Aristóteles vol. II



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles
Passa ao largo de tal ressaca e de tal surriada
30
Com efeito, dos extremos, um é 
mais errôneo e o outro menos; portanto, como acertar no meio-termo é 
extraordinariamente difícil, devemos contentar-nos com o menor dos males, como 
se costuma dizer; e a melhor maneira de fazê-lo é a que descrevemos. Mas devemos 
considerar as coisas para as quais nós próprios somos facilmente arrastados, porque 
um pende numa direção e outro em outra; e isso se pode reconhecer pelo prazer e 
pela dor que sentimos. 
É preciso forçar-nos a ir na direção do extremo contrário, porque 
chegaremos ao estado intermediário afastando-nos o mais que pudermos do erro
como procedem aqueles que procuram endireitar varas tortas. 
Ora, em todas as coisas o agradável e o prazer é aquilo de que mais devemos 
defender-nos, pois não podemos julgá-lo com imparcialidade. A atitude a tomar em 
30
Odisséia, XII, 219 ss. (N. do T.)


face do prazer é, portanto, a dos anciãos do povo para com Helena, e em todas as 
circunstâncias cumpre-nos dizer o mesmo que eles; porque, se não dermos ouvidos 
ao prazer, correremos menos perigo de errar. Em resumo, é procedendo dessa 
forma que teremos mais probabilidades de acertar com o meio-termo. 
Não há negar, porém, que isso seja difícil, especialmente nos casos 
particulares: pois quem poderá determinar com precisão de que modo, com quem
em resposta a que provocação e durante quanto tempo devemos encolerizarnos? E 
às vezes louvamos os que ficam aquém da medida, qualificando-os de calmos, e 
outras vezes louvamos os que se encolerizam, chamando-os de varonis. Não se 
censura, contudo, o homem que se desvia um pouco da bondade, quer no sentido 
do menos, quer do mais; só merece reproche o homem cujo desvio é maior, pois 
esse nunca passa despercebido. 
Mas até que ponto um homem pode desviar-se sem merecer censura? Isso 
não é fácil de determinar pelo raciocínio, como tudo que seja percebido pelos 
sentidos; tais coisas dependem de circunstâncias particulares, e quem decide é a 
percepção. 
Fica bem claro, pois, que em todas as coisas o meio-termo é digno de ser 
louvado, mas que às vezes devemos inclinar-nos para o excesso e outras vezes para 
a deficiência. Efetivamente, essa é a maneira mais fácil de atingir o meio-termo e o 
que é certo.
LIVRO III 

Visto que a virtude se relaciona com paixões e ações, e é às paixões e ações 
voluntárias que se dispensa louvor e censura, enquanto as involuntárias merecem 
perdão e às vezes piedade, é talvez necessário a quem estuda a natureza da virtude 
distinguir o voluntário do involuntário. Tal distinção terá também utilidade para o 
legislador no que tange à distribuição de honras e castigos. 
São, pois, consideradas involuntárias aquelas coisas que ocorrem sob 
compulsão ou por ignorância; e é compulsório ou forçado aquilo cujo princípio 


motor se encontra fora de nós e para o qual em nada contribui a pessoa que age e 
que sente a paixão — por exemplo, se tal pessoa fosse levada a alguma parte pelo 
vento ou por homens que dela se houvessem apoderado. 
Mas, quanto às coisas que se praticam para evitar maiores males ou com 
algum nobre propósito (por exemplo, se um tirano ordenasse a alguém um ato vil e 
esse alguém, tendo os pais e os filhos em poder daquele, praticasse o ato para salvá-
los de serem mortos), é discutível se tais atos são voluntários ou involuntários. Algo 
de semelhante acontece quando se lançam cargas ao mar durante uma tempestade; 
porque, em teoria, ninguém voluntariamente joga fora bens valiosos, mas quando 
assim o exige a segurança própria e da tripulação de um navio, qualquer homem 
sensato o fará. 
Tais atos, pois, são mistos, mas assemelham-se mais a atos voluntários pela 
razão de serem escolhidos no momento em que se fazem e pelo fato de ser a 
finalidade de uma ação relativa às circunstâncias. Ambos esses termos, "voluntário" 
e "involuntário", devem portanto ser usados com referência ao momento da ação. 
Ora, o homem age voluntariamente, pois nele se encontra o princípio que move as 
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