Alemanha secreta



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Religionssoziologie  (Gesammelte  SchriftenBd.4),  Tübingen  1925,p.626.  Apud:  SCHOLTZ,Gunther.  “O 
problema do historicismo e as ciências do espírito no século XX”. In: História da Historiografia. Ouro Preto: 
n.6, mar 2011, p.45.
 


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Primeira Guerra, como bem afirmou Manoel Salgado, “só fez agudizar este sentimento de 
descrença  em  relação  à  História  e  às  promessas  implícitas  numa  cultura  de  heróis 
prometeicos  formuladas  no  século  XIX.”
112
  Em  recente  entrevista  à  revista  História  da 
Historiografia,  Jörn  Rüsen  destacou  a  importância  da  eclosão  da  Primeira  Guerra  para  o 
debate  acerca  do  historicismo.  A  experiência  da  guerra  destruiu  as  estruturas  pré-
estabelecidas  e atingiu  sobretudo  a noção de desenvolvimento historicista. Para Rüsen há 
uma  crise  na  ideia  de  Geist,  “uma  simples  mas  poderosa  ideia”  a  qual  acreditava  que  as 
mudanças históricas ocorriam pelo poder das ideias, por forças que se moviam na realidade 
histórica.  De  modo  geral  instala-se  a  crise  na  ideia  de  um  Geist  idealista,  constituinte  da 
identidade alemã.
113
  
 
Evidente  que,  junto  à  crítica  sobre  a  relevância  e  a  função  da  história  para  o 
presente,  também  os  princípios  de  fundamentação  metodológica  da  escrita  da  história 
foram questionados. A influência do positivismo, do materialismo e o sucesso das ciências 
naturais  trouxeram  novas  questões  para  as  ciências  humanas.  Sintomático  disso  foram  as 
reflexões de Dilthey sobre a lógica da pesquisa histórica, as discussões dos neokantianos, 
sobretudo as de Heinrich Rickert e Max Weber, sobre a importância dos valores culturais 
para a análise histórica. 
 
Se pensarmos, como afirma Rüsen
114
, que o conhecimento histórico é fundamental 
para a orientação do sujeito em sua realidade e que a representação daquilo que se é, tanto 
individual  como  socialmente,  depende  da  relação  estabelecida  entre  passado,  presente  e 
futuro,  concluímos  que  a  produção  do  conhecimento  histórico  é  parte  fundamental  do 
processo  de  constituição  identitária  individual  e  coletiva.  O  pressuposto  de  toda  ação 
humana  é  a  busca  de  sentido.  É  pela  atribuição  de  sentido  que  podemos  nos  situar  na 
realidade.  Logo a narrativa histórica é fundamental pois ao interpretar e narrar o passado 
torna-o vivo e fundamental para a orientação do presente e para a conformação do futuro. 
 
A  historiografia  pode  ser  caracterizada como  o  processo  da constituição 
narrativa  de  sentido,  na  qual  o  saber  histórico  é  inserido  (mediante 
narrativa) nos processos comunicativos da vida humana prática. É nesses 
                                                      
112
GUIMARÃES,  Manoel  Luiz  Salgado.  “A  cultura  histórica  oitocentista:  a  constituição  de  uma  memória 
disciplinar.”  In:  PESAVENTO,  Sandra  Jatahy  (Org.).  História  Cultural:  experiências  de  pesquisa.Porto 
Alegre: Editora da UFRGS, 2003,p.11
 
113
RÜSEN,  Jörn.  “Theory  of  History  as  Aufklärung”.  In:  MATA,  Sérgio  da;  ARAUJO,  Valdei  Lopes  de. 
Entrevista. In: História da Historiografia. Ouro Preto, n.11, abril 2013, pp.350-351. 
114
RÜSEN, Jörn. Razão Histórica.  Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2001. 


54 
 
processos  que  o  agir  humano  e  a  autocompreensão  dos  sujeitos  se 
orientam pelas representações das mudanças temporais significativas.
115
 
 
 
 
 
 
Portanto, dar sentido às experiências do passado é fundamental.  Assim, de acordo 
com  Berger  e  Luckmann,
116
  esse  sentido  é  codificado  em  “universos  simbólicos”    que 
estão em confluência com a situação ocupada pelos indivíduos dentro da sociedade e dos 
grupos que os mesmos compõem. Esse “universo simbólico” é também construído a partir 
de  diversos  campos  da  sociedade,  sejam  eles  o    científico,  o  religioso  ou  o    intelectual, 
podendo mesmo respeitar uma lógica interna, em concordância com o pluralismo moderno. 
É em meio a este pluralismo moderno que o indivíduo busca para si uma significância para 
suas ações, embora tal busca nunca possa realizar-se de maneira individualizada, tendo em 
mente  que  esse  indivíduo  encontra-se  inserido  dentro  de  uma  teia  relações,  que  são,  no 
mundo moderno, plurais. 
 
Para Thomas Nipperdey o que ocorreu na crise do historicismo a partir de 1890 foi 
uma crise na função prática do conhecimento histórico. A história havia perdido portanto, 
sua  função  de  orientação  [Lebensbedeutung  der  Geschichtswissenschaft].  Para  o  autor,  o 
processo  de  cientificização  do  conhecimento  histórico,  fizera  crescer  o  abismo  entre  a 
ciência e sua função prática na interpretação da vida e sobretudo, sua função identitária
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Assim,  todos  os  esforços  de  diversos  intelectuais  em  superar  a  chamada  “crise  do 
historicismo”  constituíram  uma  tentativa  de  reestabelecer  a  unidade  entre  conhecimento 
histórico e a vida prática no sentido de encontrar uma união entre ciência e vida. Nipperdey 
considera  o  Círculo  de  Stefan  George  como  parte  de  um  grupo  que  considerava 
dispensável  um  conhecimento  que  não  fosse  capaz  de  constituir  valores  e  orientar  os 
indivíduos  tanto  no  plano  singular  quanto  coletivo.  Para  o  autor,  George  e  seu  Círculo 
eram  sintomáticos  de  uma  crise  generalizada  a  qual  afirmava  que  a  ciência  naquele 
momento era incapaz de alcançar a profundidade da vida. Assim, a “poesia, mitologia, o 
olhar  amplo  e  a  intuição,  a  vivência  [Erlebnis],  constituíam  o  verdadeiro  acesso  para  a 
realidade, para a verdade e para a vida.”
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115
RÜSEN, Jörn. História viva. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2007, p.43. 
116
BERGER,  Peter;  LUCKMANN,  Thomas.  Modernidade,  pluralismo  e  crise  de  sentido:  a  orientação  do 



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