Acreanidade indb



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UM CONVITE À LEITURA
A publicação na forma de livro da excelente tese da Professora Maria 
de Jesus ocorre em momento mais que oportuno. No intervalo entre 2008 
(ano de conclusão da referida Tese) e 2016, a propaganda do Acre como 
“modelo de desenvolvimento sustentável” foi largamente intensificada. 
Não por mero acaso, mas sim porque exatamente nesse período marcado 
por mais uma crise cíclica do capitalismo, acelerou-se monumentalmente 
o processo de mercantilização e financeirização da natureza. As adapta-
ções promovidas no capitalismo no sentido de “esverdeá-lo” demandaram 
e demandam, para além do uso recorrente da força, formas consensuais de 
legitimação. 
Nesse sentido, a escolha da “terra de Chico Mendes” como vitrine das 
supostas realizações virtuosas do “desenvolvimento sustentável” aparece 
como uma luva. Assim como aquela imagem da carinha simpática do ur-
sinho panda apropriada pelo World Wildlife Fund-WWF como sua logo-
marca é usada para legitimar, entre outras barbaridades, a exploração flo-
restal madeireira em larga escala, a imagem da “carinha de Chico Mendes” 
passa do mesmo modo a servir como “salvo conduto” para a marcha destru-
tiva do capital na Amazônia. Perplexidade. Como um dos heróis da luta de 
resistência pela terra na Amazônia passa a ter sua imagem apropriada para 
legitimar a obra de seus inimigos? 
Mais do que concorrer para responder indagações dessa natureza, nes-
se livro Maria de Jesus esquadrinha os meandros da produção de memória 
em sua conexão intrínseca com o fazer e refazer do território. As tramas 
engendradas pelo poder oligárquico associado a grupos de capitais nacio-
nais e internacionais, no sentido de produzir e atualizar permanentemente 
o “mito fundador” para assegurar a reprodução das relações de exploração 
e dominação, aparecem magnificamente “mapeadas” no decorrer do livro. 
Quem imaginaria, antes de 22 de dezembro de 1988, que Chico Mendes 
seria alçado por seus inimigos à condição de “herói acreano”? Que sua ima-
gem seria utilizada para legitimar a destruição da vida e das florestas?


XII
A leitura deste livro, para mais além de contribuir para aclarar os “usos 
e abusos” da imagem de Chico Mendes, concorre também para uma refle-
xão mais ampla sobre o lugar da imagem no processo de colonização das 
Américas. Em La guerra de las imágenes de Cristóbal Colon a “Blade Runner” 
(1492-2019), Serge Gruzinski (1994) mostra que a guerra das imagens tal-
vez seja um dos acontecimentos maiores do fim do Século XX. Ela abarca, 
para além da luta pelo poder, temas sociais e culturais cuja amplitude atual 
e futura ainda somos incapazes de medir. Tal incapacidade, todavia, pode 
ser enfrentada paulatinamente através de investigações que não se deixam 
trair pela realidade aparente, como é o caso daquela que resultou neste livro.
Por estas e outras razões, recomendamos a leitura deste livro de Maria 
de Jesus. Siga com a autora os percalços de sua incursão que deslindam 
a produção de territórios, identidades e toda simbologia mobilizada para 
construção de sentidos apropriados para a continuidade da espoliação nessa 
porção da Amazônia. Boa leitura!!!!!!!! 



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