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dos provocados pelos efeitos indesejáveis do desenvolvimento



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dos provocados pelos efeitos indesejáveis do desenvolvimento 
econômico. Segundo a idéia de sustentabilidade produzida ‘o que 
deve ser sustentado é o desenvolvimento, e não a capacidade (de 
tolerância) dos ecossistemas e das sociedades humanas (FER-
NANDES, 2006, p. 18) (grifo nosso).
Essa é a ideia síntese do que se assiste no Acre a partir de 1999. Paula 
(2006, p. 291), analisando essa “operação de encobrimento”, ressalta que 
houve uma “mudança abrupta e radical dos pressupostos (limites à explora-
ção do homem e da natureza e combate ao projeto neoliberal na Amazônia) 
que se baseavam, nos anos de 1980, no Acre”, o movimento seringueiro. E a 
“ideia de desenvolvimento sustentável propugnada especialmente pelos or-
ganismos internacionais, como os bancos multilaterais de desenvolvimento, 
nos anos de 1990”, era orientada para a “apropriação dos bens naturais para 
fins de mercantilização”, valorizando, com isso, “a esfera do mercado nas es-
tratégias de desenvolvimento”. Paula (2006) chama atenção para a legitimi-
dade, forjada no Acre, por um consenso em torno da sustentabilidade, que 
passa, num salto de mágica, a “expressar o interesse geral de todos os que 
vivem no Acre, de forma indistinta: seringueiros, fazendeiros, madeireiros, 
comerciantes, servidores públicos” (p. 291). 
Para Becker (2004, p. 117-118), o ano de 1989 marca um grande avan-
ço no entendimento da questão ambiental no Brasil, em “decorrência da 
repercussão mundial do assassinato do seringueiro e líder sindicalista Chico 
Mendes”, em dezembro de 1988, que acrescentou uma “dimensão social ao 
debate em torno do desenvolvimento na Amazônia”. Esse fato deu visibi-


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lidade à luta política dos seringueiros da Amazônia Ocidental e dos povos 
indígenas, que sobreviviam da exploração dos recursos naturais renováveis e 
necessitavam defender seus territórios tradicionais, ameaçados pelo avanço 
indiscriminado de pecuaristas e madeireiras.
O vetor tecno-ecológico, segundo Becker (1997, 2004), está imbricado 
de conflitos de valores quanto à natureza que a Amazônia passa a represen-
tar: o valor como estoque de vida para as populações nativas e movimentos 
ambientalistas; o valor como base de recursos para o desenvolvimento de 
países periféricos; e o valor como capital natural, em conformidade com 
o novo rumo que toma o “desenvolvimento sustentável” – o mercado e a 
mercantilização da natureza. 
O vetor tecno-ecológico, ainda segundo Becker (1997), envolve pro-
jetos preservacionistas e projetos conservacionistas. Os primeiros são pro-
venientes da “consciência ecológica” que se materializa nas propostas de 
preservação ambiental como “estoque de vida” e da “geopolítica ecológica”, 
objetivando a preservação como “reserva de valor” (p. 432). Já os projetos 
conservacionistas correspondem a experiências associadas à biodiversidade 
da Amazônia e representam “novas territorialidades resistentes à expropria-
ção” territorial (p. 433).
Segundo a autora, no plano dos interesses internacionais, a Amazônia 
passou a significar um duplo patrimônio: “o de terras propriamente dito, 
e o de um imenso capital natural”. Esse capital natural, segundo a autora, 
não é para uso imediato, mas para formar reserva de valor para o futuro. 
(BECKER, 2004, p. 35). 
Em nível territorial, as ações se deram da seguinte forma: apoiar, em 
primeiro plano, as experiências locais, cujo objetivo era garantir a sobrevi-
vência das populações tradicionais mediante o acesso ao território, o que 
vem se concretizando com a criação de Terras Indígenas e Unidades de 
Conservação de Uso Sustentável. E proteger, em segundo plano, a biodi-
versidade com a criação de áreas de preservação e/ou de conservação, os 
denominados “corredores ecológicos”. No caso do Acre, as ações de regu-
lamentação fundiária promovidas por diferentes órgãos federais resultaram 

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