j á lidou com vários
assuntos delicados da m esm a natureza, em bora duvide que tenham sido da
m esm a classe social.
— Não, foram de classe m ais alta.
— Com o?
— Meu últim o cliente da m esm a natureza foi um rei.
— Oh! Não tinha nenhum a idéia. Que rei?
— O rei da Escandinávia.
— O quê! Ele perdeu a esposa?
— O senhor deve com preender — disse Holm es com suavidade — que trato os
assuntos de m eus outros clientes com a m esm a discrição que prom eto ao senhor.


— Claro! Está certo! Está certo! Por favor m e perdoe. Quanto ao m eu
caso, estou pronto a lhe dar todas as inform ações que possam lhe aj udar a
form ar um a opinião.
— Obrigado. Já estou a par do que saiu nos j ornais, e nada m ais. Presum o que a
im prensa está correta. Esse artigo, por exem plo, sobre o desaparecim ento da
noiva,
Lorde St. Sim on lançou os olhos no artigo. — Sim , está
correto, até onde vai.
— Mas preciso de m uito m ais antes de poder form ar um a opinião. Acho que
poderei chegar aos fatos m ais rapidam ente se lhe fizer perguntas.
bsp;— Por favor, prossiga.
— Quando conheceu a Srta. Hatty Doran?
— Em São Francisco, um ano atrás.
— Estava viaj ando pelos Estados Unidos?
— Sim .
— Ficou noivo, então?
— Não.
— Mas ficaram am igos?
— Achava sua com panhia divertida e ela sabia disso.
— O pai dela é m uito rico?
— Dizem que é o hom em m ais rico na costa do Pacífico.
— Com o foi que ele ganhou dinheiro?
— Em m ineração. Há poucos anos, não tinha nada. Então encontrou ouro, fez
investim entos e enriqueceu rapidam ente.
— Bem , qual sua im pressão pessoal sobre o caráter da j ovem ... de sua esposa?


O nobre balançou o pincenê nervosam ente e fitou a lareira. — Sabe, Sr. Holm es,
m inha esposa tinha vinte anos quando o pai ficou rico. Até então, vivia no
acam pam ento da m ina, vagava pelos bosques e m ontanhas e sua educação velo
m ais da natureza do que de um a sala de aulas. Ela é um a m enina traquinas, com
um a personalidade forte, livre e selvagem , liberada de qualquer espécie de
tradições. É
im petuosa. . . vulcânica, deveria dizer. Tom a um a decisão rapidam ente e age
sem o m enor m edo. Por outro lado, terlhe-ia dado o nom e que tenho a honra de
possuir — tossiu discretam ente — se não achasse que, no fundo, era um a m ulher
nobre. Acredito que sej a capaz de se sacrificar heroicam ente e que qualquer
coisa desonesta lhe seria profundam ente repugnante.
— Tem um a fotografia dela?
— Trouxe isso com igo. — Abriu um m edalhão e m ostrou-nos o rosto de um a
m ulher m uito linda. Não era um a fotografia e sim um a m iniatura em m arfim e o
artista conseguira transm itir o efeito do cabelo negro lustroso, os grandes olhos
escuros e os lábios encantadores. Holm es contem plou-a por m uito tem po, com ar
grave. Depois fechou o m edalhão e devolveu-o a Lorde St. Sim on.
A m oça veio a Londres, então, e se encontraram novam ente?
— Sim , o pai a trouxe para tom ar parte nessa últim a tem porada social.
Encontrei-a várias vezes, fiquei noivo dela e agora nos casam os.
— Trouxe consigo, pelo que soube, um dote considerável.
— Moderadam ente. Não m ais do que é com um em m inha fam ília.
— E esse dote, naturalm ente, fica com o senhor, j á que o casam ento é um feito
de com pensam ento?
— Realm ente, ainda não indaguei sobre esse assunto. —
Muito natural. O senhor viu a Srta. Doran na véspera do casam ento? — sim . —
Ela estava bem , alegre? — Muito bem . Falou longam ente sobre o que íam os
fazer no futuro. —
Curioso. Isso é m uito interessante. E quanto à m anhã do dia do casam ento.
— Estava m uito anim ada'.. isto é, pelo m enos até depois da cerim ônia. — E
notou algum a m udança, então?


— Bem , para dizer a verdade, notei então os prim eiros sinais, que j á conhecia, de
que estava ficando um pouco m alhum orada. Mas foi um incidente m uito trivial e
não pode ter nada a ver com o caso.
— Gostaria que m e contasse, apesar disso.
— Olhe, é m uito infantil. Ela deixou cair o buquê de noiva quando saíam os da
igrej a. Estávam os passando por um banco e o buquê caiu nele. Dem orou um
instante, m as o cavalheiro que estava sentado no banco entregou-lhe o buquê, que
parecia intato. Mas quando disse qualquer coisa a ela, respondeu-m e
abruptam ente. E no carro, a cam inho de casa, parecia estar absurdam ente
agitada com esse incidente insignificante.
— Ali, sim ? Disse que o cavalheiro estava sentado no banco. Então havia outras
pessoas presentes, que não os convidados?
— Ali, sim . É im possível evitar isso quando a igrej a está
aberta.
— Esse cavalheiro não era um am igo de sua esposa?
— Não, não. Cham ei-o de cavalheiro por m era cortesia, m as era um a pessoa
m uito com um . Não reparei m uito nele. Mas realm ente acho que nos estam os
desviando do assunto.
— Então Lady St. Sim on voltou do casam ento m enos alegre do que antes. O que
fez quando entrou novam ente em casa de seu pai?
— Eu a vi conversando com a em pregada.
— E quem é sua em pregada?
— Seu nom e é Alice. É am ericana e veio da Califórnia com ela.
— Um a criada pessoal?
— Sim , e m e parecia que tom ava m uitas liberdades. Mas é claro que na
Am érica essas coisas são m uito diferentes.
— Quanto tem po ficou falando com essa Alice?
— Ali, uns m inutos. Não prestei atenção, estava pensando em outras


— Não ouviu o que estavam falando?
— Lady St. Sim on disse qualquer coisa sobre "apossar-se das terra". Usava m uito
linguagem de m ineração. Não tenho a m enor idéia do que queria dizer.
— A gíria am ericana às vezes é m uito expressiva. E o que fez sua esposa quando
acabou de falar com a criada?
— Entrou na sala de alm oço.
— Em seu braço?
— Não, sozinha. Era m uito independente nessas pequenas coisas. Quando
estávam os sentados uns dez m inutos levantou-se de repente, m urm urou um as
desculpas e saiu da sala. E não voltou.
— Mas essa em pregada, Alice, pelo que entendi, declarou que ela foi ao quarto,
cobriu o vestido de noiva com um longo casaco, botou um chapéu e saiu da casa.
— Exatam ente. E foi depois vista andando em Hy de Park em com panhia de
Flora Millar, um a m ulher que está agora presa e que j á havia criado um distúrbio
em casa do Sr. Doran naquela m anhã.
— Ali, sim . Gostaria de m ais detalhes sobre essa m oça e suas relações com ela.
Lorde St. Sim on encolheu os om bros e levantou as sobrancelhas. — Som os
am igos por m uitos anos. Devo dizer, am igos íntim os. Ela costum ava dançar no
Allegro. Fui bastante generoso com ela, e não tem razão de reclam ar, m as o
senhor sabe com o são as m ulheres, Sr. Holm es. Flora era um a pessoa
encantadora, m as tinha um gênio violento e era m uito dedicada a m im . Escreveu
cartas horrorosas quando soube que ia m e casar e, para dizer a verdade, a razão
por que quis um casam ento tão sim ples foi porque tem i que houvesse um
escândalo na igrej a. Ela foi até a porta do Sr. Doran logo que chegam os da igrej a
e tentou forçar a entrada, dizendo coisas horríveis de m inha esposa e chegando
até a am eaçá-la, m as eu previra a possibilidade de suceder algo sem elhante e
dera instruções aos em pregados, que logo conseguiram m andá-la em bora. Ficou
quieta quando viu que não adiantava fazer escândalo.
— Sua esposa ouviu isso?
— Não, graças a Deus.
— E foi vista andando com essa m esm a m ulher depois disso?


— Sim . É isso que o Sr. Lestrade, da Scotland Yard, considera m uito grave. Acha
que Flora atraiu m inha esposa e arm ou algum a cilada horrível para ela.
— Bem , é possível.


— O senhor concorda, então?
— Não disse que fosse provável. E o senhor concorda?
— Acho que Flora não m achucaria um a m osca.
O ciúm e é capaz de transform ar as pessoas. E qual é sua teoria quanto ao que
sucedeu?
— Bem , na verdade vim aqui em busca de um a teoria e não para apresentar
um a. Dei-lhe todos os fatos. Já que m e pergunta, entretanto, posso dizer que m e
ocorreu a possibilidade de que toda essa excitação e a consciência de que havia
dado um gigantesco passo social causaram algum distúrbio nervoso em m inha
esposa.
— Em resum o, quer dizer que ela ficou subitam ente louca?
— Bem , quando penso que ela deu as costas ... não vou dizer a m im , m as a tanto
que m uitas pessoas aspiraram em vão ... não posso. explicar os acontecim entos
de nenhum a outra m aneira.
— Essa, tam bém , não deixa de ser um a hipótese — disse Holm es, sorrindo. — E
agora, Lorde St. Sim on, creio que tenho quase todos os fatos. Posso perguntar se
estavam sentados à m esa de form a a poder ver pela j anela?
— Podíam os ver o outro lado da rua e o parque.
— Muito bem . Creio que não é preciso detê-lo por m ais tem po. Entrarei em
contato com o senhor.
— Se tiver a sorte de resolver esse caso — disse nosso cliente, erguendo-se.
— Já o resolvi.
— Hein? O que disse?
— Disse que j á o resolvi.
— Então onde está m inha esposa?
— Isso é um detalhe que lhe darei m uito em breve. lorde St. Sim on sacudiu a
cabeça. — Receio que sej a preciso cabeças m ais sábias que a sua e a m inha —
observou e, fazendo um cum prim ento m aj estoso e antiquado, retirouse. Muita
bondade de Lorde St. Sim on dar-m e a honra de colocar m inha cabeça no m esm o


nível da sua — disse Sherlock Holm es, rindo. — Acho que vou tom ar um uísque
com soda e fum ar um charuto depois de todas essas perguntas. Já chegara às
m inhas conclusões sobre esse caso antes de nosso cliente entrar nessa sala.
— Meu caro Holm es!
— Tenho anotações sobre vários casos sem elhantes, em bora nenhum fosse tão
rápido, com o j á observei. Esse exam e todo serviu para transform ar m inha
hipótese em certeza. Provas circunstanciais são às vezes m uito convincentes,
com o quando você encontra um a truta no leite, para citar o exem plo de Thoreau.
— Mas eu ouvi tudo que você ouviu.
— Sem ter, entretanto, o conhecim ento de casos anteriores que tanto m e aj uda.
Houve um caso paralelo em Aberdeen alguns anos atrás e algo em linhas m uito
sem elhantes em Munique um ano depois da guerra francoprussiaria. É um desses
casos... m as, vej a, aqui vem Ustrade!
Boatarde,
Lestrade! Pegue um copo no aparador e há charutos naquela caixa.
O detetive oficial vestia urna j aqueta grossa e um a echarpe que lhe davam
decididam ente um a aparência náutica e carregava na m ão um a sacola de lona
preta. Com um ligeiro cum prim ento de cabeça, sentou-se e acendeu o charuto
que lhe fora oferecido.
— O que está acontecendo? — perguntou Holm es, com os olhos brilhando. —
Não parece m uito contente.
— E não estou. E esse caso infernal do casam ento St. Sim ion. Não tem nem pé
nem cabeça.
— Realm ente! Você m e surpreende.
— Quem j á ouviu um a história tão confusa? Todos os indícios escapam por entre
m eus dedos. Trabalhei nisso o dia todo.
— E parece que se m olhou m uito — disse Holm es, pondo a m ão na m anga da
j aqueta. É, estávam os dragando o rio Serpentine. Meu Deus do céu, para quê?
Em busca do corpo de Lady St. Sim on.
Sherlock Holm es recostou-se na poltrona e deu um a gargalhada.


— Dragaram tam bém a bacia do chafariz de Trafalgat Square? — perguntou,
ainda rindo.
— Por quê? O que quer dizer com isso?
— Porque você tem a m esm a probabilidade de encontrar a m oça lá que
Lestrade lançou um olhar zangado a m eu com panheiro, —
Suponho que você sabe, de tudo — resm ungou.
— Bem , acabei de ouvir a história, m as j á cheguei a um a conclusão.
— Ali, é m esm o! Então pensa que o rio não tem nada a ver com o assunto?
— Acho m uito pouco provável.
— Então talvez possa ter a bondade de explicar com o é
que encontram os isso no rio? — Abriu a sacola enquanto falava e j ogou no chão
um vestido de noiva de seda, um par de sapatos de cetim branco e um a coroa e
véu de noiva, tudo desbotado e encharcado de água. — Vej a só — disse,
colocando um a aliança nova em cim a da pilha. — Aí está
um a noz para o senhor quebrar, Sr. Holm es.
— Ali, realm ente — disse m eu am igo, soprando anéis de fum aça no ar. — Tirou
isso tudo do rio?
— Não. Foi tudo encontrado flutuando perto da m argem por um guarda florestal.
Foram identificadas com o sendo as roupas dela e m e parece que 9e as roupas
estavam lá, o corpo estaria por perto.
— Seguindo seu raciocínio brilhante, o corpo de qualquer um deve ser achado
perto de seu guarda-roupa. E por favor diga-m e onde pretende chegar com isso?
— A algum indício ligando Flora Millar ao desaparecim ento da m oça.
— Receio que isso sej a um pouco difícil. — m esm o? —
exclam ou Lestrade, com aspereza. — E eu receio, Sr. Holm es, que não sej a
m uito prático com suas deduções e suas hipóteses. Já com eteu dois erros em dois
m inutos.. Esse vestido com prom ete a Srta. Flora
— Com o?


— Há um bolso no vestido. No bolso há um a carteira. Nessa carteira um bilhete.
E aqui está o bilhete. — Bateu com o papel na m esa à sua frente. — Ouça só isso:
"Você m e verá quando tudo estiver pronto. Venha im ediatam ente. F. H. W'. A
m inha teoria, desde o início, foi que Lády St. Sim on foi levada por um ardil de
Flora Millar e que esta, certam ente com cúm plices, é responsável por seu
desaparecim ento. Aqui, assinado com suas iniciais, está o bilhete que, sem
dúvida, foi enfiado sorrateiram ente em sua porta, e que a levou a se entregar a
eles.
— Muito bem , Lestrade — disse Holm es, com um sorriso. — Você realm ente
está indo m uito bem . Deixe-m e ver. — Pegou o papel desinteressadam ente, m as
ficou logo alerta e soltou urna exclam ação de prazer.
— Isso é realm ente im portante — disse.
— Ali, acha m esm o?
— Extrem am ente. Dou-lhe os parabéns.
Ustrade ficou de pé e se inclinou para olhar, triunfante.
— Mas olhe só! — exclam ou. — Está olhando o lado errado.
— Pelo contrário, este é o lado certo.
— O lado certo? Está louco! É aqui que está o bilhete escrito a lápis,
deste lado.
— E desse é o que parece ser um pedaço de um a conta de hotel, que m e
interessa profundam ente.
— Não tem nada de interessante nisso. Já olhei antes —
disse Lestrade. — "4 de outubro, quarto 8 xelins, café da m anhã 2 xelins e 6
penies, coquetel 1xelim , alm oço 2 xelins e 6 penies, copo de xerez 8 penies". Não
vej o nada de im portante nisso.
— Provavelm ente não. Mas é m uito im portante, assim m esm o. Quanto ao
bilhete, tam bém é im portante, ou pelo m enos as iniciais o são, portanto,
hum ilhação; dou-lhe parabéns novam ente.
— Já perdi tem po dem ais — disse Lestrade, de pé. —


Acredito em trabalho e não em sentar em frente da lareira elaborando lindas
teorias. Um a boa
tarde para o senhor, Sr. Holm es, e vam os ver qual de nós resolve esse problem a
pd~. — Pegou as roupas, m eteu-as na sacola o foi em direção à porta.
— Apenas um a sugestão. Ulusstrado — disse Holm es, arrastando as palavras,
antes que sum isse seu rival. — Voulhe dar a verdadeira solução. Lddy St.Sim on é
um m ito. Não existe e nunca existiu essa pessoa.
nbsp;Lestrade olhou m eu com panheiro com com paixão. Virou-se depois para
m im , bateu na testa três vezes, sacudiu solenem ente a cabeça e saiu depressa.
Mal havia fechado a porta atrás de si e Holm es j á se levantara e vestira o
sobretudo. — Tem algum a razão em falar de trabalho — com entou. — Acho,
Watson, que vou deixar você com seus j ornais por um pouco.
Passava das cinco horas quando Sherlock Holm es saiu, m as não tive ocasião de
m e sentir só, pois dentro de um a hora chegou um hom em com um a enorm e
caixa chata. Abriu-a com o auxílio de um rapazola que viera j unto e, para m inha
grande surpresa, um a ceia gastronôm ica com eçou a ser arrum ada na m odesta
m esa de m ogno de nosso aloj am ento. Um par de galinhas-d'angola, um faisão,
um a torta de pâté de foie gras, com um grupo de garrafas vetustas e poeirentas.
Após arrum ar essas as os dois visitantes sum iram , com o o gênio das Noites da
Arábia, sem qualquer explicação, exceto que tudo estava pago e tinha sido
encom endado para entrega nesse endereço.
Pouco antes de nove horas Sherlock Holm es entrou, anim ado. As feições
estavam graves, m as os olhos brilhavam , o que m e fez pensar que não tinha
ficado desapontado em suas conclusões.
— Trouxeram a ceia — disse, esfregando as m ãos.
— Parece que está esperando visitas. Puseram a m esa para cinco pessoas.
— Sim , acho que vam os ter com panhia — disse. — Estou surpreso que Lorde St.
Sim on não tenha chegado ainda. Ali!
Acho que estou ouvindo seus passos na escada.
Era realm ente nosso visitante da m anhã que entrou apressadam ente, balançando
o cordão do pincenê m ais vigorosam ente que nunca, e com um ar m uito
perturbado nas feições aristocráticas.


— Meu m ensageiro o encontrou, então? — perguntou Holm es.
— Sim , e devo confessar que o conteúdo m uito m e espantou. Está seguro do que
disse?
— Absolutam ente.
Lorde St. Sim on caiu em um a cadeira e passou a m ão pela testa.
— O que dirá o Duque — m urm urou — quando souber que um m em bro da
fam ília sofreu tal hum ilhação?
— Foi m ero acidente. Não concordo que haj a havido nenhum a hum i-— Ali, olha
essas coisas de outro ponto de vista.
— Não vej o com o ninguém sej a culpado. Não posso im aginar com o a m oça
poderia ter agido de outra form a, em bora sej a lastim ável que tenha usado
m étodos tão abruptos. Mas com o não tem m ãe, não havia ninguém para
aconselhá-la nessa crise.
— Foi um a ofensa, senhor, um a ofensa pública — disse St. Sim on, batendo com
os dedos na m esa.
— Deve ser tolerante com essa pobre m oça, colocada em situação tão difícil.
— Não serei tolerante. Estou m uito zangado, realm ente, e fui vergonhosarnente
usado.
— Acho que ouvi a cam painha — disse Holm es. — É, ouço passos na entrada. Se
não posso persuadi-lo a ser leniente nesse assunto, Lorde St. Sim on, trouxe aqui
um defensor que talvez sej a m ais bem -sucedido. — Abriu a porta e fez entrar
um a dam a e um cavalheiro. — Lorde St. Sim on
— disse — perm ita-m e apresentar-lhe o Sr. e a Sra. Francis Hay Moulton. A
senhora, acho eu, o senhor j á conhece. À vista dos recém -chegados nosso cliente
ficara de pé, m uito em pertigado, com os olhos baixos e um a das m ãos enfiadas
no peito da sobrecasaca, a verdadeira im agem da dignidade ofendida. A senhora
dera um passo em sua direção e estendera a m ão, m as ele continuara de olhos
baixos. Tanto m elhor para ele, talvez, pois o rosto suplicante dela era difícil de
resistir.
— Você está zangado, Robert: — ela disse. — Bem , acho que tem toda a razão.
— Tenha a bondade de não pedir desculpas a m im —


disse Lorde St. Sim on am argam ente.
— Ali, sim , sei que o tratei m uito m al, e devia ter falado com você antes de
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