Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe



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As Vantagens de Ser Invisivel - Stephen Chbosky (2)


as 


Stephen chbosky 
invisível 


Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as
cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe 
a não ser pelo 
que ele conta ao amigo nessas correspondências , que vive entre a apatia e o 
entusiasmo, tateando territórios inexplorados, encurralado entre o desejo de 
viver a própria vida e ao mesmo tempo fugir dela. 
As dificuldades do ambiente escolar, muitas vezes ameaçador, as 
descobertas dos primeiros encontros amorosos, os dramas familiares, as festas 
alucinantes e a eterna vontade de se sentir "infinito" ao lado dos amigos são 
temas que enchem de alegria e angústia a cabeça do protagonista em fase de 
amadurecimento. Stephen Chbosky capta com emoção esse vaivém dos 
sentidos e dos sentimentos e constrói uma narrativa vigorosa costurada pelas 
cartas de Charlie endereçadas a um amigo que não se sabe se real ou 
imaginário. 
Íntimas, hilariantes, às vezes devastadoras, as cartas mostram um jovem 
em confronto com a sua própria história presente e futura, ora como um 
personagem invisível à espreita por trás das cortinas, ora como o protagonista 
que tem que assumir seu papel no palco da vida. Um jovem que não se sabe 
quem é ou onde mora. Mas que poderia ser qualquer um, em qualquer lugar 
do mundo. 


PARTE 
UM


25 de agosto de 1991 
Querido amigo, 
Estou escrevendo porque ela disse que você me ouviria e entenderia, e 
não tentou dormir com aquela pessoa naquela festa, embora pudesse ter feito 
isso. Por favor, não tente descobrir quem ela é, porque você poderá descobrir 
quem eu sou, e eu não gostaria que fizesse isso. Chamarei as pessoas por 
nomes diferentes ou darei um nome qualquer porque não quero que 
descubram quem sou eu. Não estou mandando um endereço para resposta 
pela mesma razão. E não há nada de ruim nisso. É sério. 
Só preciso saber que existe alguém que ouve e entende, e não tenta 
dormir com as pessoas, mesmo que tenha oportunidade. Preciso saber que 
essas pessoas existem. 
Acho que, de todas as pessoas, você entenderá, porque acho que você, 
entre todos os outros, está vivo e aprecia o que isso significa. Pelo menos eu 
espero que seja assim, porque os outros procuram por você em busca de força 
e amizade, e é tudo muito simples. Pelo menos foi o que eu soube. 
Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste 
ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim. 
Tento pensar na minha família como um motivo para que eu seja desta 
forma, principalmente depois que meu amigo Michael não foi à escola em um 
dia na primavera passada e ouvimos a voz do Sr. Vaughn nos alto-falantes: 
"Meninos e meninas, lamento informar que um de nossos alunos faleceu. 
Faremos uma cerimônia em memória de Michael Dobson durante a 
assembleia desta sexta-feira." 
Não sei como as notícias andam pela escola e por que em geral estão 
certas. Talvez tenha sido no refeitório. É difícil lembrar. Mas Dave, o dos 


óculos esquisitos, nos disse que Michael se matou. Sua mãe jogava bridge com 
uma das vizinhas e ouviu o tiro. 
Não me lembro bem do que aconteceu depois disso, exceto que meu 
irmão chegou à sala do Sr. Vaughn na minha escola e me disse para parar de 
chorar. Depois, colocou o braço no meu ombro e me disse para tentar ser 
forte antes que papai chegasse. Nós fomos comer batatas fritas no 
McDonald's e ele me ensinou a jogar pinball. Chegou até a brincar que, por 
minha causa, ele tinha perdido uma tarde na escola e me perguntou se eu 
queria ajudá-lo a trabalhar em seu Camaro. Acho que fiquei muito confuso, 
porque ele nunca havia me levado para trabalhar em seu carro. 
Nas sessões com o orientador educacional, pediram aos poucos de nós 
que realmente gostavam de Michael que dissessem algumas palavras. Acho 
que eles tinham medo de que alguns de nós tentassem se matar ou coisa 
parecida, porque pareciam muito tensos e um deles não parava de mexer na 
barba. 
Bridget, que é louca, disse que às vezes, na hora dos comerciais da tevê, 
pensava em suicídio. Ela foi sincera e isso confundiu o orientador. Cari, que é 
legal com todo mundo, disse que se sentia muito triste, mas não se mataria 
porque é pecado. 
O orientador dirigiu-se a todo o grupo e finalmente chegou a mim. 
― O que você acha, Charlie? 
O que havia de tão estranho nisso foi o fato de que eu nunca tinha visto 
este homem, porque ele era um "especialista" e sabia meu nome mesmo que 
eu não estivesse usando um crachá, como fazem nos eventos abertos ao 
público. 
― Bom, acho que Michael era um cara legal e não entendi por que ele fez 
aquilo. Apesar de me sentir muito triste, acho que o que realmente me 
aborrece é não entender o que aconteceu. 
Acabo de reler isso e não se parece com o modo como eu falo. 
Especialmente naquela sala, porque eu ainda estava chorando. Não parei de 
chorar nem por um minuto. 


O orientador disse que suspeitava que Michael tinha "problemas em casa" 
e achava que ele não tinha com quem conversar. Talvez ele se sentisse sozinho 
e por isso se matou. 
Então comecei a gritar para o orientador que Michael podia ter 
conversado comigo. E comecei a chorar ainda mais. Ele tentou me acalmar 
dizendo que ele quis dizer um adulto como ele, ou um professor, ou um 
psicólogo. Mas não funcionou, e por fim meu irmão foi à escola em seu 
Camaro para me pegar. 
Pelo resto do ano letivo, os professores me trataram de forma diferente e 
me deram notas melhores, apesar de eu não ter ficado mais inteligente. Para 
falar com franqueza, acho que eu os deixava nervosos. 
O funeral de Michael foi estranho, porque o pai dele não chorou. E três 
meses depois ele deixou a mãe de Michael. Pelo menos foi o que Dave me 
disse no refeitório. Às vezes eu penso nisso. Imagino o que acontecia na casa 
de Michael na hora do jantar e dos programas de tevê. Michael não deixou 
nem um bilhete, ou pelo menos seus pais não deixaram ninguém ver um. 
Talvez fossem "problemas em casa". Eu bem que gostaria de saber Assim eu 
sentiria a falta dele com mais clareza. A dor poderia fazer sentido. 
Uma coisa que eu sei é que isso me faz perguntar se tenho "problemas em 
casa", mas parece que muita gente tem problemas muito piores do que os 
meus. 
Por exemplo, quando o primeiro namorado da minha irmã começou a 
sair com outra garota e minha irmã chorou o fim de semana inteiro. 
Meu pai disse que "há pessoas que passam por coisa muito pior". 
Minha mãe ficou em silêncio. E acabou. Um mês depois, minha irmã 
conheceu outro cara e começou a ouvir música animada de novo. Meu pai 
continuou trabalhando. Minha mãe continuou varrendo. Meu irmão 
continuou consertando seu Camaro. Quer dizer, até que ele teve de ir para a 
faculdade no início do verão. Ia jogar futebol pela Penn State, mas precisou do 
verão para conseguir as notas certas para jogar futebol. 
Não acho que alguém fosse o favorito na minha família. Nós somos três e 
eu sou o mais novo. Meu irmão é o mais velho. Ele é um jogador de futebol 
muito bom e adora seu carro. Minha irmã é muito bonita, e má com os 


garotos, e é a filha do meio. Eu tiro nota máxima direto agora, como minha 
irmã, e é por isso que eles me deixam em paz. 
Minha mãe chora muito com os programas de tevê. Meu pai trabalha 
muito e é um homem honesto. Minha tia Helen costumava dizer que meu pai 
era orgulhoso demais para ter uma crise de meia-idade. Até agora não entendi 
o que ela quis dizer, porque ele acabou de fazer quarenta e nada mudou. 
Minha tia Helen era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. Ela era 
irmã da minha mãe. Só tirava A quando estava na escola e costumava me dar 
livros para ler. Meu pai disse que os livros eram muito antigos para mim, mas 
eu gostava deles, então ele dava de ombros e me deixava ler. 
Tia Helen morou com minha família nos últimos anos de sua vida porque 
às vezes aconteciam coisas muito ruins com ela. Ninguém me disse o que 
aconteceu na época, embora eu sempre quisesse saber. Quando eu tinha uns 
sete anos, parei de perguntar sobre isso, porque ficava perguntando sem parar, 
como as crianças sempre fazem, e tia Helen começava a chorar muito. 
Foi quando meu pai me deu um tapa, dizendo: "Você está ferindo os 
sentimentos da tia Helen!" Eu não queria fazer isso, então parei. Tia Helen 
disse a meu pai para nunca mais bater em mim na frente dela, e meu pai disse 
que a casa era dele e ele fazia o que queria, e minha mãe ficou quieta, como 
meu irmão e minha irmã. 
Não me lembro de muito mais do que isso porque comecei a chorar 
muito mesmo, e depois de algum tempo meu pai e minha mãe me levaram 
para o meu quarto. Foi só muito tempo depois que minha mãe bebeu uns 
copos de vinho branco e me disse o que tinha acontecido com a irmã dela. 
Algumas pessoas passam por coisas muito piores do que as minhas. É 
verdade. 
Acho que devo dormir agora. Está muito tarde. Não sei por que escrevo 
essas coisas para você ler. Estou escrevendo esta carta porque as aulas 
começam amanhã e estou com muito medo de ir. 
Com amor, 
Charlie 


7 de setembro de 1991 
Querido amigo, 
Eu não gosto do colégio. O refeitório é chamado de "Centro de 
Nutrição", o que é estranho. Tem uma garota na minha turma de inglês 
avançado chamada Susan. No primeiro grau, era muito divertido ter a Susan 
por perto. Ela gostava de cinema, e seu irmão Frank gravou para ela uma fita 
com aquela música ótima que ela compartilhava conosco. Mas, durante o 
verão, ela tirou o aparelho dos dentes, ficou um pouco mais alta e mais bonita 
e os peitos cresceram. Agora ela age como uma idiota nos corredores, espe-
cialmente quando os garotos estão por ali. E eu acho isso chato, porque Susan 
não parece feliz. Para dizer a verdade, ela não gosta de reconhecer que é da 
minha turma de inglês avançado, e não gosta de dizer "oi" para mim na en-
trada do colégio. 
Quando estava na reunião do orientador educacional sobre o Michael, 
Susan falou que Michael uma vez disse a ela que ela era a garota mais bonita 
do mundo, com aparelho nos dentes e tudo. Então ela pediu para "namorar 
ele", o que seria ótimo em qualquer escola. Ele disse que ia "namorar" no 
segundo grau. E eles se beijaram e falaram de cinema, e ela sentiu 
terrivelmente a morte dele porque era seu melhor amigo. 
É divertido, também, porque normalmente os meninos e meninas não 
eram bons amigos na minha escola. Mas Michael e Susan eram. Como entre 
mim e tia Helen. Opa, desculpe. "Entre tia Helen e mim." Foi uma coisa que 
aprendi esta semana. Isso e a fazer uma pontuação correta. 
Fiquei em silêncio a maior parte do tempo, e só um garoto chamado Sean 
realmente pareceu perceber minha presença. Estava esperando por mim 
depois da aula de educação física e disse coisas muito infantis, tipo que ele iria 
me dar um "caldo", que é quando alguém enfia sua cabeça na privada e dá 
descarga para fazer seu cabelo redemoinhar. Ele parecia muito infeliz também, 


e eu disse isso a ele. Depois ele enlouqueceu e começou a bater em mim, e 
então fiz as coisas que meu irmão me ensinou. Meu irmão é um lutador muito 
bom. 
"Bata nos joelhos, na garganta e nos olhos." 
E foi o que eu fiz. E acabei machucando o Sean de verdade. E depois ele 
começou a chorar. Minha irmã teve de sair da sala dos veteranos e me levar 
para casa. Fui chamado na sala do Sr. Small, mas não fui suspenso nem nada 
porque um garoto disse ao Sr. Small a verdade sobre a briga. 
"Foi o Sean que começou. Foi legítima defesa." 
E foi mesmo. Eu não entendo por que o Sean queria bater em mim. Eu 
não fiz nada a ele. E sou muito pequeno. Mas acho que o Sean não sabia que 
eu sabia lutar. A verdade é que eu podia tê-lo machucado muito mais. E talvez 
tivesse feito. Acho que faria, se ele tivesse perseguido o garoto que disse a 
verdade ao Sr. Small, mas Sean nunca fez isso. Então, as coisas foram 
esquecidas. 
Alguns garotos me olharam de uma forma estranha no corredor porque 
não decorei o segredo da minha fechadura, sou o cara que bateu no Sean e 
não consegui parar de chorar depois disso. Acho que sou muito sentimental. 
Tenho estado muito só porque minha irmã está ocupada sendo a mais 
velha da família. Meu irmão está ocupado sendo um jogador de futebol na 
Penn State. Depois do treino no campo, o treinador disse que ele era reserva, 
mas quando aprendesse o sistema, seria titular. 
Meu pai torce muito para que ele se profissionalize e jogue nos Steelers. 
Minha mãe só está feliz por ele ter ido para a faculdade de graça, porque 
minha irmã não joga futebol e não haveria dinheiro bastante para mandar os 
dois para a universidade. É por isso que ela quer que eu dê duro na escola, 
porque assim consigo uma bolsa de estudos. 
Então é isso o que estou fazendo até encontrar um amigo por aqui. Eu 
espero que o garoto que disse a verdade seja meu amigo, mas acho que ele só 
estava sendo um bom garoto contando tudo. 
Com amor,
Charlie 


11 de setembro de 1991 
Querido amigo, 
Eu não tenho muito tempo porque meu professor de inglês avançado me 
deu um livro para ler e gosto de ler os livros duas vezes. Por acaso, o livro é O 
sol nasce para todos. Se você ainda não leu, acho que deve, porque é muito 
interessante. O professor me disse para ler alguns capítulos de cada vez, mas 
eu não gosto de ler os livros dessa forma. Leio logo metade dele na primeira 
vez. 
Mas eu estou escrevendo porque vi meu irmão na televisão. 
Normalmente não gosto muito de esportes, mas essa foi uma ocasião especial. 
Minha mãe começou a chorar, e meu pai colocou o braço em seu ombro, e 
minha irmã sorriu, o que é engraçado, porque meu irmão e minha irmã sempre 
brigam quando ele está por aqui. 
Mas meu irmão mais velho estava na televisão, e até agora foi a melhor 
coisa que aconteceu em minhas duas semanas de escola. Sinto muita falta dele, 
o que é estranho, porque nós nunca conversamos muito quando ele está aqui. 
Nós não conversamos nunca, para ser sincero. 
Eu diria a você em que posição ele joga, mas, como eu já lhe disse, 
gostaria de ser anônimo para você. Espero que você entenda. 
Com amor, 
Charlie 


16 de setembro de 1991 
Querido amigo, 
Terminei de ler O sol nasce para todos. Agora é meu livro favorito, mas 
sempre acho que um livro é meu favorito até eu ler outro. Meu professor de 
inglês avançado me pediu para chamá-lo de "Bill" quando não estivéssemos 
em aula, e me deu outro livro para ler. Ele diz que eu tenho uma grande 
habilidade em leitura e compreensão, e queria que eu escrevesse um trabalho 
sobre O sol nasce para todos. 
Mencionei isso para minha mãe e ela me perguntou por que Bill não 
recomendou que eu apenas fosse para uma turma de segundo ano. E eu contei 
a ela que Bill disse que eram basicamente as mesmas turmas com livros mais 
complicados, e que isso não me ajudaria. Minha mãe disse que ela não tinha 
certeza e conversaria com ele durante a reunião de pais. Depois, ela me pediu 
para ajudá-la a lavar os pratos, o que eu fiz. 
Sinceramente, eu não gosto de lavar pratos. Gosto de comer com os 
dedos e sem guardanapo, mas minha irmã diz que fazer isso é ruim para o 
meio ambiente. Ela participa do grupo ambientalista da escola secundária e é 
lá que ela conhece os garotos. Eles são todos muito legais com ela, e não 
entendo bem por quê, a não ser pelo fato, talvez, de que ela é bonita. Ela 
realmente maltrata muito aqueles caras. 
Um garoto foi particularmente duro. Não vou lhe dizer o nome dele. Mas 
vou lhe contar tudo sobre ele. Tinha um cabelo castanho muito bonito e o 
usava comprido e com um rabo-de-cavalo. Acho que ele vai se arrepender 
quando pensar no que fez. Ele estava sempre gravando fitas para minha irmã 
com temas muito específicos. Uma se chamava "Folhas de Outono". Ele 
incluiu muitas canções dos Smiths. Fez até uma capa colorida. Depois que o 
filme que ele pegou na locadora terminou, minha irmã me deu a fita. "Quer 
para você, Charlie?" 


Peguei a fita, mas achei estranho, porque ele tinha gravado para ela. Mas 
ouvi. E adorei. Tem uma canção chamada "Asleep" que eu gostaria que você 
ouvisse. Falei com minha irmã sobre isso. E uma semana depois ela agradeceu 
a mim, porque quando o garoto perguntou a ela sobre a fita, ela disse 
exatamente o que eu tinha dito sobre a canção "Asleep", e ele ficou muito 
emocionado por causa do significado que teve para ela. Espero que isso 
signifique que eu serei bom em namorar quando tiver idade para isso. 
Mas eu tenho que ir direto ao assunto. É isso que Bill, meu professor, me 
diz para fazer, porque escrevo como eu falo. Acho que é por isso que ele quer 
que eu escreva um trabalho sobre O sol nasce para todos. 
Esse cara que gosta da minha irmã é sempre respeitoso com meus pais. 
Minha mãe gosta muito dele por causa disso. Meu pai o acha gentil. Eu acho 
que é por isso que minha irmã faz o que faz com ele. 
Teve uma noite em que ela disse coisas muito cruéis sobre como ele não 
enfrentou o valentão da turma quando tinha quinze anos ou coisa parecida. 
Para falar a verdade, eu estava vendo o filme que ele tinha alugado, então não 
estava prestando muita atenção na briga. Eles brigam o tempo todo, e então 
imaginei que o filme seria pelo menos um pouco diferente, e acabou que não 
era, porque era uma sequencia. 
De qualquer forma, depois que ela se encostou nele por umas quatro 
cenas do filme, o que acho que durou uns dez minutos ou mais, ele começou a 
chorar. E chorou muito. Depois, eu me virei e minha irmã estava apontando 
para mim. 
"Tá vendo? Até o Charlie enfrentou um valentão. Tá vendo?" 
E o cara ficou muito vermelho. E olhou para mim. Depois olhou para ela. 
E ele ergueu o braço e desceu a mão na cara da minha irmã. Bateu forte 
mesmo. Eu gelei, porque não consegui acreditar que ele tinha feito aquilo. Ele 
não era o tipo de cara que bate em alguém. Ele era o cara que gravava fitas 
com temas e fazia capas coloridas, até que bateu na minha irmã e ela parou de 
chorar. 
A parte esquisita é que minha irmã não fez nada. Ela s olhou para ele em 
completo silêncio. Isso foi muito estranho. Minha irmã fica furiosa se você 
come o tipo errado d atum, mas aqui estava um cara batendo nela, e ela não 


disse nada. Só ficou dócil e amável. E me pediu para sair, que eu fiz. Depois 
que o garoto foi embora, ela disse que eles estavam "terminando" e que eu não 
contasse à mamãe e ao papai o que tinha acontecido. 
Acho que ele enfrentou o valentão dele. E acho que isso faz sentido. 
Naquele fim de semana, minha irmã passou um tempão com esse cara. E 
eles riram muito mais do que em geral faziam. Na sexta à noite, eu estava 
lendo meu livro novo, mas minha cabeça estava cansada, então decidi ver um 
pouco de televisão, em vez de ler. E abri a porta para o porão, e minha irmã e 
o namorado estavam nus. 
Ele estava por cima dela, e suas pernas dobradas de cada lado do sofá. E 
ela sussurrou para mim: 
"Vá embora. Seu pervertido." 
Então eu saí. No dia seguinte, nós todos vimos meu pai jogar futebol. E 
minha irmã convidou o cara. Não tenho certeza se ele foi para casa na noite 
anterior. Estavam de mãos dadas e agiam como se estivessem muito felizes. E 
esse cara disse alguma coisa sobre o time de futebol não ser o mesmo desde 
que meu irmão se formou, e meu pai agradeceu a ele. E quando o cara foi 
embora, meu pai disse que esse garoto estava se tornando um homem 
educado, que sabia se comportar. E minha mãe ficou em silêncio. E minha 
irmã olhou para mim para ter certeza de que eu não diria nada. E foi assim. 
"É. Ele é." Foi tudo o que minha irmã conseguiu dizer. 
E eu podia ver esse cara na casa dele fazendo seu dever da escola e 
pensando na minha irmã nua. E podia ver os dois de mãos dadas nos jogos de 
futebol a que eles não assistiam. E podia ver esse cara vomitando no jardim 
em uma festa. E podia ver minha irmã se sujeitando a ele. E eu achei isso 
muito ruim para os dois. 
Com amor,
Charlie 


18 de setembro de 1991 
Querido amigo, 
Já lhe contei que estou na turma de trabalhos manuais? Bom, eu estou na 
turma de trabalhos manuais e é minha aula favorita depois da aula de inglês 
avançado de Bill. Escrevi o trabalho sobre O sol nasce para todos na noite 
passada e entreguei a Bill esta manhã. Ficamos de falar sobre isso durante o 
almoço de amanhã. 
A questão, contudo, é que tem um cara na minha turma de trabalhos 
manuais chamado "Nada". Não estou brincando. O nome dele é "Nada". E 
ele é hilário. "Nada" ganhou esse nome quando as crianças o sacaneavam no 
primeiro grau. Acho que ele é um veterano agora. Os garotos começaram a 
chamá-lo de Patty, quando o nome dele na verdade é Patrick. E "Nada" disse 
aos garotos: "Olha só, tanto faz que vocês me chamem de Patrick ou de 
nada.” 
Assim, os garotos começaram a chamá-lo de "Nada". E o nome acabou 
pegando. Ele era novo no bairro na época porque o pai dele tinha se casado 
pela segunda vez com uma mulher dessa região. Acho que vou parar de 
colocar aspas em Nada porque é chato e interrompe o fluxo do que escrevo. 
Espero que você não ache difícil me acompanhar. Terei o cuidado de 
diferenciar se for necessário. 
Então, na aula de trabalhos manuais, o Nada começou a fazer uma 
imitação muito engraçada de nosso professor, o Sr. Callahan. Ele chegou a 
pintar costeletas com um lápis de cera. Hilário. Quando descobriu o Nada 
fazendo isso perto da lixadeira, o Sr. Callahan riu, porque o Nada não estava 
fazendo a imitação por maldade nem nada assim. É só que era engraçado. Eu 
queria que você estivesse lá, porque eu nunca ri tanto desde que meu irmão foi 
embora. Meu irmão costumava contar piadas de polonês, o que eu sei que é 
errado, mas eu bloqueava a parte do polonês e ouvia as piadas. Era hilário. Ah, 


aliás, minha irmã me pediu a fita "Folhas de Outono" de volta. Agora ela ouve 
a fita o tempo todo. 
Com amor,
Charlie 


29 de setembro de 1991 
Querido amigo, 
Tenho um monte de coisas para contar a você sobre as duas últimas 
semanas. Muita coisa boa, mas muita coisa ruim também. Mais uma vez, não 
sei por que isso sempre acontece. 
Para começar, Bill me deu uma nota C por meu trabalho sobre O sol 
nasce para todos, porque ele disse que eu misturo minhas frases. Agora estou 
tentando não fazer desse jeito. Ele também disse que eu devo usar as palavras 
do vocabulário que eu aprendo na aula, como "corpulento" e "icterícia". Eu as 
usaria aqui, mas não acho que sejam apropriadas para um texto como este. 
Para falar a verdade, eu não sei onde elas são apropriadas. Não estou 
dizendo que você não deve conhecê-las. Você conhece, com toda certeza. Mas 
é só que eu nunca ouvi ninguém usando as palavras "corpulento" e "icterícia" 
em toda minha vida. E isso inclui os professores. Então, por que usar palavras 
que ninguém conhece ou usa normalmente? Essa é uma coisa que eu não 
entendo. 
Acho a mesma coisa de algumas estrelas de cinema a que são terríveis de 
assistir. Algumas daquelas pessoas devem ter um milhão de dólares pelo 
menos, e, ainda assim, elas continuam fazendo esses filmes. Elas se destroem 
com os caras errados. Elas gritam com seus seguranças. Eles dão entrevistas a 
revistas. Toda vez que eu vejo uma certa atriz de cinema em uma revista, não 
consigo deixar de sentir pena delas, porque ninguém as respeita de jeito 
nenhum, e ainda assim elas continuam dando entrevistas. E todos os entre-
vistadores dizem a mesma coisa. 
Eles começam dizendo o que elas comem em um determinado 
restaurante. "Enquanto mastigava lentamente sua salada de frango chinês, -
____ falou de amor." E todas as capas dizem a mesma coisa: "____ revela o 
que pensa do sucesso, do amor e de seu novo filme/programa de tevê/disco." 


Acho que é legal para as estrelas darem entrevistas para fazer com que a 
gente pense que elas são como nós, mas, para falar com franqueza, tenho a 
sensação de que é tudo uma grande farsa. O problema é que eu não sei quem 
está mentindo. E eu não sei por que essas revistas vendem tanto. E não 
entendo por que as mulheres no consultório do dentista gostam tanto delas. 
No sábado passado, eu estava no dentista e ouvi essa conversa: 
― Você viu esse filme? ― Ela apontou para a capa. 
― Vi. Fui ver com o Harold. 
― O que você achou? 
― Ela estava simplesmente maravilhosa. 
― Ah, é. Ela é maravilhosa mesmo. 
― Ah, eu fiz essa receita nova. 
― É de baixa caloria? 
― Hum-hum. 
― Tem algum tempo livre amanhã? 
― Não. Por que você não diz ao Mike para mandar um fax ao Harold? 
― Está bem. 
Então essas mulheres começaram a falar de uma atriz que eu mencionei 
antes, e as duas tinham opiniões muito fortes: 
― Acho que é uma vergonha. 
― Você leu a entrevista na Good Housekeeping! 
― De meses atrás?
― É. 
― Uma vergonha. 
― Você leu aquela na Cosmopolitan? 
― Não. 
― Meu Deus, foi praticamente a mesma entrevista. 
― Não sei por que ainda dão bom-dia a ela. 
O fato de que uma dessas mulheres era minha mãe me chateou 

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