Anões de jardim, objetos do mal e o lugar de não-coleçÕes marize Malta / Universidade Federal do Rio de Janeiro


  ANÕES DE JARDIM, OBJETOS DO MAL E O LUGAR DE NÃO-COLEÇÕES



Baixar 144.66 Kb.
Pdf preview
Página16/20
Encontro17.03.2020
Tamanho144.66 Kb.
1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   20
2135 

ANÕES DE JARDIM, OBJETOS DO MAL E O LUGAR DE NÃO-COLEÇÕES 

Marize Malta / Universidade Federal do Rio de Janeiro 



Simpósio 1- A arte compartilhada: coleções, acervos e conexões com a história da arte 

 

matas e florestas onde julgam ser seu habitat natural. Outros, menos radicais, 



levam-nos para passear, mandam fotos em locais turísticos para seus donos e 

depois  retornam  (felizes)  ao  seu  lugar  de  origem,  fonte  de  inspiração  para  o  

filme  O  fabuloso  destino  de  Amelie  Poulin.  A  protagonista, preocupada com  a 

reclusão do pai, faz com que seu anão de jardim passeie pelo mundo,  mande 

fotos e convença seu dono a aproveitar a vida, seguindo seu exemplo. 

No  Brasil,  alguns  anões  sumiram  dos  jardins  da  entrada  da  cidade  de  Bento 

Gonçalves e apareceram em Caxias do Sul com 

um letreiro “Fuzimo de Bento” 

(uma  sátira  ao  forte  sotaque  italiano  da  região).  Os  moradores  da  cidade, 

indignados,  trataram  de  repor  os  personagens  no  mesmo  lugar  e  contrataram 

até vigia para evitar outro sequestro. Mas o tempo foi passando e na noite em 

que  o  vigia  faltou,  eles  reaparecerem  em  Caxias  do  Sul  com  outro  letreiro: 

“Fuzimo de novo” (MARTINELLI). 

O movimento francês que tem como lema “Liberdade para os gnomos” objetiva 

livrar  esses  seres de  sua  representação  kitsch,  o  que  comprometeria  sua  rica 

mitologia,  lendas  e  atributos.  Não  podemos  nos  esquecer  que  os  anões  são 

seres míticos de importância, como nos esclarece os poemas Eddas. Anões de 

jardim, entretanto, caíram no gosto popular  e transpuseram territórios, origens 

e  tempos,  apesar  da  permanência  de  certo  estereótipo.  Alguns  se 

transformaram em objetos animados (veem,  escutam, sentem e agem). Nós é 

que insistimos em não vê-los nem neles acreditar, impondo-lhes uma maldição.  

Anões  de  jardim,  como  objetos  do  mal,  fazem  parte  do  que  poderíamos 

chamar, parafraseando Franz Kafka, curiosidades invisíveis, que  poderiam ser 

locais,  monumento  e  obras  de  arte  que  não  podem  ser  vistos  ou  objetos 

entrevistos,  sugeridos,  perdidos  ou  ainda  como  algo  que  está  presente  de 

forma  incompleta  (GEKOSKI,  p.  9,  11).  Kafka  com  Max  Brod,  depois  de 

enfrentar  horas  de  fila,  visitou,  como  muitos,  a  ausência  da  Mona  Lisa  no 

Louvre quando foi roubada em agosto de 1911. A ausência era mais fascinante 

do que sua presença. A partir desse fato podemos pensar que existem tantas 

obras  de  arte  e  tantas  obras  em  coleções  que  as  ausências  acabam  por 



1   ...   12   13   14   15   16   17   18   19   20


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal