Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe


particular, mas direi que Brad assumiu o papel de garota em termos do onde



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

particular, mas direi que Brad assumiu o papel de garota em termos do onde 
você põe as coisas. Acho que é muito importante contar isso a você. Quando 
eles terminaram, Brad começou a chorar muito. Tinha bebido demais. E dessa 
vez estava doidão o mesmo. 
Independentemente do que Patrick fazia, Brad continuava a chorar. Brad 
não deixou Patrick abraçá-lo, o que parece triste para mim, porque, se eu faço 
sexo com uma pessoa, vou querer abraçá-la depois. 
Por fim, Patrick vestiu as calças em Brad e disse a ele: 
― Finja que você apagou. 
Depois Patrick se vestiu e andou pela casa para voltar para a festa a partir 
de um ponto diferente. Ele também estava chorando muito e decidiu que, se 
alguém perguntasse ele diria que os olhos estavam vermelhos de tanta fumaça. 
No fim, ele deu uma sacudida e foi para a sala onde a festa estava 
acontecendo. Fingiu que estava bêbado. Procurou a Sam. "Você viu o Brad?" 
Sam viu como estavam os olhos de Patrick. Depois ela falou para a festa: 
"Ei, alguém viu o Brad?" 
Ninguém na festa o tinha visto, então algumas pessoas começaram a 
procurar por ele. Finalmente o encontraram no quarto de Patrick... dormindo. 
Por fim, Patrick chamou os pais de Brad porque ficou preocupado com 
ele. Ele não lhes disse o porquê, mas disse que Brad se sentiu mal na festa e 
precisava ser levado para casa. Os pais de Brad chegaram, e o pai dele, junto 
com alguns dos rapazes, incluindo Patrick, levaram Brad para o carro. 
Patrick não sabe se Brad estava realmente dormindo ou não naquela hora, 
mas, se não estava, ele fingiu muito bem. Os pais de Brad o mandaram para 
um curso de reforço porque o pai não queria que ele perdesse a oportunidade 


de uma bolsa de estudos de atleta na universidade. Patrick não viu Brad pelo 
resto do verão. 
Os pais de Brad nunca imaginaram por que seu filho estava chapado e 
bebendo o tempo todo. Nem eles nem ninguém. Exceto as pessoas que 
sabiam. 
Quando as aulas começaram, Brad evitou muito o Patrick. Ele nunca ia 
nas mesmas festas que o Patrick até pouco mais de um mês atrás. Foi na noite 
em que ele jogou umas pedras na janela de Patrick e disse a ele que ninguém 
poderia saber, e Patrick entendeu. Eles só se veem agora nos campos de golfe 
e nas festas, como as de Bob, onde as pessoas são tranquilas e compreendem 
essas coisas. 
Perguntei a Patrick se ele ficou triste de ter de guardar segredo, e Patrick 
só disse que ele não ficou triste porque pelo menos agora Brad não tinha de 
beber ou ficar doidão o para fazer amor com ele. 
Com amor,
Charlie 


8 de novembro de 1991 
Querido amigo, 
Bill me deu meu primeiro B em inglês avançado por causa do meu 
trabalho sobre Peter Pan. Para dizer a verdade, eu não vi diferença nenhuma 
dos outros trabalhos. Ele me disse que meu senso de linguagem está 
melhorando, junto com minha estrutura frasal. Acho ótimo que eu possa estar 
melhorando nessas coisas sem perceber Por falar nisso, Bill me deu um A no 
meu boletim e cartas a meus pais. As notas nesses trabalhos ficaram somente 
entre nós dois. 
Decidi que talvez eu queira escrever quando crescer. Só não sei o que eu 
escreveria. 
Acho que talvez eu escreva para revistas, assim não terei de ler artigos 
dizendo coisas como as que mencionei antes. 
"Enquanto limpa o molho de mostarda dos lábios, me fala sobre seu 
terceiro marido e o poder curativo dos cristais." Mas, sinceramente, acho que 
seria um repórter muito ruim, porque não consigo me imaginar sentado à 
mesa com um político ou uma estrela de cinema fazendo perguntas. Acho que 
provavelmente só pediria um autógrafo para minha mãe ou coisa assim. E 
provavelmente ficaria vermelho por fazer isso. Assim, eu pensei em talvez 
escrever para um jornal, em vez de revista, porque podia fazer perguntas para 
pessoas comuns, mas minha irmã diz que os jornais sempre mentem. Eu não 
sei se isso é verdade, então terei de ver quando ficar mais velho. 
Comecei a trabalhar em um fanzine chamado Punk Rocky. É uma revista 
em xerox sobre rock punk e o The Rocky Horror Picture Show. Eu não 
escrevo para ela, mas ajudo. 
Mary Elizabeth é quem coordena o fanzine, como é ela quem coordena 
os shows do Rocky Horror Picture Show. Mary Elizabeth é uma pessoa muito 


interessante porque tem uma tatuagem que simboliza o budismo, um piercing 
no umbigo e usa um penteado que a faz parecer maluca, mas quando ela 
coordena alguma coisa, age como meu pai quando chega em casa depois de 
"um longo dia". Ela é uma veterana e diz que minha irmã é implicante e 
esnobe. Eu disse a ela para não falar aquelas coisas da minha irmã novamente. 
De tudo o que eu fiz este ano até agora, acho que gostei mais do Rocky 
Horror Picture Show. Patrick e Sam me levaram ao cinema para ver o filme na 
noite de Halloween. É muito divertido, porque todos os garotos se vestem 
como os personagens do filme, e eles imitam o filme diante da tela. Além 
disso, as pessoas gritam as dicas para o filme. Acho que você provavelmente já 
conhece, mas acho melhor contar, para o caso de você não saber. 
Patrick representa "Frank'n Furter". Sam representa "Janet". É muito 
difícil assistir ao filme porque Sam fica andando de calcinha quando representa 
Janet. Eu estou me esforçando muito para não pensar nela daquele jeito, e isso 
está ficando cada vez mais difícil. 
Para dizer a verdade, eu amo a Sam. Não é como nos filmes de amor. Eu 
só olho para ela às vezes e acho que ela é a pessoa mais bonita e mais legal em 
todo o mundo. Ela também é muito inteligente e divertida. Escrevi um poema 
para Sam depois que a vi no Rocky Horror, mas não mostrei a ela porque 
fiquei com vergonha. Eu o escreveria para você, mas acho que seria falta de 
respeito com a Sam. 
O caso é que a Sam agora está saindo com um cara chamado Craig. 
Craig é mais velho do que meu irmão. Acho que ele talvez tenha vinte e 
um, porque bebe vinho tinto. Craig representa "Rocky" no Rocky Horror. 
Patrick diz que Craig é do tipo "atraente e bem-talhado". Não sei de onde 
Patrick tira essas expressões. 
Mas acho que ele está certo, Craig é atraente e bem- talhado. É também 
uma pessoa muito criativa. Ele está concluindo o Instituto de Arte daqui por 
ser modelo dos catálogos da JCPenney e coisas assim. Ele gosta de tirar 
fotografias. Eu vi algumas delas e são muito boas. Tem uma foto da Sam que 
é simplesmente linda. Seria impossível descrever como é bonita, mas vou 
tentar. 


Se você ouvir a canção "Asleep" e pensar naqueles lindos dias de chuva 
que fazem você se lembrar das coisas, e você pensar nos mais belos olhos que 
já viu, e você chorar, e a pessoa abraçar você, então eu acho que você vai ver a 
fotografia. 
Eu quero que a Sam pare de gostar do Craig. 
Agora eu acho que talvez você pense que é porque eu tenho ciúmes dela. 
Não é isso. Sinceramente. É só que Craig não a ouve quando ela fala. Não 
quero dizer que ele seja um cara ruim, porque não é. É só que ele sempre 
parece distraído. 
É como se ele tirasse uma foto da Sam e a foto saísse linda. E ele 
pensasse que o motivo para a foto sair bonita fosse ele fotografar bem. Se eu 
fizesse a foto, saberia que o único motivo da beleza é a própria Sam. 
Eu acho que é ruim quando um cara olha para uma garota e pensa que a 
forma como ele a vê é melhor do que a garota realmente é. E acho ruim 
quando a forma mais sincera de um cara olhar uma garota é através de uma 
câmera. E muito difícil para mim ver a Sam se sentir melhor consigo mesma 
só porque um cara mais velho a vê desta forma. 
Perguntei a minha irmã sobre isso e ela disse que a Sam tinha uma 
autoestima baixa. Minha irmã também disse que a Sam tem uma fama de 
quando estava no segando ano. De acordo com a minha irmã, a Sam 
costumara ser uma "rainha da felação". Espero que você saiba o que isso 
significa, porque eu realmente não posso pensar desse jeito na Sam e descrever 
isso para você. 
Eu estou mesmo apaixonado pela Sam e isso dói muito. 
Perguntei a minha irmã sobre o garoto no baile. Ela só falou nisso 
quando eu prometi que não contaria a ninguém, nem mesmo ao Bill. Então, 
eu prometi. Ela disse que estava vendo esse cara secretamente, desde que 
papai disse que ela não podia. Disse que pensa nele quando ele não está. Disse 
que vai se casar com ele quando os dois terminarem a faculdade, e ele terminar 
o curso de direito. 
Ela me disse para não me preocupai; porque ele não bateu nela 
novamente desde aquela noite. E disse para não me preocupar porque ele não 


vai bater nela de novo. Ela não disse mais nada além disso, embora 
continuasse falando. 
Foi legal sentar com minha irmã naquela noite, porque ela quase nunca 
gosta de conversar comigo. Eu fiquei surpreso de ela falar tanto assim, mas 
acho que, como tem de guardar aquele segredo, não pode conversar com todo 
mundo. E acho que ela estava louca para conversar com alguém. 
Mas apesar de ela ter me falado o contrário, eu me preocupo muito com 
ela. Afinal de contas, é minha irmã. 
Com amor, 
Charlie 


12 de novembro de 1991 
Querido amigo, 
Eu adoro Twinkies, e o motivo para eu estar dizendo isso é que todos nós 
pensamos em razões para viver. Na aula de ciências, o Sr. Z. nos falou de um 
experimento em que eles pegavam um rato ou um camundongo, e colocavam 
o rato ou camundongo em um lado de uma gaiola. Do outro lado da gaiola 
colocavam um pedaço de comida. Depois, colocavam o rato ou camundongo 
no lado original, e desta vez colocavam eletricidade em todo o piso onde o 
rato teria de andar para chegar à comida. Fizeram isso por algum tempo e o 
rato ou camundongo parava de ir até a comida a um certo nível de voltagem. 
Depois eles repetiram o experimento, mas substituíram a comida por alguma 
coisa que dava um prazer intenso no rato ou camundongo. Não sei o que era 
isso que dava tanto prazer, mas estou imaginando que era algum tipo de porre 
de rato ou camundongo. De qualquer modo, o que os cientistas descobriram 
foi que o rato ou camundongo suportava uma voltagem muito maior para ter 
prazer. Ainda mais do que para a comida. 
Não sei o significado disso, mas achei muito interessante. 
Com amor, 
Charlie 


15 de novembro de 1991 
Querido amigo, 
Está começando a ficar muito frio por aqui. O belo clima do inverno está 
quase chegando. A boa notícia é que os feriados de fim de ano estão chegando 
também, o que eu adoro especialmente agora, porque meu irmão virá para 
casa em breve. Talvez até para o Dia de Ação de Graças! Pelo menos eu 
espero que ele faça isso por minha mãe. 
Meu irmão já não telefona para casa há algumas semanas, e mamãe 
continua falando de suas notas e hábitos de dormir e o que ele come, e meu 
pai continua dizendo a mesma coisa. 
"Ele não está vindo aqui para ser maltratado." 
Pessoalmente, prefiro pensar que a experiência de meu irmão na 
faculdade é parecida com os filmes. Não quero dizer aquele tipo de filme de 
festa de fraternidade. É mais como o filme onde o cara conhece uma garota 
inteligente que veste um monte de suéteres e bebe chocolate. Eles falam de 
livros e coisas assim e se beijam na chuva. Acho que isso seria muito bom para 
mim, especialmente se a garota fosse de uma beleza não convencional. Elas 
são o melhor tipo de garota, eu acho. Pessoalmente, acho as "supermodelos" 
estranhas. Não sei bem por quê. 
Meu irmão, por outro lado, tem pôsteres de "supermodelos" e carros e 
cerveja e coisas como essas nas paredes do quarto dele. Acho que se você 
juntar a isso um chão bagunçado, vai entender como é o quarto dele. Meu 
irmão sempre odiou fazer a cama, mas mantém o guarda-roupa organizado. 
Vai entender isso. 
O caso é que, quando meu irmão liga para casa, ele não fala muito. 
Conversa sobre as aulas um pouco, mas principalmente sobre o time de 
futebol. A atenção no time é muito grande porque eles são muito bons e têm 


grandes jogadores. Meu irmão disse que um dos caras provavelmente será 
milionário um dia, mas que ele é "burro como uma porta". Acho que quis 
dizer que é burro demais. 
Meu irmão contou uma história em que o time todo estava sentado no 
vestiário, falando todo tipo de coisas que eles tinham de fazer para ir ao 
futebol universitário. Eles finalmente acabaram falando nas notas dos testes de 
aptidão, que eu nunca fiz. 
E esse cara disse: "O meu é 710." 
E meu irmão disse: "Matemática ou verbal?" 
E o cara disse: "Hã?" 
E todo o time caiu na gargalhada. 
Eu sempre quis estar num time como esse. Eu não sei exatamente por 
quê, mas sempre achei que seria divertido ter "dias de glória". Depois, eu teria 
histórias para contar a meus filhos e colegas do golfe. Acho que podia falar 
com as pessoas sobre o Punk Rocky e ir a pé da escola para casa e coisas 
assim. Talvez sejam estes os meus dias de glória, e eu não percebi ainda 
porque eles não envolvem uma bola. 
Eu costumava praticar esportes quando era pequeno, e era realmente 
muito bom nisso, mas o problema é que sempre me deixavam muito 
agressivo, e os médicos disseram à minha mãe que eu teria de parar. 
Meu pai teve seus dias de glória antigamente. Eu vi fotos dele quando era 
jovem. Ele era um homem muito elegante. Não sei nenhuma outra forma de 
dizer isso. Parecia como todas as fotos antigas. Fotos antigas parecem muito 
austeras e novas, e as pessoas nas fotografias sempre parecem um pouco mais 
felizes do que você. 
Minha mãe parece bonita nas fotos antigas. Ela realmente parece mais 
bonita do que qualquer um, exceto, talvez, a Sam. Às vezes, olho para meus 
pais e me pergunto o que aconteceu para que eles ficassem como são agora. E 
depois me pergunto o que vai acontecer com minha irmã quando o namorado 
dela se formar na faculdade de direito. E como será o rosto do meu irmão em 
uma figurinha de álbum de futebol americano, ou como ele se parecerá se 
nunca estiver em uma dessas figurinhas. Meu pai jogou beisebol na faculdade 
por dois anos, mas teve de parar quando minha mãe engravidou do meu 


irmão. Foi quando ele começou a trabalhar no escritório. Sinceramente não sei 
o que meu pai faz. 
Às vezes ele conta uma história. É uma história ótima. Ele tinha de jogar 
no campeonato estadual de beisebol quando estava no segundo grau. Era o 
final do nono turno e havia um runner no primeiro. Houve duas bolas fora e o 
time do meu pai estava atrás por um run. Meu pai era mais novo que a maioria 
do time da universidade porque era só um segundanista, e acho que o time 
pensava que ele ia ferrar o jogo. A pressão estava toda em cima dele. Ele ficou 
muito nervoso. E assustado. Mas depois de alguns lançamentos ele disse que 
começou a se sentir "no pique". Quando o lançador ergueu o braço e lançou a 
bola seguinte, ele sabia exatamente onde ela estava indo. Bateu muito mais 
forte que qualquer outra bola que já havia batido em toda a sua vida. E fez um 
home run, e seu time venceu o campeonato estadual. A melhor coisa dessa 
história é que toda vez que meu pai a conta ela nunca muda. Ele não é de 
exagerar. 
Eu penso nessas coisas às vezes, quando estou assistindo a uma partida de 
futebol americano com Patrick e Sam. Olho para o campo e penso no cara 
que acabou de fazer um touchdown. Penso que são os dias de glória para o 
cara, e esse momento será outra história algum dia, porque todos os caras que 
fazem touchdowns e home runs um dia se tornam pais. E quando seus filhos 
virem sua foto no Livro do Ano, pensarão que seu pai era austero, elegante e 
parecia muito mais feliz do que eles são. 
Espero poder lembrar a meus filhos de que eles são tão felizes quanto eu 
nas fotos antigas. E espero que eles acreditem em mim. 
Com amor, 
Charlie 


18 de novembro de 1991 
Querido amigo, 
Meu irmão finalmente telefonou ontem e ele não pode vir para casa no 
fim de semana de Ação de Graças porque tem que ficar na escola por causa do 
futebol. Minha mãe ficou tão triste que me levou ao shopping para comprar 
roupas novas. 
Eu sei que você vai pensar que o que vou escrever agora é um exagero, 
mas eu juro a você que não é. Do momento em que entramos no carro à hora 
em que voltamos para casa, minha mãe literalmente não parou de falar. Nem 
uma só vez. Nem mesmo quando eu estava na cabine de provas 
experimentando calças compridas. 
Ela ficou de pé do lado de fora da cabine e falava mais alto. Toda a loja 
podia ouvir o que ela estava dizendo. Primeiro, era que meu pai devia ter 
insistido para meu irmão vir para casa mesmo que somente por uma noite. 
Depois, era que minha irmã tinha de começar a pensar mais no futuro dela e a 
fazer os exames para faculdades "seguras" no caso de as boas não darem certo. 
E depois ela começou a dizer que cinza era uma cor boa para mim. 
Eu entendo como minha mãe pensa. Entendo mesmo. 
É como quando eu era pequeno e íamos ao supermercado. Minha irmã e 
meu irmão brigariam por coisas que meus irmãos sempre brigavam, e eu me 
sentaria atrás no carrinho de compras. E minha mãe ficaria tão chateada no 
final das compras que dirigiria o carro mais rápido, e eu me sentiria como se 
estivesse num submarino. 
Ontem foi mais ou menos assim, exceto que agora eu me sento na frente. 
Quando vi Sam e Patrick na escola hoje, eles concordaram que minha 
mãe tinha excelente gosto para roupas. Eu disse isso à minha mãe quando 
cheguei em casa, e ela sorriu. Ela me perguntou se eu queria convidar Sam e 


Patrick para jantar um dia desses depois dos feriados, porque minha mãe fica 
muito nervosa durante as festas de fim de ano. Eu chamei Sam e Patrick e eles 
disseram que iriam. 
E eu fiquei empolgadão! 
Da última vez em que um amigo foi jantar na minha casa, foi Michael no 
ano passado. Comemos tacos. Á melhor parte foi que Michael ficou para 
dormir aqui. Terminamos dormindo muito pouco. Ficamos o tempo todo 
falando de garotas, filmes e música. A parte de que eu me lembro muito bem 
foi a de andar pelo bairro à noite. Meus pais estavam dormindo, junto com o 
resto das casas. Michael olhava em todas as janelas. Estava escuro e silencioso. 
― Você acha que essas pessoas são legais? ― disse ele. 
― Os Anderson? São. Eles são velhos ― eu disse. 
― E estas aqui? 
― Bom, a Sra. Lambert não gosta que joguem beisebol no jardim dela. 
― E estas aqui? 
― A Sra. Tanner foi visitar a mãe dela por três meses. O Sr. Tanner passa 
os fins de semana sentado na varanda dos fundos, ouvindo as partidas de 
beisebol. Eu não sei realmente se eles são legais, porque eles não têm filhos. 
― Ela está doente? 
― Quem está doente? 
― A mãe da Sra. Tanner. 
― Acho que não. Minha mãe sabe, mas ela não diz nada. 
Michael concordou. 
― Eles estão se divorciando. 
― Você acha isso? 
― Acho. 
Continuamos andando. Michael às vezes tinha uma norma de andar em 
silêncio. Acho que eu devia mencionar que minha mãe ouviu que os pais de 
Michael se divorciaram. Ela disse que só setenta por cento dos casais ficam 
juntos quando perdem um filho. Acho que ela leu isso em alguma revista. 
Com amor,
Charlie 


23 de novembro de 1991 
Querido amigo, 
Você gosta de passar as festas de fim de ano com sua família? Não quero 
dizer sua mãe e seu pai, mas seu tio e tia, e os primos? Eu, pessoalmente, 
gosto. E tenho vários motivos para isso. 
Primeiro, tenho muito interesse e fico fascinado em ver como as pessoas 
se amam, mas não gostam realmente umas das outras. Segundo, as brigas são 
sempre as mesmas. 
Elas em geral começam quando o pai da minha mãe (meu avô) termina 
seu terceiro drinque. E mais ou menos nessa hora que ele começa a falar pra 
caramba. Meu avô em geral só se queixa dos negros que estão se mudando 
para o antigo bairro, e então minha irmã se aborrece com ele, e depois meu 
avô diz a ela que ela não sabe do que está falando porque mora no bairro mais 
afastado. E depois ele reclama que ninguém o visita no asilo. E por fim ele 
começa a contar todos os segredos da família, como o primo fulano 
"emprenhou" aquela garçonete do Big Boy. Eu devia mencionar que meu avô 
não ouve muito bem, então ele fala todas essas coisas num tom de voz muito 
alto. 
Minha irmã tenta brigar com ele, mas ela nunca vence. Meu avô é 
definitivamente mais teimoso do que ela. Minha mãe em geral ajuda a tia a 
preparar a comida, que vovô sempre diz que é "seca demais", mesmo que seja 
sopa. E a tia então chora e se tranca no banheiro. 
Só tem um banheiro na casa da tia da minha mãe, e por isso é um 
problema quando toda a cerveja começa a afetar meus primos. Eles ficam se 
contorcendo, batem na porta por alguns minutos e quase convencem minha 
tia-avó a sair, mas então meu avô a atormenta com alguma coisa e o ciclo 


recomeça. Com a exceção de um feriado, quando meu avô apagou logo depois 
do jantai; meus primos sempre têm de ir ao banheiro nos arbustos do lado de 
fora. Se olhasse pela janela como eu faço, veria todos eles, e você teria a 
impressão de que estavam em uma das caçadas que faziam. Fiquei com muita 
pena das minhas primas e de minhas outras tias-avós, porque elas não têm a 
alternativa dos arbustos, especialmente quando está frio. 
Eu devia mencionar que meu pai em geral se senta em completo silêncio 
e bebe. Meu pai não é de beber muito, mas, quando está com a família da 
minha mãe, ele fica "alto", como diz meu primo Tommy. No fundo, eu acho 
que meu pai preferia passar as festas de fim de ano com a família dele em 
Ohio. Dessa forma ele não teria de ficar perto do meu avô. Ele não gosta 
muito do meu avô, mas não fala nada sobre isso. Nem na viagem para casa. 
Ele só não acha que aquele seja o lugar dele. 
Quando a noite vai chegando ao fim, meu avô em geral está bêbado 
demais para fazer alguma coisa. Meu pai, meu irmão e meus primos o levam 
para o carro da pessoa que tá com menos raiva dele. Sempre é minha tarefa 
abrir as portas para eles pelo caminho. Meu avô é muito gordo. 
Eu me lembro do que houve uma vez, quando meu mão levou meu avô 
de volta para o asilo e eu fui junto, eu irmão sempre entendia meu avô. 
Raramente ficava com raiva dele, a não ser que vovô dissesse alguma coisa 
obre minha mãe ou minha irmã, ou fizesse uma cena em público. Lembro que 
estava nevando muito e tudo estava muito silencioso. Quase pacífico. E meu 
avô se acalmou e começou a falar de uma coisa diferente. 
Ele nos disse que, quando tinha dezesseis anos, teve de deixar a escola 
porque o pai dele havia morrido e alguém tinha de sustentar a família. Ele 
falou da época em que tinha de. ir para a fábrica três vezes por dia para ver se 
havia algum trabalho para ele. E falou do frio que fazia. E de como ele estava 
faminto, porque ele queria que sua família comesse sempre antes dele. Que 
não entenderíamos o que ele estava dizendo porque tínhamos sorte. Depois, 
ele falou de suas filhas, minha mãe e tia Helen: 
― Eu sei como sua mãe se sente a meu respeito. Conheço a Helen 
também. Houve uma vez... eu ia para a fábrica... não tinha trabalho nenhum... 
cheguei em casa às duas da manhã... muito chateado... sua mãe me mostrou os 


boletins da escola... média C+... e eram garotas inteligentes. Então, eu fui ao 
quarto delas e chamei as duas à razão com uns tapas... e depois disso, quando 
elas estavam chorando, peguei os boletins e disse... "Que isso nunca mais 
aconteça novamente." Ela ainda fala nisso... sua mãe... mas sabe de uma 
coisa?... nunca aconteceu novamente... elas foram para a faculdade... as duas. 
Tudo o que eu queria era mandá-las para a universidade... Sempre quis que 
elas estudassem... Queria que Helen compreendesse isso. Acho que sua mãe 
entendeu... no fundo... ela é uma boa mulher... vocês devem ter orgulho dela. 
Quando contei isso à minha mãe, ela pareceu ficar muito triste, porque ele 
nunca disse essas coisas a ela. Nunca. Nem mesmo quando ele a acompanhou 
na igreja em seu casamento. 
Mas aquele Dia de Ação de Graças foi diferente. Foi o jogo de futebol do 
meu irmão; trouxemos uma fita de videocassete dele para meus parentes 
verem. Toda a família ficou reunida em torno da TV, até minhas tias-avós, que 
nunca assistiam a futebol. Eu nunca vou me esquecer da expressão no rosto 
delas quando meu irmão entrou em campo. Foi uma mistura de todas as 
coisas. Meu primo trabalha em um posto de gasolina. E meu outro primo 
parou de trabalhar por dois anos desde que machucou a mão. E o outro primo 
estava tentando voltar à faculdade há uns sete anos. E meu pai disse uma vez 
que eles tinham muita inveja do meu irmão, porque ele teve uma oportunidade 
na vida e estava tirando proveito dela. 
Mas, naquele momento, quando meu irmão entrou em campo, tudo 
aquilo passou e todos ficaram orgulhosos. A uma certa altura, meu irmão fez 
uma grande jogada no terceiro tempo è todos gritaram, apesar de alguns de 
nós já termos visto o jogo antes. Olhei para o meu pai e ele estava sorrindo. 
Olhei para minha mãe e ela estava sorrindo, apesar de estar preocupada com 
que meu irmão não se machucasse, o que era estranho, porque era um vídeo 
de um jogo antigo, e ela sabia que ele não tinha se machucado. Minhas tias-
avós e meus primos e seus filhos e todos estavam sorrindo também. Até a 
minha irmã. Só duas pessoas não sorriam ali. Eu e meu avô. 
Meu avô estava chorando. 
O tipo de choro que é silencioso e secreto. O tipo de choro que só eu 
percebi. Pensei nele indo ao quarto da minha mãe quando ela era pequena e 


batendo nela, e erguendo o boletim e dizendo que as notas ruins nunca 
acontecessem novamente. E eu acho agora que talvez ele se referia a meu 
irmão mais velho. Ou minha irmã. Ou eu. Que ele tinha certeza de que foi o 
último a trabalhar numa fábrica. 
Não sei se isso é bom ou ruim. Não sei se é melhor ter seus filhos felizes 
e não irem para a faculdade. Não sei se é melhor estar perto de sua filha ou ter 
certeza de que ela tenha uma vida melhor do que a sua. Simplesmente não sei. 
Eu fiquei em silêncio e o observei. 
Quando o jogo acabou e o jantar terminou, todos deram graças a Deus. 
Grande parte teve a ver com meu irmã ou a família, ou filhos, ou Deus. E 
todos foram sinceros quando disseram isso, apesar do que possa vir a 
acontecer amanhã. Quando chegou a minha vez, pensei muito, que era a 
primeira vez em que eu sentava à mesa grande com os mais velhos, uma vez 
que meu irmão não está aqui para ocupar este lugar. 
"Sou grato por meu irmão ter jogado futebol na televisão, porque assim 
ninguém brigou." 
A maioria das pessoas em torno da mesa ficou sem graça. Algumas 
pareciam com raiva. Meu pai parecia que saí que eu estava certo, mas não quis 
dizer nada porque era da família. Minha mãe ficou nervosa com o que o dela 
faria. Só uma pessoa na mesa disse alguma coisa, minha tia-avó, aquela que em 
geral se tranca no banheira 
"Amém." 
E de certa forma eu vi que estava tudo bem. 
Quando estávamos prontos para ir embora, fui até mel avô e lhe dei um 
abraço e um beijo na testa. Ele limpou | testa com a palma da mão e olhou 
para mim. Ele não gostava que os rapazes da família tocassem nele. Mas eu 
estava muito contente de ter feito isso, para o caso de ele morrer. Nunca fiz o 
mesmo com minha tia Helen. 
Com amor, 
Charlie 


7 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Você já ouviu falar de uma coisa chamada "Papai Noel Secreto"? É 
parecido com o amigo oculto. É uma brincadeira em que um grupo de amigos 
tira de um chapéu papeizinhos com os nomes e você tem de comprar um 
monte de presentes de Natal para a pessoa que você tirou. Os presentes são 
colocados "secretamente" nos armários das pessoas na escola quando elas não 
estão lá. Depois, no fim, a gente tem uma festa, e todas as pessoas revelam 
quem elas realmente são e a quem deram os presentes. 
Sam começou a fazer isso com seu grupo de amigos três anos atrás. 
Agora é uma espécie de tradição. E a festa no final é sempre a melhor do ano. 
Acontece à noite, depois de nosso último dia de aula e antes das férias. Não 
sei quem me tirou. Eu tirei o Patrick. Fiquei muito contente de ter tirado o 
Patrick, embora eu quisesse ter tirado a Sam. Não tenho visto o Patrick há 
algumas semanas, exceto na aula de trabalhos manuais, porque ele tem 
passado muito tempo com Brad, então, pensar nos presentes é uma boa forma 
de pensar nele. 
O primeiro presente será uma fita gravada. Já sei o que vou fazer. Já 
escolhi as músicas e um tema. Vai se chamar "Aquele Inverno". Mas decidi 
não fazer uma capa colorida. O lado A tem um monte de canções do Village 
People e Blondie, porque o Patrick gosta muito desse tipo de música. Tem 
também "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana, que a Sam e o Patrick adoram. 
Mas o lado B é o que eu mais gosto. Tem o tipo de música de inverno. São 
estas aqui: 
"Asleep", dos Smiths 
"Vapour Traip, de Ride 
"Scarborough Fair", de Simon & Garfunkel 


"A Whiter Shade of Pale", do Procol Harum 
"Time of No Reply", do Nick Drake 
"Dear Prudence", dos Beatles 
"Gypsy", da Suzanne Vega 
"Nights in White Satin", dos Moody Blues 
"Daydream", dos Smashing Pumpkins 
"Dusk", do Gênesis (antes do Phil Collins!) 
"MLK", do U2 
"Blackbird", dos Beatles 
"Landslide", do Fleetwood Mac 
E finalmente... 
"Asleep", dos Smiths (de novo!) 
Passei a noite toda trabalhando nela e espero que Patrick goste tanto 
quanto eu. Especialmente do lado B. Espero que ele possa ouvir o lado B 
sempre que estiver dirigindo sozinho e sentir que pertence a alguma coisa, 
mesmo que esteja triste. Espero que seja assim para ele. 
Tive uma sensação maravilhosa quando finalmente segurei a fita. Achei 
que tinha a mim mesmo na palma da mão, era uma fita que continha todas 
aquelas lembranças e sentimentos e grandes alegrias e tristezas. Bem na palma 
da minha mão. E penso em como muitas pessoas têm adorado essas canções. 
E como muitas pessoas passaram por maus bocados por causa dessas canções. 
E como muitas pessoas tiveram bons momentos com essas canções. E o 
quanto essas canções realmente significam. Acho que seria ótimo ter escrito 
uma delas. Aposto que, se eu tivesse escrito uma dessas músicas, ficaria muito 
orgulhoso. Espero que as pessoas que escreveram essas canções sejam felizes. 
Tomara que elas se sintam realizadas. Tomara mesmo, porque elas me fazem 
feliz. E eu não sou o único. 
Mal posso esperar para tirar minha carteira de motorista. Está chegando a 
hora! 
Aliás, eu ainda não lhe falei do Bill. Mas acho que não há muito a dizer, 
porque ele continua me dando livros que ele não dá aos alunos dele, e eu 
continuo lendo os livros, e ele continua me pedindo para escrever trabalhos, e 
eu faço. No mês passado, por aí, li O grande Gatsby e A Separate Peace. 


Estou começando a ver uma tendência no tipo de livro que o Bill me dá para 
ler. E, como as fitas de músicas, é maravilhoso colocar cada um deles na 
palma da minha mão. Todos são meus preferidos. Todos. 
Com amor, 
Charlie 


11 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Patrick adorou a fita! Acho que ele sabe que eu sou o amigo oculto dele, 
porque acho que ele sabe que só eu teria gravado uma fita como aquela. Ele 
também conhece minha letra. Não sei por que só me lembro dessas coisas 
quando já é tarde demais. Eu devia ter deixado a fita para ser meu último 
presente. 
Aliás, eu tenho pensado no meu segundo presente para o Patrick. É 
poesia magnética. Já ouviu falar disso? Caso você não conheça, eu vou 
explicar. Um cara ou uma garota coloca um punhado de palavras em uma 
folha de magneto e depois corta as palavras em peças separadas. Você as 
coloca na geladeira e depois escreve poemas enquanto faz um sanduíche. É 
muito divertido. 
O presente de meu Papai Noel Secreto não foi nada de especial. O que 
me deixou triste. Aposto quanto você quiser que Mary Elizabeth é minha 
amiga oculta, porque só ela me daria meias. 
Com amor, 
Charlie 


19 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Depois eu ganhei calças de um bazar de caridade. Também ganhei uma 
gravata, uma camisa branca, sapatos e um cinto velho. Estou achando que 
meu último presente na festa será o paletó de um temo, porque é a única coisa 
que está faltando. Soube por um bilhete datilografado que tenho de vestir o 
que quer que tenha ganhado para a festa. Acho que tem alguma coisa por trás 
disso. 
A boa notícia é que Patrick gostou muito dos meus presentes. O presente 
número três foi um jogo de tinta para aquarela e papéis. Achei que ele ia 
gostar, apesar de ele nunca os usar. O presente número quatro foi uma gaita e 
um livro que ensina a tocar. Provavelmente vai acontecer o mesmo que com a 
aquarela, mas acredito que todo mundo deve ter aquarela, poesia magnética e 
uma gaita. 
Meu último presente antes da festa é um livro chamado The Mayor of 
Castro Street. É sobre um homem chamado Harvey Milk, que foi um líder gay 
em San Francisco. Fui à biblioteca quando o Patrick me disse que era gay e fiz 
alguma pesquisa, porque sinceramente eu não sabia muita coisa a esse respeito. 
Encontrei um artigo sobre um documentário de cinema sobre Harvey Milk. E 
como não consegui encontrar o filme, procurei por seu nome e achei o livro. 
Eu mesmo não li, mas, pela descrição, o livro parecia muito bom. Espero 
que signifique alguma coisa para o Patrick. Mal posso esperar pela festa, e 
assim poderei dar a ele meu presente. Aliás, tenho de fazer as provas finais do 
semestre e estou muito ocupado, e eu poderia falar com você sobre tudo isso, 
mas não parece tão interessante como as outras coisas que vou fazer nos 
feriados. 
Com amor,
Charlie 


21 de dezembro de 1991 
Querido amigo, 
Uau. Uau. Posso descrever o quadro para você, se você quiser. Estávamos 
todos sentados na casa de Sam e Patrick, onde eu nunca tinha ido antes. Muito 
despojada. E estávamos todos trocando nossos presentes finais. As luzes do 
lado de fora estavam acesas, estava nevando e o momento parecia mágico. 
Como se estivéssemos em outro lugar. Como se estivéssemos em um lugar 
melhor. 
Foi a primeira vez que vi os pais de Sam e Patrick. Eles foram muito 
legais. A mãe de Sam é muito bonita e conta ótimas piadas. Sam disse que ela 
era atriz quando jovem. O pai de Patrick é muito alto e tem um forte aperto 
de mão. Ele também cozinha muito bem. Muitos pais fazem com que a gente 
se sinta constrangido quando os conhece. Mas não os pais de Sam e Patrick. 
Eles foram simpáticos durante todo o jantar e, quando o jantar terminou, eles 
saíram para que nós pudéssemos ter a nossa festa. Não ficaram em cima da 
gente nem um minuto. Só deixaram a gente fingir que a casa era nossa. Então, 
decidimos fazer a festa na sala de "jogos", que não tem jogos, mas tem um 
tapete grande. 
Quando eu revelei que o Patrick era meu amigo oculto, todo mundo riu, 
porque todo mundo sabia, e Patrick fez sua melhor imitação de surpresa, o 
que foi legal da parte dele. Depois, todos perguntaram qual era meu último 
presente, e eu disse a eles que era um poema que eu li há muito tempo. Era 
um poema do qual Michael havia feito uma cópia para mim. E eu o li milhares 
de vezes, porque não sei quem escreveu. Não sei se foi em um livro ou numa 
aula. E não sei a idade do autor também. Mas sei que queria conhecê-lo. Eu 
queria que esta pessoa estivesse bem. 


Então, todos pediram para eu me levantar e ler o poema. E eu não fiquei 
envergonhado, porque estávamos tentando agir como os mais velhos, e 
bebíamos uísque. E eu estava meio alto. Ainda estou um pouco alto, mas 
tenho de contar isso a você. Então, eu me levantei e, antes de ler o poema, 
pedi a todos que contassem quem era o autor, se soubessem. 
Quando terminei de ler o poema, todos estavam em silêncio. Um silêncio 
muito triste. Mas a coisa maravilhosa foi que não era uma tristeza ruim. Era só 
alguma coisa que fazia com que todos olhassem para os outros e soubessem 
quem eles eram. Sam e Patrick olharam para mim. E eu olhei para eles. E acho 
que eles sabiam. Não alguma coisa específica. Apenas sabiam. E eu acho que é 
tudo o que você pode pedir de um amigo. 
Foi aí que Patrick colocou o lado B da fita que eu para ele e encheu o 
copo de todos com uísque. Acho que todos parecíamos meio bêbados, mas 
não nos sentíamos idiotas. Posso afirmar isso a você, 
À medida que as canções continuavam tocando, Mary Elizabeth se 
levantou. Mas ela não estava segurando um paletó de terno. Na verdade, ela 
não era minha amiga oculta. Ela era amiga oculta de outra garota com 
tatuagem e piercing no umbigo, cujo nome era Alice. Deu a ela um esmalte de 
unhas preto em que Alice estava de olho. E Alice ficou muito grata. Eu estava 
sentado aqui, olhando em tomo da sala. Procurando o paletó. Sem saber quem 
o estaria segurando. 
Sam se levantou então, e deu a Bob um cachimbo de maconha feito pelos 
índios americanos, o que parecia apropriado. 
Mais pessoas deram mais presentes. E mais abraços foram trocados. E 
por fim chegou ao final. Ninguém saiu, exceto Patrick. Ele se levantou e 
caminhou para a cozinha. 
"Alguém quer batatas fritas?" 
Todos disseram que sim. E ele voltou com três tubos de Príngles e um 
paletó de temo. E caminhou na minha direção. E disse que todos os grandes 
escritores usavam temo o tempo todo. 
Então eu vesti o paletó, embora não achasse que realmente merecia isso 
só porque escrevia os trabalhos para Bill, mas foi um presente muito legal, e 
todos bateram palmas para ele. Sam a Patrick concordaram que eu estava ele-


gante. Mary Elizabeth sorriu. Acho que foi a primeira vez na minha vida em 
que senti que parecia "perfeito". Sabe o que eu quero dizer? É aquela sensação 
legal, quando você se olha no espelho e seu cabelo está ótimo pela primeira 
vez na sua vida? Não acho que deva me basear tanto em peso, músculos e um 
bom cabelo, mas quando acontece é legal. É legal mesmo. 
O resto da noite foi muito especial. Como muitas pessoas estavam indo 
com suas famílias para lugares como a Flórida e Indiana, trocamos presentes 
com quem não havia participado do amigo oculto. 
Bob deu a Patrick uma trouxinha de maconha com um cartão de Natal. 
Ele sequer o envelopou. Mary Elizabeth deu brincos a Sam. E Alice também. 
E Sam deu brincos a elas também. Acho que era alguma coisa particular das 
garotas. Tenho de admitir que eu fiquei um pouco triste porque, tirando Sam e 
Patrick, ninguém me deu presentes. Acho que não sou muito íntimo deles, 
então isso faz sentido. Mas ainda assim fiquei meio triste. 
E então chegou a minha vez. Dei a Bob um tubinho de plástico de bolhas 
de sabão porque parecia combinar com a personalidade dele. Acho que eu 
estava certo. 
"Demais!", foi o que ele disse. 
Ele passou o resto da noite soprando bolhas de sabão no teto. 
A próxima foi Alice. Dei a ela um livro de Anne Rice, porque ela está 
sempre falando dela. E ela olhou para mim como se não acreditasse que eu 
sabia que ela gostava de Anne Rice. Acho que ela não sabe o quanto fala ou o 
quanto eu ouço. Mas ela me agradeceu da mesma forma. A seguinte foi Mary 
Elizabeth. Dei a ela quarenta dólares dentro de um cartão. O cartão dizia uma 
coisa muito simples: "Para serem gastos na impressão em cores do Punk 
Rocky próxima edição." 
E ela olhou para mim de uma forma estranha. Depois todos começaram a 
olhar para mim desse jeito, exceto San e Patrick. Acho que eles começaram a 
se sentir mal porque não tinham me dado nada. Mas eu não acho que devesse 
dar, porque não acho que isso tenha importância. Ma Elizabeth apenas sorriu, 
agradeceu e depois parou de olhar nos meus olhos. 
Depois foi a Sam. Fiquei pensando em seu presente por um longo tempo. 
Acho que pensei em seu presente pela primeira vez em que a vi. Não quando a 


conheci, ou quando a encontrei, mas quando a vi, se entende o que quero 
dizer. Havia um cartão. 
Dentro do cartão, eu dizia ã Sam que o presente que eu estava dando 
havia sido dado a mim por minha tia Helen. Era uma velha gravação em 45 
rpm com "Something", dos Beatles. Eu costumava ouvir todo o tempo 
quando era pequeno e pensava em coisas de gente grande. Eu ia para a janela 
do meu quarto e olhava meu reflexo no vidro, e as árvores por trás, e ouvia a 
música por horas. Decidi na época que, quando conhecesse alguém que eu 
achasse tão bonita quanto a canção, eu daria o disco de presente a essa pessoa. 
E não quis dizer bonita por fora. Eu quis dizer bonita de todas as formas. E 
assim, eu estava dando para Sam. 
Sam me olhou com doçura. E me abraçou. E eu fechei os olhos, porque 
só queria sentir os seus abraços. E ela me deu um beijo na testa e sussurrou 
para que ninguém mais ouvisse: 
"Eu te amo." 
Eu sabia que ela queria dizer no sentido de amizade, mas não me 
preocupei, porque tinha sido a terceira vez desde que tia Helen morreu que eu 
ouvia isso de alguém. As outras duas vezes foram da minha mãe. 
Eu mal conseguia acreditar que a Sam realmente tinha dado um presente, 
porque eu honestamente pensava o "eu te amo" era isso. Mas ela me deu um 
presente. E, primeira vez, uma coisa legal como essa me fez sorrir vez de 
chorar. Acho que Sam e Patrick foram ao mesmo brechó, porque seus 
presentes vieram juntos. Ela me levou o quarto dela e me colocou de pé diante 
da cômoda, estava coberta por uma toalha com cores vivas. Ela teu a toalha, e 
lá estava eu, de pé em meu velho terno, ando para uma máquina de escrever 
com uma fita nova. a máquina havia uma folha de papel. 
Naquela folha de papel Sam escreveu: "Escreva sobre mim de vez em 
quando." E eu datilografei só isso para ela, *e pé, ali no seu quarto: "Vou 
escrever." 
E me senti bem em saber que aquelas foram as duas primeiras palavras 
que eu escreveria na nova máquina de escrever antiga que a Sam me deu. Nós 
nos sentamos em silêncio por um momento e ela sorriu. Eu voltei à máquina 
de escrever e datilografei uma coisa: 


"Eu também te amo." 
E Sam olhou o papel, e olhou para mim. 
― Charlie... você já beijou uma garota? 
Sacudi minha cabeça em negativa. Tudo estava muito silencioso. 
― Nem mesmo quando você era menor? 
Sacudi a cabeça novamente. E ela pareceu muito triste. 
Ela me falou da primeira vez em que beijou. Me contou que foi com um 
dos amigos do pai dela. Sam tinha sete anos. E ela não contou a ninguém, 
exceto a Mary Elizabeth e depois Patrick, há um ano. E ela começou a chorar 
E disse uma coisa que nunca vou esquecer, nunca: 
― Eu sei que você sabe que eu gosto do Craig. E sei que te disse para não 
pensar em mim daquele jeito. E sei que não podemos ficar juntos assim. Mas 
quero que você esqueça todas essas coisas por um minuto, tá bom? 
― Tá. 
― Quero ser a primeira pessoa a beijar você. Tudo bem? 
― Tudo. 
E ela me beijou. Foi um tipo de beijo que eu nunca poderia contar a meus 
amigos como foi veemente. Foi tipo de beijo que me fez saber que eu nunca 
seria tão feliz em toda a minha vida. 

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