Análise sobre os métodos e conceitos em História Cultural



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Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura (2002), trava um debate em cima

do discurso de outro Historiador – Roger Chartier, em que tal discurso, aborda as tensões

entre a História Social e a Cultural. Dentro deste debate, a problemática a ser analisada é a

forma   com   que   o   conceito   de   cultura   imerso   a   Historia   Cultural   ganhou   dimensões

ampliadas, a ponto de não poder ser classificado como sinônimo de uma análise única ou

singular. A História Cultural passa então a estudar o seu objeto no decurso de múltiplos

olhares.

A realidade da tensão não implica porém um retorno ou resgate das velhas e

conhecidas   metáforas   espaciais,   e   das   interpretações   ou   “explicações”   delas

outrora   derivadas.   Aliás,   seria   agora   praticamente   impossível   conceber   este

retorno, pois, com o emergir da “história vista de baixo” e da “historia da cultura

popular”, a alusão ao “lugar” passou a ser sobretudo a própria condição da crítica

das formas mais tradicionais tanto de se escrever a história quanto de conceber o



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cultural. Ficou então problemático reduzir a cultura ou cultural à ideologia ou, o

que vem a dar no mesmo,  situá-la  na chamada  superestrutura. O estudo das

práticas   culturais   ampliou-se   consideravelmente,   abarcando   tanto   as   atitudes

subjacentes à vida cotidiana como a chamada cultura material (...).

(...) “os métodos quantitativos podem até transformar-se em coluna vertebral da

nova história cultural; mas não podem mostrar-nos o passado em carne e osso”

(...). (FALCON, 2002, pp. 88-89) 

Nota-se que a História Cultural vem perpassando por uma transformação no seu

campo de abordagens historiográfica. Ela vai se desprendendo da utilização da  História



quantitativa e passa a adotar o campo da micro-história

Com a micro-história, o historiador pretende canalizar suas observações para um

foco, em que este estudioso venha ter selecionado. Deste modo, o pesquisador consegue

perceber as nuanças, ou seja, algo a mais que talvez não fosse percebido através de um

olhar mais amplo. Esta prática historiográfica, portanto, evidencia a corroboração do modo

como é visto o seu objeto, e não só pelo o que é visto.      

Quando os historiadores utilizam o campo da  micro-história, eles observam as

especificidades   do   seu   objeto   de   estudos,   que   certamente,   os   revelarão   informações

importantes   para   sua   pesquisa.   “Quando   um   micro-historiador   estuda   uma   pequena

comunidade, ele não estuda propriamente a pequena comunidade, mas estuda através da

pequena comunidade”. (BARROS, 2004, p. 153)

Considerando  o  grau  de eficiência  que  a  micro-história  proporciona  quando  é

aplicada na prática a sua metodologia, testemunhamos que o elemento fundamental está

voltado para compreensão mais precisa possível daquilo que foi proposto para realização do

estudo. Para isso, “o que importa para a micro-história não é tanto a unidade de observação,

mas a escala de observação utilizada pelo historiador, o modo intensivo como ele observa, e

o que ele observa”. (BARROS, 2004, p. 154)

A abordagem com que o campo da micro-história se propõe, busca desempenhar

uma exaustiva análise das fontes, objetivando então, a peculiaridade dos indícios, vestígios

ou qualquer sinal vital que possa contribuir para a construção de um raciocínio, do ponto de

vista historiográfico. Logo, esta construção só pode ser possível a partir do momento em

que as fontes são interpretadas. Todavia, as fontes históricas não podem ser consideradas

como meros repositórios de documentos. É necessário, portanto, analisar e problematizar



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todas   e   quaisquer   fontes,   para   que   se   possa   de   fato,   compreender   o   seu   grau   de

complexidade e o que realmente estas fontes estão expressando. 

Esta   é   a   tarefa   do   historiador   independentemente   do   campo   ou   corrente

historiográfica que ele está utilizando. É preciso formular as perguntas adequadas a cada

tipo de fonte para que em seguida, possamos obter respostas, ainda que, num primeiro

momento sejam respostas meramente parciais.

A   História   Cultural   através   dos   seus   múltiplos   campos   permite-nos   analisar   o

nosso objeto de estudo com diversos enfoques. É por este motivo que a História Cultural

vem sendo cada vez mais considerado fator essencial nas realizações das pesquisas.

Outro considerável historiador que faz menção à importância das especialidades e

abordagens que a História Cultural traz em seu ímpetro é Michel de Certeau. Em sua obra



A cultura no plural (2005), a pesquisadora Luce Giard dedicou ao autor algumas páginas

introdutórias intituladas de a invenção do possível. Vejamos conforme a citara a seguir:  

Historiador da primeira modernidade da Europa, do século XVI ao XVIII, Michel

de Certeau privilegiou o estudo do campo religioso e da experiência dos místicos,

nessas épocas tumultuadas em que a tradição cristã se fragmentava em igrejas

rivais,   quando   mais   lúcidos   viam   se   obscurecendo   os   sinais   de   Deus   e   se

encontravam obrigados a buscar no segredo da aventura interior a certeza de uma

presença divina que se tornara inapreensível no exterior. Acerca desse processo

de emancipação Certeau investigou com respeito e uma espantosa delicadeza os

caminhos obscuros, não para julgar uns ou outros, nem para apontar o domino da

verdade e do direito legítimo, mas para aprender com o passado como um grupo

social supera o eclipse da sua crença e chega a obter beneficio das condições

impostas   para   inventar   sua   própria   liberdade,   criar   para   si   um   espaço   de

movimentação. 

(

CERTEAU, 2005, p. 7)



Nota-se por meio desta citação, uma proeminência com qual  Michel de Certeau

aponta indícios para uma ruptura dos paradigmas existentes nas mentalidades da sociedade

desta época. O campo religioso começa a deixar de ser o foco principal para a condição de

regência da sociedade. É bastante nítido que a mudança de mentalidades desta determinada

sociedade a qual a citação faz menção, se refere à passagem do período Medieval para o

período   do   mundo   Moderno.   Ou   seja,   a   característica   fundamental   é   justamente   a

transformação   do   pensamento   teocêntrico   para   outro   novo   denominado   de



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antropocentrismo. Em páginas seguintes temos relatos teóricos da maneira como  Michael



de Certeau compreende a existência da ação cultural e sua perpetuação. Vejamos o texto:

Certeau prover mais profundamente e mais longe, aspirando a compreensão e de

sua fantasia, e repetia sempre que nenhuma ação cultural ou política que seja

inventiva e apoiada no real pode nascer de uma deficiência do pensamento ou se

alimentar do desprezo do próximo. Ele desconfiava da visão, tão generalizada,

que concebia a ação cultural e social como chuva benéfica que levava à classe

popular   as   migalhas   caídas   da   mesa   dos   letrados   e   dos   poderosos.   Estava

igualmente convencido de que nem a invenção, nem a criatividade são apanágio

dos   profissionais   do   assunto   e   que,   dos   práticos   anônimos   aos   artistas

reconhecidos, milhares de redes informais fazem circular, nos dois sentidos, os

fluxos de informação e garantem esses intercâmbios sem os quais uma sociedade

se asfixia e morre. (CERTEAU, 2005, p. 9)   

Fica   claro   então   que   a   cultura   é   produzida   através   de   trocas   múltiplas.   Há,

portanto, uma reciprocidade nas trocas de informações que resulta na ação cultural. Desta

forma, a sociedade continua não só existindo como também sobrevivendo. Assim sendo, a

ação cultural não é uma dádiva ou uma exclusividade dos letrados e sim um ciclo em

constante movimento decorrente da sociedade.  




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