Além do tempo: a história profética ainda resiste? Eduardo Gusmão de Quadros



Baixar 50.25 Kb.
Página2/4
Encontro30.06.2021
Tamanho50.25 Kb.
1   2   3   4
Dussel e a crítica do céu

A necessidade de escrever uma história para o futuro aparece forte em Enrique Dussel. A elaboração de uma hermenêutica histórica própria à América Latina está intricada numa postura profética repetidamente ressaltada por ele. Ainda antes do surgimento da CEHILA, num artigo publicado em 1964, ele defendia que “a história latino-americana deve ser entendida plenamente a partir de um plano escatológico” (DUSSEL, 1984:28).

Como dimensão de futuro é que ele trata da fé. Então, não é qualquer tipo de crença ou qualquer teologia que irá compor com a epistemologia da história. O método histórico rigorosamente científico seria incompleto, argumenta na reunião que criou a Cehila em 1973, pois só a fé confere novo sentido à realidade do passado (id. :48). Note-se o grifo no termo novo colocado pelo próprio autor, ressaltando o potencial de abertura gerado pela fé e, por conseguinte, o caráter de incompletude seja do passado, seja do presente.

Incompleto por quê? Por causa da carência de sentido. Este não seria inerente ao dado, ao evento, mas atribuído pelos interpretantes. Aos historiadores cristãos, a quem convoca na referida conferência, caberia constituir fatos críticos. Poderia haver crítica sem exterioridade? A fé – “um novo mundo no sentido que abre um novo horizonte de compreensão” - desvela os fatos enquanto revelação na história (id.:47).

Talvez soe estranho, hoje, essa história mesclada de teologia apresentada pelo pensador argentino. Como já apontamos antes, Dussel construiu seu modelo de historiografia cruzando fé, ciência, e política ou, se quiserem, igreja, universidade e povo (QUADROS, 2006b). Ele está inserido nos movimentos que buscavam realizar a revolução socialista da América Latina e esta práxis demarca o saber que produziu. Na questão da periodização da história continental, assunto que retomou inúmeras vezes, isso pode ser percebido.

Enrique Dussel costumava dividir a história latino-americana em quatro grandes fases:



  1. A proto-história americana (até o século XV) – Além das populações indígenas do continente, ele costuma incluir sob este título a história dos povos semitas, certos aspectos do cristianismo antigo e a formação da cristandade ibérica;

  2. A cristandade colonial (do século XV ao início do XIX) – Dussel gostava de ressaltar uma primeira fase crítica da igreja em relação à conquista. Depois sua adequação ao sistema colonial;

  3. O nacionalismo criollo (do século XIX a meados do XX) – Nos processos de independência, a igreja manteve-se ambígua, mais tarde tentou construir modelos de neo-cristandade. Essa fase termina com os regimes populistas e desenvolvimentistas, que prenunciam a próxima;

  4. Rumo à libertação (de meados do século XX a...) – O povo latino-americano toma a rédea da história nas mãos e setores da igreja apóiam os processos revolucionários que começam a surgir.

A perspectiva escatológica desta última fase, na verdade, está incluída em todo o percurso que traçou. Por isso, a importância dada ao regime de cristandade, que surge na primeira fase com Constantino, é implementado no continente americano na segunda, retorna na terceira e continua vigente na quarta. Essa periodização possui, claramente, um eixo interpretativo bastante tradicional, a relação entre religião e política.

Há um critério a mais, todavia, que é imprescindível: a justiça. É esse o sentido da escatologia e da influência teológica, conforme declara num prefácio escrito em 1973: “creio na libertação latino-americana e espero-a como sinal da libertação escatológica” (DUSSEL, 1984:7). Tal fé pessoal permaneceu por muitos anos. Interessante foi a mudança de data para seu início. Antes, o marco era 1962, ano da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II. Os eventos após essa data não remeteriam à “emancipação nacional”, mas “à luta pela libertação latino-americana. É a revolução do próprio ‘povo’... (1985:81). Na última grande obra de história que Dussel organizou - com o significativo título de historia liberationis - o evento retrocede para 1959. Ao lado da revolução cubana, que ganha importância8, está somente a convocação do Concílio (1992:27). O título escolhido para a época pós-59 foi “crise do capitalismo periférico”, o que demonstra certa decepção com os movimentos eclesiásticos e a ascensão do marxismo em suas análises.

Quando publicou este livro, o bloco socialista já havia dado muitos sinais de ruína. A escatologia marxista tornava-se cada vez mais impossível. O contexto eclesial católico – o protestante nunca pesou em suas reflexões - também não propiciava grandes esperanças, sob o rigor da disciplina imposta por João Paulo II. Estas mudanças se refletem nas críticas feitas por Paulo Siepierski ao projeto historiográfico cehiliano.

Em 1995, ocorreu a II Conferência Geral da CEHILA. Enrique Dussel fez uma das conferências principais, depois reunidas em livro (HOORNAERT, 1995). Siepierski não apresentou suas críticas no evento, mas contribuiu com um capitulo da obra avaliando o conteúdo ali exposto (1995:161-187). Aponta, em síntese, como bastante problemática a influência da teologia no pensamento de Dussel e, em decorrência, na produção cehiliana. As conseqüências são claras: primeiro no discurso histórico “teleológico e utópico” que terminou pressuposto (id.:167); segundo na eleição do pobre enquanto critério hermenêutico (id.:163). Ambos remeteriam à fé pessoal, o que não pode ser exigido dos pesquisadores, nem incutido nos métodos de investigação.

Esta posição vai de encontro ao que defendemos aqui. Não é a toa que o título dado as essas críticas é “ao revés do contrapelo” (id.:162). Se a CEHILA passasse a seguir o pensamento social hegemônico não perderia seu sentido? Ela deveria coadunar-se à suposta neutralidade acadêmica? Independente das frustrações que as esperanças ou “utopias”9 possam sofrer, acreditamos que a ética deve vir antes do ato cognitivo, como defende Dussel. A justiça, destarte, não estaria na conclusão da investigação, mas é o seu princípio.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal