Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe


parte do trabalho delas. Eu me perguntei se elas tinham opção ou não, se



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

parte do trabalho delas. Eu me perguntei se elas tinham opção ou não, se 
queriam ser bem- sucedidas. Não consegui me livrar dessa ideia. 
Quase pude ver a sessão de fotos e a atriz ou modelo indo comer um 
"lanche leve" com o namorado depois. Pude vê-lo perguntando a ela sobre o 
dia, e que ela não havia pensado muito nisso, ou talvez, se fosse a primeira 
capa de revista, como estaria empolgada porque estava começando a ficar 
famosa. Pude ver a revista nas bancas e um monte de olhos anônimos olhando 
para ela, e como as pessoas pensariam que era importante. E depois como 
uma garota como Mary Elizabeth ficaria com raiva com a atriz ou modelo 
mostrando a parte de cima dos seios junto com outras atrizes e modelos 
fazendo a mesma coisa, enquanto algum fotógrafo como Craig veria apenas a 
qualidade das fotografias. Então pensei que haveria alguns homens que 
comprariam a revista e se masturbariam com ela. E me perguntei o que a atriz 
ou o namorado dela pensava disso, se pensava alguma coisa. E depois eu 
pensei que já era hora de eu parar de pensar porque não estava fazendo 
nenhum bem à minha irmã. 


Foi aí que eu comecei a pensar na minha irmã. 
Pensei na vez em que ela e as amigas pintaram as minhas unhas, e em 
como estava tudo bem, porque meu irmão não estava lá. E na vez em que ela 
me deixou usar as bonecas para brincar de teatro e me deixou assistir ao que 
eu queria na tevê. E quando ela começou a se transformar em uma "jovem 
mulher" e ninguém podia olhar para ela porque se achava gorda. E que na 
verdade ela não estava gorda. E como ela era mesmo muito bonita. E como 
seu rosto parecia diferente quando ela percebia que os rapazes a achavam 
bonita. E como seu rosto ficou diferente quando ela gostou pela primeira vez 
de um cara que não estava em um pôster na parede do quarto. E como ficou 
seu rosto quando ela percebeu que estava apaixonada por aquele cara. E então 
me perguntei como seu rosto estaria quando ela saísse de trás daquelas portas. 
Minha irmã foi a única que me contou de onde vinham os bebês. Minha 
irmã também foi a única pessoa que riu quando eu imediatamente perguntei a 
ela para onde os bebês iam. 
Quando pensei nisso, comecei a chorar. Mas não deixei que ninguém 
visse, porque, se deixasse, eles podiam me impedir de levá-la para casa, e 
podiam ligar para meus pais. E eu não podia deixar que isso acontecesse 
porque minha irmã estava contando comigo, e foi a primeira vez que alguém 
precisou de mim para alguma coisa. Quando percebi que foi a primeira vez 
que chorava desde que tinha prometido à tia Helen não chorar, a não ser que 
fosse por uma coisa importante, tive de sair um pouco, porque não consegui 
mais esconder o choro. 
Devo ter ficado no carro por um bom tempo, porque minha irmã acabou 
me encontrando ali. Eu fumava um cigarro e ainda chorava. Minha irmã bateu 
na janela. Eu abri. Ela olhou para mim com uma expressão curiosa. Depois 
sua curiosidade se transformou em raiva. 
― Charlie, você está fumando?! 
Ela ficou tão irritada. Não posso lhe contar como ela estava furiosa. 
― Não é possível que você esteja fumando! 
Foi aí que eu parei de chorar. E comecei a rir. Porque, de todas as coisas 
que ela poderia dizer logo após ter saído de lá, ela escolheu meu cigarro. E ela 


ficou enfurecida com isso. E eu sabia que, se minha irmã ficasse enfurecida, 
seu rosto não ficaria diferente. E ela estaria bem. 
― Vou contar a mamãe e papai, ouviu? 
― Não vai não. ― Meu Deus, eu não conseguia parar de rir. 
Quando minha irmã refletiu por um segundo, acho que ela entendeu por 
que não contaria a meus pais. Foi quando ela de repente se lembrou de onde 
nós estávamos, do que tinha acontecido e de como aquela conversa era malu-
ca, considerando tudo isso. Depois ela começou a rir. 
Mas o riso a fez se sentir mal, então eu tive de sair do carro e ajudá-la a 
sentar no banco. Eu já havia arrumado o travesseiro e o cobertor para ela 
porque imaginei que provavelmente seria melhor dormir um pouco no carro 
antes de ir para casa. 
Pouco antes de pegar no sono, ela disse: 
― Bom, se você vai fumar, pelo menos abra a janela. 
O que me fez começar a rir de novo. 
― Charlie fumando. Não é possível. 
O que me fez rir ainda mais, e eu disse: 
― Eu te adoro. 
― Eu te adoro também. Mas pare com essa risadaria agora. 
Por fim, meu riso se transformou em um risinho ocasional e depois 
parou. Olhei para trás e vi que minha irmã estava dormindo. Então, girei a 
chave na ignição e liguei o aquecedor para que ela não sentisse frio. Depois 
comecei a ler o livro que o Bill me deu. Era Walden, de Henry David 
Thoreau, o livro favorito da namorada do meu irmão, então fiquei muito 
animado para ler. 
Quando o sol se pôs, coloquei meu folheto sobre cigarros na página em 
que havia parado e fui para casa. Parei a algumas quadras de nossa casa para 
acordar minha irmã e colocar o travesseiro e o cobertor no porta-malas. 
Chegamos em casa. Descemos do carro. Entramos. E ouvimos as vozes de 
minha mãe e de meu pai do alto das escadas: 
― Onde foi que vocês passaram o dia todo? 
― É isso mesmo. O jantar está quase pronto. 


Minha irmã olhou para mim. Eu olhei para ela. Ela encolheu os ombros. 
Então comecei a falar disparado que vimos um filme e que minha irmã me 
ensinou a dirigir na via expressa e que fomos ao McDonald's. 
― McDonald's? Quando!? 
― Sua mãe fez costeletas, sabia? - Meu pai estava lendo o jornal. 
Enquanto eu falava, minha irmã se dirigiu a meu pai e lhe deu um beijo na 
bochecha. Ele não tirou os olhos do jornal. 
― Eu sei, mas fomos ao McDonald's antes do cinema, então já tem algum 
tempo. 
Depois meu pai disse sem muito interesse: 
― Que filme vocês viram? 
Eu gelei, mas minha irmã saiu com o nome de um filme antes de beijar 
minha mãe no rosto. Nunca tinha ouvido falar daquele filme. 
― Foi bom? 
Eu gelei de novo. 
Minha irmã estava tão calma. 
― Foi legal. O cheiro das costeletas está ótimo. 
― É ― eu disse. Depois pensei em alguma coisa para mudar de assunto. 
― Ei, pai, hoje tem hóquei? 
― Tem, mas você não vai poder ver comigo se ficar fazendo perguntas 
idiotas. 
― Tudo bem, mas podia perguntar uma coisa antes que comece? 
― Não sei. Será que pode? 
― Posso? 
― Vá em frente - ele resmungou. 
― Como é que os jogadores chamam o disco de hóquei mesmo? 
― Bolacha. Eles chamam de bolacha. 
― Isso. Obrigado. 
Daquele momento até a hora do jantar, meus pais não fizeram mais 
nenhuma pergunta a respeito do dia, embora minha mãe tenha dito que ficou 
muito feliz de ver minha irmã e eu passando mais tempo juntos. 
Naquela noite, depois que meus pais foram dormir, desci até o carro e 
peguei o travesseiro e o cobertor no porta- malas. Levei para o quarto da 


minha irmã. Ela estava muito cansada. E falava com muita suavidade. Então 
me agradeceu por todo o dia. Disse que eu não a desapontei. E disse que 
queria que fosse nosso segredinho, e que tinha decidido dizer ao ex-namorado 
que a gravidez foi um alarme falso. Acho que ela nunca chegou a contar a 
verdade a ele. 
Logo depois que apaguei a luz e abri a porta, ouvi sua voz, baixinha: 
― Quero que você pare de fumar, viu? 
― Tá bom. 
― Porque eu amo você de verdade, Charlie. 
― Eu também amo você. 
― É sério. 
― Eu também. 
― Está bem, então. Boa-noite. 
― Boa-noite. 
E aí eu fechei a porta e deixei minha irmã dormir. 
Não estava com vontade de ler naquela noite, então desci as escadas e 
assisti a um comercial de meia hora que anunciava um aparelho de ginástica. O 
número de discagem gratuita piscava na tela, então eu telefonei. A mulher que 
atendeu do outro lado da linha se chamava Michelle. E eu disse a Michelle que 
era um garoto e não precisava de aparelho de ginástica, mas que esperava que 
ela tivesse uma boa noite. 
E então Michelle desligou na minha cara. E eu não me importei nem um 
pouco. 
Com amor,
Charlie 


7 de março de 1992 
Querido amigo, 
As garotas são estranhas e não digo isso para ofender. É que eu não 
consigo colocar de outra forma. 
Eu saí novamente com Mary Elizabeth. De muitas maneiras, foi 
semelhante àquela festa, exceto que usávamos roupas mais confortáveis. Foi 
ela quem me chamou para sair novamente, e eu acho que está tudo bem, mas 
acho que tenho que começar a convidá-la para sair de vez em quando, porque 
não posso esperar ser convidado sempre. Além disso, se eu fizer o convite, 
terei certeza de estar saindo com a garota que eu escolhi, se ela disser sim. É 
tudo muito complicado. 
A boa notícia é que eu é que vou dirigir desta vez. Perguntei a meu pai se 
ele podia me emprestar o carro. Foi durante o jantar. 
― Para quê? - Meu pai era muito ciumento com o carro dele. 
― Charlie arrumou uma namorada ― disse minha irmã. 
― Ela não é minha namorada — eu disse. 
― Quem é a garota? ― perguntou meu pai. 
― Que foi? ― perguntou minha mãe da cozinha. 
― Charlie quer meu carro emprestado - respondeu papai. 
― Para quê? ― perguntou minha mãe. 
― É o que eu estou tentando descobrir! - disse meu pai em um tom de 
voz meio alto. 
― Não precisa desse mau humor todo - disse minha mãe. 
― Desculpe ― disse meu pai sem muita convicção. Depois ele se voltou 
para mim. 
― Então me fale desta garota. 


E assim eu contei a ele sobre Mary Elizabeth, deixando de fora a parte 
sobre a tatuagem e o piercing no umbigo. Ele deu um meio sorriso por um 
tempinho, tentando ver se eu era culpado de alguma coisa. Depois disse sim. 
Ele ia me emprestar o carro. Quando minha mãe chegou com o café, meu pai 
contou a ela a história toda enquanto eu comia a sobremesa. 
Naquela noite, quando eu terminava meu livro, meu pai veio e se sentou 
na beira da minha cama. Acendeu um cigarro e começou a me falar de sexo. 
Ele teve esse tipo de conversa comigo há anos, mas na época o papo foi mais 
biológico. Agora ele estava dizendo coisas, como... 
"Sei que sou seu pai, mas..." 
"a gente tem que ter muito cuidado hoje em dia", "usar preservativo", e 
"se ela disser não, você tem que concluir que ela quis dizer não mesmo..." 
"porque se você obrigá-la a fazer alguma coisa que ela não queira, você 
terá um problemão, mocinho..." 
"E mesmo que ela diga não, mas queira dizer sim, então certamente ela 
está fazendo jogo duro e não vale o que você paga pelo jantar." 
"Se você precisar conversar com alguém, pode me procurar, mas se por 
algum motivo não quiser, fale com seu irmão", e finalmente: 
"Fico feliz que tenhamos tido essa conversa." 
Depois meu pai agitou meu cabelo, sorriu e saiu do quarto. Acho que 
devia dizer a você que meu pai não é como os pais da televisão. Coisas como 
sexo não o deixam encabulado. E ele é realmente muito inteligente com essas 
coisas. 
Acho que ele ficou especialmente feliz, porque eu costumava beijar muito 
um garoto da vizinhança quando era bem pequeno, e embora o psiquiatra 
tenha dito que era muito natural que meninos e meninas explorassem coisas 
assim, acredito que meu pai ainda tinha medo. Acho que é natural, mas não sei 
bem por quê. 
De qualquer forma, Mary Elizabeth e eu fomos ver um filme no centro da 
cidade. Era o que chamam de "filme de arte". Mary Elizabeth disse que havia 
ganhado um prêmio em algum grande festival de cinema da Europa, e isso a 
impressionava. Quando estávamos esperando pelo início do filme, ela disse 
que era vergonhoso que tanta gente saísse para ver um filme idiota de 


Hollywood e que houvesse tão pouca gente naquele cinema. Depois ela falou 
de como estava ansiosa para sair daqui e ir para a faculdade, onde as pessoas 
apreciam coisas como essa. 
Então o filme começou. Era estrangeiro e tinha legendas, o que foi 
divertido, porque eu nunca havia lido um filme antes. O filme em si era muito 
interessante, mas não acho que fosse muito bom, porque eu não me senti 
diferente quando acabou. 
Mas Mary Elizabeth se sentiu diferente. Ficou falando que era um filme 
"articulado". Tão "articulado". E acho que era. A questão é que eu não sei do 
que ela estava falando, mesmo que quisesse dizer que era muito bom. 
Depois fomos de carro para a loja de discos alternativos e Mary Elizabeth 
me serviu de guia. Ela adora essa loja de discos. Disse que era o único lugar 
onde ela se sentia ela mesma. Disse que antes que as cafeterias ficassem na 
moda não havia lugar para gente como ela ir, exceto o Big Boy, e esse já estava 
ficando ultrapassado. 
Ela me mostrou a seção de filmes e me falou de todos aqueles cineastas e 
pessoal cult da França. Depois ela me levou para a seção de importados e me 
falou da "verdadeira" música alternativa. Depois me levou para a seção folk e 
me falou de bandas de garotas, como a Slits. 
Disse que achava muito ruim não ter me dado nada no Natal, e queria 
compensar agora. Então comprou um disco da Billie Holiday para mim e 
perguntou se eu queria ir até a casa dela para ouvir. 
E aí eu estava sentado sozinho no porão enquanto ela estava lá em cima, 
preparando alguma coisa para bebermos. E dei uma olhada na sala, que era 
muito despojada e cheirava como se não morasse ninguém ali. Tinha uma 
lareira com troféus de golfe sobre o consolo. E havia uma televisão e um 
aparelho de som legal. E depois Mary Elizabeth chegou com dois copos e uma 
garrafa de conhaque. Disse que odiava tudo que os pais gostavam, exceto o 
conhaque. 
Ela me pediu para servir a bebida enquanto acendia a lareira. Mary 
Elizabeth estava muito excitada também, o que era estranho, porque ela nunca 
era assim. Continuou falando do quanto gostava de lareiras e como queria se 
casar com um homem e morar em Vermont um dia, o que era estranho 


também, porque Mary Elizabeth nunca dizia essas coisas. Quando ela 
terminou com a lareira, colocou o disco e meio que dançou para mim. Ela 
disse que se sentia muito quente, mas não no sentido da temperatura. 
A música começou, ela bateu o copo no meu dizendo "saúde" e tomou 
um gole de conhaque. A propósito, o conhaque era muito bom, mas foi 
melhor na festa de amigo- oculto. Terminamos o primeiro copo com muita 
rapidez. 
Meu coração estava batendo acelerado e eu estava ficando nervoso. Ela 
me passou outro copo de conhaque e, quando fez isso, tocou minha mão com 
muita suavidade. 
Depois passou a perna sobre a minha e eu vi as coisas oscilarem. Depois 
ela passou a mão pela minha nuca, em um movimento lento. E meu coração 
batia como um louco. 
― Você gosta do disco? ― perguntou ela com delicadeza. 
― Muito. ― Eu estava gostando mesmo. Era lindo. 
― Charlie? 
― Hum? 
― Você gosta de mim? 
― Hum-hum. 
― Sabe o que eu quero dizer? 
― Hum-hum. 
― Você está nervoso"? 
― Hum-hum. 
― Não fique assim. 
― Está bem. 
Foi quando eu senti a outra mão dela. Começou no meu joelho e subiu 
pela lateral da minha perna até meus quadris e minha barriga. Depois ela tirou 
a perna de sobre a minha e se sentou em meu colo, de frente para mim. Olhou 
direto nos meus olhos e sem piscar nem uma vez. Seu rosto parecia caloroso e 
diferente. E ela se curvou e começou a beijar meu pescoço e minhas orelhas. 
Depois minha bochecha. Depois meus lábios. E tudo pareceu se desmanchar. 
Ela pegou minha mão e a levou para o suéter dela, e eu não acreditei no que 


estava acontecendo comigo. Ou como eu senti os seios. Ou como eles se 
pareciam. Ou como o sutiã era difícil para abrir. 
Depois de termos feito tudo o que se pode fazer de barriga para cima, 
deitamos no chão e Mary Elizabeth colocou a cabeça no meu peito. Nós 
respirávamos muito lentamente e ouvíamos a música e a lareira crepitando. 
Quando a última canção terminou, eu a senti respirando no meu peito. 
―Charlie? 
― Hum? 
― Você me acha bonita? 
― Acho você muito bonita. 
― Mesmo? 
― Mesmo. 
Então, ela me abraçou um pouco mais forte e, na meia hora seguinte, 
Mary Elizabeth não disse nada. Tudo o que eu fiz foi ficar deitado ali e pensar 
como sua voz se modificou quando ela me perguntou se eu a achava bonita, e 
como ela mudou quando eu respondi, e como Sam disse que ela não gostava 
de coisas como essa, e como meu braço estava começando a doer. 
Graças a Deus ouvimos o portão automático da garagem se abrir. 
Com amor, 
Charlie 


28 de março de 1992 
Querido amigo, 
Finalmente começa a ficar um pouco quente aqui e as pessoas estão mais 
legais nos corredores. Não necessariamente comigo, mas de uma forma geral. 
Escrevi um trabalho sobre Walden para o Bill, mas desta vez fiz diferente. 
Escrevi um relato do livro. Escrevi um relato fingindo que eu mesmo havia 
ficado na margem de um lago por dois anos. Eu fingi que vivia da terra e tinha 
insights. Para falar a verdade, acho que gostaria de fazer isso agora mesmo. 
Desde aquela noite com Mary Elizabeth, tudo ficou diferente. Comecei 
naquela segunda-feira na escola, onde Sam e Patrick olharam para mim com 
um largo sorriso. Mary Elizabeth tinha contado a eles que passamos a noite 
juntos, e eu não queria que ela tivesse feito isso, mas Sam e Patrick acharam 
ótimo e ficaram mesmo felizes por nós. Sam dizia: 
"Como é que não pensei nisso antes? Vocês dois são perfeitos juntos." 
Acho que Mary Elizabeth também pensa assim, porque ela estava agindo 
completamente diferente. Era legal todo o tempo, mas isso não parecia certo. 
Não sei como descrever É como se nós fôssemos fumar um cigarro com Sam 
e Patrick do lado de fora no fim do dia e todos falássemos de alguma coisa até 
a hora de irmos para casa. Então, quando eu chegava em casa, Mary Elizabeth 
me puxaria de lado e diria: "E aí?" E eu não saberia o que dizei; porque a única 
coisa nova na minha vida é que vou para casa a pé, o que não é muito. Mas eu 
descrevo a caminhada de qualquer forma. E depois ela começa a falar e não 
para por um bom tempo. Toda semana ela faz isso. Isso e ficar tirando fiapos 
da minha roupa. 
Teve uma vez, há dois dias, em que ela estava falando de livros e incluiu 
vários que eu li. E quando eu disse a ela que já os tinha lido, ela me fez umas 


perguntas muito longas, que na verdade eram apenas as ideias dela com um 
ponto de interrogação no final. A única coisa que eu pude dizer foi "sim" ou 
"não". Sinceramente, não havia espaço para dizer mais nada. Depois disso, ela 
começou a falar dos planos para a faculdade, o que eu já tinha ouvido antes, e 
por isso coloquei o fone na mesa, fui ao banheiro e, quando voltei, ela ainda 
estava falando. Sei que é errado fazer isso, mas acho que, se eu não tivesse 
feito uma pausa, faria alguma coisa pior. Como gritar ou bater o fone no 
gancho. 
Ela também ficou falando do disco da Billie Holiday que havia comprado 
para mim. E disse que queria me mostrar todas essas coisas importantes. E, 
para dizer a verdade, eu não quero que me mostrem todas as coisas 
importantes se isso significa que eu tenho de ouvir Mary Elizabeth falar sem 
parar de todas as coisas importantes que ela me mostra o tempo todo. É quase 
como se só houvesse três coisas envolvidas: Mary Elizabeth, eu e as coisas 
importantes, e só a primeira importasse para Mary Elizabeth. Não entendo 
isso. Eu daria um disco a alguém para que pudesse gostar do disco, e não para 
que sempre soubesse que fui eu que dei. 
E teve o jantar. Quando os feriados acabaram, minha mãe perguntou se 
eu gostaria que Sam e Patrick viessem jantar aqui, como havia prometido 
depois que eu disse que ela tinha ótimo gosto para roupas. Fiquei tão 
empolgado! Disse a Patrick e Sam e fizemos planos para o domingo à noite, e 
duas horas depois Mary Elizabeth veio para mim no saguão e disse: 
"A que horas no domingo?" 
Não sei o que fazer. Era só para Sam e Patrick. A ideia era essa desde o 
início. E eu nunca convidei Mary Elizabeth. Acho que sei por que ela achou 
que seria convidada, mas não esperou para ver. Ou estava jogando verde. Sei 
lá. 
Então, no jantar - o jantar em que pensei que minha mãe e meu pai 
veriam como Sam e Patrick eram ótimas pessoas e muito legais -, Mary 
Elizabeth falou o tempo todo. Não foi culpa dela. Meu pai e minha mãe lhe 
fizeram um monte de perguntas que não fizeram a Sam e Patrick. Acho que é 
porque estou saindo com Mary Elizabeth e isso desperta a curiosidade deles 
mais do que os meus amigos. Acho que faz sentido. Mas foi como se eles não 


tivessem conhecido Sam e Patrick. E o problema era esse. Quando o jantar 
terminou, e todos tinham partido, tudo o que mamãe e papai disseram foi que 
Mary Elizabeth era inteligente, e tudo o que meu pai disse é que minha 
"namorada" era bonita. Não disseram nada sobre Sam e Patrick. E tudo o que 
eu queria a noite toda era que eles conhecessem meus amigos. Era muito 
importante para mim. 
As coisas sexuais são estranhas também. Depois daquela noite, seguimos 
o padrão em que nós basicamente repetimos o que fizemos da primeira vez, 
mas não há lareira nem disco de Billie Holiday porque estamos no carro e 
tudo é apressado. Talvez as coisas tenham de ser assim, mas não acho que seja 
certo. 
Minha irmã andou lendo todos aqueles livros sobre mulheres desde que 
contou ao ex-namorado que a gravidez era alarme falso, e eu queria que eles 
reatassem, e ela disse não. 
Então perguntei sobre Mary Elizabeth (deixando a parte sexual de fora) 
porque eu sabia que ela seria neutra a esse respeito, especialmente depois que 
ela ficou "isolada" no jantar. Minha irmã disse que Mary Elizabeth está 
sofrendo de baixa autoestima, mas eu disse que ela falou a mesma coisa sobre 
Sam em novembro passado, quando ela começou a namorar o Craig, e Sam é 
completamente diferente. Então tudo é um problema de baixa autoestima? 
Minha irmã tentou esclarecer as coisas. Disse que por me mostrar a todas 
essas coisas, Mary Elizabeth conquistava uma "posição superior" de que não 
precisaria se tivesse confiança em si mesma. Ela também disse que as pessoas 
que tentam controlar as situações todo o tempo temem que, se não o fizerem, 
nada vai funcionar da forma que querem. 
Não sei se isso está certo ou não, mas isso me deixou triste. Não por 
Mary Elizabeth. Ou por mim. Mas de modo geral. Porque eu comecei a pensar 
que não sabia quem na realidade era Mary Elizabeth. Não estou dizendo que 
ela estava mentindo para mim, mas que ela agia de forma tão diferente antes 
de eu a conhecer e que talvez ela não gostasse muito do que era no início. 
Queria que ela tivesse dito isso. Mas talvez ela seja como era no início, e eu é 
que não percebi. Não quero ser outra coisa sob o controle de Mary Elizabeth. 


Perguntei à minha irmã o que ela faria e ela disse que a melhor coisa a 
fazer é ser sincero com relação a meus sentimentos. Meu psiquiatra disse a 
mesma coisa. E então eu me senti realmente triste, porque acho que talvez eu 
fosse diferente de como Mary Elizabeth me via também. E talvez eu estivesse 
mentindo por não contar a ela que era difícil ouvi-la todo o tempo sem poder 
dizer nada. Mas eu só estava tentando ser legal, como a Sam disse que eu 
deveria. Não sei onde estou errando. 
Tentei ligar para meu irmão para conversar sobre isso, mas o colega de 
quarto dele disse que ele estava ocupado demais com a faculdade, então decidi 
não deixar recado, porque não queria atrapalhá-lo. A única coisa que fiz foi 
mandar meu trabalho sobre Walden para ele pelo correio, assim ele poderia 
compartilhar com a namorada. E depois, talvez, se ele tivesse tempo, eles 
podiam ler, e nós podíamos conversar sobre isso, e eu teria a oportunidade de 
perguntar a eles o que devo fazer com Mary Elizabeth, uma vez que eles se 
davam bem e sabiam como fazer as coisas darem certo. Mesmo que não 
conversássemos sobre isso, eu ainda adoraria conhecer a namorada do meu 
irmão. Mesmo que fosse por telefone. Eu a vi na fita de vídeo de um dos 
jogos de futebol do meu irmão, mas isso não é a mesma coisa. Muito embora 
ela fosse muito bonita. Mas não de uma forma não convencional. Não sei por 
que estou dizendo essas coisas. Eu só queria que Mary Elizabeth me fizesse 
outras perguntas em vez de "E aí?". 
Com amor, 
Charlie 


18 de abril de 1992 
Querido amigo, 
Fiz uma trapalhada terrível. De verdade. Eu me sinto muito mal com isso. 
Patrick disse que a melhor coisa a fazer é me afastar por algum tempo. 
Tudo começou na segunda-feira passada. Mary Elizabeth chegou na 
escola com um livro de um famoso poeta chamado E. E. Cummings. A 
história por trás do livro é que ela viu um filme que falava de um poema dele, 
que compara as mãos de uma mulher com flores e chuva. Ela achou tão 
bonito que saiu para comprar o livro. Ela o leu várias vezes desde então, e 
disse que queria me dar o exemplar. Não o exemplar que ela comprou, mas 
um novo. 
O dia inteiro ela me mostrou todo o livro. 
Sei que devia ficar agradecido, porque ela fez uma coisa muito legal. Mas 
eu não estava grato. Nem um pouco. Não me interprete mal. Eu agi como se 
estivesse. Mas não estava. Para falar a verdade, eu estou começando a ficar 
irritado. Talvez, se ela tivesse me dado o exemplar do livro que tinha 
comprado para ela mesma, fosse diferente. Ou talvez se ela tivesse copiado à 
mão o poema da chuva, que ela adorou, em uma folha de papel. E 
definitivamente se ela não me fizesse mostrar o livro a todo mundo que 
conhecíamos. 
Talvez eu devesse ser sincero com ela, mas não acho que é a hora certa. 
Quando saí da escola naquele dia, não fui para casa porque não queria 
falar com ela ao telefone, e minha mãe não é uma mentirosa muito "hábil" 
nessas coisas. Em vez de ir para casa, fui a pé para a área onde estão as lojas 
de vídeo. Fui direto à livraria. E quando a moça por trás do balcão me 
perguntou se eu precisava de ajuda, abri minha bolsa e devolvi o livro que 
Mary Elizabeth tinha me dado. Não sei se vou fazer alguma coisa com o 
dinheiro. Só o coloquei no bolso. 


Quando voltei para casa, tudo em que conseguia pensar era que eu tinha 
feito uma coisa horrível e comecei a chorar. Quando eu cheguei à porta da 
frente, estava chorando tanto que minha irmã parou de ver televisão para falar 
comigo. Quando eu contei a ela o que tinha feito, ela me levou de carro até a 
livraria porque eu estava muito atarantado para dirigir, e eu peguei o livro de 
volta, o que fez com que eu me sentisse muito melhor. 
Quando Mary Elizabeth ligou naquela noite e me perguntou onde eu 
tinha ido o dia inteiro, eu disse a ela que tinha ido à loja com minha irmã. E 
quando ela perguntou se eu tinha comprado alguma coisa legal para ela, eu 
disse que sim. Não pensei que ela estivesse falando sério, mas concordei assim 
mesmo. Eu me sentia mal demais por ter devolvido o livro. Passei a hora 
seguinte ao telefone ouvindo Mary Elizabeth falar do livro. Depois nos 
despedimos. Depois desci até minha irmã para perguntar se ela podia me levar 
à loja novamente, para que eu pudesse comprar alguma coisa legal para Mary 
Elizabeth. Minha irmã me disse que eu fosse dirigindo sozinho. E que era 
melhor começar a ser sincero com Mary Elizabeth sobre meus sentimentos. 
Talvez eu devesse mesmo, mas não achava que era a hora certa. 
No dia seguinte, na escola, dei o presente que havia comprado para Mary 
Elizabeth. Era um novo exemplar de O sol nasce para todos. A primeira coisa 
que Mary Elizabeth disse foi: 
"Que original." 
Eu disse a mim mesmo que não foi isso o que ela quis dizer. Ela não 
estava caçoando de mim. Ela não estava comparando. Ou criticando. E não 
estava mesmo. Acredite em mim. Então expliquei a ela como Bill me deu 
livros especiais para ler fora da aula e como O sol nasce para todos tinha sido 
o primeiro. E como era especial para mim. Depois ela disse: 
"Obrigada. É muita gentileza sua." Mas depois ela começou a explicar que 
já havia lido o livro três anos antes e achava que era "superestimado" e que 
tinha sido transformado em um filme em preto e branco com atores famosos, 
como Gregory Peck e Robert 
Duvall, e que ganhou um Oscar pelo roteiro. Tive de deixar meus 
sentimentos de lado depois disso. 


Saí da escola, andei por aí e só fui para casa quando já era uma da manhã. 
Quando expliquei a meu pai o porquê, ele me disse para agir como um 
homem. 
No dia seguinte, na escola, quando Mary Elizabeth me perguntou onde eu 
estive no dia anterior, eu disse a ela que tinha comprado um maço de cigarros, 
ido ao Big Boy e passado o dia inteiro lendo e. e. cummings e comendo 
sanduíches. Eu sabia que era seguro dizer isso porque ela nunca me faria 
nenhuma pergunta sobre o livro. E eu estava certo. Depois de ela ter falado 
tanto sobre o livro, não vi necessidade de ler eu mesmo. Mesmo que eu 
quisesse. 
Definitivamente acho que devo ser sincero com ela, mas, para falar a 
verdade, estou ficando tão irritado quanto ficava quando praticava esportes e 
isso está começando a me assustar. 
Felizmente, os feriados da Páscoa começavam na sexta-feira, e isso 
distraiu um pouco as coisas. Bill me deu Hamlet para ler no feriado. Ele disse 
que eu precisaria de tempo livre para me concentrar na peça. Acho que não 
preciso dizer quem a escreveu. O único conselho que Bill me deu foi para 
considerar o personagem principal como os outros personagens dos livros que 
eu tinha lido até então. Ele disse para eu não cair na armadilha de achar que a 
peça era "fantasiosa demais". 
Então, na véspera da Sexta-feira Santa, tivemos uma apresentação especial 
de Rocky Horror Picture Show. O que a tornou especial foi o fato de que 
todos sabiam que era o início dos feriados de Páscoa e um monte de garotos 
ainda estava vestindo as roupas da missa. Isso me lembrou a Quarta-feira de 
Cinzas na escola, quando os garotos foram com impressões digitais na testa. 
Isso sempre cria um ar mais animado. 
Depois do show, Craig convidou a todos para irem a seu apartamento 
beber vinho e ouvir o White Album dos Beatles. Depois que o disco 
terminou, Patrick sugeriu que brincássemos do jogo da verdade, ou desafio, 
um jogo que ele adora jogar quando está "ligado". 
Adivinha quem escolheu desafio a noite toda? Eu. Não queria contar a 
verdade a Mary Elizabeth por causa de um jogo. 


Funcionou muito bem na maior parte da noite. Os desafios eram coisas 
como "virar a cerveja toda". Mas então Patrick me deu um desafio. Não acho 
que ele soubesse o que estava fazendo, mas ele me deu esse: 
"Beije na boca da garota mais bonita da sala." 
Foi quando eu escolhi ser sincero. Pensando nisso agora, eu 
provavelmente não podia ter escolhido um momento pior. 
O silêncio começou depois que eu me levantei (porque Mary Elizabeth 
estava sentada de frente para mim). Mas na hora em que eu me abaixei diante 
da Sam e a beijei, o silêncio foi horrível. Não foi um beijo romântico. Foi de 
amizade, como quando eu interpretei Rocky, e ela, Janet. Mas isso não 
importa. 
Eu podia dizer que tinha sido o vinho ou a cerveja que virei para dentro. 
Podia dizer também que eu tinha me esquecido da vez em que Mary Elizabeth 
me perguntou se eu a achava bonita. Mas não ia mentir. A verdade é que, 
quando Patrick me desafiou, eu sabia que se beijasse Mary Elizabeth estaria 
mentindo para todos. Inclusive para Sam. Inclusive para Patrick. Inclusive 
para Mary Elizabeth. E eu não podia mais fazer isso. Mesmo que fosse parte 
de um jogo. 
Depois do silêncio, Patrick fez o que pôde para salvar a noite. A primeira 
coisa que ele disse foi: 
"Bom, isso não é constrangedor?" 
Mas não deu certo. Mary Elizabeth saiu apressada da sala e foi para o 
banheiro. Patrick me disse mais tarde que ela não queria que ninguém a visse 
chorando. Sam a seguiu, mas, antes que deixasse a sala, virou-se para mim e 
disse num tom sério e sombrio: 
"Que merda de problema você tem?" 
Eu estava olhando em seu rosto quando ela disse isso. E vi o quanto ela 
falava sério. Isso fez com que de repente a realidade viesse à tona. Eu me senti 
péssimo. Simplesmente péssimo. Patrick imediatamente se levantou e me tirou 
do apartamento de Craig. Caminhamos pela rua e a única coisa de que eu 
estava consciente era do frio. Eu disse que podia voltar e me desculpar. 
Patrick disse: 
"Não. Eu pego os casacos. Fique aqui." 


Quando Patrick me deixou do lado de fora, eu comecei a chorar. Era um 
choro sentido e apavorado e eu não consegui parar. Quando Patrick voltou, eu 
disse, chorando muito: 
― Eu realmente acho que devo me desculpar. 
Patrick sacudiu a cabeça. 
― Acredite em mim. Você não quer ir até lá. 
Então ele sacudiu as chaves do carro diante do meu rosto e disse: 
― Vamos. Eu levo você para casa. 
No carro, contei a Patrick tudo o que estava acontecendo. Sobre o disco. 
E o livro. E O sol nasce para todos. E como Mary Elizabeth nunca fazia 
nenhuma pergunta. E tudo o que Patrick disse foi: 
"Ainda bem que você não é gay." 
Isso me fez parar de chorar por um tempo. 
― Se você fosse gay, eu nunca namoraria você. Você é muito confuso. 
Isso me fez rir. 
― E eu acho que o Brad ia ficar maluco. Meu Deus. 
Isso me fez rir ainda mais. Depois ele ligou o rádio e pegamos o túnel de 
volta para casa. Quando me deixou aqui Patrick me disse que a melhor coisa a 
fazer era ficar afastado por um tempo. Acho que já disse isso a você. Ele disse 
que, quando soubesse de mais coisas, me telefonaria. 
― Obrigado, Patrick. 
― Não precisa agradecer. 
E depois eu disse: 
― Sabe de uma coisa, Patrick? Se eu fosse gay, ia querer namorar você. 
Não sei por que eu disse isso, mas parecia correto. 
Patrick riu e disse: 
― É claro que sim. 
Depois arrancou para a rua. 
Quando me deitei na cama naquela noite, coloquei o disco de Billie 
Holiday e comecei a ler o livro de poemas de e. e. cummings. Depois que li o 
poema que compara as mãos da mulher com flores e chuva, deixei o livro de 
lado e fui para a janela. Fiquei vendo meu reflexo e as árvores por trás por um 


longo tempo. Não pensei em nada. Não senti nada. Não ouvi o disco. Isso 
durou horas. 
Tem alguma coisa errada comigo. E eu não sei o que é. 
Com amor,
Charlie 


26 de abril de 1992 
Querido amigo, 
Ninguém me telefonou desde aquela noite. Eu não os culpo. Passei todo 
o feriado lendo Hamlet. Bill estava certo. Era muito mais fácil pensar no cara 
da peça como os outros personagens que eu já havia lido. Também foi útil 
para mim quando pensei no que havia de errado comigo. Não me deu 
nenhuma resposta, mas me ajudou a compreender que outra pessoa havia 
passado por isso. Especialmente alguém que viveu há tanto tempo. 
Liguei para Mary Elizabeth e disse a ela que tinha ouvido o disco naquela 
noite e lido o poema de e. e. cummings. 
"É tarde demais para isso, Charlie", foi o que ela disse. 
Eu teria explicado que não queria voltar a namorá-la e que estava fazendo 
essas coisas como amigo, mas eu sabia que isso tornaria as coisas piores, então 
não fiz. 
Eu apenas disse: 
"Desculpe. Eu sinto muito." 
E eu realmente sentia. E sabia que ela acreditava em mim. Mas quando 
isso não fez nenhuma diferença, e não houve nada no telefone a não ser o 
silêncio, eu reconheci que era tarde demais. 
Patrick me ligou, mas tudo o que ele disse foi que Craig ficou muito 
chateado com a Sam por minha causa e que eu devia continuar afastado até 
que a poeira baixasse. Perguntei a ele se gostaria de sair, só ele e eu. Ele disse 
que estaria ocupado com Brad e coisas da família, mas tentaria me telefonar se 
encontrasse algum tempo. No fim, não telefonou. 
Eu contaria a você sobre o Domingo de Páscoa com a minha família, mas 
já contei tudo sobre o Dia de Ação de Graças e o Natal, e não há muita 
diferença entre eles. 


Exceto pelo fato de meu pai ter tido um aumento, e minha mãe não, 
porque ela não era paga para cuidar da casa, e minha irmã parou de ler aqueles 
livros de auto-ajuda porque conheceu outro cara. 
Meu irmão voltou para casa, mas, quando perguntei se a namorada dele 
tinha lido meu trabalho sobre Walden, ele disse que não, porque ela terminou 
com ele quando descobriu que a estava enganando. Isso aconteceu há algum 
tempo. Então perguntei se ele mesmo tinha lido, e ele disse que não, porque 
andou muito ocupado. Ele disse que tentaria ler durante o feriado. Até agora 
ele não leu. 
Então fui visitar tia Helen e, pela primeira vez na minha vida, isso não me 
ajudou. Tentei seguir meus planos e lembrar todos os detalhes sobre a última 
vez em que tive uma semana ótima, mas isso também não ajudou. 
Eu sei que provoquei tudo isso. Sei que mereço. Eu tento de tudo para 
não ser assim. Faço tudo para agradar a todos. E não tenho de ver meu 
psiquiatra, que me explique sobre ser "agressivo passivo". E não tenho de 
tomar o remédio que ele me passa, que é caro demais para meu pai. E não 
tenho de falar de minhas lembranças com ele. Ou ser nostálgico com coisas 
ruins. 
Só queria que Deus, ou meus pais, ou minha irmã, ou alguém me dissesse 
o que há de errado comigo. Que me dissesse como ser diferente de uma forma 
que faça sentido. Que fizesse tudo isso passar. E desaparecer. Sei que é errado, 
porque a responsabilidade é minha, e sei que as coisas pioram antes de 
melhorarem porque é o que diz meu psiquiatra, mas essa fase pior está grande 
demais para mim. 
Depois de uma semana sem conversar com ninguém, eu finalmente 
telefonei para Bob. Eu sei que é errado, mas não sei mais o que fazer. 
Perguntei a ele se tinha alguma coisa que eu pudesse comprar. Ele disse que 
tinha alguns gramas de maconha. Então peguei parte do meu dinheiro da 
Páscoa e fui comprar. 
Desde então, estou fumando o tempo todo. 
Com amor,
Charlie 


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