Aristóteles vol. II



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles
e maus de muitos modos
25

A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e 
consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada 
por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um 
meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto 
os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às 
ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo. E assim, no que toca à 
sua substância e à definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania; 
com referência ao sumo bem e ao mais justo, é, porém, um extremo. 
Mas nem toda ação e paixão admite um meio-termo, pois algumas têm 
nomes que já de si mesmos implicam maldade, como o despeito, o despudor, a 
inveja, e, no campo das ações,, o adultério, o furto, o assassínio. Todas essas coisas 
25
Ver Diehl, Elégeia adéspota (Elegias Anônimas) 16. 


e outras semelhantes implicam, nos próprios nomes, que são más em si mesmas, e 
não o seu excesso ou deficiência. Nelas jamais pode haver retidão, mas unicamente 
o erro. E, no que se refere a essas coisas, tampouco a bondade ou maldade 
dependem de cometer adultério com a mulher apropriada, na ocasião e da maneira 
convenientes, mas fazer simplesmente qualquer delas é um mal. 
Igualmente absurdo seria buscar um meio-termo, um excesso e uma falta em 
atos injustos, covardes ou libidinosos; porque assim haveria um meio-termo do 
excesso e da carência, um excesso de excesso e uma carência de carência. Mas, do 
mesmo modo que não existe excesso nem carência de temperança e de coragem, 
pois o que é intermediário também é, noutro sentido, um extremo, também das 
ações que mencionamos não há meio-termo, nem excesso, nem falta, porque, de 
qualquer forma que sejam praticadas, são más. Em suma, do excesso ou da falta 
não há meio-termo, como também não há excesso ou falta de meio-termo. 

Não devemos, porém, contentar-nos com esta exposição geral; é mister 
aplicá-la também aos fatos individuais. Com efeito, das proposições relativas à 
conduta, as universais são mais vazias, mas as particulares são mais verdadeiras, 
porquanto a conduta versa sobre casos individuais e nossas proposições devem 
harmonizar-se com os fatos nesses casos. 
Podemos tomá-los no nosso quadro geral. Em relação aos sentimentos de 
medo e de confiança, a coragem é o meio-termo; dos que excedem, o que o faz no 
destemor não tem nome (muitas disposições não o têm), enquanto o que excede na 
audácia é temerário, e o que excede no medo e mostra falta de audácia é covarde. 
Com relação aos prazeres e dores — não todos, e menos no que tange às dores — 
o meio-termo é a temperança e o excesso é a intemperança. Pessoas deficientes no 
tocante aos prazeres não são muito encontradiças, e por este motivo não receberam 
nome; chamemo-las, porém, "insensíveis". 
No que se refere a dar e receber dinheiro o meio-termo é a liberalidade; o 
excesso e a deficiência, respectivamente, prodigalidade e avareza. Nesta espécie de 


ações as pessoas excedem e são deficientes de maneiras opostas: o pródigo excede 
no gastar e é deficiente no receber, enquanto o avaro excede no receber e é 
deficiente no gastar. (De momento, tudo que fazemos é dar um esboço ou sumário, 
e com isso nos contentamos; mais adiante essas disposições serão descritas com 
mais exatidão
26
). 
Ainda no que diz respeito ao dinheiro, existem outras disposições: um meio-
termo, a magnificência (pois o homem magnificente difere do liberal; o primeiro 
lida com grandes quantias, o segundo com quantias pequenas); um excesso, a 
vulgaridade e o mau gosto; e uma deficiência, a mesquinhez; estas diferem das 
disposições contrárias à liberalidade, e mais tarde diremos em quê
27

Com respeito à honra e à desonra, o meio-termo é o justo orgulho, o excesso 
é conhecido como uma espécie de "vaidade oca" e a deficiência como uma 
humildade indébita; e a mesma relação que apontamos entre a liberalidade e a 
magnificência, da qual a primeira difere por lidar com pequenas quantias, também 
se verifica aqui, pois há uma disposição que tem alguns pontos em comum com o 
justo orgulho, mas ocupa-se com pequenas honras, enquanto a este só interessam 
as grandes. Porque é possível desejar a honra como se deve, mais do que se deve e 
menos do que se deve, e o homem que excede em tais desejos é chamado 
ambicioso, o que fica aquém é desambicioso, enquanto a pessoa intermediária não 
tem nome. 
As disposições também não receberam nome, salvo a do ambicioso, que se 
chama ambição. Por isso, as pessoas que se encontram nos extremos arrogam-se a 
posição intermediária; e nós mesmos às vezes chamamos as pessoas intermediárias 
de ambiciosas e outras vezes de desambiciosas, e ora louvamos a primeira 
disposição, ora a segunda. A razão disso será dada mais adiante
28
; agora, porém, 
falemos sobre as demais disposições, de acordo com o método indicado. 
No tocante à cólera também há um excesso, uma falta e um meio-termo. 
Embora praticamente não tenham nomes, uma vez que chamamos calmo ao 
26
Ver Livro IV, cap. 1. (N. do T.)
27
1122 a 20-29; 1122 b 10-18. (N. do T.)
28
118b 11-26; 1125 b 14-18. (N. do T.)


homem intermediário, seja o meio-termo também a calma; e dos que se encontram 
nos extremos, chamemos irascível ao que excede e irascibilidade ao seu vício; e ao 
que fica aquém da justa medida chamemos pacato, e pacatez à sua deficiência. 
Há outros três meios-termos que diferem entre si, apesar de revelarem uma 
certa semelhança comum. Todos eles dizem respeito ao intercâmbio em atos e 
palavras, mas diferem no seguinte: um se relaciona com a verdade nessas esferas e 
os outros dois com o que é aprazível; e destes, um se manifesta em proporcionar 
divertimento e o outro em todas as circunstâncias da vida. É preciso, portanto, falar 
destes dois, a fim de melhor compreendermos que em todas as coisas o meio-
termo é louvável e os extremos nem louváveis nem corretos, mas dignos de 
censura. Ora, a maioria dessas disposições também não receberam nomes, mas 
devemos esforçar-nos por inventá-los, para que a nossa exposição seja clara e fácil 
de acompanhar. 
No que toca à verdade, o intermediário é a pessoa verídica e ao meio-termo 
podemos chamar veracidade, enquanto a simulação que exagera é a jactância e a 
pessoa que se caracteriza por esse hábito é jactanciosa; e a que subestima é a falsa 
modéstia, a que corresponde a pessoa falsamente modesta. 
Quanto à aprazibilidade no proporcionar divertimento, a pessoa 
intermediária é espirituosa e ao meio-termo chamamos espírito; o excesso é a 
chocarrice, e a pessoa caracterizada por ele, um chocarreiro, enquanto a pessoa que 
mostra deficiência é uma espécie de rústico e a sua disposição é a rusticidade. 
Vejamos, finalmente, a terceira espécie de aprazibilidade, isto é, a que se 
manifesta na vida em geral. O homem que sabe agradar a todos da maneira devida 
é amável, e o meio-termo é a amabilidade, enquanto o que excede os limites é uma 
pessoa obsequiosa se não tem nenhum propósito determinado, um lisonjeiro se 
visa ao seu interesse próprio, e o homem que peca por deficiência e se mostra 
sempre desagradável é uma pessoa mal-humorada e rixenta. 
Também há meios-termos nas paixões e relativamente a elas, pois que a 
vergonha não é uma virtude, e não obstante louvamos os modestos. Mesmo nesses 


assuntos, diz-se que um homem é intermediário e um outro excede, como, por 
exemplo, o acanhado que se envergonha de tudo; enquanto o que mostra 
deficiência e não se envergonha de coisa alguma é um despudorado, e a pessoa 
intermediária é modesta. 
A justa indignação é um meio-termo entre a inveja e o despeito, e estas 
disposições se referem à dor e ao prazer que nos inspiram a boa ou má fortuna de 
nossos semelhantes. O homem que se caracteriza pela justa indignação confrange-
se com a má fortuna imerecida; o invejoso, que o ultrapassa, aflige-se com toda boa 
fortuna alheia; e o despeitado, longe de se afligir, chega ao ponto de rejubilar-se. 
Teremos oportunidade de descrever alhures estas disposições
29
. Quanto à 
justiça, como o significado deste termo não é simples, após descrever as outras 
disposições distinguiremos nele duas espécies e mostraremos em que sentido cada 
uma delas é um meio-termo; e trataremos do mesmo modo as virtudes racionais. 

Existem, pois, três espécies de disposições, sendo duas delas vícios que 
envolvem excesso e carência respectivamente, e a terceira uma virtude, isto é, o 
meio-termo. E em certo sentido cada uma delas se opõe às outras duas, pois que 
cada disposição extrema é contrária tanto ao meio-termo como ao outro extremo, e 
o meio-termo é contrário a ambos os extremos: assim como o igual é maior 
relativamente ao menor e menor relativamente ao maior, também os estados 
medianos são excessivos em confronto com as deficiências e deficientes quando 
comparados com os excessos, tanto nas paixões como nas ações. Com efeito, o 
bravo parece temerário em relação ao covarde, e covarde em relação ao temerário; 
e, da mesma forma, o temperante parece um voluptuoso em relação ao insensível e 
insensível em relação ao voluptuoso, e o liberal parece pródigo em confronto com 
o avaro e avaro em confronto com o pródigo. Por isso as pessoas que se 
encontram nos extremos empurram uma para a outra a intermediária: o homem 
29
O lugar é incerto; talvez Livro III, cap. 6 — Livro IV, cap. 9, onde se trata das virtudes morais em conjunto, ou talvez Livro IV, cap. 9, 
onde se discute a vergonha. (N. do T.)


bravo é chamado de temerário pelo covarde e covarde pelo temerário, e 
analogamente nos outros casos. 
Opostas como são umas às outras essas disposições, a maior contrariedade é 
a que se observa entre os extremos, e não destes para com o meio-termo
porquanto os extremos estão mais longe um do outro que do meio-termo, assim 
como o grande está mais longe do pequeno e o pequeno do grande, do que ambos 
estão do igual. 
Por outro lado, alguns extremos mostram certa semelhança com o meio-
termo, como a temeridade com a coragem e a prodigalidade com a liberalidade. Os 
extremos, porém, mostram a maior disparidade entre si; ora, os contrários são 
definidos como as coisas que mais se afastam uma da outra, de modo que as coisas 
mais afastadas entre si são mais contrárias. 
Ao meio-termo, o mais contrário às vezes é a deficiência, outras vezes o 
excesso. Por exemplo, não é a temeridade, que representa um excesso, mas a 
covardia, uma deficiência, que mais se opõe à coragem; mas no caso da temperança, 
o que mais se lhe opõe é a intemperança, um excesso. 
Isso se deve a dois motivos, um dos quais reside na própria coisa: pelo fato 
de um dos extremos estar mais próximo do meio-termo e assemelhar-se mais a ele, 
não opomos ao meio-termo esse extremo, e sim o seu contrário. Por exemplo, 
como a temeridade é considerada mais semelhante à coragem e mais próxima desta, 
e a covardia mais dessemelhante, é este último extremo que costumamos opor ao 
meio-termo; porquanto as coisas que mais se afastam do meio-termo são 
consideradas como mais contrárias a ele. 
Esta é, pois, a causa inerente à própria coisa. A outra reside em nós mesmos, 
pois aquilo para que mais tendemos por natureza nos parece mais contrário ao 
meio-termo. Por exemplo, nós próprios tendemos mais naturalmente para os 
prazeres, e por isso somos mais facilmente levados à intemperança do que à 
contenção. Daí dizermos mais contrários ao meio-termo aqueles extremos a que 


nos deixamos arrastar com mais freqüência; e por isso a intemperança, que é um 
excesso, é mais contrária à temperança. 

Está, pois, suficientemente esclarecido que a virtude moral é um meio-termo, 
e em que sentido devemos entender esta expressão; e que é um meio-termo entre 
dois vícios, um dos quais envolve excesso e o outro deficiência, e isso porque a sua 
natureza é visar à mediania nas paixões e nos atos. 
Do que acabamos de dizer segue-se que não é fácil ser bom, pois em todas 
as coisas é difícil encontrar o meio-termo. Por exemplo, encontrar o meio de um 
círculo não é para qualquer um, mas só para aquele que sabe fazê-lo; e, do mesmo 
modo, qualquer um pode encolerizar-se, dar ou gastar dinheiro — isso é fácil; mas 
fazê-lo à pessoa que convém, na medida, na ocasião, pelo motivo e da maneira que 
convém, eis o que não é para qualquer um e tampouco fácil. Por isso a bondade 
tanto é rara como nobre e louvável. 
Por conseguinte, quem visa ao meio-termo deve primeiro afastar-se do que 
lhe é mais contrário, como aconselha Calipso: 

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