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Estudos de Religião, Ano XXI, n. 33, 121-135, jul/dez 2007



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Estudos de Religião, Ano XXI, n. 33, 121-135, jul/dez 2007

amorosa. Em suas rimas voluptuosas, a beleza que se venera com toda a liber-

dade é a do Paraíso antes do pecado“Eu te saúdo, oh, fenda rósea/ que entre

estes flancos, vivamente fulguras/ eu te saúdo, ó venturosa abertura/ que torna

a minha vida tão contente e feliz”. Mas a ordem moral burguesa que então se

instalava, empurrava para baixo do tapete o domínio dos escritos proibidos, o

quadro de nudez e de corpos enlaçados. Enquanto a Vênus de Botticelli se

despia na tela, nos quartos, os corpos se cobriam.

O paradoxo da Reforma católica foi o de coincidir, na Europa aristocrá-

tica, com os desenvolvimentos da civilização renascentista. Misticismo e pecado,

normas e desregramento coabitavam na prática e nas representações. Sermões

tenebrosos sobre o Juízo Final conviviam com a literatura erótica cuja especi-

alidade era o gênero pastoral, caro às cortes que se deliciavam em ouvir ou ler

sobre amores de pastores e pastoras. Eles convidavam os espectadores e leitores

a gozar o melhor de sua juventude, a viver plenamente, a beber, a comer, a

folgar. Entre céu e inferno, a aproveitar cada dia, antes que a morte os levasse.

Sua mensagem era direta: terapia de alegria e de contentamento pessoal, o bom

uso do sexo não dependia senão da disposição física dos parceiros.

Mas os séculos ditos “modernos”, do Renascimento não foram tão

modernos, assim. Um fosso era então cavado: de um lado os sentimentos, e

do outro, a sexualidade. Mulheres jovens de elite, eram vendidas, como qual-

quer animal, nos mercados matrimoniais. Excluía-se o amor destas transações.

Proibiam-se as relações sexuais antes do casamento. Instituíram-se camisolas

de dormir para ambos os sexos. O ascetismo tornava-se o valor supremo.

Idolatrava-se a pureza feminina na figura da Virgem Maria. Retomam-se os

princípios de Santo Agostinho. Para as igrejas cristãs, toda a relação sexual

que não tivesse por fim imediato a procriação se confundia com prostituição.

Em toda a Europa, as autoridades religiosas tiveram sucesso em transformar

o ato sexual, e qualquer atrativo feminino, em tentação diabólica. Na Itália,

para ficar num exemplo, se condenava à morte os homens que beijassem uma

mulher casada, na Inglaterra, decapitavam-se as adúlteras, e em Portugal,

queimavam-se, em praça pública, os sodomitas.

Durante o século XVII, autores como Descartes, filósofo francês, ten-

taram explicar a natureza exata do amor como fruto de emoção da alma,

emoção diversa da agitação do desejo. O amor: oblação, dedicação e abando-

no de si. O desejo: posse, narcisismo, egoísmo. Opor a amizade terna aos

prestígios da sensualidade tornou-se obrigação. O erotismo era visto como

ruinoso e não foram poucos os que tentaram sublinhar a que ponto a paixão

podia ser fatal. O amor no casamento, por sua vez, consolidava-se na repre-

sentação da “perfeita amizade” ou da união, no coração, de duas almas por

meio do amor divino. O sexo era, por vezes, mencionado, mas, na amizade,


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