Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe


parte ruim da noite passada tivesse desaparecido. Mas eu ainda achava que era



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)

parte ruim da noite passada tivesse desaparecido. Mas eu ainda achava que era 
um adeus e não um "até logo". O caso é que eu não chorei. Não sei o que 
estava sentindo. 
Finalmente, Sam entrou em sua picape e Patrick deu a partida. Estava 
tocando uma música legal. E todos sorriram. Inclusive eu. Mas eu não estava 
mais lã. 
Só quando não pude mais ver os carros foi que eu voltei e as coisas 
começaram a ficar ruins novamente. Mas, desta vez, elas pareciam muito 
piores. Mary Elizabeth e todos estavam chorando agora, e me perguntaram se 
eu queria ir ao Big Boy ou coisa assim. Disse a eles que não. Obrigado. Eu vou 
para casa. 
"Você está bem, Charlie?", perguntou Mary Elizabeth. Acho que eu 
começava a parecer mal de novo, porque ela parecia preocupada. 
"Está tudo bem. Eu só estou cansado", menti. 
Fui para o carro do meu pai, e parti. Podia ouvir todas aquelas músicas 
pelo rádio, mas o rádio estava desligado. Quando cheguei à garagem, acho que 
esqueci o carro ligado. Apenas fui para o sofá da sala de tevê. E pude ver os 
programas de tevê, mas a televisão não estava ligada. 


Não sei o que há de errado comigo. É como se tudo o que pudesse fazer 
é escrever esse palavreado para evitar a depressão. Sam foi embora. E Patrick 
não estará em casa por alguns dias. E eu não posso conversar com Mary 
Elizabeth nem ninguém, nem meu irmão nem ninguém da minha família. 
Exceto, talvez, a tia Helen. Mas ela se foi. E mesmo que estivesse aqui, não sei 
se poderia conversar com ela também. Porque estou começando a achar que o 
sonho que tive na noite passada era real. E que as perguntas do meu psiquiatra 
não eram assim tão estranhas. 
Não sei o que devo fazer agora. Conheço outras pessoas que ficaram bem 
piores. Sei disso, mas de qualquer forma é perturbador e não consigo parar de 
pensar que aquele garotinho comendo batatas fritas com a mãe no shopping 
vai crescer e bater na minha irmã. Só penso nisso. Sei que estou pensando 
rápido demais agora, e tudo na minha cabeça está meio hipnótico, mas é isso e 
não está passando. Eu continuo vendo ele, e ele continua batendo na minha 
irmã, e ele não quer parar, e eu quero que ele pare porque ele não quer fazer 
isso, mas ele não me ouve e não sei o que fazer. 
Desculpe, mas tenho de parar de escrever agora. 
Mas antes quero agradecer a você por estar sendo uma daquelas pessoas 
que ouvem e entendem, e não tentam dormir com as pessoas, apesar de 
poderem fazer isso. Eu agradeço mesmo, e desculpe se eu o envolvi nisso 
tudo quando você ainda não sabia quem eu era, e nunca nos conhecemos 
pessoalmente, e não posso contar a você quem eu sou porque prometi guardar 
segredo de tudo. Só não quero que você pense que eu peguei seu nome na 
lista telefônica. Eu me mataria se você pensasse isso. Então, por favor, 
acredite em mim quando eu digo que me senti muito mal depois da morte de 
Michael, e vi uma garota na aula, que não me viu, e ela contou tudo de você 
aos amigos dela. E embora eu não conheça você, acho que conheço, porque 
me parece uma boa pessoa. O tipo de pessoa que não se importaria de receber 
cartas de um garoto. O tipo de pessoa que entenderia como as cartas são 
melhores que um diário, porque existe uma comunhão que um diário não tem. 
Só quero que você não se preocupe comigo, ou pense que vai me encontrar, 
ou perca mais o seu tempo. Eu lamento muito que tenha perdido seu tempo 
comigo, porque você significa muito para mim, e eu espero que você tenha 


uma vida muito legal, porque acho que merece. De verdade. Espero que você 
pense o mesmo. Tudo bem, então. Adeus. 
Com amor, 
Charlie 


EPÍLOGO


23 de agosto de 1992 
Querido amigo, 
Nos últimos dois meses eu estava no hospital. Eles me deram alta ontem. 
O médico me disse que minha mãe e meu pai me encontraram sentado no 
sofá da sala da minha casa. Eu estava completamente nu, assistindo à 
televisão, que não estava ligada. Eu não falei nem mudei de posição, foi o que 
ele disse. Meu pai chegou a me dar um tapa para me fazer acordar e, como eu 
já lhe disse, ele nunca bate em mim. Mas não funcionou. Então eles me 
levaram para o hospital, onde eu fiquei quando tinha sete anos, depois que tia 
Helen morreu. Eles me disseram que eu não falei nem reconheci ninguém por 
uma semana. Nem mesmo Patrick, que acho que me visitou durante aquele 
período. É assustador pensar nisso. 
Tudo de que me lembro é de colocar a carta na caixa de correio. E depois, 
pelo que sei, eu estava sentado na sala da médica. E me lembrei de tia Helen. 
E comecei a chorar. E a médica, que depois percebi que era uma mulher legal, 
começou a me fazer perguntas. E eu respondi. 
Não sei bem se quero falar das perguntas e respostas. Mas eu imagino que 
tudo que sonhei sobre tia Helen era verdade. E depois de algum tempo, 
percebi que acontecia todo sábado, quando estávamos assistindo à televisão. 
As primeiras duas semanas no hospital foram muito difíceis. 
A parte mais dura foi sentar na sala da médica quando ela contou à minha 
mãe e ao meu pai o que tinha acontecido. Nunca vi minha mãe chorar tanto. 
Ou meu pai parecer tão furioso. Porque eles não sabiam que isso estava 
acontecendo naquela época. 
Mas a médica tem me ajudado a lidar com um monte de coisas desde 
então. Sobre tia Helen. E minha família. E os amigos. E eu. Há um monte de 
estágios desse tipo de coisas e ela estava sendo ótima em todos eles. 


O que mais me ajudou, entretanto, foi quando eu pude receber visitas. 
Minha família, inclusive meu irmão e minha irmã, sempre vinham, até que 
meu irmão teve de voltar para a faculdade, para jogar futebol. Depois disso, 
minha família vinha sem o meu irmão, e meu irmão me mandava cartões. Ele 
chegou a me dizer no último cartão que leu meu trabalho sobre Walden e 
gostou muito dele, o que fez com que eu me sentisse realmente muito bem. 
Como da primeira vez em que vi Patrick. A melhor coisa sobre Patrick é que, 
mesmo quando você está num hospital, ele não muda. Ele faz piadas para 
você se sentir melhor, em vez de fazer perguntas que o fazem se sentir pior. 
Ele chegou a me trazer uma carta da Sam, e Sam dizia que estava voltando no 
final de agosto, e se eu estivesse melhor até lá, ela e Patrick me levariam de 
carro pelo túnel. E desta vez eu poderia ficar na traseira da picape se eu 
quisesse. Coisas assim me ajudaram mais do que tudo. 
Os dias em que eu recebia cartas eram bons também. Meu avô me 
mandou uma carta muito legal. E minha tia- avó também. E depois minha avó 
e meu tio-avô Phil. Tia Rebecca chegou a me mandar flores com um cartão 
assinado por todos os primos de Ohio. Foi bom saber que eles estavam 
pensando em mim, como foi legal aquela vez em que Patrick trouxe Mary 
Elizabeth, Alice, Bob e todo mundo para me visitar. Até Peter e Craig. Acho 
que eles são amigos agora. E eu fiquei feliz com isso. Assim como fiquei feliz 
que Mary Elizabeth fizesse mais do que falar Porque assim as coisas pareciam 
mais normais. Mary Elizabeth ficou um pouco mais do que os outros. Eu 
estava muito feliz com a oportunidade de conversar com ela sozinho, antes 
que ela partisse para Berkeley. Como fiquei feliz por Bill e a namorada, 
quando eles vieram me ver algumas semanas atrás. Eles vão se casar em 
novembro e querem que eu vá ao casamento. É legal ter coisas do futuro para 
pensar. 
Eu comecei a sentir que tudo ia ficar bem quando meus irmãos ficaram 
depois que meus pais foram embora. Foi em algum dia de julho. Eles me 
fizeram um monte de perguntas sobre tia Helen, porque acho que nada 
daquilo aconteceu com eles. E meu irmão parecia muito triste. E minha irmã 
parecia com muita raiva. E foi aí que as coisas começaram a ficar mais claras, 
porque não havia mais ninguém para odiar depois disso. 


O que eu quero dizer é que eu olhava para meus irmãos e pensava que 
talvez, um dia, eles seriam tio e tia, assim como eu seria tio. Assim como 
mamãe e tia Helen eram irmãs. 
E todos pudemos nos sentar e imaginar e se sentir mal em relação aos 
outros, e culpar um monte de gente pelo que fizeram ou não fizeram, ou pelo 
que não sabem. Não sei bem. Acho que sempre vai haver alguém para culpar 
Talvez, se meu avô não tivesse batido nela, minha mãe não seria tão quieta. E 
talvez ela não tivesse se casado com papai, porque ele não batia nela. E talvez 
eu nunca tivesse nascido. Mas fico feliz por ter nascido, então não sei o que 
dizer sobre isso, especialmente porque minha mãe parece feliz com a vida que 
tem, e não sei o que mais se pode querer.É como se eu culpasse a tia Helen, e 
eu teria de culpar o pai dela por ter batido nela e o amigo da família por têla 
estuprado quando era pequena. E a pessoa que abusou dele. E a Deus por não 
parar com isso e todas as coisas que são muito piores. E eu fiz isso por um 
tempo, mas depois não pude continuar. Porque não estava me levando a lugar 
nenhum. Porque não era a questão. 
Não estou desse jeito por causa do que sonhei e do que me lembro sobre 
tia Helen. É por causa do que eu imaginei quando as coisas ficaram quietas. E 
acho que é muito importante saber. Torna as coisas claras e razoáveis. Não me 
interprete mal. Sei que o que aconteceu foi importante. E preciso me lembrar 
disso. Mas é como quando minha médica me contou a história daqueles dois 
irmãos cujo pai era um alcoólatra mau. Um irmão se tornou carpinteiro 
quando adulto e nunca bebia. O outro terminou sendo um bebedor tão mau 
quanto o pai. Quando perguntaram ao primeiro irmão por que ele não bebia, 
ele disse que depois que viu o que isso tinha feito ao pai nunca pegaria o 
mesmo caminho. Quando perguntaram ao outro irmão, ele disse que achava 
que tinha aprendido a beber no colo do pai. Então, eu acho que somos quem 
somos por várias razões. E talvez nunca conheçamos a maior parte delas. Mas 
mesmo que não tenhamos o poder de escolher quem vamos ser, ainda 
podemos escolher aonde iremos a partir daqui. Ainda podemos fazer coisas. E 
podemos tentar ficar bem com elas. 
Acho que, se um dia eu tiver filhos e eles ficarem perturbados, não vou 
dizer a eles que as pessoas passam fome na China nem nada assim, porque 


isso não mudaria o fato de que eles estão transtornados. E mesmo que alguém 
esteja muito pior, isso não muda em nada o fato de que você tem o que você 
tem. É bom e mau. É como o que minha irmã disse quando eu estive no 
hospital por um tempo. Ela disse que estava realmente preocupada em ir para 
a faculdade, e considerando que eu estava melhorando, ela se sentia idiota por 
isso. Mas não sei por que ela se sentia idiota. Eu ficaria preocupado também. 
E, na verdade, não acho que teria feito melhor ou pior do que ela. Não sei. É 
tão diferente. Talvez seja bom colocar as coisas em perspectiva, mas às vezes 
acho que a única perspectiva é estar aqui. Como disse a Sam. Porque não há 
problema em sentir as coisas. E ser quem você é. 
Quando fui liberado ontem, minha mãe me levou para casa. Foi à tarde e 
ela me perguntou se eu estava com fome. Eu disse que sim. Então ela me 
perguntou o que eu queria, e eu disse que queria ir ao McDonald's, como 
fazíamos quando eu era pequeno, ficava doente e não ia à escola. Então nós 
fomos. E foi legal estar com minha mãe e comer batatas fritas. E depois
naquela noite, estar com a minha família no jantar e ver as coisas como 
sempre foram. Essa foi a parte maravilhosa. As coisas continuaram como 
sempre. Não falamos de nada pesado ou leve. Nós apenas estávamos juntos. 
E isso foi o bastante. 
Então, hoje meu pai foi para o trabalho. E minha mãe levou a mim e à 
minha irmã para cuidar das últimas coisas para minha irmã, porque ela vai para 
a universidade daqui a alguns dias. Quando voltamos, telefonei para a casa de 
Patrick, porque ele disse que Sam devia estar em casa. Ela atendeu o telefone. 
E foi ótimo ouvir a voz dela. 
Mais tarde, eles chegaram na picape de Sam. E fomos ao Big Boy como 
sempre fizemos. Sam nos falou de sua vida na faculdade, que parecia muito 
estimulante. E eu falei a ela de minha vida no hospital, que não tinha nada de 
estimulante. E Patrick fez piadas para manter todo mundo bem. Depois que 
saímos, fomos na picape de Sam e, como ela prometeu, fomos para o túnel. 
A uns setecentos metros do túnel, Sam parou o carro e eu pulei para trás. 
Patrick ligou o rádio bem alto para que eu pudesse ouvir dali, e quando nos 
aproximamos do túnel, ouvi a música e pensei em todas as coisas que as 
pessoas disseram para mim no ano passado. Pensei em Bill dizendo que eu era 


especial. E minha irmã dizendo que me amava. E minha mãe também. E até 
meu pai e meu irmão quando eu estava no hospital. Pensei em Patrick me cha-
mando de amigo. E pensei em Sam me dizendo para fazer coisas. Para estar 
presente. E pensei como era ótimo ter amigos e uma família. 
Quando chegamos ao túnel, eu não ergui os braços como se estivesse 
voando. Apenas deixei o vento bater no meu rosto. E comecei a chorar e 
sorrir ao mesmo tempo. Porque não consegui evitar sentir o quanto eu amava 
tia Helen por me dar dois presentes. E o quanto eu queria que o presente que 
eu comprei para dar à minha mãe no meu aniversário fosse especial. E o 
quanto eu queria que minha irmã e meu irmão, e Sam, Patrick e todos fossem 
felizes. 
Mas, principalmente, eu estava chorando, porque, de repente, tive 
consciência do fato de que eu estava de pé em um túnel, com o vento batendo 
no meu rosto. Não importava que eu visse a cidade. Nem mesmo que 
pensasse nisso. Porque eu estava de pé no túnel. E eu realmente estava ali. E 
foi o suficiente para que eu me sentisse infinito. 
Amanhã, começo no segundo ano do segundo grau. E, acredite ou não, 
eu não estou com nenhum medo de ir. Não sei bem se terei tempo de escrever 
mais cartas, porque estarei muito ocupado tentando "participar". 
Então, se esta for a minha última carta, por favor, acredite que está tudo 
bem comigo, e mesmo quando não estiver, ficará bem logo depois. 
E eu acredito que seja assim com você também. 
Com amor,
Charlie 
FIM

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