Anais do I simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica



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Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica 

 



 



Cartografia de um “engano”: 

Navegabilidade e integração territorial na Bahia colonial 

 

Caio Figueiredo Fernandes Adan



1

 

Universidade Estadual de Feira de Santana - Departamento de Ciências Humanas e Filosofia  



caioadan@gmail.com. 

 

 



RESUMO 

Em um mapa de fins do século XVI, representando a cidade de Salvador e o seu entorno, o Recôncavo da 

Baía de Todos os Santos, um detalhe é digno de atenção: a localização, no interior da dita baía, da ilha de 

Boipeba.  Localizada  a  uma  distância  aproximada  de  100  quilômetros  dali,  na  direção  do  sul,  a  dita  ilha 

sequer  pertencia  à  Real  Capitania  da  Bahia,  estando  em  verdade  adjudicada  à  donataria  de  Ilhéus.  Sua 

trajetória  histórica,  contudo,  esteve  intimamente  ligada  à  dinâmica  colonizadora  baiana,  tendo  se 

notabilizado como celeiro produtor de alimentos destinados ao abastecimento dos engenhos açucareiros e 

vilas  de  Salvador  e  seu  Recôncavo.  Nesse  sentido,  e  na  esteira  das  reflexões  que  enfatizam  o  registro 

cartográfico menos como retrato fiel de uma realidade geográfica exterior e mais como representação de um 

conjunto  de  relações  espaciais,  o  que  a  presente  comunicação  propõe  é  a  possibilidade  de  pensar  esse 

registro em específico como uma “metáfora espacial”, reveladora da estreiteza dos laços que vinculavam a 

dita  ilha  ao  sistema  social,  econômico  e  militar  da  capitania  da  Bahia.  Sob  esse  viés,  busca  destacar  a 

centralidade da produção de alimentos para a reprodução da economia agro-exportadora, e a importância 

da  navegação  como  elemento  de  integração  territorial  na  colônia,  corroborando,  assim,  proposições 

relativas  à  historicidade  das  formas  regionais,  especificamente  no  que  toca  à  idéia  de  um  “Recôncavo 

Histórico” da Bahia. 

PALAVRAS-CHAVE:  América  Portuguesa;  Capitania  Real  da  Bahia;  Baía  de  Todos  os  Santos  – 

Recôncavo; Cartografia; Navegabilidade; Integração Territorial.  

 

I - APRESENTAÇÃO 



O  presente  trabalho  tem  como  ponto  de  partida  um  erro.  A  partir  dele,  busca  apresentar  algumas 

idéias sobre o processo de apreensão e representação do território americano durante o período colonial. 

Por paradoxal que possa parecer a muitos um estudo histórico que, apoiado numa informação inverídica, 

procure formular idéias legítimas sobre o passado, desde há muito vem os historiadores refletindo sobre as 

tensas relações entre conhecimento histórico e verdade.  

O  erro,  como  ato  inerente  ao  sujeito,  está  por  si  só  inscrito  no  curso  do  processo  de  produção  da 

História,  e  isso  bastaria  para  fazer  dele  objeto  da  reflexão  historiográfica.  Afinal,  quantos  importantes 

                                                           

1

 Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia (2009). Professor Assistente do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da 



Universidade Estadual de Feira de Santana. Pesquisador do projeto “Formação Territorial da Bahia: subsídios para a construção do Atlas Histórico 

da Bahia Colonial (séculos XVI-XVIII)”. 




 

Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica 

 



 



eventos  não  tiveram  seu  desenvolvimento  baseado  em  falsas  premissas,  quantos  atos  de  violência  não  se 

perpetraram fundados em visões enganosas da realidade? 

De outra parte, na medida em que os regimes de validação do saber histórico são postos à mostra, e 

cada vez mais se acentua a sua condição de artefato discursivo, construído a partir de uma relação estreita 

com os vestígios legados pelo passado, mas sempre em diálogo com as questões do tempo presente e certa 

dose  de imaginação histórica, novas formulações vem chamar a atenção para as delicadas tensões entre a 

narrativa histórica e as noções de verdadeiro, falso, fictício (BANN, 1994; GINZBURG, 2007). 

Se  o  conhecimento  histórico  continua  a  ter  como  premissa  os  princípios  da  severa  crítica  dos 

testemunhos,  os  critérios  de  autenticidade  que  outrora  excluíram  do  domínio  do  historiador  grande 

variedade de documentos ditos falsos, errôneos ou demasiado subjetivos tem sido postos de lado, e dado 

lugar a uma nova atitude historiográfica interessada em inquirir esses testemunhos, a fim de conhecer os 

sentidos que envolveram sua construção: São registros sinceros, baseados em falsas premissas? Nascem do 

ardil  dos  sujeitos  do  passado,  interessados  em  dissimular  a  realidade  em  busca  do  atendimento  de 

interesses  concretos  e  reais?  Uma  vez  admitidos  como  verdadeiros,  que  efeitos  são  capazes  de  operar  no 

curso  do  processo  histórico?  E  afinal,  o  que  podem  nos  dizer  sobre  os  homens  e  mulheres  que  os 

produziram e sobre o tempo em que viveram? 

A idéia para esse artigo surgiu de maneira totalmente ocasional. Folheando uma publicação editada na 

Bahia naquele ano, dedicada ao estudo da oceanografia da Baía de Todos os Santos (HATJE, ANDRADE, 

2009),  deparei-me  com  um  mapa  histórico  que,  decorando  as  páginas  que  entremeavam  os  diferentes 

capítulos, apresentava, bem no interior da dita baía, um ilha nomeada como sendo Boypeba.  

 



 

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Figura 01: Bahia de todolos santos, In: HISTÓRIA da Expansão Portuguesa no 

Brasil, 1923. 

 

Tal  detalhe  –  dificilmente  capaz  de  suscitar  atenção  num  pesquisador  apto  a  compreender  os 



elaborados  registros  cartográficos  que  a  mesma  apresentava  em  seus  diferentes  estudos  dedicados  aos 

ambientes  geológico,  pelágico  e  bentônico  da  baía,  ou  a  um  leitor  diletante  que  conhecesse  sem  maior 

profundidade a geografia costeira da Bahia – causou a mim enorme surpresa e excitação. Explico. 

Àquela  ocasião,  havia  acabado  de  defender  minha  dissertação  de  mestrado  (ADAN,  2009),  em  que 

me  dedicara  ao  estudo  do  processo  de  incorporação  do  território  da  capitania  de  São  Jorge  dos  Ilhéus  à 

Capitania  Real  da  Bahia  no  contexto  das  reformas  administrativas  empreendidas  na  América  Portuguesa 

durante  o  gabinete  do  ministro  Sebastião  José  de  Carvalho  e  Melo  (1755-1777),  futuro  Marquês  de 



 

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Pombal, e à institucionalização, ali, de uma comarca, instrumento administrativo-jurisdicional destinado à 

gestão daquele território a partir de então.  

No curso daquela pesquisa, pude conhecer as dinâmicas de interação sócio-espacial que vinculavam as 

povoações  daquela  capitania  –  com  destaque para as  vilas  de  Camamú,  Cairú e  Boipeba  – e  a  cidade de 

Salvador, desde os tempos primeiros da colonização. Assim, sustentei, quero crer, que as íntimas relações 

estabelecidas entre aqueles dois espaços antecederam em muito o momento da incorporação formal daquele 

território  à  Capitania  Real,  ligando-se,  em  verdade,  às  especificidades  do  empreendimento  açucareiro 

engendrado  no  litoral  americano  àquela  época,  que  tinha,  associado  a  si,  um  largo  cinturão  produtor  de 

alimentos  destinados  à  manutenção  das  vilas  e  cidades  coloniais  e  das  populações  escravas  dedicadas  à 

atividade  agroexportadora, conforme  apontado,  aliás,  por  larga  e prestigiosa  historiografia  (SCHWARTZ, 

1988; 2001, pp. 123-170; LINHARES, SILVA, 1981; BARICKMAN, 2003). 

A  partir  dessa  constatação,  e  iluminado  pelas  lições  do  ilustre  baiano  Milton  Santos,  pude  então 

assentar em minha mente a percepção quanto à historicidade das formas de organização humana no espaço 

e  a  necessidade  de  relativizar  certo  caráter  “natural”  que  se  costuma  atribuir  às  formas  regionais.  Tal 

assertiva, aliás, revelava-se sobremaneira verdadeira em se tratando da idéia de Recôncavo Baiano, vez que 

esta  se  encontra,  por  sua  própria  etimologia,  estreitamente  vinculada  ao  acidente  geográfico  da  Baía  de 

Todos  os  Santos,  ainda  que,  como  demonstrou  o  eminente  geógrafo,  esteja  plenamente  revestida  de 

historicidade,  variando  suas  fronteiras,  no  tempo,  ao  sabor  das  transformações  políticas,  econômicas  e 

tecnológicas da sociedade e do capital, sem jamais perder seu caráter integrativo e orgânico, materializado 

numa  rede  de  cidades  unidas  a  Salvador  por  relações  econômicas  hierarquizadas  e  dinâmicas  sociais 

específicas (SANTOS, In: BRANDÃO, 1998). 

Dessa  maneira, pude  compreender a  importância  de  se  pensar a  noção  de Recôncavo  para além  de 

suas fronteiras atuais, postulando, assim, a inclusão, nesse conjunto regional, ao menos durante o período 

colonial,  de  territórios  posicionados  muito  além  da  Baía  de  Todos  os  Santos,  tal  como  definida  pela 

geografia  contemporaneamente,  tais  caso  as  ditas  vilas  de  Camamú,  Cairú  e  Boipeba.  Nisso  também, 

apenas segui a trilha deixada por outros estudos anteriores (COSTA E SILVA, 2000, p. 48; BRANDÃO, 

1998, p. 30). 

Feito este pequeno parêntese, creio ter explicitado de antemão as razões porque julguei aquele mapa 

tão emblemático e curioso, logo à primeira vista. Um registro  do tempo colonial que coloca uma ilha tão 

remota quanto a de Boipeba – cuja vila, nos seus tempos mais áureos, logrou contar três mil habitantes, e 

que hoje não é mais que um balneário turístico famoso por suas praias paradisíacas e semi-desertas – no 

centro  de  um  dos  maiores  e  mais  importantes  núcleos  da  experiência  colonizadora  moderna,  a  Baía  de 

Todos os Santos, me pareceu uma excelente metáfora da centralidade desempenhada por esses pequenos 



 

Anais do I Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica 

 



 



centros  produtores  de  alimentos  no  processo  de  reprodução  do  sistema  plantacionista  e,  mais  ainda,  do 

caráter espacialmente dinâmico dessa organização regional. 

Todavia,  o  referido  registro  foi  produzido  por  um  sujeito  do  final  do  século  XVI,  e  por  mais  que 

pareça possível lançar mão dele para sustentar os argumentos que  aqui proponho, não há qualquer razão 

para  supor  que  seu  autor,  ao  produzi-lo,  tenha  deliberadamente  pretendido  atribuir-lhe  esse  caráter 

metafórico.  Como  sugiro  no  título,  prefiro  pensar  que  tal  ato  de  nomear  a  dita  ilha,  verdadeiramente 

existente  naquele  lugar,  como  se  verá,  como  sendo  a  ilha  de  Boipeba,  é  fruto  de  um  engano  sincero  e 

inteiramente perdoável. Tal não significa, contudo, que seja destituído de relevância, uma vez que é capaz 

de  nos  dizer  muito  sobre  o  seu  tempo,  tanto  no  que  toca  à  percepção  mais  geral  dos  colonizadores 

portugueses sobre o território americano, e aos dispositivos de representação desse mesmo território de que 

lançaram mão, quanto no que respeita especificamente à dinâmica da colonização nessa parcela do litoral 

americano hoje pertencente ao Estado da Bahia. 

Para tanto, faz-se-necessário conhecer melhor o referido registro, seu autor, e as condições em que foi 

realizado. 

 

II - O MAPA BAHIA DE TODOLOS SANTOS 



O mapa em questão, bastante difundido em publicações relativas à história da colonização no Brasil e 

na  Bahia,  como  só  depois  pude  perceber  (HISTÓRIA  DA  EXPANSÃO  PORTUGUESA,  1923; 

CALMON, s/d; BAHIA, 2001; RISÉRIO, 2003), é parte da obra Roteiro de todos os sinaes, conhecimentos, 



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