Apresentação


Estudos de Religião, Ano XXI, n. 33, 121-135, jul/dez 2007



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Estudos de Religião, Ano XXI, n. 33, 121-135, jul/dez 2007

amor conjugal, tal como nós o evocamos foram, lentamente, abolidas e con-

sideradas obstáculos residuais que retardavam o triunfo do amor, feito, tam-

bém, de sentimento e sexualidade.

Para concluir, poderíamos dizer que a sexualidade e o amor têm crono-

logias próprias, cronologias que escapam, aparentemente, aos fatos políticos

e econômicos. É impossível contar a sua história à luz dos temas que habi-

tualmente enchem os livros sobre História do Brasil. Dentro, contudo, das

transformações pelas quais passou a sociedade ocidental cristã poderíamos

avançar o seguinte: o que se assistiu ao longo dos tempos, foi uma longa

evolução que passou da proibição do prazer ao direito ao prazer. Fomos dos

manuais de confessor que tudo interditavam aos casamentos arranjados,

policiados, acompanhados, passo a passo por familiares zelosos. E destes, ao

impacto das revoluções que ao final dos anos 60 exportaram mundo afora

lemas do tipo “Ereção, insurreição” ou “amai-vos uns sobre os outros”, sem

contar o movimento hippy com o lema de “Paz e Amor”. Desde então, o

amor e o prazer se tornaram obrigatórios. O interdito se inverteu. Impôs-se

a ditadura do orgasmo forçado. O erotismo entrou no território da proeza e

o prazer tão longamente reprimido tornou-se prioridade absoluta, quase es-

magando o casamento e o sentimento. Passou-se do afrodisíaco à base de

plantas para o sexo com receita médica, graças ao Viagra. Passou-se da do-

minação patriarcal à liberação da mulher.

Entre nós, durante mais de quinhentos anos, os casamentos não se fa-

ziam de acordo com a atração sexual recíproca. Eles mais se realizavam por

interesses econômicos ou familiares. Entre os mais pobres, o matrimônio ou

a ligação consensual era uma forma de organizar o trabalho agrário. Não há

dúvidas de que o labor incessante e árduo não deixasse muito espaço para a

paixão sexual. Sabe-se que entre casais, as formas de afeição física tradicional

– beijos e carícias – eram raridade. Para os homens, contudo, as chances de

manter ligações extra-conjugais eram muitas

Vimos que há séculos, o chamado amor romântico, nascido com os

trovadores medievais fundou a idéia de união mística entre os amantes. A

idealização temporária, típica do amor-paixão, juntou-se ao apego mais dura-

douro do objeto de amor. O amor romântico que começou a exercer influ-

ência a partir de meados do século XIX, inspirou-se em ideais deste tipo e

incorporou elementos do amor-paixão. Não foi à toa, lembram especialistas,

que o nascimento do amor romântico coincide com a aparição do romance:

ambos têm em comum nova forma de narrativa. Nela, duas pessoas são a

alma da história, sem referência a processos sociais que existam a seu redor.

Na base da idéia de amor romântico, associava-se pela primeira vez amor

e liberdade, como coisas desejáveis. O leitor há de lembrar que os trovadores


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