Aristóteles vol. II



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles
Leis, 653 ss.; República, 401-402. (N. do T.)


Ainda mais: como dissemos não faz muito
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, todo estado da alma tem uma 
natureza relativa e concernente à espécie de coisas que tendem a torná-la melhor ou 
pior; mas é em razão dos prazeres e dores que os homens se tornam maus, isto é, 
buscando-os ou evitando-os — quer prazeres e dores que não devem, na ocasião 
em que não devem ou da maneira pela qual não devem buscar ou evitar, quer por 
errarem numa das outras alternativas semelhantes que se podem distinguir. Por 
isso, muitos chegam a definir as virtudes como certos estados de impassividade e 
repouso; não acertadamente, porém, porque se exprimem de modo absoluto, sem 
dizer "como se deve", "como não se deve", "quando se deve ou não se deve", e as 
outras condições que se podem acrescentar. Admitimos, pois, que essa espécie de 
excelência tende a fazer o que é melhor com respeito aos prazeres e às dores, e que 
o vício faz o contrário. 
Os fatos seguintes também nos podem mostrar que a virtude e o vício se 
relacionam com essas mesmas coisas. Como existem três objetos de escolha e três 
de rejeição — o nobre, o vantajoso, o agradável e seus contrários, o vil, o 
prejudicial e o doloroso —, a respeito de todos eles o homem bom tende a agir 
certo e o homem mau a agir errado, e especialmente no que toca ao prazer. Com 
efeito, além de ser comum aos animais, este também acompanha todos os objetos 
de escolha, pois até o nobre e o vantajoso se apresentam como agradáveis. 
Acresce que o agradável e o doloroso cresceram conosco desde a nossa 
infância, e por isso é difícil conter essas paixões, enraizadas como estão na nossa 
vida. E, alguns mais e outros menos, medimos nossas próprias ações pelo estalão 
do prazer e da dor. Por esse motivo, toda a nossa inquirição girará em torno deles, 
já que, pelo fato de serem legítimos ou ilegítimos, o prazer e a dor que sentimos 
têm efeito não pequeno sobre as nossas ações. 
Por outro lado, para usarmos a frase de Heráclito, é mais difícil lutar contra o 
prazer do que contra a dor, mas tanto a virtude como a arte se orientam para o 
mais difícil, que até torna melhores as coisas boas. Essa é também a razão por que 
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1104 a 27— 1104b3.(N.doT.)


tanto a virtude como a ciência política giram sempre em torno de prazeres e dores, 
de vez que o homem que lhes der bom uso será bom e o que lhes der mau uso será 
mau. 
Demos por assentado, pois, que a virtude tem que ver com prazeres e dores; 
que, pelos mesmos atos de que ela se origina, tanto é acrescida como, se tais atos 
são praticados de modo diferente, destruída; e que os atos de onde surgiu a virtude 
são os mesmos em que ela se atualiza. 

Alguém poderia perguntar que entendemos nós ao declarar que devemos 
tornar-nos justos praticando atos justos e temperantes praticando atos temperantes; 
porque, se um homem pratica tais atos, é que já possui essas virtudes, exatamente 
como, se faz coisas concordes com as leis da gramática e da música, é que já é 
gramático e músico. 
Ou não será isto verdadeiro nem sequer das artes? Pode-se fazer uma coisa 
que esteja concorde com as leis da gramática, quer por acaso, quer por sugestão de 
outrem. Um homem, portanto, só é gramático quando faz algo pertencente à 
gramática e o faz gramaticalmente; e isto significa fazê-lo de acordo com os 
conhecimentos gramaticais que ele próprio possui. 
Sucede, por outro lado, que neste ponto não há similaridade de caso entre as 
artes e as virtudes, porque os produtos das primeiras têm a sua bondade própria, 
bastando que possuam determinado caráter; mas porque os atos que estão de 
acordo com as virtudes tenham determinado caráter, não se segue que sejam 
praticados de maneira justa ou temperante. Também é mister que o agente se 
encontre em determinada condição ao praticá-los: em primeiro lugar deve ter 
conhecimento do que faz; em segundo, deve escolher os atos, e escolhê-los por eles 
mesmos; e em terceiro, sua ação deve proceder de um caráter firme e imutável. 
Estas não são consideradas como condições para a posse das artes, salvo o simples 
conhecimento; mas como condição para a posse das virtudes o conhecimento 
pouco ou nenhum peso tem, ao passo que as outras condições — isto é, aquelas 


mesmas que resultam da prática amiudada de atos justos e temperantes — são, 
numa palavra, tudo. 
Por conseguinte, as ações são chamadas justas e temperantes quando são tais 
como as que praticaria o homem justo ou temperante; mas não é temperante o 
homem que as pratica, e sim o que as pratica tal como o fazem os justos e 
temperantes. É acertado, pois, dizer que pela prática de atos justos se gera o 
homem justo, e pela prática de atos temperantes, o homem temperante; sem essa 
prática, ninguém teria sequer a possibilidade de tornar-se bom. 
Mas a maioria das pessoas não procede assim. Refugiam-se na teoria e 
pensam que estão sendo filósofos e se tornarão bons dessa maneira. Nisto se 
portam, de certo modo, como enfermos que escutassem atentamente os seus 
médicos, mas não fizessem nada do que estes lhes prescrevessem. Assim como a 
saúde destes últimos não pode restabelecer-se com tal tratamento, a alma dos 
segundos não se tornará melhor com semelhante curso de filosofia. 

Devemos considerar agora o que é a virtude. Visto que na alma se 
encontram três espécies de coisas — paixões, faculdades e disposições de caráter 
—, a virtude deve pertencer a uma destas. 
Por paixões entendo os apetites, a cólera, o medo, a audácia, á inveja, a 
alegria, a amizade, o ódio, o desejo, a emulação, a compaixão, e em geral os 
sentimentos que são acompanhados de prazer ou dor; por faculdades, as coisas em 
virtude das quais se diz que somos capazes de sentir tudo isso, ou seja, de nos 
irarmos, de magoar-nos ou compadecer-nos; por disposições de caráter, as coisas 
em virtude das quais nossa posição com referência às paixões é boa ou má. Por 
exemplo, com referência à cólera, nossa posição é má se a sentimos de modo 
violento ou demasiado fraco, e boa se a sentimos moderadamente; e da mesma 
forma no que se relaciona com as outras paixões. 
Ora, nem as virtudes nem os vícios são paixões, porque ninguém nos chama 
bons ou maus devido às nossas paixões, e sim devido às nossas virtudes ou vícios, e 


porque não somos louvados nem censurados por causa de nossas paixões (o 
homem que sente medo ou cólera não é louvado, nem é censurado o que 
simplesmente se encoleriza, mas sim o que se encoleriza de certo modo); mas pelas 
nossas virtudes e vícios somos efetivamente louvados e censurados. 
Por outro lado, sentimos cólera e medo sem nenhuma escolha de nossa 
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