Ana, meu avô e eu para Erick Sales Ramos



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Encontro16.03.2020
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ANA, MEU AVÔ E EU

Para Erick Sales Ramos

ANA, MEU AVÔ E EU

Maria Antônia Ramos Coutinho

O sol bateu forte na janela do quarto. Acordei com a voz de meu avô, ao pé do meu ouvido:

– Gigante, venha conhecer seus primos Maximiniano e Gregório.

Os primos cariocas eram mais velhos do que eu. Notei o jeitão descolado deles e os músculos fortes. Fiquei muito tímido a princípio, mas, aos poucos, fui relaxando. Nós três tínhamos uma coisa em comum: gostávamos muito de torta de chocolate com cobertura de morango. Meu avô providenciou uma fatia bem grande para cada um de nós.

Passamos o dia quase todo vendo filme e desenho animado na TV, e brincando com os jogos eletrônicos que eles tinham comprado no shopping da esquina.

No final da tarde, um carro buzinou na porta de casa. Meus primos saíram apressados, da mesma forma que tinham chegado. O carro logo desapareceu no asfalto. Meu avô ainda tentou dar um adeusinho, mas ninguém olhou para trás.

Depois, ele se virou pra mim e perguntou:

– E aí, Gigante? Gostou do seu dia?

– Legal, vô!

Em seguida, falou baixinho, quase sussurrando:

– Eu escondi, na geladeira, um pedacinho de torta de chocolate com morango, só para você!

– Legal, vô!

Entramos os dois em casa, abraçados.

XXX


Ontem, novamente, meu avô me acordou cedo e disse:

– Gigante Eric, levante-se para conhecer meu tesouro.

Para falar a verdade, eu sou um menino meio franzino e miúdo, mas meu avô sempre me chama de Gigante, o que me faz pensar que sou bem maior do que realmente pareço no espelho.

Nós dois subimos uma escada que dava para a parte de cima da casa. Entramos em um salão cheio de treco – chapéu de mágico, nariz de palhaço, bola de bilhar, caixinha de música, livros, revistas em quadrinhos e rolos de filme. Meu avô retirou, de dentro de uma mala de madeira, muitos discos grandes, que ele chamava de bolachão. Limpou a velha radiola e pôs para funcionar.

Eu passei a manhã inteira ouvindo rock and roll, os Beatles e Raul Seixas, no sótão da casa do meu avô.

Depois, ele colocou outras músicas e tentou me ensinar uns passos esquisitos. Não era funk, não era rap, não era pagode ou coisa assim. Eu mesmo nem sei que ritmo era. Parou, de repente, para me dar uma explicação:

– Gigante Eric, o corpo é uma geringonça que exige movimento, do contrário, enferruja. Quando sua avó estava mais forte, nós dois dançávamos todo dia aqui em cima, bem abraçadinhos.

A voz de meu avô pareceu sumir nessa hora, mas ele pigarreou, engoliu a saliva e falou:

– Agora, venha, Gigante! Quero que você conheça minha preciosa coleção.

Meu avô era magro, alto e desengonçado, mas caminhava ligeiro, evitando se bater no que encontrava pela frente. Abriu um armário e me mostrou uma montanha de selos, moedas e figurinhas.

Justo nessa hora, um vento muito forte invadiu o sótão. As janelas bateram, as cortinas balançaram, os objetos da mesa caíram e a preciosa coleção de meu avô foi todinha pelos ares, levada pelo redemoinho de vento. Sem pensar, de impulso , levantei as duas mãos para o céu, em forma de concha, e gritei:

– Peguei um! Peguei um!

Olhei o pequeno selo preso entre os dedos da minha mão, e exclamei:

­– Vô, aqui tem o retrato de uma mulher. Veja!

Meu avô, ainda assustado com aquele pé de vento repentino, que levou para longe a coleção de selos guardada durante tantos anos, veio examinar o pedacinho de papel que eu tinha salvado do olho do furacão.

– Gigante, a estampa desse selo é de uma mulher que viveu no tempo antigo, há duzentos anos.

– Tanto tempo assim? E por que ela virou selo, vô?

– Esse selo é uma homenagem à heroína de guerra, Ana Nery. Ela cuidou de muitos feridos e doentes na Guerra do Paraguai e ficou conhecida como a “ Mãe dos brasileiros”. Adivinhe onde ela nasceu...

– Aqui, no Rio, vô?

– Não. Como você, Ana Nery nasceu na Bahia, mas na cidade de Cachoeira, há muito, muito tempo, em 1814.

– Poxa, vô! Então esse selo, com um retrato assim tão antigo, é uma relíquia...

Meu avô ficou muito admirado na hora em que eu falei “relíquia”. Aprendi essa palavra na escola e confesso que amei! Sempre que posso, uso ela para não esquecer.

XXX

Quando a noite chegou, meu avô apareceu no meu quarto. Trazia um livro na mão e falou:



– Gigante Eric, hoje eu vou ler uma história para você dormir.

Pôs os óculos de uma perna só e, sentado bem pertinho de mim, começou a ler a história da enfermeira Ana Nery, a mulher do selo que escapou do vendaval.

Eu me acomodei na cama, e me cobri com o lençol dos pés até o pescoço. Fiquei bem quieto, só escutando a voz do meu avô, que lia para mim:

A cidade de Cachoeira possui muitos becos, ladeiras e casarões. À sua margem corre o rio Paraguaçu. Foi lá que nasceu, há duzentos anos, uma menina chamada Ana Justina Ferreira.

O pai, José Ferreira de Jesus, era um homem muito rico. Tinha fazendas de fumo, algodão e cana-de-açúcar. A mãe chamava-se Luísa Maria das Virgens. A família morava em um imponente sobrado colonial, vizinho à Igreja da Matriz.

A menina cresceu em um ambiente de fartura e conforto. Tinha lindos vestidos e muitos brinquedos. Gostava de correr pelo casarão, brincando de esconde-esconde com seus quatro irmãos. À noite, ela e as outras crianças animavam a rua com cantigas de roda, enquanto as mães ficavam de vigia nas janelas ou sentadas na calçada.

Quando Ana completou vinte e três anos, celebrou-se o seu casamento com um jovem capitão da Marinha brasileira, o português Isidoro Antônio Nery. Foram três dias de festa no sobrado, regados a muito vinho e variadas iguarias.

Os anos se passaram e o casal teve três filhos homens: Justiniano, Isidoro e Pedro Antônio. O capitão Isidoro Nery passava muito tempo no mar, vigiando as águas que banham a costa brasileira de norte a sul. Sempre que podia vir a terra, ancorava o navio no porto de Cachoeira, para passar um tempo com sua mulher, seus filhos e rever os amigos

Acontece que, certo dia, Ana recebeu, em sua casa, a visita inesperada de um oficial da Marinha brasileira. O homem chegou cabisbaixo, fardado, e lhe deu uma triste notícia. O capitão Isidoro Nery havia morrido de meningite, a bordo de um antigo navio, no Maranhão. E foi assim que Ana ficou viúva ainda muito jovem, aos vinte a nove anos, com três meninos para criar e educar.

Então, ela passou a dedicar-se inteiramente aos filhos. Quando eles já se encontravam crescidos, a família mudou-se para Salvador e foi morar na Ladeira da Conceição da Praia.

O tempo passou bem mais depressa do que Ana podia imaginar. Justiniano, o filho mais velho, tornou-se médico. Isidoro também foi estudar Medicina. O filho caçula, Antônio Pedro, entrou para o Exército.

A vida da família Ferreira Nery corria tranquila e calma na velha cidade de Salvador.

Um fato, entretanto, viria abalar a paz e o sossego de toda a Província da Bahia. Explodira a Guerra do Paraguai, no ano de 1864. Os irmãos mais velhos de Ana, Manuel e Joaquim, e seu filho Antônio Pedro, que eram militares, logo embarcaram para o local do conflito armado.

Ana ainda não tinha se recuperado do choque da partida do filho caçula, dos dois irmãos e de mais um sobrinho, quando foi surpreendida pelos filhos mais velhos, que entraram abruptamente em casa e disseram:

— Mãe, nós vamos viajar. Nós nos alistamos, como médicos, para servir na Guerra do Paraguai.

Ana, então...

xxx

A voz do meu avô foi diminuindo, se apagando, ficando longe, cada vez mais longe, até que o silêncio se espalhou dentro do quarto. Nessa hora, soprou um vento gostoso e eu comecei a balançar pra lá e pra cá, pra cá e pra lá. Quando menos esperei, me vi sozinho, navegando, dentro de um pequeno barco a vela, pelas águas do Rio Paraguaçu. Fazia muito frio e eu tremia que nem vara verde.



Foi assim que cheguei à cidade de Cachoeira, já à noitinha. Nas ruas, muitos pirilampos voavam em torno dos lampiões acesos com azeite de baleia.

Tomei o caminho que ia dar no velho casarão, perto da Igreja da Matriz. Ao chegar, entrei bem devagar. Estava tudo escuro e empoeirado. Quase não se via nada. Subi a escada tateando aqui, ali. De repente, surgiu diante de mim um grande clarão. Parecia uma fogueira acesa a minha frente. De dentro da chama amarela, vi sair uma velha, toda encarquilhada e sem um dente na boca.

Eu tomei o maior susto. Acho que fiquei branco como cera. Sou um menino de coragem, mas nem tanto... Quis andar de costas, recuar, mas tive medo de despencar pela escadaria abaixo.

A mulher falou, com uma voz fininha, quase desaparecendo:

– Sinhozinho, aqui, no sobrado, não tem mais ninguém não. Os meninos, já tudo homem feito, foram pra guerra. Donana foi atrás dos três filhos. Disse que também ia pra guerra, para cuidar dos filhos dela e dos filhos alheios, como se fosse a mãe deles de verdade. Até o soldado inimigo ela disse que ia procurar salvar, pois a dor de todo vivente é uma só.

– E quando ela viajou? – arrisquei perguntar, mesmo sentindo uma onda de frio subir pela espinha.

– Faz uns cinco anos. Imagine, sinhozinho, logo ela, com quase cinquenta anos de idade, o cabelo já ficando branco, viajar pro fim do mundo, lá onde o vento faz a curva... É uma judiação! Não sei se volta alguém vivo dessa guerra maldita não! É um mundão de homem ferido e ensanguentado... Ninguém dá conta de tratar.

– E por que você deixou ela ir? – perguntei aflito, ainda sentindo meu queixo tremer.

– Eu bem que disse pra ela ficar quieta em casa, esperando a carta dos filhos e dos irmãos, ou, então a notícia da morte deles, pois guerra, sinhozinho, é uma coisa do capeta querendo arrebanhar gente para o fogo do inferno! Mas Donana nunca seguiu conselho de pessoa alguma. Imagine se ia lá dar ouvido a uma velha mucama que nem eu...

XXX


De manhã, acordei apavorado! Não sabia se eu tinha tido um pesadelo ou visto assombração, visagem, essas coisas de alma penada...

Olhei aflito para o lado da minha cama: Meu avô ainda dormia. Dormia e roncava. Caído, no chão, estava o livro: Ana Nery foi à guerra.

Logo depois da misteriosa noite e da minha conversa com a mulher fantasma, uma pergunta não me saía da cabeça e atrapalhava meu sono. Será que a enfermeira Ana Nery tinha conseguido voltar viva da guerra?

Foi para descobrir isso que eu peguei o livro do meu avô, passei ligeiro todas as páginas e fui direto ao fim da história:

Era o ano de 1870. Havia terminado a Guerra do Paraguai. O vapor Arinos atracou no Rio de Janeiro e Ana Nery desembarcou. A cidade estava toda colorida, enfeitada de bandeirolas verdes, azuis, amarelas e brancas. Ana ouviu o espocar de foguetes e se assustou, confundindo-o com tiros.

De repente, ouviu uma música tocada por uma banda na rua. Ficou animada. Afinal, gostava muito, desde criança, de acompanhar a filarmônica em Cachoeira e em Salvador. Às vezes, sentia vontade de desfilar na frente de uma delas, enquanto os pratos, os trombones e os clarinetes tocavam atrás.

— Apressem o passo, vamos ver a filarmônica - falou para as meninas que haviam desembarcado com ela.

À medida que caminhava, o som ia ficando cada vez mais forte. Havia uma multidão acompanhando a banda, que seguia em direção ao cais do porto. Ana avistou um senhor barbudo, perto de um chafariz e perguntou:

— O que mesmo se festeja hoje nesta cidade?

O homem não teve tempo de responder, porque a música foi se tornando cada vez mais alta. Ao chegar bem pertinho, tudo silenciou e ela recebeu das mães baianas que moravam no Rio de Janeiro uma coroa com folhas douradas, atada por um grande laço de fita, com a dedicatória: “À heroína da caridade, as baianas agradecidas.”

Depois, a filarmônica voltou a animar a cidade que, naquele dia, enfeitara-se para receber os soldados brasileiros que retornavam ao país.

O Imperador do Brasil, D. Pedro II, destinou à enfermeira Ana Nery uma pensão anual enquanto vivesse, por ter, durante cinco anos, cuidado dos feridos, consolado os enfermos e diminuído o sofrimento dos combatentes.

Ana, que, na cidade de Assunção, usara seu próprio dinheiro, para montar uma enfermaria e tratar dos soldados brasileiros e paraguaios, agora teria o recurso necessário para recomeçar a vida e educar as seis crianças órfãs que trouxera da triste Guerra do Paraguai.

XXX


Eu me senti um pouco mais aliviado, quando li o final da história. Fui, devagarzinho, colocar o livro na mesa de cabeceira do quarto. Meu avô ainda dormia. Dormia e roncava.

Três noites se passaram depois disso. No quarto dia, bem cedo, ouvi o berro da minha mãe, na sala:

– Vista a roupa nova, Eric!

Minha mãe, meu avô e eu fomos, então, ao hospital, para buscar minha avó. Ela estava bem, agora, livre de uma doença que tinha deixado meu avô muito preocupado

Minha avó nos esperava sentadinha em um sofá marrom claro. Vestia uma roupa estampada, de cores fortes. Tinha passado batom vermelho na boca e cheirava a perfume. Sorriu, feliz, quando nos viu chegar.

Pegamos o carro e voltamos. A casa estava toda enfeitada de flor, para receber minha avó. Os lençóis da cama tinham sido trocados. Estava tudo lavado e muito limpo. Meu avô não cabia em si de contentamento por causa da volta de minha avô para a casa deles.

Minha mãe virou-se para mim, de supetão, e falou:

– Eric, arrume todas as suas coisas. Vamos viajar ainda hoje para Salvador.

Fiz tudo ligeiro, quase correndo. Meti a roupa, o tênis novo e a escova de dente na mochila preta, enfeitada com o desenho de uma caveira branca.

Meu avô entrou no quarto, cabisbaixo, e me disse:

– Vou morrer de saudade de você, Gigante!

Abriu a mão, grande e magra, e me deu de presente o pequeno selo da preciosa coleção dele, o único que tinha sobrado da ventania, com o retrato da enfermeira Ana Nery.

– Eu também vou ter muita saudade de você, meu vô ! – Disse eu, salpicando um beijo na bochecha dele. E guardei o selo muito bem guardado, no bolso secreto da minha mochila, como uma relíquia!

No fim da tarde, fui levado para dentro de um avião. Eu e minha mãe tínhamos passado uma semana no Rio de Janeiro, por causa da doença da minha avó.



Durante a viagem de volta a Salvador, fiquei o tempo todo olhando, pelo vidro da janela, a branca montanha de algodão, que aparecia e sumia, sumia e aparecia, no tapete azul do céu.





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