Acreanidade indb


  INVENÇÃO DE TRADIÇÕES: FOLIA NA GAMELEIRA – CARNAVAL



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5.2  INVENÇÃO DE TRADIÇÕES: FOLIA NA GAMELEIRA – CARNAVAL 
COMO ANTIGAMENTE , FOLGUEDO JABUTI-BUMBÁ E A SANTA DOS 
SERINGUEIROS ................................................................................................ 279
5.3  COMEMORAÇÕES: USOS E ABUSOS DA MEMÓRIA COLETIVA .......................284
5.4  A MANIPULAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA: ESPAÇOS E TEMPOS ESQUECIDOS 
NA CONSTRUÇÃO DA “ACREANIDADE”................................................................291


I
PREFÁCIO
Rogério Haesbaert
1
O estado do Acre, incorporado ao Brasil apenas no início do século 
XX, é uma dessas “fronteiras” (tanto em seu sentido político quanto eco-
nômico e sociocultural) cujos movimentos de transformação podem ser li-
dos ao mesmo tempo como uma herança “marginal” e relegada da história 
nacional e como constituintes indissociáveis, inerentes à própria formação 
da nação e do Estado brasileiro. Por longo tempo menosprezado na nossa 
formação socioespacial, o Acre nas últimas décadas passou a ocupar uma 
posição de destaque dentro de debates fundamentais, como o da questão 
ecológica e o da organização de movimentos de resistência dos chamados 
povos tradicionais (especialmente a partir da criação das reservas extrativis-
tas como modelo inovador de construção territorial). 
Politicamente, forjaram-se no espaço acreano iniciativas que, princi-
palmente através da luta simbolizada por Chico Mendes, projetaram-se 
para além das próprias fronteiras nacionais. Assim, o Acre põe em questão 
pressupostos do senso comum que colocam sempre em posição secundária 
os chamados espaços periféricos – principalmente se considerarmos a pró-
pria distância física do Acre em relação aos centros político e econômico no 
conjunto territorial brasileiro. 
Maria de Jesus, neste trabalho inédito, investe na problematização des-
se alçar do Acre a uma condição identitária ímpar e destacada no cenário 
político nacional – identidade (“acreanidade”, como definido pela autora) 
que é sempre considerada em seu caráter dinâmico, multidimensional e po-
liticamente estratégico. Identidade dinâmica porque, como bem enfatiza a 
pesquisadora, é construída e reconstruída através da diferenciação do tempo 
histórico. Ainda que percorra todo o processo de idas-e-vindas da formação 
1  Rogério Haesbaert é professor da Universidade Federal Fluminense e foi orienta-
dor de Tese de Doutorado de Maria de Jesus Morais.


II
de uma ou múltiplas identidades acreana através do tempo, a autora privi-
legia o período de fortalecimento da imagem “ecológica” ou do “discurso 
florestânico”, entre 1999 e 2006.
A identidade acreana é também multidimensional e politicamente es-
tratégica porque, como toda identidade social, molda-se na interface com 
os interesses políticos e econômicos que estão em jogo. Isso fica muito claro 
quando a autora discute a estratégia proposta pelos governos do Partido 
dos Trabalhadores em torno do chamado “Governo da Floresta”. Aqui, ge-
nericamente (ignorando as diferentes experiências efetivamente vividas) os 
indivíduos e a sociedade aparecem – em tese, pelo menos – amplamente 
imbricados ao meio, ao espaço em que se situa, como se a “floresta” (mesmo 
tão devastada no leste acreano) fosse não apenas o pano de fundo, a paisa-
gem que emoldura, mas um constituinte estrategicamente posicionado de 
modo a legitimar, para todos, o mesmo discurso hegemônico e os interesses 
empresariais aí envolvidos.
Vê-se também como os grupos sociais – nesse caso, sobretudo, os gru-
pos políticos e a mídia – jogam com referenciais simbólicos mobilizados e/
ou reconstruídos a partir da história e da geografia do estado. Assim, como 
toda memória, o caráter seletivo re-inventa ou re-cria espaços e tempos que, 
por sua vez, serão relidos de modo distinto pelos diferentes estratos socioe-
conômicos e culturais em pauta. 
Como bem expressa a autora, (re)vive-se hoje, “supostamente”, os “ide-
ais dos Povos da Floresta”. E, assim, selecionam-se momentos e vivências 
que acabam “esquecendo” relações como aquelas, tensas, vividas entre índios 
e seringueiros – ou entre grandes proprietários e sem-terra – e que “resul-
taram em genocídios e etnocídios”. Como diz um folheto publicitário do 
governo Jorge Viana, “o lado perverso naqueles tempos era vencido pela 
coragem, pela esperança e por outros bons sentimentos que acabaram mol-
dando os povos da floresta – a que ousamos chamar de ‘acreanidade’”.
Remodelações e patrimonializações urbanas empreendidas, em maior 
ou menor grau, em cidades como Rio Branco, a capital do estado, Porto 
Acre e Xapuri, são muito bem analisadas pela autora, demonstrando cla-


III
ramente não apenas a busca de refuncionalizações, mas também de uma 
ampla ressignificação territorial, de modo a “modernizar” com cores locais 
o espaço urbano e fortalecer símbolos que representem o amálgama dessa 
propalada “acreanidade”. 
Assim, poderíamos dizer, surge aquilo que a geógrafa Doreen Mas-
sey chamou de “um sentido global do lugar” ou o que denominamos de 
“multiterritorialidade”. O Acre também se insere na globalização através 
de projetos de reurbanização que recombinam elementos e influências de 
diversas ordens/escalas. A diferenciação e, consequentemente, a construção 
de uma identidade acreana não se dá a partir de uma singularidade exclusi-
va, como se pretendia no passado, mas a partir de processos e fenômenos de 
diferentes origens espaço-temporais que ali se combinam de uma maneira 
específica. E essa especificidade está atrelada, também, é claro, às formas 
próprias de articulação político-econômica dos grupos hegemônicos com 
os demais grupos e classes sociais. 
Revelar a complexidade desse jogo geo-histórico de reconstrução iden-
titária e promover um rico e indispensável debate é a grande contribuição 
de Maria de Jesus Morais neste trabalho. A memória espaço-temporalmen-
te seletiva que resulta num processo de identificação a favor, sobretudo, de 
um projeto hegemônico moldado muito mais de cima para baixo do que a 


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