Anões de jardim, objetos do mal e o lugar de não-coleçÕes marize Malta / Universidade Federal do Rio de Janeiro


  ANÕES DE JARDIM, OBJETOS DO MAL E O LUGAR DE NÃO-COLEÇÕES



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ANÕES DE JARDIM, OBJETOS DO MAL E O LUGAR DE NÃO-COLEÇÕES 

Marize Malta / Universidade Federal do Rio de Janeiro 



Simpósio 1- A arte compartilhada: coleções, acervos e conexões com a história da arte 

 

angústias de seu dono, o homem em solidão que o comprara num antiquário e 



fora envenenado pela esposa, que vendera tudo para sumir com o amante. 

Como Kobold, os anões de jardim foram assumindo um protagonismo peculiar, 

típico  de  testemunhas  mudas  que  olham  e  ouvem  com  clareza  (veem  sem 

olhos de ver e ouvem sem ouvidos de ouvir)(TELLES, p.101), percebem além 

da  superficialidade,  mas  são  impedidos  de  serem  ouvidos,  levados  em 

consideração  ou  de  poderem  se  movimentar,  como  os  homens.  São  tão 

simples, por vezes ridículos, que suas existências não são levadas em conta. É 

nessa contradição que Lygia Fagundes Telles se coloca, dando voz a um anão 

de  jardim  na  solidão  de  sua  condição  de  objeto  inanimado.  Por  outro  lado, 

Kobold era diferente: “A diferença é que os anões decorativos são risonhos e 

eu sou um anão sério” (TELLES, p.99). 

Anões sérios 

Segundo  versões  das  lendas  nórdicas,  encontradas  na  Edda  Poética  e  na 

Edda em Prosa, de Snorri Sturluson

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, quatro anões surgiram espontaneamente 



dos  restos  mortais  do  gigante  Ymir  e  receberam  dos  deuses  inteligência  e 

forma  humanóide  (FLAMARION,  p.15),  sendo  designados  a  se  posicionarem 

sob  os  quatro  pontos  cardeais  para  sustentarem  o  mundo.  Todos  os  demais 

anões foram deles descendentes. 

Diferente da  tradição  cristã,  a  mitologia  nórdica  não  operava  com  a  dualidade 

absoluta do Bem e do Mal e seus seres primordiais herdaram  a 

imperfeição do 

gigante Ymir, já presente no caos inicial, passando para os seres e as etapas 

posteriores do universo (FLAMARION, p.20).  As imperfeições também têm eco 

na  mitologia  greco-romana,  mas  nesta,  os  deuses  são  imortais,  venerados  e 

reproduzidos  por  gerações  e  gerações  de  artistas  europeus,  incorporados  em 

representações  do  belo  ideal.  Os  deuses  nórdicos  são  mortais  e  não  foram 

valorizados pelas representações da arte  nem por suas histórias. E ainda são 

cercados por anões.  A situação procuraria  ser revertida no século XIX diante 

da  valorização  das  histórias  ancestrais  das  nações  e  obteve  redenção  na 

espetacular multiópera 



O anel de Nibelungo

, de Richard Wagner, composta por 



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