Além do tempo: a história profética ainda resiste? Eduardo Gusmão de Quadros



Baixar 50.25 Kb.
Página4/4
Encontro30.06.2021
Tamanho50.25 Kb.
1   2   3   4
Tempo e interpretação

Os três autores analisados dialogaram de algum modo com a teologia. Ela adentra no discurso histórico conferindo um sentido último, teleológico, à prática historiográfica. Mas a hipótese central deste artigo não remete necessariamente a uma área paralela. A dimensão de futuro, defendemos, influencia intrinsecamente a história, o pensamento histórico e a historiografia.

Destarte, o que se pretende aqui é rever certa noção de historicidade que consideramos incompleta. Tal noção considera basicamente a efetividade do passado compondo o espaço de experiência. Como se sabe, esse tema da experiência histórica tem grande peso nas reflexões atuais. A categoria antropológica correlata intuída por Koselleck (1979:267-299), entretanto, não recebeu tanto destaque. Por que o horizonte de expectativa dos sujeitos não seria igualmente importante? 14.

O tempo futuro não é uma realidade tangível. Talvez seja uma boa resposta. Mas se formos pensar com calma, o passado também não é. Ele, em certo sentido, já não deixou de existir? O único modo de conhecê-lo não é indiretamente? Nas últimas três décadas gastou-se muita tinta para provar que o passado realmente aconteceu e pode ser atingido. Por que, então, o futuro também não seria uma realidade que preocupa? Seguindo uma sugestão en passant dada por Ricouer, deveríamos, pois, renunciar um pouco “a questão da realidade fugidia do passado tal como foi”, “inverter a ordem dos problemas e partir do projeto da história, da história por fazer, com o objetivo de nela reencontrar a dialética do passado e do futuro e seu intercâmbio no presente” (1997:359).

Desta perspectiva, podemos retrabalhar as categorias do fazer histórico koselleckianas. O espaço de experiência perderia, assim, sua solidez fictícia, tornando-se um horizonte e a expectativa ganharia seu espaço. Poderíamos ainda perceber melhor como a experiência do horizonte - a banida teleologia - demarca tanto a atuação na história como sua escrita15.

É possível que seja mais fácil ver a historicidade nos outros que em nós. Eis um defeito da ciência que a historiografia incorporou. De maneira contraditória, a contextualização que os historiadores praticam cotidianamente em suas análises parece não valer para si mesmos. Então, o sujeito-do-saber-histórico permanece abstraído, narrando prepotente na indiferença da terceira pessoa.

Ao recolocar a futuridade no processo de produção do conhecimento, não consideraríamos melhor as condições de representacionalidade do passado que nos são pertinentes? Ou assumir os futuros desejados não levaria a uma maior sensibilidade com nossos investigados? Se a história não é neutra, por que continuar iludindo com ares de imparcialidade, como se o passado não tivesse nenhuma relação com o futuro?

Os antigos romanos desvendavam o futuro examinando as entranhas das vítimas. Os três pensadores aqui comentados, de uma maneira ou de outra, colocaram-se a serviço das mesmas. Enfrentaram o desafio ético de não somente conhecê-las, mas auxiliá-las. Colocá-las, portanto, diante da plenitude dos tempos, uma arte de in-tem-pretar conforme a confluência da esperança, é promover a justiça. Principalmente conosco.

BIBLIOGRAFIA

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulinas, 1984.

ARISTÓTELES. A poética clássica. 7ª Ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política (Obras Escolhidas - vol.1). São Paulo: Brasiliense, 1994.

CLAUSEWITZ, Carl Von. Da guerra. Lisboa: Europa-américa, s/d.

COCHRANE, Charles N. Cristianismo y cultura clássica. México: Fondo de Cultura, 1982.

DUSSEL, Enrique (ed.). Historia liberationis: 500 anos de história da igreja na América Latina. São Paulo: Paulinas, 1992.

DUSSEL, Enrique. Caminhos de libertação latino-americana – vol. 1. São Paulo: Paulinas, 1985.

DUSSEL, Enrique. Caminhos de libertação latino-americana – vol. 2. São Paulo: Paulinas, 1984.

GAGNEBIN, Jeanne M. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 1999.

HALBWACS, Maurice. Les cadres sociaux de la mémoire. Paris: Felix Alcan, 1925. Disponível em http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Classiques_des_sciences_sociales/index.html.

HOORNAERT, Eduardo (org.). História da Igreja na América Latina e no Caribe: o debate metodológico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989.

KOSELLECK, Reinhart. Futures Past: on the semantics of Historical Time. Massachusetts: The Mit Press Cambrige, 1979.

LÖWITH, Karl. O sentido da história. Lisboa: Edições 70, 1991.

LÖWY, Michel. Walter Benjamin: aviso de incêndio. São Paulo: Boitempo Editoral, 2005.

MILES, Jack. Deus – uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

QUADROS, Eduardo. A transvalorização da história: ética e conhecimento histórico na CEHILA. In: BRASIL, Alexandre (org.). Educação e Justiça na América Latina. São Paulo: ABU Editora, 2006b, pp. 67-75.

QUADROS, Eduardo. O triunfo da diferença: Michel de Certeau e a história do religioso. Estudos de Religião, 31, dez de 2006a, pp.74-87.

RICOUER, Paul. Tempo e narrativa – vol.3. São Paulo: Papirus, 1997.

SIEPIERSKI, Paulo D. (Re)(des)cobrindo o fenômeno religioso na América Latina. In: HOORNAERT, Eduardo (org.). História da Igreja na América Latina e no Caribe: o debate metodológico. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, pp.161-187.

STANLEY, David. A history of the future. History and Theory, 41, dec. 2002, pp.72-89.



VIEIRA, Padre Antonio. História do futuro. Livro anteprimeiro prolegômeno a toda a historia do Futuro, em que se declara o fim & se provam os fundamentos dela. Lisboa: Oficina Antonio Pedrozo Galram, 1718.

1 No livro 11 das Confissões, ele trata do conceito de tempo escrevendo que: “Sem dúvida, nós o conhecemos quando dele falamos, e compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. Por conseguinte, o que é o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; porém, se quero explicá-lo a quem me pergunta, então não sei” (AGOSTINHO, 1984: 317-8). A situação enigmática continua a vigorar entre os que pesquisam história.

2 Que estabeleceu na Poética: “Não é em metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta; a obra de Heródoto podia ser metrificada; não seria menos uma história com o metro do que sem ele; a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro fatos quais podiam acontecer” (ARISTÓTELES, 1997:28).

3 Trabalharemos aqui com a publicação fac-similar da edição princeps de 1718 feita pela Secretaria de Cultura do Pará em 1998.

4 Para um comentário dessa ordem e sua importância, ver a obra de Miles (1997).

5 Em oposição ao suposto tempo cíclico da cultura Greco-romana. Um estudo clássico com essa tese foi feito por Charles Cochrane (1982:443-500) Consideramos essas divisões mais de teor didático, e na prática social várias formas de tempo são invocadas.

6 Kairós é um dos temos utilizados para referência ao tempo no Novo Testamento. Ele é qualitativamente distinto de chronos, não sendo medido. É caracterizado como o tempo da oportunidade, da decisão, do desafio.

7 Um aprofundamento neste tema pode ser encontrado no artigo que escrevemos acerca da obra de Michel de Certeau (QUADROS, 2006a).

8 No artigo de 1964 já citado, o modelo de socialismo cubano não era bem visto por “impor pela primeira vez (na América) a ditadura do proletariado”. Esta seria “uma solução estrangeirizante e de difícil continuidade” (1984:27)

9 O nome pegou, mas é péssimo para a derrocada do socialismo real. Até porque, por ter sido uma experiência política concreta, obviamente não pode ser utópico. Além disso, ilude fazendo pensar que a economia socialista é ilusória, enquanto a do capitalismo seria realista.

10 O enigmático artigo é um dos textos mais comentados da historiografia contemporânea. Uma série de autores abordam a intimidade entre fé e materialismo no pensamento de Benjamim. Sugerimos para maiores aprofundamentos a bibliografia indicada por Löwy (2005).

11 Na décima - terceira tese, o progresso é definido como uma “marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo”, concepção que deve ser negada com radicalidade (id. :229).

12 Sim, para o pensador alemão há diversos tipos de fatos, que ele divide em grandes e pequenos. Nem todos têm o mesmo valor (Tese 3).

13 Halbwacs já havia chamado atenção para esses fenômenos, quando publicou suas análises acerca dos Quadros sociais da memória (1925).

14 Para ele, tais categorias possuem dimensão metahistórica, formando a condição de possibilidade da história (id.:271). É possível que o próprio Koselleck tenha favorecido essa ênfase numa só das categorias, pois em sua obra Futuro Passado a formação do espaço de experiência recebeu muito maior destaque (cf.id.:99,139,231).

15 Um dos autores recentes que chamou atenção para a importância do futuro na historiografia foi David Stanley (2002). Sua preocupação, contudo, é com o método de escrita do passado através de probabilidades e cenários, não indo na direção ética que estamos colocando.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal