Aristóteles vol. II



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles
Ótimo é aquele que de si mesmo 
[conhece todas as coisas; 
Bom, o que escuta os conselhos 
[dos homens judiciosos. 
Mas o que por si não pensa, nem 
[acolhe a sabedoria alheia, 
Esse é, em verdade, uma criatura 
[inútil
1
. 

Voltemos, porém, ao ponto em que havia começado esta digressão. A julgar 
pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais 
vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade 
com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que 
existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e 
a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a 
escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar 
assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de 
Sardanapalo
2

A consideração dos tipos principais de vida mostra que as pessoas de grande 
refinamento e índole ativa identificam a felicidade com a honra; pois a honra é, em 
suma, a finalidade da vida política. No entanto, afigura-se demasiado superficial 
para ser aquela que buscamos, visto que depende mais de quem a confere que de 
quem a recebe, enquanto o bem nos parece ser algo próprio de um homem e que 
dificilmente lhe poderia ser arrebatado. 
Dir-se-ia, além disso, que os homens buscam a honra para convencerem-se a 
si mesmos de que são bons. Como quer que seja, é pelos indivíduos de grande 
sabedoria prática que procuram ser honrados, e entre os que os conhecem e, ainda 
mais, em razão da sua virtude. Está claro, pois, que para eles, ao menos, a virtude é 
1
Trabalhos e Dias, 293 ss. (N. do E.)
2
Era um rei mítico da Assíria. (N. do E.)


mais excelente. Poder-se-ia mesmo supor que a virtude, e não a honra, é a 
finalidade da vida política. Mas também ela parece ser de certo modo incompleta, 
porque pode acontecer que seja virtuoso quem está dormindo, quem leva uma vida 
inteira de inatividade, e, mais ainda, é ela compatível com os maiores sofrimentos e 
infortúnios. Ora, salvo quem queira sustentar a tese a todo custo, ninguém jamais 
considerará feliz um homem que vive de tal maneira. 
Quanto a isto, basta, pois o assunto tem sido suficientemente tratado mesmo 
nas discussões correntes. A terceira vida é a contemplativa, que examinaremos mais 
tarde
3

Quanto à vida consagrada ao ganho, é uma vida forçada, e a riqueza não é 
evidentemente o bem que procuramos: é algo de útil, nada mais, e ambicionado no 
interesse de outra coisa. E assim, antes deveriam ser incluídos entre os fins os que 
mencionamos acima, porquanto são amados por si mesmos. Mas é evidente que 
nem mesmo esses são fins; e contudo, muitos argumentos têm sido desperdiçados 
em favor deles. Deixamos, pois, este assunto. 

Seria melhor, talvez, considerar o bem universal e discutir a fundo o que se 
entende por isso, embora tal investigação nos seja dificultada pela amizade que nos 
une àqueles que introduziram as Formas
4
. No entanto, os mais ajuizados dirão que 
é preferível e que é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a fim 
de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da 
sabedoria; porque, embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a 
verdade acima de nossos amigos. 
Os defensores dessa doutrina não postularam Formas
5
de classes dentro das 
quais reconhecessem prioridade e posterioridade (e por essa razão não sustentaram 
3
1177 a 12 - 1178 a 8; 1178 a 22 - 1179 a 32. (N.do T.)
4
Outros traduzem por: Teoria das Idéias. (N. do E.)
5
o
u Idéias. (N. do E.) 


a existência de uma Forma
6
a abranger todos os números). Ora, o termo "bem" é 
usado tanto na categoria de substância como na de qualidade e na de relação, e o 
que existe por si mesmo, isto é, a substância, é anterior por natureza ao relativo 
(este, de fato, é como uma derivação e um acidente do ser); de modo que não pode 
haver uma Idéia comum por cima de todos esses bens. 
Além disso, como a palavra "bem" tem tantos sentidos quantos "ser" (visto 
que é predicada tanto na categoria de substância, como de Deus e da razão, quanto 
na de qualidade, isto é, das virtudes; na de quantidade, isto é, daquilo que é 
moderado; na de relação, isto é, do útil; na de tempo, isto é, da oportunidade 
apropriada; na de espaço, isto é, do lugar apropriado, etc.), está claro que o bem 
não pode ser algo único e universalmente presente, pois se assim fosse não poderia 
ser predicado em todas as categorias, mas somente numa. 
Ainda mais: como das coisas que correspondem a uma Idéia a ciência é uma 
só, haveria uma única ciência de todos os bens. Mas o fato é que as ciências são 
muitas, mesmo das coisas que se incluem numa só categoria: da oportunidade, por 
exemplo, pois que a oportunidade na guerra é estudada pela estratégia e na saúde 
pela medicina, enquanto a moderação nos alimentos é estudada por esta última, e 
nos exercícios pela ciência da ginástica. E alguém poderia fazer esta pergunta: que 
entendem eles, afinal, por esse "em de cada coisa, já que para o "homem em si" e 
para um homem particular a definição do homem é a mesma? Porque, na medida 
em que forem "homem", não diferirão em coisa alguma. E, assim sendo, tampouco 
diferirão o "bem em si" e os bens particulares na medida em que forem "bem". E, 
por outro lado, o "bem em si" não será mais "bem" pelo fato de ser eterno, assim 
como aquilo que dura muito tempo não é mais branco do que aquilo que perece no 
espaço de um dia. 
Os pitagóricos parecem fazer uma concepção mais plausível do bem quando 
colocam o "um" na coluna dos bens; e esta opinião, se não nos enganamos, foi 
adotada por Espeusipo. 
6
Ou Idéia. (N. do E.)


Mas deixemos esses assuntos para serem discutidos noutra ocasião
7
. Poder-
se-á objetar ao que acabamos de dizer apontando que (os platônicos) não falam de 
todos os bens, e que os bens buscados e amados por si mesmos são chamados bons 
em referência a uma Forma única, enquanto os que de certo modo tendem a 
produzir ou a preservar estes, ou a afastar os seus opostos, são chamados bons em 
referência a estes e num sentido subsidiário. É evidente, pois, que falamos dos bens 
em dois sentidos: uns devem ser bens em si mesmos, e os outros, em relação aos 
primeiros. 
Separemos, pois, as coisas boas em si mesmas das coisas úteis, e vejamos se 
as primeiras são chamadas boas em referência a uma Idéia única. Que espécie de 
bens chamaríamos bens em si mesmos? Serão aqueles que buscamos mesmo 
quando isolados dos outros, como a inteligência, a visão e certos prazeres e honras? 
Estes, embora também possamos procurá-los tendo em vista outra coisa, seriam 
colocados entre os bens em si mesmos. 
Ou não haverá nada de bom em si mesmo senão a Idéia do bem? Nesse 
caso, a Forma se esvaziará de todo sentido. Mas, se as coisas que indicamos 
também são boas em si mesmas, o conceito do bem terá de ser idêntico em todas 
elas, assim como o da brancura é idêntico na neve e no alvaiade. Mas quanto à 
honra, à sabedoria e ao prazer, no que se refere à sua bondade, os conceitos são 
diversos e distintos. O bem, por conseguinte, não é uma espécie de elemento 
comum que corresponda a uma só Idéia. 
Mas que entendemos, então, pelo bem? Não será, por certo, como uma 
dessas coisas que só por casualidade têm o mesmo nome. Serão os bens uma só 
coisa por derivarem de um só bem, ou para ele contribuírem, ou antes serão um só 
por analogia? Inegavelmente, o que a visão é para o corpo a razão é para a alma, e 
da mesma forma em outros casos. Mas talvez seja preferível, por ora, deixarmos de 
lado esses assuntos, visto que a precisão perfeita no tocante a eles compete mais 
propriamente a um outro ramo da filosofia
8

7
Cf. Metafísica, 986 a 22-26; 1028 b 21-24; 1072 b30— 1073a3; 1091 a 29 — 1091 b 3; 1091 b 13 1092 a 17. (N.doT.)
8
Cf. Metafísica, IV, 2. (N. do T.)


O mesmo se poderia dizer no que se refere à Idéia: mesmo ainda que exista 
algum bem único que seja universalmente predicável dos bens ou capaz de 
existência separada e independente, é 
claro que ele não poderia ser realizado nem alcançado pelo homem; mas o 
que nós buscamos aqui é algo de atingível. 
Alguém, no entanto, poderá pensar que seja vantajoso reconhecê-lo com a 
mira nos bens que são atingíveis e realizáveis; porquanto, dispondo dele como de 
uma espécie de padrão, conheceremos melhor os bens que realmente nos 
aproveitam; e, conhecendo-os, estaremos em condições de alcançá-los. Este 
argumento tem um certo ar de plausibilidade, mas parece entrar em choque com o 
procedimento adotado nas ciências; porque todas elas, embora visem a algum bem 
e procurem suprir a sua falta, deixam de lado o conhecimento do bem. Entretanto, 
não é provável que todos os expoentes das artes ignorem e nem sequer desejem 
conhecer auxílio tão valioso. Não se compreende, por outro lado, a vantagem que 
possa trazer a um tecelão ou a um carpinteiro esse conhecimento do "bem em si" 
no que toca à sua arte, ou que o homem que tenha considerado a Idéia em si venha 
a ser, por isso mesmo, melhor médico ou general. Porque o médico nem sequer 
parece estudar a saúde desse ponto de vista, mas sim a saúde do homem, ou talvez 
seja mais exato dizer a saúde de um indivíduo particular, pois é aos indivíduos que 
ele cura. Mas quanto a isso, basta. 

Voltemos novamente ao bem que estamos procurando e indaguemos o que é 
ele, pois não se afigura igual nas distintas ações e artes; é diferente na medicina, na 
estratégia, e em todas às demais artes do mesmo modo. Que é, pois, o bem de cada 
uma delas? Evidentemente, aquilo em cujo interesse se fazem todas as outras 
coisas. Na medicina é a saúde, na estratégia a vitória, na arquitetura uma casa, em 
qualquer outra esfera uma coisa diferente, e em todas as ações e propósitos é ele a 
finalidade; pois é tendo-o em vista que os homens realizam o resto. Por 
conseguinte, se existe uma finalidade para tudo que fazemos, essa será o bem 


realizável mediante a ação; e, se há mais de uma, serão os bens realizáveis através 
dela. 
Vemos agora que o argumento, tornando por um atalho diferente, chegou ao 
mesmo ponto. Mas procuremos expressar isto com mais clareza ainda. Já que, 
evidentemente, os fins são vários e nós escolhemos alguns dentre eles (como a 
riqueza, as flautas
9
e os instrumentos em geral), segue-se que nem todos os fins são 
absolutos; mas o sumo bem é claramente algo de absoluto. Portanto, se só existe 
um fim absoluto, será o que estamos procurando; e, se existe mais de um, o mais 
absoluto de todos será o que buscamos. 
Ora, nós chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo mais 
absoluto do que aquilo que merece ser buscado com vistas em outra coisa, e aquilo 
que nunca é desejável no interesse de outra coisa mais absoluto do que as coisas 
desejáveis tanto em si mesmas como no interesse de uma terceira; por isso 
chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo 
e nunca no interesse de outra coisa. 
Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade. É ela 
procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à 
honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de fato escolhemos por si 
mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um 
deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse 
deles nos tornará felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe tendo em vista 
algum destes, nem, em geral, qualquer coisa que não seja ela própria. 
Considerado sob o ângulo da auto-suficiência, o raciocínio parece chegar ao 
mesmo resultado, porque o bem absoluto é considerado como auto-suficiente. Ora, 
por auto-suficiente não entendemos aquilo que é suficiente para um homem só, 
para aquele que leva uma vida solitária, mas também para os pais, os filhos, a 
esposa, e em geral para os amigos e concidadãos, visto que o homem nasceu para a 
cidadania. Mas é necessário traçar aqui um limite, porque, se estendermos os 
9
Cf. Platão, Eutidemo, 289. (N. do T.)


nossos requisitos aos antepassados, aos descendentes e aos amigos dos amigos, 
teremos uma série infinita. 
Examinaremos esta questão, porém, em outro lugar
10
; por ora definimos a 
auto-suficiência como sendo aquilo que, em si mesmo, torna a vida desejável e 
carente de nada. E como tal entendemos a felicidade, considerando-a, além disso, a 
mais desejável de todas as coisas, sem contá-la como um bem entre outros. Se 
assim fizéssemos, é evidente que ela se tornaria mais desejável pela adição do 
menor bem que fosse, pois o que é acrescentado se torna um excesso de bens, e 
dos bens é sempre o maior o mais desejável. A felicidade é, portanto, algo absoluto 
e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação. 
Mas dizer que a felicidade é o sumo bem talvez pareça uma banalidade, e 
falta ainda explicar mais claramente o que ela seja. Tal explicação não ofereceria 
grande dificuldade se pudéssemos determinar primeiro a função do homem. Pois, 
assim como para um flautista, um escultor ou um pintor, e em geral para todas as 
coisas que têm uma função ou atividade, considera-se que o bem e o "bem feito" 
residem na função, o mesmo ocorreria com o homem se ele tivesse uma função. 
Dar-se-á o caso, então, de que o carpinteiro e o curtidor tenham certas 
funções e atividades, e o homem não tenha nenhuma? Terá ele nascido sem 
função? Ou, assim como o olho, a mão, o pé e em geral cada parte do corpo têm 
evidentemente uma função própria, poderemos assentar que o homem, do mesmo 
modo, tem uma função à parte de todas essas? Qual poderá ser ela? 
A vida parece ser comum até às próprias plantas, mas agora estamos 
procurando o que é peculiar ao homem. Excluamos, portanto, a vida de nutrição e 
crescimento. A seguir há uma vida de percepção, mas essa também parece ser 
comum ao cavalo, ao boi e a todos os animais. Resta, pois, a vida ativa do elemento 
que tem um princípio racional; desta, uma parte tem tal princípio no sentido de ser-
lhe obediente, e a outra no sentido de possuí-lo e de exercer o pensamento. E, 
como a ''vida do elemento racional" também tem dois significados, devemos 
10
I, 10-11; IX. 10.(N.doT.)


esclarecer aqui que nos referimos a vida no sentido de atividade; pois esta parece 
ser a acepção mais própria do termo. 
Ora, se a função do homem é uma atividade da alma que segue ou que 
implica um princípio racional, e se dizemos que "um tal-e-tal" e "um bom tal-e-tal" 
têm uma função que é a mesma em espécie (por exemplo, um tocador de lira e um 
bom tocador de lira, e assim em todos os casos, sem maiores discriminações, sendo 
acrescentada ao nome da função a eminência com respeito à bondade — pois a 
função de um tocador de lira é tocar lira, e a de um bom tocador de lira é fazê-lo 
bem); se realmente assim é [e afirmamos ser a função do homem uma certa espécie 
de vida, e esta vida uma atividade ou ações da alma que implicam um princípio 
racional; e acrescentamos que a função de um bom homem é uma boa e nobre 
realização das mesmas; e se qualquer ação é bem realizada quando está de acordo 
com a excelência que lhe é própria; se realmente assim é], o bem do homem nos 
aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais 
de uma virtude, com a melhor e mais completa. 
Mas é preciso ajuntar "numa vida completo". Porquanto uma andorinha não 
faz verão, nem um dia tampouco; e da mesma forma um dia, ou um breve espaço 
de tempo, não faz um homem feliz e venturoso. 
Que isto sirva como um delineamento geral do bem, pois presumivelmente é 
necessário esboçá-lo primeiro de maneira tosca, para mais tarde precisar os 
detalhes. Mas, a bem dizer, qualquer um é capaz de preencher e articular o que em 
princípio foi bem delineado; e também o tempo parece ser um bom descobridor e 
colaborador nessa espécie de trabalho. A tal fato se devem os progressos das artes, 
pois qualquer um pode acrescentar o que falta. 
Devemos igualmente recordar o que se disse antes
11
e não buscar a precisão 
em todas as coisas por igual, mas, em cada classe de coisas, apenas a precisão que o 
assunto comportar e que for apropriada à investigação. Porque um carpinteiro e um 
geômetra investigam de diferentes modos o ângulo reto. O primeiro o faz na 
11
1094 b 11-27.(N. do T.)


medida em que o ângulo reto é útil ao seu trabalho, enquanto o segundo indaga o 
que ou que espécie de coisa ele é; pois o geômetra é como que um espectador da 
verdade. Nós outros devemos proceder do mesmo modo em todos os outros 
assuntos, para que a nossa tarefa principal não fique subordinada a questões de 
menor monta. E tampouco devemos reclamar a causa em todos os assuntos por 
igual. Em alguns casos basta que o fato esteja bem estabelecido, como sucede com 
os primeiros princípios: o fato é a coisa primária ou primeiro princípio. 
Ora, dos primeiros princípios descobrimos alguns pela indução, outros pela 
percepção, outros como que por hábito, e outros ainda de diferentes maneiras. Mas 
a cada conjunto de princípios devemos investigar da maneira natural e esforçar-nos 
para expressá-los com precisão, pois que eles têm grande influência sobre o que se 
segue. Diz-se, com efeito, que o começo é mais que metade do todo, e muitas das 
questões que formulamos são aclaradas por ele. 

Devemos considerá-lo, no entanto, não só à luz da nossa conclusão e das 
nossas premissas, mas também do que a seu respeito se costuma dizer; pois com 
uma opinião verdadeira todos os dados se harmonizam, mas com uma opinião falsa 
os fatos não tardam a entrar em conflito. 
Ora, os bens têm sido divididos em três classes
12
, e alguns foram descritos 
como exteriores, outros como relativos à alma ou ao corpo. Nós outros 
consideramos como mais propriamente e verdadeiramente bens os que se 
relacionam com a alma, e como tais classificamos as ações e atividades psíquicas. 
Logo, o nosso ponto de vista deve ser correto, pelo menos de acordo com esta 
antiga opinião, com a qual concordam muitos filósofos. É também correto pelo 
fato de identificarmos o fim com certas ações e atividades, pois desse modo ele 
vem incluir-se entre os bens da alma, e não entre os bens exteriores. 
Outra crença que se harmoniza com a nossa concepção é a de que o homem 
feliz vive bem e age bem; pois definimos praticamente a felicidade como uma 
12
Platão, Eutidemo, 279; Filebo, 48; Leis, 743. N.doT.)


espécie de boa vida e boa ação. As características que se costuma buscar na 
felicidade também parecem pertencer todas à definição que demos dela. Com 
efeito, alguns identificam a felicidade com a virtude, outros com a sabedoria prática, 
outros com uma espécie de sabedoria filosófica, outros com estas, ou uma destas, 
acompanhadas ou não de prazer; e outros ainda também incluem a prosperidade 
exterior. Ora, algumas destas opiniões têm tido muitos e antigos defensores, 
enquanto outras foram sustentadas por poucas, mas eminentes pessoas. E não é 
provável que qualquer delas esteja inteiramente equivocada, mas sim que tenham 
razão pelo menos a algum respeito, ou mesmo a quase todos os respeitos. 
Também se ajusta à nossa concepção a dos que identificam a felicidade com 
a virtude em geral ou com alguma virtude particular, pois que à virtude pertence a 
atividade virtuosa. Mas há, talvez, uma diferença não pequena em colocarmos o 
sumo bem na posse ou no uso, no estado de ânimo ou no ato. Porque pode existir 
o estado de ânimo sem produzir nenhum bom resultado, como no homem que 
dorme ou que permanece inativo; mas a atividade virtuosa, não: essa deve 
necessariamente agir, e agir bem. E, assim como nos Jogos Olímpicos não são os 
mais belos e os mais fortes que conquistam a coroa, mas os que competem (pois é 
dentre estes que hão de surgir os vencedores), também as coisas nobres e boas da 
vida só são alcançadas pelos que agem retamente. 
Sua própria vida é aprazível por si mesma. Com efeito, o prazer é um estado 
da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama: não só um cavalo ao 
amigo de cavalos e um espetáculo ao amador de espetáculos, mas também os atos 
justos ao amante da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos amantes da virtude. 
Ora, na maioria dos homens os prazeres estão em conflito uns com os outros 
porque não são aprazíveis por natureza, mas os amantes do que é nobre se 
comprazem em coisas que têm aquela qualidade; tal é o caso dos atos virtuosos, 
que não apenas são aprazíveis a esses homens, mas em si mesmos e por sua própria 
natureza. Em conseqüência, a vida deles não necessita do prazer como uma espécie 
de encanto adventício, mas possui o prazer em si mesma. Pois que, além do que já 


dissemos, o homem que não se regozija com as ações nobres não é sequer bom; e 
ninguém chamaria de justo o que não se compraz em agir com justiça, nem liberal o 
que não experimenta prazer nas ações liberais; e do mesmo modo em todos os 
outros casos. 
Sendo assim, as ações virtuosas devem ser aprazíveis em si mesmas. Mas são, 
além disso, boas e nobres, e possuem no mais alto grau cada um destes atributos, 
porquanto o homem bom sabe aquilatá-los bem; sua capacidade de julgar é tal 
como a descrevemos. A felicidade é, pois, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível 
coisa do mundo, e esses atributos não se acham separados como na inscrição de 
Delos: 

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