Aristóteles vol. II


parte, mas as virtudes são modalidades de escolha, ou envolvem escolha. Além



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles

parte, mas as virtudes são modalidades de escolha, ou envolvem escolha. Além 
disso, com respeito às paixões se diz que somos movidos, mas com respeito às 
virtudes e aos vícios não se diz que somos movidos, e sim que temos tal ou tal 
disposição. 
Por estas mesmas razões, também não são faculdades, porquanto ninguém 
nos chama bons ou maus, nem nos louva ou censura pela simples capacidade de 
sentir as paixões. Acresce que possuímos as faculdades por natureza, mas não nos 
tornamos bons ou maus por natureza. Já falamos disto acima
23

Por conseguinte, se as virtudes não são paixões nem faculdades, só resta uma 
alternativa: a de que sejam disposições de caráter. 
Mostramos, assim, o que é a virtude com respeito ao seu gênero. 
6 
Não basta, contudo, definir a virtude como uma disposição de caráter; 
cumpre dizer que espécie de disposição é ela. 
Observemos, pois, que toda virtude ou excelência não só coloca em boa 
condição a coisa de que é a excelência como também faz com que a função dessa 
coisa seja bem desempenhada. Por exemplo, a excelência do olho torna bons tanto 
o olho como a sua função, pois é graças à excelência do olho que vemos bem. 
Analogamente, a excelência de um cavalo tanto o torna bom em si mesmo como 
bom na corrida, em carregar o seu cavaleiro e em aguardar de pé firme o ataque do 
inimigo. Portanto, se isto vale para todos os casos, a virtude do homem também 
será a disposição de caráter que o torna bom e que o faz desempenhar bem a sua 
função. 
23
1103 a 18—1103 b 2. (N. do T.)


Como isso vem a suceder, já o explicamos atrás
24
, mas a seguinte 
consideração da natureza especifica da virtude lançará nova luz sobre o assunto. 
Em tudo que é contínuo e divisível pode-se tomar mais, menos ou uma quantidade 
igual, e isso quer em termos da própria coisa, quer relativamente a nós; e o igual é 
um meio-termo entre o excesso e a falta. Por meio-termo no objeto entendo aquilo 
que é eqüidistante de ambos os extremos, e que é um só e o mesmo para todos os 
homens; e por meio-termo relativamente a nós, o que não é nem demasiado nem 
demasiadamente pouco — e este não é um só e o mesmo para todos. Por exemplo, 
se dez é demais e dois é pouco, seis é o meio-termo, considerado em função do 
objeto, porque excede e é excedido por uma quantidade igual; esse número é 
intermediário de acordo com uma proporção aritmética. Mas o meio-termo 
relativamente a nós não deve ser considerado assim: se dez libras é demais para 
uma determinada pessoa comer e duas libras é demasiadamente pouco, não se 
segue daí que o treinador prescreverá seis libras; porque isso também é, talvez, 
demasiado para a pessoa que deve comê-lo, ou demasiadamente pouco — 
demasiadamente pouco para Milo e demasiado para o atleta principiante. O mesmo 
se aplica à corrida e à luta. Assim, um mestre em qualquer arte evita o excesso e a 
falta, buscando o meio-termo e escolhendo-o — o meio-termo não no objeto, mas 
relativamente a nós. 
Se é assim, pois, que cada arte realiza bem o seu trabalho — tendo diante 
dos olhos o meio-termo e julgando suas obras por esse padrão; e por isso dizemos 
muitas vezes que às boas obras de arte não é possível tirar nem acrescentar nada, 
subentendendo que o excesso e a falta destroem a excelência dessas obras, 
enquanto o meio-termo a preserva; e para este, como dissemos, se voltam os 
artistas no seu trabalho —, e se, ademais disso, a virtude é mais exata e melhor que 
qualquer arte, como também o é a natureza, segue-se que a virtude deve ter o 
atributo de visar ao meio-termo. Refiro-me à virtude moral, pois é ela que diz 
respeito às paixões e ações, nas quais existe excesso, carência e um meio-termo. 
24
1104 a 11-27. (N. do T.)


Por exemplo, tanto o medo como a confiança, o apetite, a ira, a compaixão, e 
em geral o prazer e a dor, podem ser sentidos em excesso ou em grau insuficiente; 
e, num caso como no outro, isso é um mal. Mas senti-los na ocasião apropriada, 
com referência aos objetos apropriados, para com as pessoas apropriadas, pelo 
motivo e da maneira conveniente, nisso consistem o meio-termo e a excelência 
característicos da virtude. 
Analogamente, no que tange às ações também existe excesso, carência e um 
meio-termo. Ora, a virtude diz respeito às paixões e ações em que o excesso é uma 
forma de erro, assim como a carência, ao passo que o meio-termo é uma forma de 
acerto digna de louvor; e acertar e ser louvada são características da virtude. Em 
conclusão, a virtude é uma espécie de mediania, já que, como vimos, ela põe a sua 
mira no meio-termo. 
Por outro lado, é possível errar de muitos modos (pois o mal pertence à 
classe do ilimitado e o bem à do limitado, como supuseram os pitagóricos), mas só 
há um modo de acertar. Por isso, o primeiro é fácil e o segundo difícil — fácil errar 
a mira, difícil atingir o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso e a falta são 
característicos do vício, e a mediania da virtude: Pois os homens são bons de um modo só, 

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