Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade



Baixar 164.36 Kb.
Página1/2
Encontro17.03.2020
Tamanho164.36 Kb.
  1   2

Uma Sociedade Libertária nos Trópicos

José De Nicola Neto



para Lucas Santiago

“Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.”


(Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago)

O OLHAR ESTRANGEIRO SOBRE O BRASIL: Gravura de Theodore de Bry (1592)


A gravura do holandês Theodore de Bry (nascido em 1528) retrata um ritual de canibalismo dos índios tupinambás. Era costume, entre vários povos indígenas, comer seus adversários; acreditavam que com isso o espírito guerreiro do inimigo se incorporava ao seu. O homem branco, que acompanha horrorizado a cena em que os índios comem pedaços de carne humana, seria o alemão Hans Staden, que, em 1554, foi feito prisioneiro pelos índios tupinambás no litoral de São Paulo.

O OLHAR ESTRANGEIRO SOBRE O BRASIL: Albert Eckhout. Índia Tarairiu, óleo sobre tela (1641)


O holandês Eckhout (nascido em 1610) veio para o Brasil a convite de Maurício de Nassau, durante a invasão holandesa. Na tela, temos retratada uma mulher do grupo dos tarairiús, indígenas que habitavam no Rio Grande do Norte. Eckhout, em seus retratos, tanto valoriza o elemento humano como a paisagem tropical que o envolve. Observe nessa índia alguns acréscimos e traços europeizantes, como as sandálias, e a ênfase à prática antropofágica: no cesto que carrega às costas, como se fosse um fruto tropical, um pé humano.

Ana Maria Beluzzo, em texto para o catálogo da XXIV Bienal de São Paulo, cujo tema foi ‘Antropofagia e histórias de canibalismo’, comenta: “Na fabulação desencadeada com o ciclo das descobertas, o homem sonha com míticos Eldorados ao sul do Equador. O Éden encontra-se na América, onde vive o bom selvagem. Em contrapartida, a quarta parte do universo recentemente descoberta corresponde aos mundos inferiores - inferus em grego, raiz da palavra inferno -, com seus monstros marinhos, abismos povoados de criaturas insólitas e tribos de comedores de carne humana. O bom selvagem e o canibal, a visão paradisíaca e a visão infernal são efetivamente as metáforas mais freqüentes reproduzidas pelos europeus sobre o homem e a terra americana ao longo dos séculos XVI e XVII.”

Sempre que descrevemos algo muito particular ou mesmo absolutamente novo, apoiamo-nos em alguns referentes que supomos devidamente conhecidos por nossos eventuais interlocutores; trata-se de, por meio de comparações, introduzir o conhecido no desconhecido.

Assim procedeu, por exemplo, Pero Vaz de Caminha quando descreveu o osso arredondado que alguns índios usavam no lábio inferior: “Metem-nos [os ossos] pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez...”. Ora, supunha Caminha que os leitores de sua Carta conhecessem xadrez e, em particular, a peça que chamamos ‘torre’ (ou ‘roque’) e relacionassem o formato arredondado da parte superior dessa peça ao osso referido. Ou então, para passar uma imagem idealizada do clima do sul da Bahia, Caminha estabelece um paralelo com os “ares frescos e temperados de Entre-Douro-e-Minho” (região ao norte de Portugal).

Ao longo de todo o século XVI e avançando até meados do século XVII, assim procederam outros europeus que descreveram a terra, a fauna, a flora e, principalmente, as gentes que habitavam estas terras tropicais. As referências refletiam uma visão de mundo eurocêntrica, incluindo aí uma ordem social tipicamente absolutista e mercantilista, em tudo distinta da ordem social, moral e cultural dos índios.

É o que podemos perceber nos fragmentos selecionados de Pero de Magalhães Gândavo, um português renascentista, bom gramático, professor de latim, amigo de Camões, que por aqui andou lá pelos idos de 1565/70.






Compartilhe com seus amigos:
  1   2


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal