Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)
Em uma folha de papel amarelo com linhas verdes ele escreveu um poema 
E o intitulou "Chops" porque era o nome de seu cão 
 E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A e uma estrela dourada 
 E sua mãe o abraçou à porta da cozinha e leu o poema para as tias 
 Era o ano em que o padre Tracy levava todas as crianças ao zoológico 
E ele deixou que cantassem no ônibus
E sua irmãzinha tinha nascido com unhas minúsculas e nenhum cabelo
E sua mãe e seu pai se beijaram tanto 
E a garota da esquina mandou para ele um cartão de Dias dos Namorados 
assinado com vários X 


e ele teve de perguntar ao pai o que significava X
E seu pai deixou que ele dormisse na sua cama à noite
E era sempre lá que ele dormia 
Em uma folha de papel com linhas azuis ele escreveu um poema 
E o intitulou "Outono" 
porque era o nome da estação
E era o que estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A 
e o pediu para escrever com mais clareza
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha por causa da pintura nova
E as crianças disseram a ele que o padre Tracy fumava cigarros
E largava as guimbas no banco da igreja 
 E às vezes elas faziam buracos 
 Que era o ano de sua irmã usar óculos com lentes grossas e armação preta
E a garota da esquina riu 
quando ele pediu para ver Papai Noel 
 E os garotos perguntaram por que 
a mãe e o pai se beijavam tanto 
 E seu pai não o cobria mais na cama à noite
E seu pai ficou furioso 
quando ele chorou por isso. 
Em um pedaço de papel de seu caderno 
ele escreveu um poema 
 E o intitulou "Inocência: Uma Questão" 
porque a questão era sobre uma garota
E isso estava em toda parte
E seu professor lhe deu um A 
e um olhar muito estranho
E sua mãe não o abraçou à porta da cozinha 
porque ele nunca o mostrou a ela
Foi o primeiro ano depois da morte do padre Tracy
E ele esqueceu como terminava 
o Creio em Deus Pai 


 E ele pegou a irmã 
se agarrando na varanda dos fundos
E sua mãe e seu pai nunca se beijavam 
nem mesmo conversavam
E a garota da esquina 
usava maquiagem demais
O que fez ele tossir quando a beijou mas ele a beijou mesmo assim porque era a 
coisa certa a fazer
E às três da manhã ele se aninhou na cama seu pai roncava alto 
É por isso que no verso de uma folha de papel pardo 
ele tentou outro poema
E o intitulou de "Absolutamente Nada"
Porque era o que estava em toda parte E ele se deu um A 
e um corte em cada maldito pulso
E se encostou na porta do banheiro porque nessa hora ele não pensou que poderia 
alcançar a cozinha. 
Este foi o poema que eu li para o Patrick. Ninguém sabia quem era o 
autor, mas Bob disse que já o ouvira antes, e ele soube que era um bilhete 
suicida de um garoto. Eu espero que não seja, porque não sei se gostei do 
final. 
Com amor,
Charlie 


23 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Sam e Patrick viajaram com a família para o Grand Canyon ontem. Não 
estou me sentindo muito mal, porque ainda posso me lembrar do beijo da 
Sam. Agora me sinto em paz e em ordem. Cheguei a pensar em não lavar 
meus lábios, como fazem na tevê, mas depois achei que isso seria vulgar 
demais. Então, em vez disso, passei o dia andando pelo bairro. Cheguei a 
pegar meu velho trenó e meu velho cachecol. Há algo de confortável nisso 
para mim. 
Subi a colina onde costumava usar o trenó. Havia muitas crianças ali. Eu 
fiquei vendo elas voarem. Dar saltos e apostar corridas. E pensei que todas 
aquelas crianças um dia iam crescer. E todas aquelas crianças iam fazer as coi-
sas que nós fazemos. E todos eles beijarão alguém um dia. Mas agora andar de 
trenó era o bastante. Acho que seria ótimo se bastasse um trenó, mas não é 
assim. 
Estou muito contente que o Natal e meu aniversário estejam perto, 
porque isso significa que terminarão logo, porque já posso me imaginar indo 
para um lugar ruim aonde eu costumava ir. Depois que tia Helen se foi, eu fui 
para esse lugar. Foi tão ruim que minha mãe tenha me levado a um médico e 
eu tenha perdido um ano na escola. Mas agora estou tentando não pensar 
demais nisso, porque faz com que eu me sinta pior. 
É como quando você se olha no espelho e diz seu nome. E chega a um 
ponto em que nada parece real. Bom, às vezes, eu posso fazer isso. Mas não 
preciso de uma hora diante do espelho. Acontece muito rápido e as coisas 
começam a escapulir. E eu abro meus olhos e não vejo nada. E depois começo 
a respirar com dificuldade, tentando ver alguma coisa, mas não consigo. Não 
acontece o tempo todo, mas quando acontece fico assustado. 


Quase aconteceu esta amanhã, mas eu lembrei do beijo da Sam e passou. 
Provavelmente eu não devia estar escrevendo demais sobre isso porque 
traz tudo aquilo à tona. Faz eu pensar demais. E estou tentando participar. Só 
que é difícil, porque a Sam e o Patrick estão no Grand Canyon. 
Amanhã, vou com minha mãe comprar presentes todo mundo. E depois 
vamos comemorar meu aniversario. Eu nasci em 24 de dezembro. Não sei se 
já lhe disse isso antes. É um aniversário estranho, porque está perto demais do 
Natal. Depois nós comemoramos o Natal com a família do meu pai, e meu 
irmão virá para casa por algum tempo. Depois vou fazer meu exame de 
motorista, então vou estar muito ocupado enquanto Sam e Patrick estiverem 
fora. 
Hoje à noite assisti a um pouco de televisão com minha irmã, mas ela não 
quis ver os especiais de Natal que estavam passando, então decidi subir as 
escadas e ler. 
Bill me deu um livro para ler durante as férias. O apanhador no campo de 
centeio. Era o livro favorito de Bill quando ele tinha a minha idade. Ele disse 
que era o tipo de livro feito para nós. 
Li as primeiras vinte páginas. Não sei como me senti em relação a ele, 
mas parecia apropriado naquele momento. Espero que Sam e Patrick 
telefonem no meu aniversário. Eu me sentiria muito melhor. 
Com amor,
Charlie 


25 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Estou sentado na velha cama do meu pai em Ohio. A família ainda está 
no primeiro andar da casa. Não estou me sentindo muito bem. Não sei o que 
há de errado comigo, mas estou começando a ficar assustado. Queria voltar 
para casa hoje à noite, mas nós sempre passamos a noite aqui. Não quero 
contar à minha mãe sobre isso porque ela ficaria preocupada. Eu contaria a 
Sam e Patrick, mas eles não telefonaram ontem. E nós saímos esta manhã 
depois" de abrirmos os presentes. Talvez eles tenham ligado à tarde. Espero 
que não tenham ligado à tarde, porque eu não estava aqui. Espero que você 
não se importe de eu estar contando isso. Não sei o que fazer. Eu sempre fico 
triste quando isso acontece e queria que Michael estivesse aqui. E queria que 
tia Helen estivesse aqui. Sinto falta da tia Helen. Ler o livro também não está 
me ajudando. Não sei. Só estou pensando muito rápido. Rápido demais. 
Como hoje à noite. 
A família assistia ao filme A felicidade não se compra, que é muito bonito. 
E tudo em que eu pensava era por que eles não fizeram um filme sobre o tio 
Billy. George Bailey era um homem importante na cidade. Por causa dele, um 
monte de gente saiu da miséria. Ele salvou uma cidade e, quando seu pai 
morreu, era o único cara que podia fazer isso. Ele queria viver uma aventura, 
mas ficou ali e sacrificou seus sonhos pelo bem da comunidade. E quando isso 
o deixou arrasado, ele pensou em se matar. Ele ia morrer porque o dinheiro, 
do seguro de vida seria suficiente para cuidar de sua família. E então um anjo 
desce e mostra a ele como a vida seria se ele não tivesse nascido. Como toda a 
cidade teria sofrido. E como sua esposa teria sido uma "velha solteirona". E 
este ano minha irmã sequer disse alguma coisa sobre como aquilo era 
ultrapassado. Todo ano ela diz alguma coisa do tipo "Mary estava trabalhando 


para viver", e só porque não era casada isso não significava que ela era inútil. 
Mas este ano ela não disse isso. Não sei por quê. Achei que podia ser o 
namorado secreto dela. Ou talvez o que aconteceu no carro no caminho para 
a casa da minha avó. Eu queria que o filme fosse sobre o tio Billy porque ele 
bebe muito, é gordo e sempre perde dinheiro. Queria que o anjo descesse e 
mostrasse a nós como a vida do tio Billy tinha significado. E assim eu me 
sentiria melhor: 
Isso começou em casa ontem. Eu não gosto de meu aniversário. Não 
gosto de jeito nenhum. Fui ao shopping com minha mãe e minha irmã, e 
mamãe estava de mau humor porque não tinha vaga no estacionamento. E 
minha irmã estava de mau humor porque não podia comprar nada para o 
namorado secreto e esconder isso de mamãe. Ela teria d voltar sozinha mais 
tarde. E eu me sentia estranho. Muito estranho, porque eu andava por todas as 
lojas sem sabe que presente meu pai gostaria de ganhar de mim. Eu sabia o 
que comprar para Sam e Patrick, mas não sabia o que compraria ou daria ou 
faria para meu próprio pai. Meu irmão gosta de pôsteres de garotas e latas de 
cerveja. Minha irmã gosta de um bônus do cabeleireiro. Minha mãe gosta de 
filmes antigos e plantas. Meu pai só gosta de golfe, e esse não é um esporte de 
inverno, a não ser na Flórida, e nós não moramos lá. E ele não joga mais 
beisebol. Ele não gosta nem mesmo de se lembrar disso, a não ser que conte 
as histórias. Eu só queria saber o que comprar para meu pai porque eu o amo. 
E eu não conheço ele. E ele não gosta de falar de coisas como essas. 
― Bom, por que você não se junta à sua irmã e compra aquele suéter para 
ele? 
― Não quero. Quero comprar alguma coisa para ele. Que tipo de música 
ele gosta? 
Meu pai não ouve muita música e as coisas que ele gosta, ele já tem. 
― Que tipo de livro ele gosta de ler? 
Meu pai não lê mais muitos livros, porque ele ouve os livros em fitas 
cassete no caminho para o trabalho e pega de graça na biblioteca. 
Que tipo de filmes? Que tipo de qualquer coisa? 


Minha irmã decidiu comprar o suéter sozinha. E ela começou a ficar 
aborrecida comigo porque precisava de tempo para voltar à loja para comprar 
o presente para o namorado secreto. 
― Compre umas bolas de golfe para ele, pelo amor de Deus, Charlie. 
― Mas esse é um esporte de verão. 
―Mãe! Quer fazer ele comprar alguma coisa? 
― Charlie, calma. Está tudo bem. 
Eu me senti tão triste. Não sei o que aconteceu. Minha mãe estava 
tentando ser legal comigo, porque, quando eu tenho essas coisas, é ela que 
tenta manter as coisas sob controle. 
― Desculpe, mamãe. 
― Não, não peça desculpas. Você quer dar um bom presente para seu pai. 
É uma boa coisa. 
― Mãe! - Minha irmã estava ficando muito aborrecida. 
― Charlie, você pode comprar para seu pai o que quiser. Eu sei que ele 
vai adorar. Agora, calma. Está tudo bem. 
Minha mãe me levou a quatro lojas diferentes. Em cada uma delas minha 
irmã se sentou na cadeira mais próxima e resmungou. Finalmente eu encontrei 
a loja perfeita. Era de cinema. E descobri um vídeo do último episódio de 
M*A*S*H, sem os comerciais. E me senti muito melhor Depois comecei a 
falar com minha mãe sobre quando assistimos ao filme juntos. 
― Ela sabe, Charlie. Ela estava lá. Vamos logo. Que saco. 
Minha mãe disse à minha irmã para cuidar da própria vida, e ela me ouviu 
contar a história que já conhecia, deixando de fora a parte em que meu pai 
chorou porque era nosso segredinho. Minha mãe sempre me dizia que eu 
conto histórias muito bem. Eu amo minha mãe. E, desta vez, eu disse isso a 
ela. E ela me disse que me amava também. E as coisas ficaram bem por algum 
tempo. 
Estávamos sentados à mesa do jantar, esperando meu pai vir para casa 
com meu irmão do aeroporto. Ele estava muito atrasado e minha mãe 
começou a se preocupai; porque estava nevando muito lá fora. E ela manteve 
minha irmã em casa porque precisava de ajuda com o jantar Ela queria que 


fosse especial para meu irmão e para mim, porque ele estava voltando para 
casa e era meu aniversário. 
Mas minha irmã queria comprar um presente para o namorado. E estava 
num mau humor terrível. Parecia uma daquelas pirralhas nos filmes da década 
de 1980 e minha mãe dizia "jovenzinha" a toda hora no fim de cada frase. 
Meu pai finalmente telefonou e disse que, por causa da neve, o avião do 
meu irmão ia se atrasar muito. Eu só ouvi o lado da minha mãe na discussão: 
― Mas é o jantar de aniversário do Charlie... Eu não espero que você 
tome alguma providência... Ele perdeu o voo? Só estou perguntando... Não 
fique achando que a culpa é sua... Não... Não posso manter a comida 
aquecida... Vai ressecar... O que... Mas é o favorito dele... Bem, acho que vou 
ter de servir o jantar... É claro que eles estão com fome... Vocês já estão 
atrasados uma hora... Bom, você podia ter ligado... 
Não sei quanto tempo minha mãe ficou ao telefone, porque não fiquei na 
mesa para ouvir. Fui ao meu quarto para ler. Eu não estava mais com fome. 
Só queria ficar em um lugar tranquilo. Depois de algum tempo, minha mãe 
veio ao meu quarto. Ela disse que papai tinha ligado novamente e que eles 
deviam estar chegando em casa em trinta minutos. Ela me perguntou se havia 
alguma coisa errada e eu sabia que ela não se referia à minha irmã, e eu sabia 
que ela não se referia à briga que teve com papai ao telefone porque às vezes 
essas coisas acontecem. Ela só percebeu que eu parecia muito triste hoje, e 
não achava que era porque meus amigos tinham viajado, porque eu estava 
bem ontem, quando voltei com o trenó. 
― É sua tia Helen? 
Foi o modo como mamãe disse isso que me fez sentir. 
― Por favor, Charlie, não faça isso com você mesmo. 
Mas eu fazia. Como faço todo ano, no dia do meu aniversário. 
― Desculpe. 
Minha mãe não me deixava falar no assunto. Ela sabe que eu paro de 
ouvir e começo a respirar rápido. Ela cobriu minha boca e limpou meus olhos. 
Eu me acalmei o suficiente para descer as escadas. E me acalmei o suficiente 
para ficar contente quando meu irmão chegou. E quando jantei, a comida não 
estava ressecada. Depois fomos para fora fazer uma trilha de luz, que é uma 


brincadeira em que todos os nossos vizinhos enchem sacos de papel com areia 
e os alinham na rua. Depois, enfiamos uma vela na areia de cada saco e, 
quando acendemos as velas, a rua se transforma em uma "pista de 
aterrissagem" para Papai Noel. Adoro fazer trilha de luz todo ano, porque fica 
muito bonito, é uma tradição e uma boa distração do meu aniversário. 
Minha família me deu alguns presentes muito legais. Minha irmã ainda 
estava chateada comigo, mas mesmo assim me deu um disco dos Smiths. E 
meu irmão me deu um pôster assinado por todo o time de futebol. Meu pai 
me deu alguns discos que minha irmã disse a ele para comprar E minha mãe 
me deu alguns livros que ela adorou quando era garota. Um deles era O 
apanhador no campo de centeio. 
Comecei a ler o exemplar de minha mãe do ponto onde havia parado no 
exemplar do Bill. E isso fez com que eu não pensasse no meu aniversário. 
Tudo em que eu pensava era que ia fazer meu exame de motorista muito em 
breve. E essa era uma coisa legal para se pensar. E depois eu pensei no meu 
instrutor de direção do semestre passado. 
O Sr. Smith, que é meio mal-humorado e tem um cheiro engraçado, não 
deixava nenhum de nós ligar o rádio quando estávamos dirigindo. Havia 
também dois segundanistas, um cara e uma garota. Eles costumavam se tocar 
em segredo nas pernas no assento de trás quando era minha vez. E havia eu. 
Queria ter um monte de histórias sobre aula de direção. Certamente, havia 
aqueles filmes sobre mortes nas estradas. E claro que havia policiais vindo filar 
conosco. E claro que era divertido ter minha licença provisória, mas mamãe e 
papai disseram que não queriam que eu dirigisse até que tivesse a carteira, 
porque o seguro e muito caro. E eu nunca consegui pedir a Sam para dirigir 
picape dela. Não podia. 
Esse tipo de coisa me manteve calmo na noite do meu aniversário. 
A manhã seguinte ao Natal começou bem. Papai gostou muito da cópia 
do M*A*S*H, o que me deixou muito feliz, especialmente quando ele contou 
a história dele sobre ao que assistimos naquela noite. Ele deixou de fora a 
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