Aristóteles vol. II



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Ética a Nicômaco, Livros I e IV - Aristóteles
ÉTICA A NICOMACO 
Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim 
da versão inglesa de W. D. Ross 
LIVRO I 

Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda 
ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito 
acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os 
fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das 
atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por 
natureza mais excelentes do que estas. 
Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus 
fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da 
estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se 
subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se 
ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, 
juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também 
se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser 
preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a 
bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias 
atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de 
mencionar. 

Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele 
mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem 


toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao 
infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou 
antes, o sumo bem. 
Mas não terá o seu conhecimento, porventura, grande influência sobre a essa 
vida? Semelhantes a arqueiros que têm um alvo certo para a sua pontaria, não 
alcançaremos mais facilmente aquilo que nos cumpre alcançar? Se assim é, 
esforcemo-nos por determinar, ainda que em linhas gerais apenas, o que seja ele e 
de qual das ciências ou faculdades constitui o objeto. Ninguém duvidará de que o 
seu estudo pertença à arte mais prestigiosa e que mais verdadeiramente se pode 
chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que 
determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado, quais são as que 
cada cidadão deve aprender, e até que ponto; e vemos que até as faculdades tidas 
em maior apreço, como a estratégia, a economia e a retórica, estão sujeitas a ela. 
Ora, como a política utiliza as demais ciências e, por outro lado, legisla sobre o que 
devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência deve abranger as das 
outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Com efeito, ainda que tal 
fim seja o mesmo tanto para o indivíduo como para o Estado, o deste último 
parece ser algo maior e mais completo, quer a atingir, quer a preservar. Embora 
valha bem a pena atingir esse fim para um indivíduo só, é mais belo e mais divino 
alcançá-lo para uma nação ou para as cidades-Estados. Tais são, por conseguinte, 
os fins visados pela nossa investigação, pois que isso pertence à ciência política 
numa das acepções do termo. 

Nossa discussão será adequada se tiver tanta clareza quanto comporta o 
assunto, pois não se deve exigir a precisão em todos os raciocínios por igual, assim 
como não se deve buscá-la nos produtos de todas as artes mecânicas. Ora, as ações 
belas e justas, que a ciência política investiga, admitem grande variedade e 
flutuações de opinião, de forma que se pode considerá-las como existindo por 
convenção apenas, e não por natureza. E em torno dos bens há uma flutuação 


semelhante, pelo fato de serem prejudiciais a muitos: houve, por exemplo, quem 
perecesse devido à sua riqueza, e outros por causa da sua coragem. 
Ao tratar, pois, de tais assuntos, e partindo de tais premissas, devemos 
contentar-nos em indicar a verdade aproximadamente e em linhas gerais; e ao falar 
de coisas que são verdadeiras apenas em sua maior parte e com base em premissas 
da mesma espécie, só poderemos tirar conclusões da mesma natureza. E é dentro 
do mesmo espírito que cada proposição deverá ser recebida, pois é próprio do 
homem culto buscar a precisão, em cada gênero de coisas, apenas na medida em 
que a admite a natureza do assunto. Evidentemente, não seria menos insensato 
aceitar um raciocínio provável da parte de um matemático do que exigir provas 
científicas de um retórico. 
Ora, cada qual julga bem as coisas que conhece, e dessas coisas é ele bom 
juiz. Assim, o homem que foi instruído a respeito de um assunto é bom juiz nesse 
assunto, e o homem que recebeu instrução sobre todas as coisas é bom juiz em 
geral. Por isso, um jovem não é bom ouvinte de preleções sobre a ciência política. 
Com efeito, ele não tem experiência dos fatos da vida, e é em torno destes que 
giram as nossas discussões; além disso, como tende a seguir as suas paixões, tal 
estudo lhe será vão e improfícuo, pois o fim que se tem em vista não é o 
conhecimento, mas a ação. E não faz diferença que seja jovem em anos ou no 
caráter; o defeito não depende da idade, mas do modo de viver e de seguir um após 
outro cada objetivo que lhe depara a paixão. A tais pessoas, como aos 
incontinentes, a ciência não traz proveito algum; mas aos que desejam e agem de 
acordo com um princípio racional o conhecimento desses assuntos fará grande 
vantagem. 
Sirvam, pois, de prefácio estas observações sobre o estudante, a espécie de 
tratamento a ser esperado e o propósito da investigação. 

Retomemos a nossa investigação e procuremos determinar, à luz deste fato 
de que todo conhecimento e todo trabalho visa a algum bem, quais afirmamos ser 


os objetivos da ciência política e qual é o mais alto de todos os bens que se podem 
alcançar pela ação. Verbalmente, quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo 
como os homens de cultura superior dizem ser esse fim a felicidade e identificam o 
bem viver e o bem agir como o ser feliz. Diferem, porém, quanto ao que seja a 
felicidade, e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios. Os primeiros 
pensam que seja alguma coisa simples e óbvia, como o prazer, a riqueza ou as 
honras, muito embora discordem entre si; e não raro o mesmo homem a identifica 
com diferentes coisas, com a saúde quando está doente, e com a riqueza quando é 
pobre. Cônscios da sua própria ignorância, não obstante, admiram aqueles que 
proclamam algum grande ideal inacessível à sua compreensão. Ora, alguns têm 
pensado que, à parte esses numerosos bens, existe um outro que ê auto-subsistente 
e também é causa da bondade de todos os demais. Seria talvez infrutífero examinar 
todas as opiniões que têm sido sustentadas a esse respeito; basta considerar as mais 
difundidas ou aquelas que parecem ser defensáveis. 
Não percamos de vista, porém, que há uma diferença entre os argumentos 
que procedem dos primeiros princípios e os que se voltam para eles. O próprio 
Platão havia levantado esta questão, perguntando, como costumava fazer: 
"Nosso caminho parte dos primeiros princípios ou se dirige para eles?" Há aí uma 
diferença, como há, num estádio, entre a reta que vai dos juízes ao ponto de 
retorno e o caminho de volta. Com efeito, embora devamos começar pelo que é 
conhecido, os objetos de conhecimento o são em dois sentidos diferentes: alguns 
para nós, outros na acepção absoluta da palavra. É de presumir, pois, que devamos 
começar pelas coisas que nos são conhecidas, a nós. Eis aí por que, a fim de ouvir 
inteligentemente as preleções sobre o que é nobre e justo, e em geral sobre temas 
de ciência política, é preciso ter sido educado nos bons hábitos. Porquanto o fato é 
o ponto de partida, e se for suficientemente claro para o ouvinte, não haverá 
necessidade de explicar por que é assim; e o homem que foi bem educado já possui 
esses pontos de partida ou pode adquiri-los com facilidade. Quanto àquele que nem 
os possui, nem é capaz de adquiri-los, que ouça as palavras de Hesíodo: 



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