Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe


parte sobre ele chorando, mas piscou para mim, então eu sabia que ele se



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

parte sobre ele chorando, mas piscou para mim, então eu sabia que ele se 
lembrava. Às duas horas de carro até Ohio foram legais na primeira meia hora, 
embora eu tivesse sentado no calombo do banco traseiro porque meu pai 


continuava fazendo perguntas sobre a faculdade e meu irmão não parava de 
falar. Ele está namorando uma daquelas líderes de torcida que dão saltos-
mortais durante os jogos de futebol americano da faculdade. O nome dela é 
Kelly. Meu pai ficou muito interessado nisso. Minha irmã lembrou como as 
líderes de torcida eram idiotas e sexistas e meu irmão disse a ela para calar a 
boca. Kelly estava se especializando em filosofia. Perguntei a meu irmão se a 
Kelly era do tipo de beleza não convencional. 
"Não, ela é do tipo gostosona." 
E minha irmã começou a falar que a aparência de uma mulher não é a 
coisa mais importante. Eu concordei, mas depois meu irmão começou a dizer 
que minha irmã não passava de uma "sapatão chata". Depois minha mãe disse 
a meu irmão para não usar aquela linguagem na minha frente, o que era 
estranho, considerando que eu provavelmente era o único na família que tinha 
um amigo gay. Talvez não fosse o único, mas era o único que falava nesse 
assunto. Não tenho certeza. Apesar disso, meu pai perguntou como foi que 
meu irmão e Kelly se conheceram. 
Meu irmão e Kelly se conheceram em um restaurante chamado Ye Olde 
College Inn, ou coisa parecida, na Penn State. Parece que eles tinham uma 
sobremesa famosa, chamada "grude grelhado". Sei lá. Kelly estava com uma 
de suas colegas de irmandade e elas iam saindo, mas ela deixou cair o livro 
bem em frente ao meu irmão e continuou andando. Meu irmão disse que, 
embora Kelly negue isso, ele tem certeza de que ela deixou cair o livro de 
propósito. As árvores estavam em plena floração quando ele topou com ela 
em frente ao fliperama. Foi assim que ele descreveu. Eles passaram o resto da 
tarde jogando velhos videogames, como Donkey Kong, e se sentindo 
nostálgicos, o que é uma declaração genérica e eu achei triste e doce. Perguntei 
a meu irmão se a Kelly bebia chocolate. 
"Tá doidão?" 
E de novo minha mãe pediu a meu irmão para não usar aquela linguagem 
na minha frente, o que era estranho de novo, porque acho que sou a única 
pessoa na minha família que já ficou doidão o. Talvez também meu irmão. 
Não tenho certeza. Definitivamente, minha irmã não. Talvez toda minha 
família já tivesse ficado doidona e nós não conversávamos sobre essas coisas. 


Minha irmã passou os dez minutos seguintes atacando o sistema grego de 
irmandades e fraternidades. Ela ficou contando histórias de "trotes" e de 
como os garotos morriam antigamente. Depois ela contou uma história sobre 
como ouviu dizer que havia uma irmandade que fazia com que as garotas 
novatas ficassem de roupa íntima enquanto elas marcavam suas "gorduras" 
com pincel atômico. Àquela altura, meu irmão já estava cheio da minha irmã. 
"Que merda!” 
Ainda não consigo acreditar que meu irmão tenha xingado no carro e 
meu pai ou minha mãe não tenha dito nada. Acho que é porque ele está na 
faculdade agora, então está tudo bem. Minha irmã não se importa com a pala1 
Ela seguiu em frente. 
― Não é merda. Foi o que eu soube. 
― Cuidado com a boca, jovenzinha ― disse meu pai d assento da frente. 
― Ah, é? Onde você ouviu isso? ― perguntou me irmão. 
― No rádio ― disse a minha irmã. 
― Ah, meu Deus. ― Meu irmão soltou uma gargalhada. 
― Bom, foi o que eu soube. 
Minha mãe e meu pai pareciam que estavam assistindo 
a uma partida de tênis pelo para-brisa, porque ficaram sacudindo a 
cabeça. Não disseram nada. Não olharam para trás. Tenho de ressaltar; 
contudo, que meu pai lentamente começou a colocar a música de Natal do 
rádio em um volume ensurdecedor. 
― Você está dizendo um monte de asneira. Como você poderia saber de 
alguma coisa? Nunca foi a uma faculdade. Kelly não faz uma coisa dessas. 
― Ah, é... de acordo com o que ela diz. 
― É. Ela me contaria. Não temos segredos um com o outro. 
― Ah, você faz a linha Nova Era sensível. 
Eu queria que eles parassem de brigar porque eu estava começando a ficar 
perturbado, então mudei de assunto: 
― Vocês conversam sobre livros e essas coisas? 
― Obrigado por perguntar, Charlie. Sim. Na verdade, nós conversamos. 
O livro favorito da Kelly é nada menos que Walden, de Henry David Thoreau. 


E há pouco tempo a Kelly disse que o movimento transcendental forma um 
paralelo estreito com nossa época. 
― Uau. Grande discurso. ― Minha irmã virava os olhos melhor do 
ninguém. 
― Ah, com licença. Alguém estava falando com você? Acontece que eu 
estou conversando com meu irmão mais novo sobre minha namorada. A 
Kelly disse que espera que um bom candidato democrata derrote George 
Busli. Disse que sua esperança é que a lei de direitos iguais possa finalmente 
ser aprovada, se isso acontecer. É isso mesmo. Direitos iguais, de que você 
sempre reclama. Até líderes de torcida pensam coisas assim. E elas podem ser 
muito divertidas também. 
Minha irmã cruzou os braços e começou a assoviar. Mas meu irmão 
estava muito ligado para parar. Percebi que o pescoço do meu pai estava 
ficando vermelho. 
― Mas há outra diferença entre vocês duas. É o seguinte: Kelly acredita 
tanto nos direitos da mulher que nunca deixaria que um cara batesse nela. 
Acho que não posso dizer o mesmo de você. 
Juro por Deus que quase morremos. Meu pai pisou no freio com tanta 
violência que meu irmão quase voou do assento. Quando o cheiro dos pneus 
começou a se dissipai; meu pai respirou fundo e se virou. Primeiro ele se 
voltou para meu irmão. Não disse uma só palavra. Só ficou olhando para ele. 
Meu irmão olhou para meu pai como um cervo apanhado numa caçada 
por meus primos. Depois de uns dois segundos, meu irmão se virou para 
minha irmã. Acho que ele se sentiu mal com o que disse por causa das 
palavras que vieram: 
― Desculpe, está bem? Ah, vamos lá. Não chore. 
Minha irmã estava chorando tanto que eu fiquei assustado. Depois, meu 
pai se virou para minha irmã. Novamente, ele não disse nada. Só estalou os 
dedos para distraí-la do choro. Ela olhou para ele. No início ficou confusa, 
porque o olhar dele não era carinhoso. Mas depois ela olhou para baixo, 
encolheu os ombros e se virou para o meu irmão. 
― Desculpe pelo que disse sobre a Kelly. Ela é legal. 


Depois meu pai se virou para a minha mãe. E minha mãe se virou para 
nós. 
― Seu pai e eu não queremos mais briga. Especialmente na casa da 
família. Entenderam? 
Às vezes minha mãe e meu pai formavam uma dupla perfeita. É 
maravilhoso assistir Meu irmão e minha irmã concordaram com a cabeça e 
olharam para baixo. Depois meu pai se virou para mim. 
― Charlie... 
― Sim senhor? 
Era importante dizer "senhor" nessas horas. E se eles o chamarem pelo 
nome do meio, é melhor ter cuidado. Estou falando sério. 
― Charlie, gostaria que você dirigisse pelo resto do caminho até a casa da 
minha mãe. 
Todos no carro sabiam que essa era a pior ideia que meu pai teve em toda 
a vida. Mas ninguém questionou. Ele tirou o carro do meio da estrada. Ficou 
no assento entre meu irmão e minha irmã. Pulei para o banco da frente, afo-
guei o motor duas vezes e coloquei o cinto de segurança. Dirigi pelo resto do 
caminho. Eu não suava tanto desde a época em que praticava esportes, e era 
um suor frio. 
A família do meu pai era parecida com a da minha mãe. Meu irmão certa 
vez disse que eram os mesmos primos com nomes diferentes. A grande 
diferença era minha avó. Eu adoro minha avó. Todo mundo adora a vovó. Ela 
estava esperando por nós na entrada, como sempre fazia. Ela sempre sabia 
quando alguém estava chegando. 
― É o Charlie que está dirigindo agora? 
― Ele fez dezesseis ontem. 
― Oh. 
Minha avó era muito velha e ela não se lembrava de muita coisa, mas fazia 
os biscoitos mais deliciosos. Quando eu era muito pequeno, tínhamos a mãe 
da minha mãe, que sempre tinha doces, e a mãe do meu pai, que sempre tinha 
biscoitos. Minha mãe me disse que, quando eu era pequeno, eu as chamava de 
"vovó doce" e "vovó biscoito". Eu também chamava massa de pizza de "osso 
de pizza". Não sei por que estou lhe contando essas coisas. 


É como minha primeira lembrança, que acho que foi a primeira vez em 
que tive consciência de que estava vivo. Minha mãe e tia Helen me levaram ao 
zoológico. Acho que eu tinha três anos. Não me lembro dessa parte. De 
qualquer modo, estávamos vendo duas vacas. A vaca mãe e seu bebê bezerro. 
E eles não tinham muito espaço para andar Em todo caso, o bezerro estava 
parado bem debaixo da mãe, tipo passeando, e a mamãe vaca fazia "caca" na 
cabeça do bebê bezerro. Achei a coisa mais divertida que já tinha visto no 
mundo e ri daquilo por umas três horas. No início, mamãe e tia Helen 
também riram, porque estavam felizes que eu estivesse rindo. Parece que eu 
não falava muito quando era pequeno, e quando eu parecia normal elas fica-
vam felizes. Mas três horas depois elas tentaram fazer com que eu parasse de 
rir, mas só o que conseguiam era me fazer rir mais ainda. Não acho que 
fossem realmente três horas, mas parece ter sido um longo tempo. Até hoje eu 
penso nisso. Parece ter sido uma espécie de começo "auspicioso". 
Depois dos abraços e apertos de mãos, entramos na casa da minha avó e 
toda a família da parte de meu pai estava lá, Meu tio-avô Phil com sua 
dentadura e minha tia Rebecca, que é irmã do meu pai: Mamãe nos disse que a 
tia Rebecca tinha se divorciado de novo e que não devíamos falar nesse 
assunto. Eu só conseguia pensar nos biscoitos, mas vovó não fez nenhum esse 
ano por causa do problema nos quadris. 
Nós sentamos e assistimos à televisão. Meus primos e meu irmão falaram 
de futebol. E meu tio-avô Phil bebia. E jantamos. E eu tive de me sentar à 
mesinha das crianças porque havia mais primos na família do meu pai 
As crianças pequenas falam das coisas mais estranhas. É verdade. 
Depois do jantar é que assistimos ao filme A felicidade não se compra e 
eu comecei a me sentir cada vez mais triste. Quando estava subindo as escadas 
para o antigo quarto do meu pai, e olhando as velhas fotografias, comecei a 
pensar que houve uma época em que essas coisas não eram lembranças. Que 
alguém tirou aquela foto, e as pessoas na foto estavam almoçando ou coisa 
parecida. 
O primeiro marido da minha avó morreu na Coréia. Meu pai e minha tia 
Rebecca eram muito novos. E minha avó se mudou com os dois filhos para a 
casa do irmão, meu tio-avô Phil. 


No fim, depois de alguns anos, minha avó estava se sentindo muito triste 
porque tinha dois filhos pequenos, e estava cansada de ser garçonete o tempo 
todo. Então, um dia, ela estava trabalhando no restaurante e um motorista de 
caminhão a convidou para sair. Minha avó era muito bonita, mesmo naquela 
velha fotografia. Eles namoraram por algum tempo. E finalmente se casaram. 
Ele se tornou um sujeito terrível. Batia no meu pai o tempo todo. E batia na 
tia Rebecca o tempo todo. E batia muito na minha avó. Todo o tempo. E 
minha avó não podia fazer nada. Eu acho que não, porque isso durou uns sete 
anos. 
Finalmente terminou, quando meu tio-avô Phil viu hematomas na tia 
Rebecca e arrancou a verdade de minha avó. Depois ele reuniu alguns amigos 
da fábrica. E eles encontraram o segundo marido da minha avó no bar. E 
deram uma surra nele. Meu tio-avô Phil adora contar a história quando minha 
avó não está por perto. A história sempre muda, mas em essência é sempre a 
mesma. O cara morreu quatro dias depois no hospital. 
Ainda não sei como o tio-avô Phil não foi para a cadeia pelo que fez. 
Perguntei a meu pai uma vez e ele disse que as pessoas que moravam na 
vizinhança compreendiam que algumas coisas não deviam ser ditas à polícia. 
He disse que, se alguém tocava em sua mãe ou em sua irmã, tinha de pagar 
por isso, e todos faziam vista grossa. 
Só que foi muito ruim ter durado sete anos, porque tia Rebecca acabou 
com o mesmo tipo de marido. Com a tia Rebecca foi diferente, porque a 
vizinhança mudou. Meu tio- avô Phil estava velho demais e meu pai saiu da 
cidade. Em vez disso, ela conseguia ordens judiciais para mantê-los afastados. 
Fico pensando no que meus três primos, que são filhos da tia Rebecca, se 
transformarão. Uma menina e dois meninos. Fico triste também porque acho 
que a menina provavelmente terminará como a tia Rebecca, e um dos meninos 
provavelmente terminará como o pai dele. O outro menino deve terminar 
como o meu pai, porque ele pratica esportes e teve um pai diferente dos 
irmãos dele. Meu pai conversa muito com ele e ensina como lançar e rebater 
no beisebol. Eu costumava sentir ciúmes disso quando era pequeno, mas não 
sinto mais. Porque meu irmão disse que meu primo é o único dessa família 


que tem uma chance. Ele precisa do meu pai. Acho que compreendo isso 
agora. 
O antigo quarto do meu pai está quase exatamente como ele deixou, 
exceto que agora parece mais desbotado. Tem um globo em uma mesa que já 
girou muito. E velhos pôsteres de jogadores de beisebol. E velhos recortes de 
jornal sobre meu pai ganhando o grande jogo quando era segundanista. Não 
sei o porquê, mas eu entendo por que meu pai teve de sair desta casa Quando 
ele soube que minha avó nunca encontraria outro homem porque não tinha 
mais confiança e nunca mais olharia para nenhum outro porque não sabia 
como. E quando ele viu que a irmã começou a trazer versões mais novas dos 
padrastos para casa para namorar. Ele não podia ficar. 
Deitei na sua velha cama e olhei pela janela paia a árvore que 
provavelmente era muito menor quando meu pai olhava para ela. Eu pude 
sentir o que ele sentiu na noite em que percebeu que, se não partisse, nunca 
teria sua própria vida. Seria a vida deles. Pelo menos foi como ele colocou. 
Talvez seja por isso que o lado da família de meu pai assista ao mesmo filme 
todo ano. Faz sentido. Talvez eu deva mencionar que meu pai nunca chora no 
final. 
Não sei se vovó ou tia Rebecca um dia perdoarão meu pai por tê-las 
deixado. Só o meu tio-avô Phil entende essa parte. É sempre estranho ver 
como meu pai muda quando está perto da mãe e da irmã. Ele se sente mal o 
tempo todo e sua irmã e ele sempre dão uma caminhada sozinhos. Uma vez 
olhei pela janela e vi meu pai lhe dando dinheiro. 
Imagino o que tia Rebecca diz no carro quando está voltando para casa. 
Imagino o que os filhos dela dizem. Imagino que eles falem de nós. Imagino 
que eles olhem para minha família e se perguntem quem tem uma chance de 
conseguir. Aposto que é isso o que eles fazem. 
Com amor,
Charlie 


26 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Estou sentado em minha cama agora, depois de duas horas de estrada de 
volta para casa. Minha irmã e meu irmão foram muito legais um com o outro, 
então eu não tive de dirigir. 
Em geral, na volta para casa, vamos visitar o túmulo da tia Helen. É uma 
espécie de tradição. Meu irmão e meu pai nunca querem ir, mas eles sabem 
que não devem dizer nada por causa de minha mãe e de mim. Minha irmã é 
meio neutra, mas ela é sensível a certas coisas. 
Todas as vezes que vamos ver o túmulo da tia Helen, minha mãe e eu 
gostamos de falar de alguma coisa realmente boa sobre ela. Na maioria dos 
anos é sobre como ela me deixou ficar acordado e assistir ao Saturday Night 
Live. E minha mãe sorri porque ela sabe que, se fosse criança, teria ficado 
acordada e assistido também. 
Nós depositamos flores e às vezes um cartão. Queremos que ela saiba que 
não a esquecemos, que pensamos nela e que ela era especial. Ela não sabia 
disso o bastante quando estava viva, como minha mãe sempre diz. E, como 
meu pai, acho que minha mãe se sente culpada por isso. Tão culpada que, em 
vez de lhe dar dinheiro, ela lhe deu uma casa para morar. 
Quero que você entenda por que minha mãe se sente culpada. Eu devia 
contar a você, mas não tenho muita certeza se devo. Tenho de falar sobre isso 
com alguém. Ninguém na minha família jamais conversou sobre esse assunto. 
É uma coisa que eles não fazem. Estou falando da coisa ruim que aconteceu a 
tia Helen que eles não quiseram me contar quando eu era pequeno. 
Toda vez que chega o Natal eu não consigo deixar de pensar nisso... e 
muito. É uma coisa que me deixa profundamente triste. 
Não vou dizer quem. Não vou dizer quando. Só vou dizer que a tia Helen 
foi estuprada. Odeio essa palavra. Foi feito por alguém que era muito próximo 
dela. Não foi o pai dela. Ela no final contou ao pai. Ele não acreditou por 


causa de quem ele era. Um amigo da família. Isso só tornou as coisas piores. 
Minha avó nunca disse nada. E o homem continuou a visitá-los. 
Tia Helen bebia muito. Tia Helen se drogava muito. Tia Helen tinha 
muitos problemas com homens e rapazes. Ela foi uma pessoa muito infeliz na 
maior parte da vida. Parava em hospitais o tempo todo. Todo tipo de hospital. 
Por fim, ela foi para um hospital que a ajudou a refletir o bastante para que 
tentasse ter uma vida normal, e então ela foi morar com a minha família. 
Começou fazendo cursos par conseguir um bom emprego. Disse a seu último 
homem, mau que a deixasse em paz. Começou a perder peso sem ter de fazer 
dieta. Cuidava de nós, então meus pais podiam sair e beber e jogar cartas. 
Deixava a gente ficar acordado até tarde. Ela era a única pessoa, além de 
minha mãe, meu pai, meu irmão e minha irmã, que me dava dois presentes. 
Um de aniversário. Outro de Natal. Mesmo quando ela se mudou para minha 
casa e não tinha dinheiro. Ela sempre me comprava dois presentes. E sempre 
eram os melhores presentes. 
Em 24 de dezembro de 1983, um policial bateu na porta. Tia Helen tinha 
sofrido um acidente de carro horrível. Estava nevando muito. O policial disse 
à minha mãe que a tia Helen tinha morrido. Era um homem muito legal, 
porque quando minha mãe começou a chorar ele disse que. tinha sido um 
acidente muito grave e que a tia Helen morreu instantaneamente. Em outras 
palavras, não sentiu dor. Nunca mais sentiu dor. 
O policial pediu à minha mãe para acompanhá-lo e identificar o corpo. 
Meu pai ainda estava no trabalho. Foi quando eu apareci com meus irmãos. 
Era meu aniversário de sete anos. Todos nós vestíamos chapéus de festa. 
Minha mãe fez com que meus irmãos usassem um também. Minha irmã viu a 
mamãe chorando e perguntou o que havia de errado. Minha mãe não 
conseguiu dizer nada. O policial se ajoelhou e nos contou o que aconteceu. 
Meu irmão e minha irmã choraram. Mas eu não. Eu sabia que o policial estava 
errado. 
Minha mãe pediu a meus irmãos para cuidarem de mim e saiu com o 
policial. Acho que assisti à tevê. Não me lembro muito bem. Meu pai chegou 
em casa antes da minha mãe. 
"Por que essas carinhas tristes?" 


Contamos a ele. Ele não chorou. Perguntou se a geras estava bem. Meus 
irmãos disseram que não. Eu disse que sim. O policial tinha cometido um 
erro. Estava nevando muito. Provavelmente ele não conseguiu ver Minha mie 
chegou em casa. Estava chorando. Olhou para mim e sacudiu a cabeça. Meu 
pai a abraçou. Foi aí que eu percebi que o policial não tinha errado. 
Não sei bem o que aconteceu depois, e nunca perguntei. Só me lembro de 
estar indo para o hospital. Lembro-me de estar sentado em uma sala com 
luzes brilhantes. Lembro-me de um médico me fazendo perguntas. Lembro-
me de dizer a ele que a tia Helen era a única pessoa que me abraçava. Lembro-
me de ver minha família no Natal em uma sala de espera. Lembro de não ter 
tido permissão para ir ao enterro. Lembro que nunca disse adeus à tia Helen. 
Não sei quanto tempo fiquei indo ao médico. Não me lembro de quanto 
tempo deixei de ir à escola. Foi por muito tempo. Sei que foi muito. Tudo de 
que me lembro é do dia em que comecei a me sentir melhor, porque eu me 
lembrei da última coisa que a tia Helen disse antes de sair de carro na neve. 
Ela estava vestindo um casaco. Eu estava com as chaves do carro porque 
sempre era o único que sabia onde encontrá-las. Perguntei à tia Helen aonde 
estava indo. Ela me disse que era um segredo. Continuei atazanando a tia 
Helen, o que ela adorava. Ela adorava a forma como eu a enchia de perguntas. 
Finalmente ela sacudiu a cabeça, sorriu e sussurrou ao meu ouvido: 
"Estou indo comprar seu presente de aniversário." 
Foi a última vez em que a vi. Gosto de pensar que agora tia Helen teria 
aquele bom emprego para o qual estava se preparando. Gosto de pensar que 
ela encontraria um bom homem. Gosto de pensar que ela teria perdido peso, 
o que ela sempre quis, sem precisar fazer dieta. 
Apesar de tudo que minha mãe, meu pai e o médico me disseram sobre a 
culpa, não consigo parar de pensar no que eu sei. E eu sei que minha tia Helen 
ainda estaria viva hoje se tivesse me comprado um presente só como todo 
mundo fazia. Ela estaria viva se eu tivesse nascido em uma época em que não 
nevasse. Eu faria qualquer coisa para que fosse dessa forma. Sinto demais a 
falta dela. Tenho de parar de escrever agora, porque estou triste demais. 
Com amor,
Charlie 


30 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Um dia depois de ter escrito pra você, terminei O apanhador no campo 
de centeio. Desde então, li o livro três vezes. Não sei bem que outra coisa 
posso fazer. Sam e Patrick finalmente voltam para casa hoje à noite, mas não 
irei vê-los. Patrick vai se encontrar com Brad em algum lugar. Sam vai sair 
com Craig. Eu os verei amanhã no Big Boy e depois na festa de Ano-novo do 
Bob. 
O que está me empolgando é que eu mesmo vou dirigir o carro até o Big 
Boy. Meu pai disse que eu não podia dirigir até que o tempo melhorasse, e 
finalmente ficou um pouco melhor ontem. Gravei minha fita para a ocasião. É 
chamada "A Primeira Vez que Dirigi". Talvez eu esteja sendo sentimental 
demais, mas prefiro pensar que, quando eu estiver velho, vou poder olhar 
todas essas fitas e lembrar r das vezes em que dirigi o carro. 
Na primeira vez em que dirigi foi para ver a tia Helen. Foi a primeira vez 
que fui vê-la sem a minha mãe. Fiz com que fosse uma ocasião especial. 
Comprei flores com o dinheiro que ganhei no Natal. Cheguei a gravar uma fita 
e a deixei no túmulo. Espero que você não pense que eu sou esquisito por 
causa disso. 
Contei toda à minha vida à tia Helen. Sobre Sam e Patrick. Sobre os 
amigos deles. Sobre minha primeira festa de Ano-novo amanhã. Contei a ela 
sobre como meu irmão jogaria sua última partida de futebol da temporada no 
dia de Ano-novo. Contei a ela sobre meu irmão partindo e como minha mãe 
chorou. Contei a ela sobre os livros que eu leio. Sobre a canção "Asleep". 
Contei a ela de quando nós nos sentimos infinitos. Sobre mim mesmo, 
obtendo minha carteira de motorista. De como minha mãe nos trouxe aqui. E 


como eu dirigi na volta. E como o policial que aplicou o exame não parecia 
estranho nem tinha um nome engraçado, o que para mim pareceu trapaça. 
Lembro que quando eu tinha acabado de dizer adeus à minha tia Helen, 
comecei a chorar. Foi um choro muito verdadeiro também. Não do tipo 
aterrorizado, que eu tenho muito. E prometi à tia Helen só chorar por coisas 
importantes, porque eu odiaria pensar que chorar como eu sempre faço 
diminuiria a importância desse choro pela tia Helen. 
Depois eu disse adeus e voltei para casa. 
Li o livro de novo nesta noite porque eu sabia que, se não o fizesse, 
provavelmente começaria a chorar novamente. O do tipo aterrorizado, eu 
quero dizer. Li até que fiquei completamente exausto e tive de ir dormir. Pela 
manhã, terminei o livro e depois comecei imediatamente a lê-lo de novo. 
Qualquer coisa para não sentir vontade de chorai Porque eu prometi à tia 
Helen. E porque eu não quero começar a pensar novamente. Não como eu fiz 
na semana passada, não posso pensar novamente. De novo, não. 
Não sei se você já se sentiu assim, querendo dormir por mil anos. Ou se 
sentiu que não existe. Ou que não tem consciência de que existe. Ou algo 
parecido. Acho que querer isso é muito mórbido, mas eu quero quando me 
sinto assim. É por isso que estou tentando não pensar. Só queria que tudo 
pare de rodar. Se ficar pior, eu terei de ir ao m co. E teria aquela coisa ruim 
novamente. 
Com amor,
Charlie 


1º de janeiro de 1992 
Querido amigo,
Agora são quatro horas da manhã e é Ano-novo, embora ainda seja 31 de 
dezembro, isto é, até que as pessoa durmam. Não consigo dormir. Todo 
mundo está ou dormindo ou fazendo sexo. Fiquei assistindo à tevê a cabo 
comendo jujuba. E vendo coisas se moverem. Queria contar a você sobre Sam 
e Patrick, e Craig e Brad, e Bob e todo mundo, mas não consigo me lembrar
direito agora. 
Lá fora está tranquilo. Sei disso. E fui de carro até o Big Boy mais cedo. E 
vi Sam e Patrick. E eles saíram com Brad e Craig. E isso me deixou triste, 
porque eu queria ficar sozinho com eles. Isso nunca aconteceu antes. 
As coisas ficaram piores há uma hora e eu estava olhando esta árvore, 
mas era um dragão e depois uma árvore, e me lembro de que o dia estava 
lindo quando eu fazia parte do ar. E me lembro de aparar a grama naquele dia 
para ganhar minha mesada, como estou removendo a neve da entrada de 
carros com uma pá para ganhar minha mesada agora. Então comecei a tirar a 
neve da entrada do Bob, o que é uma coisa estranha de se fazer em uma festa 
de Ano-novo. 
Meu rosto está vermelho de frio, como a cara de bêbado do Sr. Z e seus 
sapatos pretos e sua voz dizendo que quando uma lagarta vai para um casulo é 
como uma tortura, e como leva sete anos para um chiclete ser digerido. E 
aquele garoto, o Mark, na festa que me deu aquilo saiu do nada e olhou para o 
céu, e me disse para ver as estrelas. Então eu olhei para cima, e estávamos em 
uma cúpula gigante como uma bola de neve de vidro, e Mark disse que as 
estrelas muito brancas eram na verdade somente buracos no vidro negro da 
cúpula, e quando você foi ao céu, o vidro quebrou, e não havia nada, exceto 
um monte de estrelas brancas, que são mais brilhantes que qualquer coisa, mas 


não ferem os olhos. Era imenso, aberto e delicadamente quieto, e eu me senti 
muito pequeno. 
Às vezes eu olho para fora e penso que um monte de outras pessoas viu 
essa neve antes. Assim como eu penso que um monte de outras pessoas leu 
aqueles livros antes. E ouviram aquelas canções. 
Eu me pergunto como elas estão se sentindo esta noite. 
Não sei bem o que estou dizendo. Provavelmente eu não devia escrever 
isso, porque ainda vejo coisas em movimento. Quero que elas parem de se 
mexer, mas provavelmente elas não vão fazer isso por mais algumas horas. Foi 
o que Bob disse antes de sair de seu quarto com Jill, uma garota que não 
conheço. 
Acho que o que estou dizendo é que tudo isso parece muito familiar. Mas 
eu não estou familiarizado com isso. Só sei que outro garoto sentiu a mesma 
coisa. Dessa vez, quando está tranquilo do lado de fora e você vê coisas se 
mexendo, e não quer isso, e todos estão dormindo. E todos os livros que você 
leu foram lidos por outras pessoas. E todas as canções que você gostou foram 
ouvidas por outras pessoas. E aquela garota que é bonita para você é bonita 
para outras pessoas. E você sabe que, se enxergasse esses fatos quando era 
feliz, se sentiria ótimo, porque estaria descrevendo a "união". 
É como quando você está excitado com uma garota e w um casal de 
mãos dadas, e se sente feliz por eles. E outras vezes você vê o mesmo casal e 
eles te deixam louco. E talvez o que você quer é se sentir sempre feliz por eles, 
porque você sabe que se for assim significa que você está feliz também. Acabo 
de lembrar o que me fez pensar desta forma. Vou escrever sobre isso porque, 
se eu fizer, não terei de pensar no assunto. E não quero ficar triste. Mas o caso 
é que posso ouvir Sam e Craig fazendo sexo, e, pela primeira vez na minha 
vida, entendo o final do poema. 
E eu nunca tinha entendido. Você tem que acreditar é mim. 
Com amor, 
Charlie 


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