Alguns minutos com tua mãe obrigado


- ELE NÃO FOI GERADO DO SANGUE



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25 - ELE NÃO FOI GERADO DO SANGUE

(Jo 1,13)

A Bíblia de Jerusalém, na edição de 1986, traduz no singular o versículo 1,13 de João:
« Ele não foi gerado nem do sangue, nem de uma vontade da carne, nem de uma vontade do homem, mas de Deus.»
Assim, no singular, o texto se refere ao Verbo, ao “Verbo que se fez carne e habitou no meio de nós.” Jo 1, 14 celebra o nascimento de Cristo no qual o sangue, a carne e o homem estão ausentes. O versículo 13, no singular, proclama também a concepção virginal do Verbo, diz como Maria concebeu e gerou o filho.
A Bíblia de Jerusalém, e então toda a equipe de teólogos que a traduziu, justifica por uma nota essa versão no singular: “Alusão à geração eterna do Verbo, mas sem dúvida também ao nascimento virginal de Jesus, cf. Mt 1,16 e 18-23, e Luc 1, 26-38 ... A variante “Eles” (versão no plural), que não foi adotada aqui, é a mais corrente.”
Vários teólogos levam muito a sério a possibilidade de encontrar em Jo 1, 12-13 uma afirmação da concepção virginal de Cristo. O texto conhece, com efeito, duas traduções possíveis. Todos os manuscritos gregos trazem a tradução no plural:


Eles, que não foram gerados nem do sangue,...”

Mas se seguimos alguns manuscritos latinos e todos os Padres da Igreja do segundo século: Justino, Hipólito, Irineu e Tertuliano, a tradução está no singular, insistindo sobre Jesus, mais do que sobre os filhos de Deus, temos como tradução: “Ele, que não nasceu da carne...” Assim, para os Padres da Igreja, S. João sabia da concepção virginal de Jesus. É uma grande possibilidade.


Os teólogos modernos que sustentam essa posição são Resch, Loisy, Zahn, Harnack, Buschel, Braun, Boismard, Mollat, Galot, Hofrischter, Ignace de la Potterie e Léon Xavier-Dufour. “Um grupo imponente de escritores do vigésimo século, compreendendo mais protestantes do que católicos, pronunciou-se em favor do texto no singular.”240
De outra parte, R. E. Brown parece opor-se com um grupo, não menos considerável, de outros teólogos. O singular do texto parece ser uma corruptela do plural e a teologia de João não está tanto centrada sobre a virgindade de Maria, mas muito mais sobre a regeneração, sobre a mudança que se opera em nós pela vida do Senhor (Jo 3, 3; 1jo 2, 29; 3,9; 4,7; 5,1).
Isso é verdade, e pode-se notar quanto João sublinha, ainda com maior constância, que Jesus é o enviado do Pai e aquele que deve voltar ao Pai. Todo o evangelho de João, como já o prólogo, é uma grande descida e depois também uma imponente subida ao Pai. A densa presença do Pai, neste evangelho, é verdadeiramente uma característica joanina.
A palavra Pai está presente 114 vezes neste evangelho; Jesus diz 48 vezes que foi enviado pelo Pai; 18 vezes que ele retorna ao Pai; 20 vezes que está na intimidade do Pai; ele é essencialmente o Filho! João nunca reconhece Jesus como filho de José. É o povo que diz ser ele filho de José, no capítulo 6,42, mas não o evangelista.

Permanece o fato que a Igreja do segundo século é muito favorável à tradução no singular, sublinhando assim a concepção virginal. No documento do segundo século “Epistula Apostolorum” lemos: “O Verbo que se fez carne, pela Santa Virgem Maria, foi trazido em seu seio, concebido do Espírito Santo, nasceu não do desejo da carne, mas da vontade de Deus.” S. Inácio de Antioquia que viveu entre os séculos primeiro e segundo, a caminho para seu martírio, em Roma, no ano 107, escreveu sete cartas às Igrejas das cidades em que passou. Nessas cartas recorda com amor a virgindade de Maria. Assim, escreve à Igreja de Éfeso: “A virgindade de Maria, o nascimento e a morte de Jesus, foram escondidos ao príncipe deste mundo; esses três mistérios surpreendentes realizaram-se no silêncio de Deus.” Ele encoraja os cristãos de Esmirna nestes termos: “Nosso Senhor, segundo a carne é descendente de Davi; mas, segundo o querer poderoso de Deus, nasceu verdadeiramente de uma virgem!”


São Justino, mártir no ano de 150, e mais tarde Santo Irineu, morto em Lyon, em torno do ano 202 depois de Cristo, seguem também esse caminho que leva a reconhecer Maria virgem. São Justino escreve contra Trifão: “Jesus nasceu de uma virgem, de modo que a desobediência provocada pela serpente pudesse ser destruída do mesmo modo como tinha começado. Eva, a virgem sem mancha, concebeu a palavra da serpente, e foi causa de desobediência e de morte; mas, a virgem Maria, cheia de fé e de alegria... respondeu assim: ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’. Com efeito, ela colocou no mundo aquele pelo qual Deus destruiu a serpente, os anjos e os homens que o seguiam.” Em S. Irineu encontramos a profissão da virgindade de Maria inserida em seu credo: “Segundo a antiga tradição, nós cremos num só Deus, criador do céu e da terra, por Jesus Cristo, seu Filho, que aceitou nascer de uma virgem...”

Esses são tantos caminhos que terminam no Credo dos Apóstolos, 180 anos depois de Cristo, depois no credo mais solene de Niceia - Constantinopla (321 e 380). Nessas duas sínteses da fé, a Igreja universal professa a virgindade de Maria.

Essa profissão da virgindade de Maria, na concepção de Jesus, inicia discretamente com São Paulo, quando ele fala da « mulher na plenitude dos tempos » (Gal 4, 4),sem nenhuma alusão a um pai humano. Ela continua em Marcos, pois que José está totalmente ausente em seu evangelho, enquanto Jesus é chamado “filho de Maria”. Mateus, no primeiro capítulo de seu evangelho é muito mais explícito: “Maria, comprometida em casamento com José, achou-se grávida pelo Espírito, antes que coabitassem”, e esse fato é colocado à luz da profecia de Isaías: ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho ao qual será dado o nome de Emanuel’” (Mt 1, 18-23).
Lucas, no relato da Anunciação esclarece ainda mais fortemente o fato de Maria ser virgem e de, em sua virgindade, se oferecer como mãe ao Filho anunciado: “Eis a serva do Senhor...” No solar de sua casa, Isabel a reconhece e recepciona como “a mãe do meu Senhor”.
É nesse feixe de luz que o versículo 13 do prólogo de João pode receber uma versão no singular: “Ele não foi gerado do sangue...” A Igreja do segundo século segue essa pista; o nome mais frequente dado a Maria é o de virgem; na Igreja do segundo século, Maria é “a Virgem”.
Maria, virgem, assinala o começo da humanidade que se consagra a Jesus. É uma virgindade que se realiza na maternidade, totalmente vivificada pelo amor maternal. Estamos no nascimento da humanidade futura. Em Maria, a virgindade e a maternidade confessam a natureza total do Filho:
A virgindade proclama a divindade de Jesus,

e a maternidade é a garantia da humanidade de Jesus.

Reconhecer Maria, virgem e mãe,

é professar que Jesus é Deus e homem.



  1. Carlo Carretto, Beata te che hai creduto, p. 41.

  2. R. Schnackenburg, The Gospel according to John, volume 1, p. 265.

  3. Xavier Léon Dufour, Lecture de l’évangile de Jean, volume 1, p.11




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