Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

PARTE 
TRÊS


4 de janeiro de 1992 
Querido amigo, 
Desculpe pela última carta. Para dizer a verdade, eu não me lembro muito 
bem dela, mas sei, pelo modo como acordei, que não deve ter sido muito legal. 
Tudo de que me lembro do resto da noite foi ter procurado por toda a casa 
por um envelope e um selo. Quando finalmente encontrei, escrevi seu 
endereço e desci a colina até a agência dos Correios porque eu sabia que se 
não colocasse numa caixa de correio da qual não pudesse pegar de volta, a 
carta nunca seria enviada. 
É estranho como aquilo pareceu importante na hora. 
Depois que fui à agência dos Correios, coloquei a carta na caixa. E me 
senti completo. E calmo. Depois comecei a vomitai; e não parei de vomitar até 
que o sol nascesse. Olhei para a estrada e vi um monte de carros, e eu sabia 
que eles estavam indo para a casa de seus avós. E eu sabia que um monte deles 
veria o jogo de futebol do meu irmão mais tarde à noite. E minha mente ficou 
jogando amarelinha. 
Meu irmão... futebol... Brad... Dave e a garota no meu quarto... os 
casacos... o frio... o inverno... "Folhas de Outono"... não conte a ninguém... 
seu pervertido... Sam e Craig... Sam... Natal... máquina de escrever... presente... 
tia Helen... e as árvores se mexendo... elas não paravam de se mover... então 
deitei e fiz um anjo de neve. 
O policial me encontrou lívido e dormindo. 
Não parei de tremer de frio por um bom tempo depois que minha mãe e 
meu pai me levaram de carro ao pronto- socorro. Ninguém ficou muito 
nervoso, porque essas coisas costumavam acontecer comigo quando eu era 
pequeno, quando estava indo ao médico. Eu vagava por aí e caía no sono em 


algum lugar. Todo mundo sabia que eu tinha ido a uma festa, mas ninguém, 
nem mesmo a minha irmã, achou que foi por causa disso. E eu mantive a boca 
fechada porque não queria que Sam e Patrick, ou Bob, ou qualquer pessoa, 
tivessem problemas. Mas, principalmente, eu não queria ver o rosto de minha 
mãe e especialmente o do meu pai se eles ouvissem a verdade de mim. 
Então, não contei nada a ninguém. 
Só fiquei quieto e olhei em volta. E percebi certas coisas. Os pontos no 
teto. Ou como o cobertor que me deram era áspero. Ou como o rosto do 
médico parecia de borracha. Ou como tudo era um sussurro ensurdecedor; 
quando ele disse que talvez eu devesse começar a ver um psiquiatra 
novamente. Foi a primeira vez que um médico falou com meus pais na minha 
presença. E o jaleco dele era tão branco. E eu estava tão cansado. 
Tudo em que consegui pensar durante o dia todo era que tínhamos 
perdido o jogo de futebol do meu irmão por minha causa, e esperei que minha 
irmã tivesse se lembrado de gravar. 
Felizmente, ela gravou. 
Voltamos para casa e minha mãe fez um chá para mim, e meu pai me 
perguntou se eu queria sentar e assistir ao jogo, e eu disse que sim. Vimos meu 
irmão fazer uma grande partida, mas dessa vez ninguém torceu muito. Todos 
os olhos estavam em cima de mim. E minha mãe disse um monte de palavras 
de estímulo sobre como eu estava indo bem na escola esse ano e que talvez o 
médico me ajudasse a colocar as coisas em ordem. Minha mãe pode ficar quie-
ta e falar ao mesmo tempo quando está sendo positiva. Meu pai não parava de 
me dar "tapinhas carinhosos". Os tapinhas carinhosos são soquinhos suaves 
de encorajamento que são dados no joelho, nos ombros e no braço. Minha 
irmã disse que pode me ajudar a ajeitar o cabelo. Era estranho ver os três 
dando muita atenção a mim. 
― Que quer dizer com isso? O que há de errado com meu cabelo? 
Minha irmã ficou olhando, pouco à vontade. Levei as mãos ao cabelo e 
percebi que boa parte dele se fora. Sinceramente não me lembro de quando fiz 
isso, mas, a julgar pela aparência do meu cabelo, eu devo ter pego uma tesoura 
e começado a cortar sem nenhuma estratégia. Faltavam grandes chumaços em 
toda parte. Como o corte de um açougueiro. Não me olhei no espelho na festa 


por muito tempo porque meu rosto estava diferente e lutava contra mim. Ou 
eu teria percebido. 
Minha irmã me ajudou a arrumá-lo um pouco e eu tive sorte, porque 
todos na escola, inclusive Sam e Patrick, acharam que estava legal. 
"Chique" foi o que disse o Patrick. 
Apesar disso, decidi nunca mais tomar LSD. 
Com amor,
Charlie 


14 de janeiro de 1992 
Querido amigo, 
Estou me sentindo um grande impostor porque deixei toda a minha vida 
para trás e ninguém sabe disso. É difícil sentar na minha cama e ler como eu 
sempre fiz. É difícil até falar com meu irmão ao telefone. O time dele 
terminou em terceiro no nacional. Ninguém contou a ele que nós não vimos o 
jogo por minha causa. 
Fui à biblioteca e procurei por um livro, porque estava assustado. De vez 
em quando as coisas começam a se mexer novamente e os sons ficam graves e 
surdos. E eu não consigo colocar os pensamentos em ordem. O livro dizia que 
às vezes as pessoas tomam LSD e não conseguem sair realmente dele. Ele diz 
que o LSD aumenta um tipo de transmissor cerebral. Diz que a droga 
corresponde essencialmente a doze horas de esquizofrenia; se você já tem 
muito desse transmissor cerebral, não consegue sair dessa. 
Comecei a respirar mais rápido na biblioteca. Foi muito ruim, porque me 
lembrei de algumas crianças esquizofrênicas no hospital quando eu era 
pequeno. E o pior é que foi um dia depois de eu ter percebido que todos os 
garotos estavam usando suas roupas novas de Natal, então decidi vestir meu 
novo terno que Patrick me deu para ir à escola, e caçoaram de mim por nove 
horas seguidas. Foi um daqueles dias ruins. Matei a primeira aula e fui 
procurar Sam e Patrick do lado de fora. 
― Tá elegante, Charlie ― disse Patrick, sorrindo. 
― Pode me dar um cigarro? ― eu disse. Não conseguia ver a mim mesmo 
dizendo "filar um cigarro". Não na primeira vez. Eu não consegui. 
― Claro - disse Patrick. 
Sam o deteve. 
― O que foi, Charlie? 


Contei a ela o que havia de errado, o que levou Patrick a ficar me 
perguntando se foi uma "viagem ruim". 
― Não, não. Não é isso. ― Eu estava ficando bem perturbado. 
Sam colocou o braço em torno dos meus ombros e disse que sabia o que 
tinha acontecido comigo. Disse para eu não me preocupar com isso. Depois 
que você faz isso, você se lembra de como as coisas se parecem. É só isso. É 
como uma estrada que fica cheia de curvas. E como seu rosto era de plástico e 
seus olhos têm tamanhos diferentes. Tudo está na sua cabeça. 
Depois disso ela me deu um cigarro. 
Não tossi quando traguei. Ele me acalmou. Aprendi que fazia mal em 
uma aula, mas não era verdade. 
― Agora concentre-se na fumaça ― disse Sam. 
E eu me concentrei na fumaça. 
― Agora parece normal, não é? 
― Hum-hum ― Acho que foi o que eu disse. 
― Agora olhe para o piso do pátio. Ele está se mexendo? 
― Hum-hum. 
― Muito bem... Agora concentre-se na folha de papel que está ali no 
chão. 
E eu me concentrei na folha de papel que estava no chão. 
― O piso está se movendo agora? 
― Não, não está. 
A partir de agora, para que você se sinta bem, para que você nunca mais 
tome ácido de novo, Sam passou a explicar o que ela chamava de "o êxtase". 
O êxtase acontece quando você não focaliza nada e todo o ambiente desapa-
rece e se move em volta de você. Ela disse que isso era em geral metafórico, 
mas, para as pessoas que nunca devem tomar ácido, era real. 
Foi aí que eu comecei a rir. Estava bastante aliviado. E Sam e Patrick 
sorriram. Fiquei contente de eles sorrirem também, porque eu não estava 
suportando a cara de preocupação deles. 
As coisas pararam de se mover na maior parte do tempo desde então. 
Não matei a outra aula. E acho agora que não me sinto como um grande 
impostor por tentar deixar minha vida para trás. Bill achou meu trabalho sobre 


O apanhador no campo de centeio (que escrevi em minha nova máquina de 
escrever antiga!) o melhor que já fiz. Ele disse que eu estava me 
"desenvolvendo" em um ritmo rápido e me deu um livro diferente como uma 
"recompensa". É Pé na estrada, de Jack Kerouac. 
Agora fumo mais de dez cigarros por dia. 
Com amor,
Charlie 


25 de janeiro de 1992 
Querido amigo, 
Estou me sentindo ótimo! De verdade. Tenho de me lembrar disso na 
próxima vez em que tiver uma semana ruim. Já aconteceu com você? Já se 
sentiu muito mal, depois tudo passar e você não saber por quê? Eu tento me 
lembrar, quando me sinto ótimo como agora, que haverá outra semana terrível 
algum dia, então procuro guardar o maior número de detalhes que posso, e 
assim, na próxima semana terrível, vou poder lembrar esses detalhes e acredi-
tar que vou me sentir bem novamente. Não funciona muito, mas acho muito 
importante tentar. 
Meu psiquiatra é um cara muito legal. É muito melhor do que meu último 
psiquiatra. Conversamos sobre coisas que eu sinto, penso e me lembro. Como 
quando eu era pequeno, e aquela época em que andei pela rua no meu bairro. 
Eu estava completamente nu, segurando um guarda- chuva azul brilhante, 
embora não estivesse chovendo. E estava tão feliz, porque isso fez minha mãe 
sorrir. E ela raramente sorria. Então, ela tirou uma foto. E os vizinhos recla-
maram. 
Da outra vez, eu vi um comercial de um filme sobre um homem que fora 
acusado de assassinato, mas não havia cometido crime nenhum. Um cara do 
M*A*S*H era o astro do filme. Provavelmente é por isso que eu me lembro 
dele. O trailer dizia que durante todo o filme ele tentava provar sua inocência, 
e que ele foi para a cadeia, apesar disso. Fiquei muito assustado. Fiquei 
assustado com o quanto aquilo me assustou. Ser punido por uma coisa que 
você não fez. Ser uma vítima inocente. Não quero passar por isso nunca. 
Não sei se é importante contar tudo isso a você, mas, na época, achei que 
foi uma "ruptura". 
O melhor em meu psiquiatra é que ele tem revistas de música na sala de 
espera. Li um artigo sobre o Nirvana em uma das consultas, e não havia 


nenhuma referência a molho de mostarda ou alfaces. Eles ficaram falando dos 
problemas de estômago do cantor o tempo todo, apesar disso. Era estranho. 
Como eu contei a você, Sam e Patrick adoravam sua nova canção, então 
acho que li o artigo para ter o que conversar com eles. No fim, a revista o 
comparava a John Lennon, dos Beades. Contei isso a Sam mais tarde e ela 
ficou muito irritada. Disse que ele era como Jim Morrison, se fosse parecido 
com alguém, mas na verdade não era parecido com ninguém, somente consigo 
mesmo. Estávamos no Big Boy depois do Rocky Horror e começou uma baita 
discussão. 
Craig disse que o problema com as coisas é que todo mundo sempre está 
comparando todos a todo mundo, e que por causa disso ele não acreditava nas 
pessoas, como em suas aulas de fotografia. 
Bob disse que tudo isso era porque nossos pais não querem que a gente 
cresça e que eles ficam mortificados quando não podem nos comparar a 
alguma coisa. 
Patrick disse que o problema era que, como tudo já tinha acontecido, era 
difícil explorar novos terrenos. Ninguém pode ser tão grande como os Beatles 
porque os Beatles já criaram um "contexto". O motivo de eles serem tão 
grandes era que não tinham ninguém a quem se comparar, então o céu era o 
limite. 
Sam acrescentou que hoje em dia uma banda ou alguém se compararia 
aos Beatles depois do segundo disco, e sua própria voz naquele momento se 
perderia. 
"O que você acha, Charlie?" 
Não me lembro de onde ouvi ou li isso. Disse que talvez fosse de Este 
lado do paraíso, de F. Scott Fitzgerald. Em algum ponto perto do fim do livro, 
o protagonista é apanhado por um homem mais velho. Os dois estão indo 
para a partida de futebol da Ivy League e têm essa discussão. O mais velho é 
estabelecido. O garoto está "esgotado". 
De qualquer modo, eles têm uma discussão e o garoto é um idealista, pelo 
menos temporariamente. Ele fala de sua "geração insatisfeita" e coisas assim. 
E ele diz algo parecido com: "Não é uma época de heróis, porque ninguém 
deixará que isso aconteça." O livro se passa na década de 1920, que eu acho 


que foi ótima, porque imagino que o mesmo tipo de diálogo pode acontecer 
no Big Boy. Provavelmente aconteceu com meus pais e avós. Provavelmente 
estava acontecendo bem agora. 
Então eu disse que achava que a revista estava tentando transformá-lo 
num herói, mas depois alguém descobriria alguma coisa que o tornaria inferior 
a um ser humano. E eu não sei por quê; para mim, ele é só um cara que 
escreve canções que muita gente gosta, e acho que isso era o bastante. Talvez 
eu esteja errado, mas todos na mesa começaram a falar nisso. 
Sam culpou a televisão. Patrick culpou o governo. Craig culpou a "mídia 
corporativa". Bob estava no banheiro. 
Não sei o que foi e não sei se acompanhei alguma coisa, mas me senti 
ótimo sentado ali conversando sobre nosso lugar nas coisas. Foi igual a 
quando Bill me disse para "participar". Fui ao baile de ex-alunos, como já lhe 
contei antes, mas isso era muito mais divertido. Foi especialmente divertido 
pensar que as pessoas em todo o mundo estavam tendo conversas parecidas 
em seus equivalentes de Big Boy. 
Eu teria dito isso na mesa, mas eles estavam se divertindo sendo cínicos e 
eu não queria estragar isso. Então, recuei um pouco na cadeira e observei Sam 
sentada perto do Craig, e tentei não ficar muito triste com aquilo. Tenho de 
dizer que não tive muito sucesso. Mas, a certa altura, Craig estava falando de 
algo, e Sam se voltou para mim e sorriu. Foi um sorriso de cinema em câmera 
lenta, e então tudo ficou bem. 
Disse isso a meu psiquiatra, mas ele disse que era cedo demais para tirar 
conclusões. 
Não sei. Só sei que tive um ótimo dia. Espero que você também. 
Com amor, 
Charlie 


2 de fevereiro de 1992 
Querido amigo, 
Pé na estrada era um livro muito bom. Bill não me pediu para escrever 
um trabalho sobre ele porque, como eu disse, era "uma recompensa". Ele me 
pediu para visitá-lo em sua sala depois da aula para discutir o livro, e foi o que 
eu fiz. Ele fez chá, e eu me senti um adulto. Ele até me deixou fumar um 
cigarro na sala dele, mas me aconselhou a parar de fumar por causa dos riscos 
para a saúde. Até tinha um folheto na mesa dele, que me deu. Agora uso como 
marcador de livro. 
Achei que Bill e eu íamos conversar sobre o livro, mas terminamos 
falando de "coisas". Foi ótimo ter tantas discussões. Bill me perguntou sobre 
Sam e Patrick e meus pais, e eu contei a ele sobre minha carteira de motorista 
e a conversa no Big Boy. Também contei a ele sobre meu psiquiatra. Mas não 
falei da festa ou de minha irmã e o namorado. Eles ainda estavam se vendo em 
segredo, o que minha irmã diz que só "inflamava a paixão". 
Depois que falei a Bill de minha vida, pedi que ele falasse da dele. Foi 
legal também, porque ele não tentou ser legal e se relacionar comigo ou coisa 
assim. Ele estava sendo ele mesmo. Disse que fez a graduação em uma facul-
dade do Oeste que não dava notas, o que achei peculiar, mas Bill disse que foi 
a melhor educação que ele teve. Ele disse que me daria um prospecto de lá 
quando chegasse a minha hora. 
Depois que foi para a Brown University, para a pós-graduação, Bill viajou 
pela Europa durante algum tempo, e, quando voltou para casa, se filiou ao 
Teach for America. Quando este ano acabar, ele acha que irá para Nova York 
e escreverá peças de teatro. Acho que ele ainda é muito novo, embora eu 
pense que seria rude dizer isso a ele. Perguntei se ele tinha namorada e ele 
disse que não. Ele pareceu triste ao dizer aquilo, também, mas decidi não me 


intrometer porque achei que seria muito inconveniente. Depois ele me deu 
outro livro para ler. Chamava-se Naked Lunch. 
Comecei a ler quando cheguei em casa e, para dizer a verdade, não sei do 
que o cara está falando. Nunca disse isso ao Bill. Sam me disse que William S. 
Burroughs escreveu o livro quando usava heroína e que eu devia "seguir o 
fluxo". Então foi o que eu fiz. Ainda não tenho a menor ideia do que ele 
estava falando, e então desci as escadas para ver televisão com minha irmã. 
O programa era Comer Pyle e minha irmã estava muito quieta e mal-
humorada. Tentei conversar com ela, mas ela me disse para calar a boca e 
deixá-la em paz. Então assisti ao programa por alguns minutos, mas fazia 
ainda menos sentido para mim do que o livro e decidi fazer meu dever de casa 
de matemática, o que foi um erro, porque matemática nunca fez sentido para 
mim. 
Fiquei confuso o dia todo. 
Então tentei ajudar minha mãe na cozinha, mas deixei cair uma panela e 
ela me disse para ir ler em meu quarto até meu pai chegar, mas foi a leitura que 
tinha começado com toda aquela confusão. Por sorte, meu pai chegou em casa 
antes que eu pegasse o livro de novo, mas ele me disse para parar de "me 
aboletar nos ombros dele como um macaco" porque ele queria ver o jogo de 
hóquei. Vi o jogo com ele por algum tempo, mas não conseguia parar de fazer 
perguntas sobre os países de origem dos jogadores, e ele estava "descansando 
os olhos", o que significa que estava dormindo, mas não queria me deixar 
mudar o canal. Então me disse para ver televisão com minha irmã, o que eu 
fiz, mas ela me disse para ajudar minha mãe na cozinha, o que eu fiz, mas ela 
me disse para ler em meu quarto. E foi o que eu fiz. 
Já li cerca de um terço do livro e até agora está muito bom. 
Com amor,
Charlie 


8 de fevereiro de 1992 
Querido amigo, 
Tenho um encontro numa festa Sadie Hawkins. Caso você não saiba 
dessas coisas, é uma festa em que as garotas convidam os garotos. No meu 
caso, a garota é Mary Elizabeth, e o garoto sou eu. Dá para acreditar nisso? 
Acho que começou quando eu estava ajudando Mary Elizabeth a 
grampear a última edição de Punk Rocky na sexta-feira, antes de irmos ao 
Rocky Horror Picture Show. Mary Elizabeth estava muito legal naquele dia. 
Ela disse que foi a melhor edição que já fizera por duas razões, e as duas 
razões tinham a ver comigo. 
Primeira, era em cores, e, segunda, tinha o poema que eu dei a Patrick. 
Foi realmente uma grande edição. Acho que vou pensar muito nela 
quando estiver mais velho. Craig incluiu algumas fotografias em cores. Sam 
incluiu algumas notícias "underground" sobre algumas bandas. Mary Elizabeth 
escreveu um artigo sobre os candidatos democratas. Bob incluiu uma cópia de 
um panfleto pró-maconha. E Patrick fez aquele falso folheto de propaganda 
anunciando um "boquete" grátis para qualquer um que comprasse um Smiley 
Cookie no Big Boy. Advertência: há restrições! 
Havia um nu fotográfico (de costas) de Patrick, se dá para você acreditar 
nisso. Sam e Craig tiraram a foto. Mary Elizabeth disse a todos para guardar 
segredo de que a foto era do Patrick, o que todos fizeram, exceto o Patrick. 
Toda noite ele gritava "Mostre, baby! Mostre", que era sua fala favorita do 
filme favorito dele, Os produtores. 


Mary Elizabeth me disse que ela achava que Patrick tinha pedido para 
colocar a foto na edição para que Brad pudesse ter uma foto dele sem 
despertar suspeitas, mas ele não confirmaria isso. Brad comprou um exemplar 
sem nem mesmo abrir, então talvez ela tivesse razão. 
Quando fui para o Rocky Horror Picture Show naquela noite, Mary 
Elizabeth estava muito irritada porque Craig não tinha aparecido. Ninguém 
sabia por quê. Nem mesmo a Sam. O problema é que não havia ninguém para 
fazer o papel de Rocky, o robô muscular (não sei bem o que é isso). Depois de 
procurar por alguém, Mary Elizabeth se virou para mim. 
― Charlie há quanto tempo você vê esse show? 
― Dez meses. 
― Você acha que pode fazer o Rocky? 
― Eu não sou atraente e bem-talhado. 
― Isso não importa. Pode fazer o papel? 
― Acho que sim. 
― Acha que sim ou sabe que sim? 
― Acho que sim. 
― Isso é o bastante. 
De repente, pelo que me lembro, eu estava vestindo somente chinelos e 
um traje de banho, que alguém tinha pintado de dourado. Não sei como essas 
coisas às vezes acontecem comigo. Fiquei muito nervoso, especialmente 
porque, no show, Rocky tem que tocar todo o corpo de Janet, e quem fazia 
Janet era a Sam. Patrick ficou fazendo piada de que eu teria uma "ereção". Eu 
torcia para que isso não acontecesse. Uma vez, tive uma ereção em aula e tive 
de ir ao quadro-negro. Foi um momento terrível. E quando minha mente 
considerou essa experiência e acrescentou um refletor e o fato de que eu 
estava usando só um calção de banho, entrei em pânico. Quase não fiz o 
show, mas então Sam me disse que ela queria muito que eu fizesse Rocky, e 
acho que era tudo que eu precisava ouvir. 
Não vou entrar em detalhes sobre todo o show, mas foi o melhor 
momento que tive em toda minha vida. Não estou brincando. Eu tinha de 
fingir que estava cantando, e dançando, e usava uma "jiboia de couro" no 


final, e não tive de pensar nisso porque era parte do show, mas Patrick não 
parou de falar no assunto. 
"Charlie com uma jiboia de couro! Charlie com uma jiboia de couro!" Ele 
não conseguia parar de rir. 
Mas a melhor parte foi a cena com Janet, em que tínhamos de nos tocar. 
Não foi a melhor parte só porque eu tive de tocar na Sam e ela em mim. Foi 
exatamente o contrário. Eu sei que parece uma estupidez, mas é verdade. Um 
pouco antes da cena, pensei na Sam e pensei que, se eu tocasse nela daquele 
jeito no palco de propósito, seria vulgar. E no que me diz respeito, acho que 
se um dia tocar nela de alguma forma nunca vou querer que seja vulgar. Não 
ia querer ser Rocky e Janet. Ia querer que fosse Sam e eu. E eu queria que 
fosse recíproco. Então, eu só representei. 
Quando o show terminou, todos nós nos curvamos e os aplausos vinham 
de toda parte. Patrick chegou a me colocar na frente do restante do elenco 
para eu receber meus próprios aplausos. Acho que era a iniciação para os 
novos membros do elenco. Tudo o que pude pensar foi como foi legal que 
todos me aplaudissem e como eu estava contente que ninguém da minha 
família estivesse ali para me ver de Rocky com uma jiboia de couro. 
Especialmente meu pai. 
Tive uma ereção, apesar de tudo, mas só mais tarde, no estacionamento 
do Big Boy. 
Foi quando Mary Elizabeth me convidou para a festa Sadie Hawkins e 
disse depois: "Você ficou muito bem naqueles trajes." 
Eu gosto de garotas. Gosto mesmo. Porque elas acham que você fica bem 
de calção de banho mesmo quando você não está. A ereção fez com que eu 
me sentisse culpado por antecipação, mas acho que não podia ter evitado. 
Contei à minha irmã sobre o encontro na festa, mas ela estava muito 
distraída. Depois tentei pedir seu conselho sobre como tratar uma garota em 
um encontro, porque nunca tive um encontro antes, mas ela não respondeu. 
Ela não estava sendo cruel. Só estava "olhando para o vazio". Perguntei a ela 
se estava tudo bem, e ela disse que precisava ficar sozinha, então subi e 
terminei de ler Naked Lunch. 


Depois que terminei, fiquei deitado na cama olhando para o teto e sorri, 
porque o silêncio era muito legal. 
Com amor, 
Charlie 


9 de fevereiro de 1992 
Querido amigo, 
Tenho de dizer uma coisa sobre minha última carta. Eu sei que Sam 
nunca me convidaria para dançar. Sei que ela traria Craig, e se não fosse Craig, 
então o Patrick, porque a namorada de Brad, Nancy, foi com Brad. Acho que 
Mary Elizabeth é muito esperta e uma pessoa legal, e estou feliz que ela seja 
meu primeiro encontro. Mas depois que disse sim, e Mary Elizabeth anunciou 
isso ao grupo, eu queria que Sam ficasse com ciúmes. Sei que é errado querer 
uma coisa assim, mas eu realmente queria. 
Mas Sam não ficou com ciúmes. Para dizer a verdade, acho que ela não 
poderia ter ficado mais feliz, o que foi duro. 
Ela chegou a me dizer como tratar uma garota em um encontro, o que foi 
muito interessante. Ela disse que, com uma garota como Mary Elizabeth, você 
não deve dizer que ela está bonita. Deve dizer a ela como sua roupa é legal, 
porque a roupa é uma escolha dela, enquanto o rosto não é. Ela também disse 
que, com algumas garotas, você deve fazer coisas, como abrir a porta do carro 
e comprar flores, mas com Mary Elizabeth (especialmente em sua festa Sadie 
Hawkins), eu não devia fazer isso. Então perguntei a ela o que devia fazei; e 
ela disse que eu devia fazer um monte de perguntas e não me importar se 
Mary Elizabeth não parasse de falar. Eu disse que isso não parecia muito 
democrático, mas Sam falou que ela faz isso o tempo todo com os garotos. 
Sam disse que as coisas sexuais eram complicadas com a Mary Elizabeth, 
porque ela teve namorados antes e é muito mais experiente do que eu. Ela 
disse que a melhor coisa a fazer quando eu não souber como agir durante 
qualquer coisa sexual é prestar atenção em como a pessoa está te beijando e 
beijá-la da mesma maneira. Ela disse que isso é muito sensato, e eu certamente 
quero ser. 
― Você pode mostrar para mim? ― perguntei. 
E ela disse: 


― Não banque o espertinho. 
Conversamos como às vezes fazemos. Isso sempre me faz rir. Depois que 
Sam me mostrou um isqueiro Zippo, eu perguntei mais sobre Mary Elizabeth. 
― E se eu não quiser fazer nada de sexual com ela? 
― Diga apenas que não está pronto. 
― E isso funciona? 
― Às vezes. 
Eu queria perguntar a Sam sobre o outro lado de "às vezes", mas não 
queria ser muito inconveniente e não queria saber com tanta profundidade 
assim. Gostaria de deixar de ser apaixonado pela Sam. Eu gostaria muito. 
Com amor,
Charlie 


15 de fevereiro de 1992 
Querido amigo, 
Não me sinto muito bem, porque tudo está muito confuso. Fui à festa e 
disse a Mary Elizabeth como a roupa dela era legal. Fiz perguntas a ela e deixei 
que ela falasse o tempo todo. Aprendi muito sobre "objetificação", índios 
americanos e burguesia. 
Mas, acima de tudo, aprendi sobre Mary Elizabeth. Mary Elizabeth quer ir 
para Berkeley e ter dois diplomas. Um em ciência política. O outro em 
sociologia com uma pequena especialização em estudos femininos. Mary 
Elizabeth odeia a escola secundária e quer explorar relacionamentos lésbicos. 
Perguntei se ela achava as garotas bonitas, e ela olhou para mim como se eu 
fosse idiota e disse: "A questão não é essa." 
O filme favorito de Mary Elizabeth é Reds. O livro favorito é uma 
autobiografia de uma mulher que foi personagem de Reds. Não consigo me 
lembrar do nome dela. A cor favorita de Mary Elizabeth é o verde. A estação 
favorita é a primavera. O sorvete favorito (ela disse que se recusa a comer 
frozen yogurt de baixa caloria por uma questão de princípios) é de cereja. A 
comida favorita é pizza (metade champignon, metade pimenta-verde). Mary 
Elizabeth é vegetariana e odeia os pais. Ela fala espanhol fluentemente. 
A única coisa que ela me perguntou durante todo o tempo foi se eu queria 
ou não dar um beijo de boa-noite nela. Quando eu disse que não estava 
pronto, ela disse que entendia e me falou dos bons tempos que teve. Ela disse 
que eu era o cara mais sensível com quem ela já saíra, o que não entendi, 
porque só o que eu fiz foi não interrompê-la. 
Depois ela me perguntou se eu queria sair com ela novamente algum dia, 
o que Sam e eu não cogitamos, então eu não sabia o que responder. Eu disse 


que sim, porque não queria fazer nada errado, mas não acho que consiga bolar 
perguntas boas por mais uma noite. Não sei o que fazer. Quantos encontros 
você pode ter e não estar pronto ainda para beijar? Não acho que um dia 
estarei pronto para Mary Elizabeth. Tenho de conversar com a Sam sobre 
isso. 
Aliás, Sam levou Patrick para a festa depois que Craig disse que estava 
muito ocupado. Acho que eles brigaram um bocado por causa disso. No fim, 
Craig disse que não ia a uma festa idiota de segundo grau desde que tinha se 
formado. A certa altura na festa, Patrick foi para o estacionamento para ficar 
chapado com o orientador educacional, e Mary Elizabeth pedia que o DJ 
tocasse algumas bandas de garotas, o que me deixou a sós com Sam. 
― Está se divertindo? 
Sam não respondeu de imediato. Parecia meio triste. 
― Não muito. E você? 
― Não sei. É meu primeiro encontro, então não sei com o que comparar. 
― Não se preocupe. Você vai se sair bem. 
― Mesmo? 
― Você quer ponche? 
― Claro. 
Com isso, Sam saiu. Ela parecia mesmo triste e eu queria poder fazer com 
que ela se sentisse melhor, mas às vezes acho que não se deve. Assim, fiquei 
sozinho perto da parede e observei a dança por algum tempo. Eu a descreveria 
para você, mas acho que é o tipo de coisa que você tem de presenciar, ou pelo 
menos conhecer as pessoas. Mas então eu penso que talvez você conheça as 
mesmas pessoas, de quando foi às festas da sua escola, se entende o que quero 
dizer. 
A única coisa diferente nesta festa em particular era minha irmã. Ela 
estava com o namorado. E, durante uma música lenta, parece que eles tiveram 
uma briga feia, porque ele parou de olhar para ela e ela correu para a área dos 
banheiros. Tentei acompanhá-la, mas ela estava muito à minha frente. Não 
voltou mais para o salão e o namorado acabou indo embora. 


Depois que Mary Elizabeth me deixou em casa, entrei e encontrei minha 
irmã chorando no porão. Era um choro meio diferente. Do tipo que me 
assustava. Falei bem mansinho e lentamente: 
― Você está bem? 
― Me deixa em paz, Charlie. 
― É sério. Qual é o problema? 
― Você não entenderia. 
― Eu posso tentar 
― Que piada. É mesmo uma piada. 
― Quer que eu acorde mamãe e papai? 
― Não. 
― Bom, talvez eu possa... 
― CHARLIE! CALE A BOCA! TÁ BOM? CALE A BOCA! 
Foi quando ela começou a chorar de verdade. Eu não queria que ela se 
sentisse pior, então me virei para deixá-la sozinha. Foi quando minha irmã 
começou a me abraçar Ela não disse nada. Só ficou abraçada comigo e eu não 
pude sair. Então eu a abracei também. Foi estranho porque eu nunca havia 
abraçado minha irmã. Não quando ela não era obrigada a fazer isso. Depois de 
algum tempo, ela se acalmou um pouco e me largou. Respirou profundamente 
e ajeitou o cabelo que estava caído no rosto. 
Foi aí que ela me disse que estava grávida. 
Eu lhe contaria sobre o resto da noite, mas sinceramente não me lembro 
muito bem. Foi tudo muito atordoante. Sei que o namorado dela disse que o 
bebê não era dele, mas minha irmã sabia que era. E sei que ele rompeu com 
ela bem naquela festa. Minha irmã não contou a ninguém sobre isso porque 
ela não quer que o assunto se espalhe. As únicas pessoas que sabem somos eu, 
ela e ele. Não tenho permissão para contar a ninguém que eu conheça. Nin-
guém. Nunca. 
Disse à minha irmã que ia chegar a hora em que ela não ia mais conseguir 
escondei; mas ela disse que não permitiria que fosse tão longe. Como já tinha 
dezoito anos, não precisava da permissão da mamãe e do papai. Tudo de que 
ela precisava era de alguém que fosse com ela à clínica no sábado. E essa 
pessoa era eu. 


"Ainda bem que já tenho minha carteira de motorista." 
Eu disse isso para fazer ela rir. Mas ela não riu. 
Com amor,
Charlie 


23 de fevereiro de 1992 
Querido amigo, 
Eu estava sentado na sala de espera da clínica. Fiquei ali por uma hora ou 
mais. Não me lembro exatamente quanto tempo. Bill tinha me dado outro 
livro para ler, mas eu não conseguia me concentrar nele. Acho que você pode 
entender por quê. 
Então tentei ler algumas revistas, mas de novo não consegui. Não foi 
tanto porque eles mencionavam o que as pessoas comiam. Foram todas as 
capas das revistas. Cada uma delas tinha uma face sorridente, e toda vez que 
tinha uma mulher na capa, ela estava mostrando o colo dos seios. Eu me 
perguntei se aquelas mulheres faziam isso para parecerem bonitas ou se era 
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