Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe


particularmente, porque minha mãe é bonita. E ela sempre está de dieta. Às



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

particularmente, porque minha mãe é bonita. E ela sempre está de dieta. Às 
vezes, meu pai diz que ela está bonita, mas ela não ouve o que ele diz. Aliás, 
meu pai é um marido muito bom. Ele só é pragmático. 


Depois do dentista, minha mãe me levou de carro ao cemitério, onde 
muitos parentes dela foram enterrados. Meu pai não gosta de ir ao cemitério 
porque dá arrepios nele. Mas eu não me importo de ir, porque minha tia 
Helen está enterrada lá. Minha mãe sempre foi a filha mais bonita, como eles 
dizem, e minha tia Helen sempre foi a rejeitada. O que é legal é que tia Helen 
nunca fez dieta. E tia Helen era "corpulenta". Ei, eu consegui! 
Tia Helen sempre deixou a gente ficar acordada para ver Saturday Night 
Live quando ficava tomando conta da gente ou quando estava morando 
conosco e meus pais iam na casa de outro casal para beber e jogar jogos de 
tabuleiro. Quando eu era muito pequeno, lembro de ir dormir, enquanto meu 
irmão, minha irmã e tia Helen viam O barco do amor e A Ilha da Fantasia. 
Nunca pude ficar acordado quando era pequeno, e eu queria ficar, porque 
meu irmão e minha irmã falavam desses momentos às vezes. Talvez seja chato 
que agora isso sejam somente lembranças. E talvez não seja chato. E talvez 
seja só o fato de que nós adorávamos a tia Helen, especialmente eu, e era 
nessa época que eu podia ficar com ela. 
Não vou começar a falar de lembranças de episódios de televisão, exceto 
de um, porque acho que nós fomos o tema, e é como aquelas coisas que a 
gente pode contar aos outros. Como eu não conheço você, imagino que talvez 
possa escrever sobre algo que você possa contar. 
A família estava sentada, vendo o episódio final de M*A*S*H e eu nunca 
vou me esquecer disso, embora fosse muito novo. Minha mãe estava 
chorando. Minha irmã estava chorando. Meu irmão estava fazendo toda a 
força que podia para não chorar. E meu pai saiu durante uma das cenas finais 
para fazer um sanduíche. Agora eu não me lembro muito do programa em si, 
porque eu era muito novo, mas meu pai nunca faz sanduíche, a não ser 
durante intervalos comerciais, e em geral ele só manda minha mãe fazer. Eu 
fui até a cozinha e vi meu pai fazendo um sanduíche... e chorando. Ele estava 
chorando muito mais até que a minha mãe. Mal pude acreditar. Quando ele 
terminou de fazer o sanduíche, colocou as coisas na geladeira, parou de 
chorar, esfregou os olhos e me viu. 
Depois ele caminhou, deu um tapinha no meu ombro e disse: "Esse é 
nosso segredinho, tá bom, campeão?" 


"Tá bom", eu disse. 
E papai me levantou pelo braço que não estava segurando o sanduíche 
me levou para a sala que tinha a televisão e me colocou no seu colo pelo resto 
do episódio. No final do programa, ele se levantou, desligou a tevê, olhou ao 
redor e disse: 
― Foi um grande seriado. 
― O melhor ― minha mãe falou. E minha irmã perguntou: 
― Quanto tempo ficou no ar? 
― Nove anos, idiota ― respondeu meu irmão. E minha irmã disse: 
― Idiota é você. 
― Parem com isso agora ― ordenou meu pai. E minha mãe disse: 
― Ouçam o que seu pai está dizendo.
E meu irmão não disse nada. 
E minha irmã não disse nada. 
E anos depois eu descobri que meu irmão estava errado. 
Fui até a biblioteca para procurar informações e descobri que o episódio a 
que nós assistimos foi o de maior audiência da história da televisão, o que me 
surpreendeu, porque havia apenas cinco de nós naquela sala. 
Sabe como é... Um monte de crianças na escola odeia os pais. Alguns 
apanham deles. E alguns acabam caindo em uma vida errada. Alguns eram 
troféus para seus pais mostrarem aos vizinhos, como faixas ou medalhas de 
ouro. E alguns deles só queriam beber em paz. 
Para mim, particularmente, apesar de não entender minha mãe e meu pai, 
e apesar de às vezes eu ter pena deles, não posso deixar de amá-los muito. 
Minha mãe vai ao cemitério de carro para visitar as pessoas que ela ama. Meu 
pai chorou durante o M*A*S*H, e confiou em mim para guardar segredo, me 
deixou sentar no colo dele e me chamou de "campeão". 
Aliás, eu só tenho uma cárie e, como disse meu dentista, não posso deixar 
de usar fio dental. 
Com amor, 
Charlie 


6 de outubro de 1991 
Querido amigo, 
Estou envergonhado. Eu queria ir ao jogo de futebol americano do 
segundo grau no outro dia e não sei bem por quê. No primeiro grau, às vezes 
Michael e eu íamos aos jogos, apesar de nenhum de nós ser popular o bastante 
para ir. Era só um lugar para se ir às sextas-feiras, quando não queríamos ver 
televisão. Às vezes, víamos a Susan por lá, e ela e Michael ficavam de mãos 
dadas. 
Mas, desta vez, eu fui sozinho porque o Michael se foi, e Susan agora 
andava com garotos diferentes, e Bridget ainda é maluca, e a mãe do Cari o 
mandou para uma escola católica, e o Dave dos óculos esquisitos se mudou. 
Eu era só uma espécie de espectador, vendo quem estava namorando e quem 
estava de mãos dadas, e eu vi aquele garoto de que lhe falei. Lembra do Nada? 
O Nada estava lá no jogo de futebol e era uma das poucas pessoas que não era 
adulta que estava assistindo realmente ao jogo. Quero dizer, estava assistindo 
ao jogo mesmo. Ele gritava coisas: 
"Vamos lá, Brad!" Era o nome de nosso quarterback. 
Agora, normalmente sou muito tímido, mas o Nada parecia o tipo de cara 
com quem você pode ir a um jogo de futebol, apesar de você ser três anos 
mais novo e não ser popular. 
― Ei, você está na minha turma de trabalhos manuais! ― Ele era muito 
simpático. 
― Eu sou o Charlie ― disse eu, sem timidez demais. 
― E eu o Patrick. E esta é Sam. ― Ele apontou para uma garota muito 
bonita perto dele. E ela se voltou para mim. 
― E aí, Charlie? 
Sam tinha um sorriso muito bonito. 


Os dois me disseram para sentar, e pareciam falar a sério, então sentei. 
Ouvi o Nada gritando para o campo. E ouvi sua análise das jogadas. E 
imaginei que esse era o tipo de cara que conhecia futebol americano muito 
bem. Ele realmente conhecia futebol, como meu irmão. Talvez eu devesse 
chamar o Nada de "Patrick" de agora em diante, uma vez que agora ele se 
apresentou a mim e é assim que a Sam o chama. 
Aliás, Sam tem cabelos castanhos e olhos verdes muito lindos. O tipo de 
verde que não revela muita coisa sobre a pessoa. Eu teria contado isso a você 
antes, mas, sob as luzes do estádio, tudo parecia meio desbotado. Foi só 
quando fomos para o Big Boy, e Sam e Patrick começaram a fumar, que eu dei 
uma boa olhada nela. O que foi legal no Big Boy foi o fato de que Patrick e 
Sam não faziam somente piadas particulares, me obrigando a tentar 
acompanhá-los. De jeito nenhum. Eles me fizeram perguntas: 
― Quantos anos você tem, Charlie? 
― Quinze. 
― O que você quer fazer quando crescer? 
― Ainda não sei bem. 
― Qual é a sua banda favorita? 
― Acho que os Smiths, porque adoro a música "Asleep", mas eu não 
tenho certeza porque não conheço as outras canções deles muito bem. 
― Qual é o seu filme favorito? 
― Não sei bem. Eles parecem todos iguais para mim. 
― E seu livro favorito? 
― Este lado do paraíso, do F. Scott Fitzgerald. 
― Por quê? 
― Porque foi o último que li. 
Isso fez eles rirem, porque sabiam que eu estava sendo sincero, não estava 
me exibindo. Depois eles me contaram quais eram os favoritos deles e eu 
fiquei sentado em silêncio. Comi torta de abóbora porque a moça disse que 
estava na estação, e Patrick e Sam fumaram mais cigarros. 
Olhei para eles e pareciam muito felizes juntos. Um tipo de felicidade 
legal. E apesar de eu ter achado a Sam muito bonita e legal, e ela ser a primeira 
garota que eu já quis convidar para sair quando pudesse dirigir, não me 


importei que ela tivesse namorado, especialmente se ele era um cara legal 
como o Patrick. 
― Há quanto tempo vocês estão juntos? ― perguntei. Então eles 
começaram a rir. E riram muito mesmo. 
― O que tem de tão engraçado nisso? ― disse eu. 
― Nós somos irmãos ― disse Patrick, ainda rindo. 
― Mas não parece ― eu disse. 
E aí Sam explicou que eles na verdade eram meio-irmãos, porque o pai de 
Patrick se casou com a mãe dela. Fiquei muito feliz em saber disso porque eu 
queria muito convidar a Sam para sair um dia desses. Realmente queria. Ela 
era muito legal. 
Mas fiquei com vergonha, porque naquela noite tive um sonho estranho. 
Foi com Sam. E nós dois estávamos nus. E suas pernas estavam jogadas nas 
laterais do sofá. E eu acordei. E nunca tinha sentido nada tão bom na minha 
vida. Mas eu também me senti mal, porque vi Sam nua sem a permissão dela. 
Acho que eu devia contar à Sam sobre o sonho, e espero realmente que isso 
não impeça que talvez a gente faça nossas piadas particulares. Seria muito legal 
ter um amigo novamente. Gostaria disso mais do que de uma namorada. 
Com amor,
Charlie 


14 de outubro de 1991 
Querido amigo, 
Você sabe o que é "masturbação"? Acho que você deve saber porque é 
mais velho que eu. Mas, de qualquer forma, eu vou contar a você. 
Masturbação é quando você esfrega seus genitais até ter um orgasmo. Uau! 
Eu pensava que naqueles filmes e programas de teve quando eles falavam 
de fazer uma pausa para o café, que eles deviam ter uma pausa para a 
masturbação. Mas, pensando bem, acho que isso diminuiria a produtividade. 
Só estou sendo engraçadinho aqui. Eu não quis dizer realmente isso. Só 
queria fazer você rir. 
Eu disse a Sam que sonhei que ela e eu estávamos nus no sofá, e comecei 
a chorar porque me senti mal, e sabe que ela fez? Ela riu. Não um riso 
maldoso, isso não. U riso caloroso, realmente legal. Ela disse que pensava que 
e estava brincando. E disse que estava tudo bem eu te sonhado com ela. E eu 
parei de chorar. Sam depois me perguntou se eu a achava bonita, e eu disse 
que achava que ela era "adorável". Sam, então, olhou bem nos meus olhos. 
― Você sabe que é novo demais para mim, não é Charlie? Você sabe 
disso, né? 
― É, eu sei. 
― Eu não quero que você perca seu tempo pensando em mim desta 
forma. 
― Eu não penso. Foi só um sonho. 
Sam então me deu um abraço, e foi estranho, porque minha família nunca 
se abraçou muito, exceto minha tia Helen. Mas, depois de alguns segundos, eu 
pude sentir o perfume de Sam, e pude sentir seu corpo contra o meu. E eu 
recuei. 
― Sam, estou pensando em você daquele jeito. 
Ela apenas olhou para mim e sacudiu a cabeça.


Depois colocou o braço em torno dos meus ombros e caminhou comigo 
pelo corredor. Encontramos Patrick do lado de fora porque às vezes eles não 
gostam de ir à aula. Eles preferiam fumar. 
― Charlie teve uma "charlice" por minha causa, Patrick. 
― Ele teve, é? 
― Estou tentando não ter ― eu disse, o que fez com que eles rissem. 
Patrick então pediu a Sam para sair, o que ela fez, e explicou algumas 
coisas a mim, assim eu saberia como abordar outras garotas e não perder meu 
tempo pensando na Sam daquele jeito. 
― Charlie, ninguém disse a você como isso funciona? 
― Acho que não. 
― Bom, tem algumas regras que devem ser seguidas aqui, não porque 
você queira, mas porque tem de seguir. Entendeu? 
― Acho que sim. 
― Está bem. Veja as garotas, por exemplo. Elas imitam as mães, as 
revistas e tudo o que precisam saber sobre como abordar os garotos. 
Pensei nas mães, nas revistas e em todo tipo de coisa, e o pensamento me 
deixou nervoso, especialmente quando isso inclui a tevê. 
― Eu quero dizer que não é como nos filmes, em que as garotas gostam 
de idiotas ou coisa parecida. Não é tão fácil assim. Elas gostam de alguém que 
possa dar a elas um propósito. 
― Um propósito? 
― É. Sabe como é, as garotas gostam de caras que representem um 
desafio. Isso dá a elas um modelo que determina como devem agir Como uma 
mãe. O que uma mãe faria se não pudesse obrigar você a usar fio dental e 
mandasse você limpar seu quarto? E o que você faria sem o fio dental e as 
ordens dela? Todo mundo precisa de uma mãe. E uma mãe sabe disso. E isso 
dá a ela um senso de propósito. Sacou? 
― Saquei ― eu disse, apesar de não ter sacado nada. Mas entendi o 
bastante para dizer "Saquei" sem mentir. 
― O caso é que algumas garotas acham que podem mudar os caras. E o 
engraçado é que, se elas realmente os mudassem, ficariam entediadas. Não 
teriam desafio nenhum. Você deve dar às garotas algum tempo para pensar em 


uma nova forma de fazer as coisas, é isso. Algumas resolvem isso 
rapidamente. Algumas mais tarde. Outras nunca. Eu n me preocuparia muito 
com isso. 
Mas acho que fiquei preocupado com isso. Fiquei preocupado com isso 
desde que ele falou comigo. Eu via as pessoas de mãos dadas nos corredores e 
tentava entender como tudo isso funciona. Nos bailes da escola, eu sento no 
fundo, fico tamborilando com os dedos e imagino como muitos casais 
dançarão a "sua música". Nos corredores vejo as garotas vestindo as jaquetas 
dos rapazes e penso no conceito de propriedade. E me pergunto se alguém é 
realmente feliz. Espero que sejam. Realmente espero que sejam. 
Bill me viu olhando as pessoas e, depois da aula, me perguntou no que eu 
estava pensando, e eu disse a ele. Ele ouviu, concordou com a cabeça e fez 
ruídos afirmativos. Quanto eu terminei, seu rosto mudou para uma expressa 
de "papo sério". 
― Você sempre pensa muito nisso, Charlie? 
― Isso é ruim? ― Eu só queria que alguém me dissesse a verdade. 
― Não necessariamente. É só que às vezes as pessoa usam o pensamento 
para não participar da vida. 
― Isso é ruim? 
― É. 
― Mas eu acho que participo. Você não acha? 
― Bom, você dança nesses bailes? 
― Eu não sei dançar bem. 
― Está saindo com garotas? 
― Bom, eu não tenho carro, e mesmo que tivesse não poderia dirigir 
porque só tenho quinze anos, e, de qualquer forma, não conheci nenhuma 
garota de que gostasse, exceto a Sam, mas sou novo demais para ela, e ela teria 
de dirigir sempre, o que não acho certo. 
Bill sorriu e continuou a me fazer perguntas. Lentamente, ele passou para 
os "problemas em casa". E eu falei com ele do cara que grava fitas que bateu 
na minha irmã, porque minha irmã só me disse para não contar à mamãe ou 
ao papai sobre isso, então eu imaginei que podia contar para o Bill. Ele 


assumiu uma expressão séria depois que contei a ele, e disse alguma coisa para 
mim que não acho que vou esquecer nem neste semestre nem nunca. 
-― Charlie, a gente aceita o amor que acha que merece. 
Eu fiquei ali, quieto. Bill deu um tapinha no meu ombro e um novo livro 
para ler. Depois disse que estava tudo bem. 
Em geral eu vou para casa a pé depois da escola porque faz com que eu 
me sinta digno de mérito. Quero dizer que quero poder contar a meus filhos 
que eu ia a pé da escola para casa como meus avós fizeram nos "velhos 
tempos". É estranho que eu esteja planejando isso, considerando que nunca 
tive uma namorada, mas acho que faz sentido. Em geral, ir a pé leva uma hora 
a mais do que de ônibus, mas só vale a pena quando o tempo está bom e frio, 
como o de hoje. 
Quando finalmente cheguei em casa, minha irmã estava sentada numa 
cadeira. Minha mãe e meu pai estavam sentados de frente para ela. E eu soube 
que Bill tinha ligado para casa e falado com eles. E me senti péssimo. A culpa 
foi toda minha. 
Minha irmã estava chorando. Minha mãe estava muito quieta. Só meu pai 
falava. Ele disse que minha irmã nunca mais ia ver o rapaz que tinha batido 
nela, e que ia ter uma conversa com os pais do garoto naquela noite. Minha 
irmã então disse que tinha sido culpa dela, que ela o havia provocado, mas 
meu pai disse que aquilo não era desculpa. 
― Mas eu o amo! ― Nunca vi minha irmã chorar tanto. 
― Não ama não. 
― Eu odeio você! 
― Não odeia não. ― Meu pai às vezes podia ser muito calmo. 
― Ele é a minha vida. 
-― Nunca mais diga uma coisa dessas novamente. Nem mesmo para 
mim. ― Era minha mãe falando. 
Minha mãe escolhe suas batalhas cuidadosamente: posso dizer a você 
uma coisa sobre a minha família. Quando minha mãe diz alguma coisa, ela 
sempre consegue o que quer. E naquela hora não foi exceção. Minha irmã 
parou chorar de imediato. 


Depois disso, meu pai deu um raro beijo na testa minha irmã. Saiu de 
casa, foi para o seu Olds Mobile e deu a partida. Acho que ele foi conversar 
com os pais do cara. E eu fiquei com muita pena deles. Dos pais dele, que 
dizer. Porque meu pai não perde uma briga. Nunca. 
Minha mãe depois foi para a cozinha, para fazer a comida favorita da 
minha irmã, e minha irmã olhou para mim.
― Eu odeio você. 
Minha irmã disse isso de uma forma diferente de quando falou com meu 
pai. Ela quis dizer isso pra mim. Quis mesmo. 
― Eu te amo ― foi o que consegui responder. 
― Você é um anormal, sabia? Sempre foi anormal. Todo mundo diz isso. 
Sempre disseram. 
― Estou tentando não ser assim. 
Depois, eu me virei, fui para o meu quarto, fechei a porta e coloquei 
minha cabeça no travesseiro. Deixei que o silêncio colocasse as coisas no lugar 
em que elas deveriam estar. 
Por falar nisso, imagino que você deve estar curioso a respeito do meu 
pai. Será que ele batia em nós quando éramos crianças ou bate agora? Estou 
achando que você deve estar curioso porque o Bill ficou, depois que eu contei 
a ele sobre o cara e minha irmã. Bom, se é isso que está pensando, não, ele 
não bate. Ele nunca encostou um dedo em meu irmão ou na minha irmã. E a 
única vez em que ele me deu um tapa foi quando eu fiz tia Helen chorar. E 
depois que nós nos acalmamos, ele se ajoelhou na minha frente e disse que o 
padrasto dele tinha batido muito nele, e ele decidiu na faculdade, quando 
minha mãe estava grávida de meu irmão mais velho, que nunca bateria nos 
filhos. E ele se sentiu muito mal por ter feito isso. E ele estava tão arrepen-
dido. E nunca mais bateu em mim de novo. Ele só é duro às vezes. 
Com amor,
Charlie 


15 de outubro de 1991 
Querido amigo, 
Acho que esqueci de dizer em minha última carta que foi o Patrick que 
me falou de masturbação. Acho que esqueci de dizer a você a frequência com 
que eu faço isso, que é muita. Eu não gosto de olhar fotos. Só fecho meus 
olhos e imagino uma mulher que não conheço. E eu tento não ter vergonha. 
Nunca pensei na Sam quando faço isso. Nunca. Isso é muito importante para 
mim, porque fiquei muito feliz quando ela disse "charlice", porque achei que 
era uma espécie de piada particular. 
Uma noite, eu me senti tão culpado que prometi a Deus que nunca mais 
faria isso novamente. Então comecei a usar os cobertores, mas os cobertores 
machucavam, então comecei a usar o travesseiro, mas o travesseiro 
machucava, então eu voltei ao normal. Eu não fui criado com muita religião 
porque meus pais frequentaram a escola católica, mas acredito muito em 
Deus. Só nunca dei um nome a Deus, entende o que quero dizer? Espero não 
O estar decepcionando, apesar disso. 
Aliás, meu pai teve uma conversa séria com os pais do garoto. A mãe do 
cara ficou com muita raiva e gritou com o filho. O pai ficou quieto. E meu pai 
não foi inconveniente com eles. Não disse a eles que eles fizeram um "trato 
ruim" na criação do filho ou coisa parecida. 
No que dizia respeito a ele, só o que lhe interessava manter o filho deles 
longe da sua filha. Uma vez que ficasse claro, ele deixaria aquela família em 
paz e iria casa cuidar da própria família. Pelo menos foi como contou. 
A única coisa que eu perguntei a meu pai foi sobre problemas do garoto 
em casa. Se ele achava que os pais batiam no filho. Ele me disse para cuidar da 
minha vida. Porque ele não sabia e nunca perguntaria, e não achava que isso 
tinha importância. 


"Nem todo mundo tem uma história triste, Charlie, mesmo que tivesse, 
isso não é desculpa." 
Foi tudo o que ele disse. E depois ele foi ver televisão. 
Minha irmã ainda está zangada comigo, mas meu pai disse que eu fiz a 
coisa certa. Espero que tenha feito, mas às vezes é duro dizer isso. 
Com amor, 
Charlie 


28 de outubro de 1991 
Querido amigo, 
Desculpe por não ter escrito para você por duas semanas, mas eu estava 
tentando "participar", como disse o Bill. É estranho, porque às vezes eu leio 
um livro e acho que sou a pessoa do livro. E também, quando escrevo cartas, 
fico uns dois dias pensando no que imaginei em minhas cartas. Não sei se isso 
é bom ou ruim. Mas eu estou tentando participar. 
Aliás, o livro que o Bill me deu era Peter Pan, de J. M. Barrie. Eu sei o 
que você está pensando. O Peter Pan dos desenhos com os garotos perdidos. 
O livro é muito melhor o que isso. É sobre esse garoto que se recusa a crescer, 
e quando Wendy cresce, ele se sente traído. Pelo menos foi o que eu entendi. 
Acho que Bill me deu o livro para me ensinar alguma lição. 
A boa notícia é que eu li o livro, e por causa de sua natureza fantástica 
não fingi que estava no livro. Assim eu consegui participar e ainda assim ler. 
No que se refere à minha participação nas coisas, estou tentando ir a 
eventos sociais que são promovidos na minha escola. É tarde demais para me 
associar a algum clube ou coisa parecida, mas eu ainda tento ir aos eventos que 
posso. Coisas como o jogo de futebol de ex-alunos e os bailes, mesmo que eu 
não tenha namorada. 
Não consigo conceber que um dia voltarei para casa para um jogo de 
futebol de ex-alunos depois que eu sair daqui, mas foi divertido imaginar isso. 
Encontrei Patrick e Sam sentados em seu lugar de sempre na arquibancada e 
comecei a fingir que não os via há um ano, embora eu os tenha encontrado 
naquela tarde no almoço, quando comi minha laranja e eles fumavam cigarro. 
"Patrick... é você mesmo? E Sam... faz tanto tempo. Quem está 
ganhando? Meu Deus, a faculdade é uma barra. Meu professor está me 
fazendo ler vinte e sete livros em uma semana, e minha namorada precisa de 
mim para pintar placas de protesto para uma manifestação na terça. Deixe 


aqueles administradores saberem o que são os negócios. Meu pai está ocupado 
com o golfe e só o que minha mãe faz é jogar tênis. Precisamos fazer isso de 
novo. Eu até ficaria, mas tenho de pegar a minha irmã no workshop emocio-
nal que ela está fazendo. Ela está indo bem. A gente se vê." 
E então eu saía. Eu faria uma concessão e compraria três nachos e uma 
Diet Coke para a Sam. Quando eu voltasse, me sentaria e daria os nachos a 
Patrick e a Sam, e a Coke da Sam. E Sam sorriria. O bom a respeito da S que 
ela não me acha maluco por fingir essas coisas. N Patrick, mas ele fica 
ocupado demais assistindo ao jogo gritando com Brad, o quarterback. 
Sam me disse durante o jogo que mais tarde eles iriam a uma festa na casa 
de um amigo. Depois ela me pergunto eu não queria ir também e eu disse que 
sim, porque n fui a uma festa antes. Mas tinha visto uma na minha casa. 
Meus pais tinham ido para Ohio para o casamento o enterro, de uma 
prima muito distante. Não me lembro bem. E deixaram meu irmão tomando 
conta da casa que tinha dezesseis anos na época. Meu irmão aproveito 
oportunidade para dar uma grande festa com cerveja e do. Ele me mandou 
ficar no meu quarto, e por mim estava tudo bem, porque era ali que todo 
mundo estava guardando os casacos, e foi divertido fuçar todos aqueles 
bolsos, cada dez minutos mais ou menos, uma garota e um garoto bêbados 
apareciam ali para ver se podiam se agarrar meu quarto ou coisa parecida. 
Depois eles me viam e iam o fora. Quer dizer, exceto um casal. 
Este casal, que depois fiquei sabendo que era muito popular e estava 
apaixonado, entrou no meu quarto e perguntou se eu me importava que eles o 
usassem. Eu disse que meu irmão e minha irmã tinham falado para eu não sair 
dali, e eles perguntaram se podiam usar o quarto qualquer forma, comigo lá 
dentro. Eu disse que não vi problema nisso, e eles fecharam a porta e 
começaram a se beijar. E se beijaram muito. Depois de alguns minutos, mão 
do cara levantou a blusa da garota e ela começou protestar: 
― Para com isso, Dave. 
― O quê? 
― O garoto está aqui. 
― Está tudo bem. 


E o cara continuou a levantar a blusa da garota, e embora ela tenha dito 
não, ele continuou. Depois de alguns minutos, ela parou de reclamar e ele 
arrancou a blusa dela. Ela usava um sutiã branco com fecho. Eu sinceramente 
não sabia o que fazer àquela altura. Rapidinho ele tirou o sutiã dela e começou 
a beijar os seios. E depois ele colocou a mão nas calças dela e ela começou a 
gemer. Acho que eles estavam muito bêbados. Ele conseguiu tirar as calças 
dela, mas ela começou a chorar muito, então ele tirou as próprias calças. 
Arriou as calças e a cueca até os joelhos. 
― Não, Dave, por favor, não. 
Mas o cara falava mansinho com ela sobre como ela era bonita e coisas 
assim, e ela pegou o pênis dele e começou a movimentá-lo. Eu acho que podia 
descrever isso de uma forma mais elegante, sem usar palavras como pênis, 
mas foi assim que as coisas aconteceram. 
Depois de alguns minutos, o cara empurrou a garota para baixo e ela 
começou a beijar o pênis dele. Ela ainda estava chorando. Finalmente, ela 
parou de chorar, porque ele colocou o pênis na boca da garota, e eu não acho 
que dê para chorar nessa situação. Àquela altura, eu tinha parado de olhar, 
porque comecei a ficar meio enjoado, mas eles continuaram, e fizeram outras 
coisas, e ela sempre dizia "não". Até quando eu tapei os ouvidos ainda podia 
ouvir a garota dizendo isso. 
Minha irmã chegou para me levar uma tigela de batatas fritas e, quando 
ela encontrou o garoto e a garota, eles pararam. Minha irmã ficou muito 
encabulada, mas não tão encabulada quanto a garota. O cara parecia um 
pateta. Ele não disse nada. Depois que eles saíram, minha irmã se voltou para 
mim. 
― Eles sabiam que você estava aqui? 
― Sabiam. Eles me pediram para usar o quarto. 
― Por que você não fez eles pararem? 
― Eu não sabia o que eles estavam fazendo. 
― Seu pervertido ― foi a última coisa que a minha disse antes de sair do 
quarto, ainda com a tigela de batatas fritas nas mãos. 
Eu contei isso a Sam e Patrick e eles ficaram em silêncio. Sam disse que 
ela andou saindo com o Dave durante algum tempo, antes de passar a gostar 


de punk, e Patrick disse que tinha ouvido falar da festa. Eu não me surpreendi 
com o que ele fez porque tinha se tornado uma espécie de lenda. Pelo menos 
foi o que ouvi falar quando disse alguns garotos quem era meu irmão mais 
velho. 
Quando a polícia chegou, encontrou meu irmão dormindo no telhado. 
Ninguém sabia como ele tinha chegado lá. Minha irmã estava se agarrando na 
lavanderia com um veterano. Ela era caloura naquela época. Muitos pais 
chegaram a casa para pegar os filhos, e muitas garotas estavam chorando e 
vomitando. A maioria dos caras tinha caído fora naquela altura. Meu irmão 
estava com um problema e minha irmã tinha tido uma "conversa séria" com 
me pais sobre más influências. E foi assim que aconteceu. 
O garoto chamado Dave agora é veterano. Ele joga time de futebol. Tem 
um aparelho de som enorme. Eu estava assistindo ao fim do jogo quando 
Dave pegou um touch down do Brad. Acabou que nossa escola ganhou a partida 
e as pessoas ficaram malucas nas arquibancadas porque tínhamos vencido. 
Mas tudo o que eu conseguia pensar era naquela festa. Pensei nisso em 
silêncio por muito tempo depois olhei para Sam. 
― Ele a estuprou, não foi? 
Ela apenas concordou. Eu não sabia se ela estava triste ou se só sabia de 
mais coisas do que eu. 
― Nós devíamos contar a alguém, não é? 
Sam só sacudiu a cabeça naquela hora. Ela então explicou sobre todas as 
coisas que você tem de fazer para se mostrar, especialmente no segundo grau, 
quando o cara e a garota são populares e estão apaixonados. 
No dia seguinte ao baile de ex-alunos, eu os vi dançando juntos. Dave e a 
garota dele. E fiquei furioso. Acho que me assustei com o quanto fiquei 
furioso. Pensei em ir até o Dave e bater nele, da mesma forma que eu 
machuquei o Sean. E acho que teria feito isso, mas a Sam me viu e colocou o 
braço em meus ombros, como sempre faz. Ela me acalmou e fiquei contente 
de ela ter feito isso, porque acho que eu teria ficado ainda mais furioso se 
começasse a bater no Dave e sua garota tentasse me fazer parar porque gosta-
va dele. Acho que eu teria ficado muito mais enfurecido com isso. 


Então decidi fazer uma coisa melhor: esvaziar os pneus do carro do Dave. 
A Sam sabia onde o carro dele estava. 
Eu tive uma sensação na sexta à noite, depois do jogo de ex-alunos, que 
não sei se serei capaz de descrever, a não ser que eu diga que foi ardente. Sam 
e Patrick me levaram de carro à festa naquela noite, e eu me sentei no meio na 
picape de Sam. Ela adora a picape, porque eu acho que o carro a fez se 
lembrar do pai. A sensação me aconteceu quando Sam disse a Patrick para 
encontrar alguma coisa no rádio. E ele só encontrava comerciais. E 
comerciais. E uma música de amor muito ruim que tinha a palavra "baby". E 
depois mais comerciais. E por fim ele encontrou esta canção realmente 
maravilhosa sobre um cara, e nós ouvimos em silêncio. 
Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou o braço para fora 
do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a 
música terminou, eu disse uma coisa: 
"Eu me sinto infinito." 
E Sam e Patrick olharam para mim e disseram que foi a melhor coisa que 
já tinham ouvido. Porque a música era ótima e porque estávamos prestando 
muita atenção nela. Cinco minutos de toda uma vida tinham passado, e nós 
nos sentíamos jovens de uma forma legal. Eu cheguei a comprar o disco, e 
contaria a você como foi, mas na verdade não foi o mesmo que estar em um 
carro a caminho de sua primeira festa de verdade, e você está sentado no meio 
da picape com duas pessoas legais quando começa a chover. 
Chegamos a casa onde a festa estava rolando e Patrick deu a batida 
secreta. É difícil descrever a batida sem fazer nenhum som. A porta se abriu 
um pouco e aquele cara com o cabelo crespo olhou pra nós. 
― Patrick vulgo Patty vulgo Nada? 
― Bob. 
A porta se abriu e os velhos amigos se abraçaram. Depois, Sam e Bob se 
deram um abraço. E depois a Sam falou: 
― Esse é nosso amigo, o Charlie. 
E você não vai acreditar nisso. O Bob me abraçou! Sam me disse, quando 
estávamos pendurando os casacos, que o Bob era "doidão como um porra 
louca". Eu tenho de contar isso, embora tenha um palavrão. 


A festa acontecia no porão da casa. O porão estava enfumaçado e os 
garotos eram muito mais velhos. Havia duas meninas mostrando suas 
tatuagens uma à outra e usando piercings no umbigo. Veteranas, eu acho. 
O cara chamado Fritz qualquer coisa estava comendo um monte de 
Twinkies. A namorada do Fritz falava com ele sobre os direitos das mulheres e 
ele só dizia "Eu sei, gata". 
Sam e Patrick começaram a fumar. Bob foi para a cozinha quando ouviu 
a campainha. Quando voltou, trouxe uma lata de cerveja Milwaukee Best para 
cada um e dois novos convidados da festa. Era a Maggie, que precisou usar o 
banheiro. E o Brad, o quarterback do time de futebol do segundo grau. Sem 
brincadeira! 
Não sei por que isso me empolgou, mas acho que quando você vê alguém 
no corredor da escola ou no campo de futebol, ou em outro lugar assim, é 
legal saber que ele é uma pessoa real. 
Todo mundo foi simpático comigo e me fez um monte de perguntas 
sobre minha vida. Acho que porque eu era o mais novo, e eles não queriam 
que eu ficasse deslocado, especialmente depois que eu disse que não queria 
uma cerveja. Uma vez bebi uma cerveja com o meu irmão, quando eu tinha 
doze anos, e não gostei nada. Para mim, era simples assim. 
Algumas perguntas que me fizeram foram sobre em que ano eu estava e o 
que eu vou fazer quando crescer. 
-― Sou calouro e não sei bem ainda. 
Olhei em volta e vi que Sam e Patrick tinham saído com o Brad. Foi 
quando Bob apareceu com comida. 
― Quer um brownie? 
― Quero. Obrigado. 
Eu estava com muita fome, porque normalmente Sam e Patrick me 
levavam ao Big Boy depois dos jogos de futebol e acho que me acostumei 
com isso. Comi o brownie e o sabor era meio estranho, mas ainda era um 
brownie, então eu gostei. Mas não era um brownie comum. Quando você ficar 
mais velho, acho que vai entender que tipo de brownie era aquele. 
Depois de meia hora, a sala começou a girar. Eu estava falando com uma 
das garotas com o piercing no umbigo e parecia que ela estava em um filme. 


Comecei a piscar muito, a olhar em volta e a música parecia pesada como 
água.. 
Sam voltou e, quando me viu, falou com o Bob: 
― O que é que você fez? 
― Para com isso, Sam. Ele gosta. Pergunte a ele. 
― Como está se sentindo, Charlie? 
― Leve. 
― Tá vendo? ― Bob parecia um pouco nervoso, o que eu depois 
chamaria de paranoia. 
Sam se sentou do meu lado e pegou minha mão, que estava fria. 
― Está vendo alguma coisa, Charlie? 
― Luz. 
― Está se sentindo bem? 
― Hum-hum. 
― Está com sede? 
― Hum-hum. 
― O que você quer beber? 
― Um milkshake. E todo mundo na sala, exceto Sam, caiu na gargalha 
― Ele tá chapado. 
― Está com fome, Charlie? 
― Hum-hum. 
― O que você quer comer? 
― Um milkshake. Não sei se eles teriam rido ainda mais se eu tivesse dito 
que era tudo muito divertido. Depois Sam pegou minha mão e me ergueu 
naquele chão que girava. 
― Vamos. Você vai tomar seu milkshake.
Quando estávamos saindo, Sam se virou para Bob. 
― Eu ainda acho que você é um idiota. Só o que Bob fez foi rir. E Sam 
acabou rindo também. 
Eu fiquei contente, porque todo mundo parecia feliz. 
Sam e eu fomos para a cozinha e ela acendeu a luz; Uau! Era tão 
brilhante, eu não podia acreditar. Era como se você visse um filme no cinema 
de dia e, quando sai do cinema, não consegue acreditar que ainda é dia do lado 


de fora. Sam pegou um pouco de sorvete, leite e o liquidificador. Eu perguntei 
a ela onde era o banheiro, e ela me apontou o canto quase como se fosse a 
casa dela. Acho que ela e Patrick passaram muito tempo ali quando Bob ainda 
estava no segundo grau. 
Quando saí do banheiro, ouvi um barulho no quarto onde deixamos os 
casacos. Abri a porta e vi Patrick beijando o Brad. Foi um beijo meio roubado. 
Eles me ouviram na porta e se viraram. Patrick falou primeiro: 
― É você, Charlie? 
― Sam está fazendo um milkshake para mim. 
― Quem é o garoto? ― Brad parecia muito nervoso, mas não como Bob. 
― É um amigo meu. Relaxa. 
Patrick então me tirou do quarto e fechou a porta. Colocou as mãos nos 
meus ombros e olhou direto nos meus olhos. 
― Brad não quer que as pessoas saibam. 
― Por quê? 
― Porque ele está assustado. 
― Por quê? 
― Porque ele é... peraí... você está doidão? 
― Eles disseram que eu estava chapado. A Sam está fazendo um 
milkshake. 
Patrick tentou conter o riso. 
― Olha, Charlie. O Brad não quer que as pessoas saibam. Preciso que 
você prometa que não vai contar a ninguém. Será nosso segredinho. Tá bom? 
― Tá bom. 
― Obrigado. 
E com isso Patrick se virou e voltou para o quarto. Ouvi algumas vozes 
abafadas e Brad parecia chateado, mas não achei que fosse problema meu, 
então voltei para a cozinha. 
Tenho de dizer que foi o melhor milkshake que já tomei na minha vida. 
Estava tão delicioso que quase me assustou. 
Antes de sair da festa, Sam colocou algumas de suas canções favoritas 
para mim. Uma era chamada "Blackbird". A outra era "MLK". As duas eram 


muito bonitas. Mencionei os títulos porque eles também eram bons quando 
ouvi quando estava sóbrio. 
Outra coisa interessante aconteceu na festa antes de nós sairmos. Patrick 
descia as escadas. Acho que Brad tinha ido embora. E Patrick sorria. E Bob 
começou a sacanear, dizendo que ele estava caído pelo quarterback. E Patrick 
sorriu ainda mais. Não acho que tenha visto o Patrick s rir tanto. Depois 
Patrick apontou para mim e disse u coisa ao Bob: 
― Ele é uma figura, né? 
Bob concordou. Patrick depois disse alguma coisa acho que nunca vou 
esquecer. 
― Ele é invisível. 
E Bob assentiu com a cabeça. E todos no porão fizer o mesmo. E 
comecei a ficar nervoso como Bob, mas Patrick não me deixou ficar nervoso 
demais. Sentou-se do meu lado. 
― Você vê as coisas. Você guarda silêncio sobre elas. Você compreende. 
Não sei o que as outras pessoas estavam achando mim. Não sei o que elas 
pensavam. Eu estava sentado chão de um porão, na minha primeira festa de 
verdade entre Sam e Patrick, e lembro que Sam me apresento como amigo a 
Bob. E lembro que Patrick fez a mesma coisa com o Brad. E comecei a 
chorar. E ninguém naquele porão me achava estranho por estar fazendo isso. 
E depois e comecei a chorar pra valer. 
Bob ergueu seu drinque e pediu a todos que fizessem mesmo. 
"A Charlie." 
E todo o grupo disse: "A Charlie." 
Eu não sei por que eles fizeram aquilo, mas foi muito especial para mim. 
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