Alguns minutos com tua mãe obrigado


- A FÉ NO MOMENTO DA CRUZ



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26 - A FÉ NO MOMENTO DA CRUZ

É muito bem conhecida a cena do Evangelho de João que apresenta Maria aos pés da Cruz: Junto à cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cléofas e Maria Madalena. Vendo sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, Jesus disse à sua mãe: "Mulher, eis aí o teu filho." Depois disse ao discípulo: "Eis a tua mãe." E, desde essa hora, o discípulo levou-a para casa. (João 19, 25-27).

Como a mãe pode estar lá, naquele lugar terrível onde o sofrimento e a morte o seu único filho, a quem ela ama e que é todo o significado de sua vida? Instinto materno, lealdade de mãe, sem dúvida, mesmo se ela não pode fazer nada para ajudar seu Filho; ela é impotente como ele, também ela tragada pela morte.

Que fé foi capaz de vir em auxílio de Maria nesse momento de agonia e morte do Filho? É uma fé que se chama amor, fidelidade, profundo conhecimento do Filho; fé que precede a visão, fé que amadureceu, em seu coração, tudo quanto tinha acontecido ao Filho. Mais e melhor do que Paulo, pode ela dizer: "Já não sou eu que vivo, mas é o Filho que vive em mim" (Gal 2, 20). Desde o início, ela deixou-se invadir pelo Filho, sua vida tinha-se tornado espaço de Cristo.

São-nos familiares, essas obras de arte que representam Maria com seu Filho morto nos braços. São as Pietà, sendo a mais famosa a de Michelangelo, à direita, na entrada da Basílica de São Pedro. O sentido da palavra latina ‘pietas’ foi o da lealdade dos soldados até a morte. Assim, o primeiro sentido da imagem de Maria com Jesus morto nos seus braços é a fidelidade da mãe até a morte. Maria foi fiel até o fim.

A fé de Maria, nessa hora em que o Filho morre, exprime-se num ambiente hostil. É só injustiça, ódio, desprezo, zombaria, indiferença de muitos; o corpo do Filho exposto nu, a solidão profunda de Jesus e de sua mãe. Quem compreendia o sacrifício? Os discípulos mais próximos tinham fugido, escondidos, por detrás das paredes. Agora que Jesus tem suas mãos pregadas, os chefes do povo lembram-lhe os seus milagres e gritam-lhe para descer da cruz. É a condição que eles lhe impõem para acreditar: "Desce da cruz e acreditaremos em ti.” (Mc 15,32). E escarnecem dele (Lc 23,35).

Maria não pede nenhum sinal, ela é presença, lealdade e silêncio. Ela olha para o seu Filho e vem-lhe à memória a descrição do Servo Sofredor de Isaías: "Ele não tinha nem aspecto, nem aparência como queríamos. Ele foi desprezado e ignorado pelos homens, homem de dores e experimentado no sofrimento, como aquele diante do qual as pessoas escondem o rosto.” (Is 53,2-3). Desde quanto tempo ela comparava esse retrato do Messias com os anúncios da Paixão que seu Filho tinha reiterado a seus discípulos!? O que havia no grande santuário do coração da Mãe para que a fé tenha mantido viva a sua chama? Os anúncios velados da ressurreição? "O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e eles vão matá-lo, mas ao terceiro dia ressuscitará.” (Mt 17,22-23). Teria ela sabido o que Jesus dissera a Marta, momentos antes da ressurreição de Lázaro: "Eu sou a ressurreição e a vida"? É certo que Maria não entendia tudo, mas ela costumava decantar no seu coração, em oração, as palavras do Filho que ela não tinha entendido.

E ainda houve o silêncio no céu, o silêncio do Pai. A fé de Maria devia acolher esse silêncio. Deus tinha tomado o caminho do silêncio e da impotência; o Pai e o Espírito punham os pés nas pegadas do Filho. Jesus tinha dito: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30). O Pai, no Calvário também pode dizer: "O Filho e eu somos um." O Filho vê-se humanamente impotente, o Pai vê-se humanamente impotente, o Espírito vê-se humanamente impotente daquele ‘poder’ que tende a impressionar e a vingar-se. Deus tomou o caminho do amor absoluto; ia revelar-se como amor absoluto; a cruz é o auge do amor absoluto.

Maria também é impotência, silêncio, mas em comunhão com o amor absoluto de seu Filho. Ela está presente e o Filho pode dizer: "Mulher, eis aí o teu filho!". Anuncia uma grande primavera, sinal velado da ressurreição.

Considerando o dom do discípulo amado, São Bernardo fez esta reflexão surpreendente: "Que troca terrível. Mãe de João em vez de Jesus, o servo no lugar do Senhor, o discípulo no lugar do Mestre, o filho de Zebedeu, no lugar do Filho de Deus, um simples homem, em vez do verdadeiro Deus..." (Ofício das Leituras de 15 de Setembro). É mesmo assim! E, no entanto, o discípulo amado e os discípulos queridos, somos todos invadidos pela presença do Filho, pela santidade do Filho, pelo Seu Espírito. Maria tem um único Filho, Jesus, os outros são filhos no Filho. Não estamos diante do fim da maternidade de Maria, mas diante de uma ampliação sem limites.



Maria revive a fé da Anunciação, novamente uma misteriosa maternidade inicia nela. Maria intui que o seu coração e o seu seio renascem quando Jesus lhe diz: "Mulher, eis aí o teu filho!" A Maternidade da Anunciação experimenta uma nova primavera. Não perdeu validade a resposta de Maria ao Anjo Gabriel: "Eis aqui a serva do Senhor. Que aconteça em mim como Tu disseste." (Lc 1,38). Mas agora já não é Gabriel a falar; é o Filho quem faz seu testamento.


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